Friday, November 16, 2007

zidane e jim black

apesar da grande curiosidade, ainda não tive oportunidade para ir ver "zidane". mas, pelo que fui lendo, acho a ideia muito boa. acho um exercício assertivíssimo. não posso mesmo deixar de ver. agora, acharia também muito interessante e assertivo que um projecto muito semelhante fosse desenvolvido em torno do jim black. a ideia surgiu-me há duas noites durante o concerto do projecto de ellery eskelin no cabaret maxime.
é impressionante observar o jim a tocar, é uma experiência, realmente, enriquecedora para todos os sentidos. é comovente a forma como ele explora ao limite o instrumento (bateria) e como é de limite a relação simbiótica que o seu corpo cria com o mesmo. a forma como o ritmo se instala, multiplica, divide, fragmenta em cada um dos seus membros é algo que nos deixa perplexos e desarmados. apetece mesmo ver toda a sua performance decomposta, filmada exaustivamente, complusivamente e degustá-la, em diferido, em tempo real, high motion e, sobretudo, ao ralenti.
percebe-se de facto, percebi agora eu, porque é que o jim black está há quatro anos em digressão pelo mundo. o mundo precisa de o ouvir e, essencialmente, de o ver.
cheers, mate.

http://home.earthlink.net/~eskelin/

http://www.jimblack.com/events.html


http://www.myspace.com/alasnoaxismusic

Wednesday, November 14, 2007

o autor desnaturado

meu queridíssimo, amadíssimo, estimadíssimo, fundamentalíssimo, diário:
fizeste três anos no dia oito de novembro e eu, autor desnaturado que sou, nem te congratulei (como sabes, a lembrança de datas de aniversários constitui um dos meus calcanhares de aquiles) . mil perdões e

MUITOS PARABÉNS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

prometo que, para te compensar, durante este teu novo ano vou tentar ser mais produtivo no sentido de te enriquecer. prometo ainda algum esforço para que surpresas agradáveis te possam ser apresentadas em jeito de oferenda.
prometo tratar melhor de nós. prometo ser menos desnaturado. prometo não ter de voltar a prometer.

do sempre teu,
onan

Wednesday, November 07, 2007

choque

deixou uma vez mais, com a mente e nada mais do que a mente, que o talher se fizesse repousar sobre o dia de água. manteve intacta e serena a linha da boca e percorreu, segundo a segundo, o primeiro aviso que as suas células entre si fizeram aquando da visão de tão chocante criatura. o choque terá de ser encarado como um bom choque; o choque é um acontecimento feliz e, por isso mesmo, assim se pretende que continue.
não é todos os dias que as vidraças sucumbem à minha passagem - disse-me.
eu sei - disse eu, enquanto lhe lambia as falangetas.

anoiteceu. dormimos na rua ou em minha casa? dormimos? na minha rua ou em tua casa, acordados, tanto faz, desde que os dias não deixem de ser de água, desde que as sirenes não se calem, desde que não se dilua no ar esta pequena e estrondosa vontade de nos vermos a ouvirmos falar.
no chão, no tecto, nos esgotos, no telhado, debaixo das unhas: o choque.

não é todos os dias que as vidraças sucumbem a esta espécie de namoro - disse-me.

eu sei - não disse eu; sinto.

Wednesday, October 31, 2007

halloween statement

burn alive all motha fucking witches.
let starve, 'till death, all psycho bitches.
don't forget to listen to the teaches of peaches.

Saturday, October 20, 2007

saturday afternoon fever

querido diário:
não escrevo em ti há tanto tempo que ainda nem me tinha apercebido que o blogger tem melhorias no seu funcionamento.
não escrevo uma linha há semanas.
tenho uma dor estranha, desde segunda-feira, na direita baixa da zona abdominal. não é bem uma dor; é uma presença. um incómodo. acho difícil conseguir ir ao médico na próxima semana porque vou estar sempre a trabalhar (filmagens, id, bar, projecto das noites brancas, etc).
sábado à tarde: apetece-me andar de barco, comer cornetos de morango e castanhas, silêncio e um beijo teu em contraluz.

(preciso de viajar e fazer música).

Tuesday, September 18, 2007

the songs between us

the songs between us;
there where always dozens, hundreds and thousands of songs between, in and within us.
between you and me the songs and you mean many as the songs; almost as many as every single word in every single song; or all the words in all the songs together.
you and me together.
the songs between us as the nights and the days between us and all of our ages, and rages and emotional cages.
tonight i can´t sleep, again, and i can´t find any song to comfort me.
and i can't find or feel any of the many of you.
the songs between us, between you and me, are tonight a promised land for past or future memory.
this silence between me and me can tonight be the measure of the time i devoted to songs; devoted to thee.

Wednesday, September 12, 2007

estreamos dia 14: "se não me dás um revólver, ao menos tem pena de mim"



O revólver de TCHEKOV, em Sintra.
Completando o “Roteiro da Intemporalidade” iniciado em 2005 e dedicado aos três grandes dramaturgos que marcaram a passagem dos séculos XIX para o XX, Strindberg, Ibsen e Tchekov, a Companhia de Teatro de Sintra / Chão de Oliva vai apresentar dois espectáculos, baseados em obras deste último autor.

“Se não me dás um REVÓLVER, ao menos tem pena de mim” parte da fusão dos textos “Um Pedido de Casamento” e “O Trágico à Força”, incluídas do chamado grupo das “pequenas peças”, onde o fio dramatúrgico passa pela força dos temperamentos, o convencionalismo cerimonioso e ridículo, as regras impostas pela sociedade, tão “normais” e tão normalmente ridículas…

Esta 55ª produção da Companhia de Teatro de Sintra / Chão de Oliva, tem estreia marcada para o próximo dia 14 (ante-estreia a 13) na Casa de Teatro de Sintra, mantendo-se em cena até 14 de Outubro com representações de quinta a sábado às 21,30h e domingos às 18h.
São intérpretes Nuno Correia Pinto, Pedro Cardoso, Hugo Amaro, Sónia Louçada e Fernando Figueira; a fixação do texto, dramaturgia e encenação é de João de Mello Alvim.

Monday, September 10, 2007

um dos sintomas bons de sentimento oceânico

"Os mais poderosos incidentes de beleza são os que sentimos como descobertas pessoais, os que parecem destinar-se especificamente a nós, como se uma inteligência imensa nos tivesse escolhido e quisesse mostrar-nos algo."
michael cunningham in, "dias exemplares"
já por diversas vezes tenho exprimentado exactamente o que o michael cunningham descreve. nunca o tinha expressado por palavras; tinha-o sentido apenas. e cada vez com mais regularidade. isso tem reforçado, também, a minha convicção de que tenho a responsabilidade de escrever cada vez mais e com método, disciplina, profissionalmente; o meu verdadeiro trabalho.
descubro que este livro do michael cunningham está repleto de manifestações muito interessantes do chamado sentimento oceânico (debatido por freud e romain rolland) em que tenho andado ultimamente a pensar. e eu acho que a arte pode ser o grande repositor do desconsolo primordial do eu nesse processo. e acho isso bom. e gosto te sentir isso, por muito patológico que seja; por muito errado que esteja.

Monday, September 03, 2007

statement

o meu sonho é viver num país inventado pela pipilotti rist e governado pela annie sprinkle.

Thursday, August 30, 2007

breaking glass

ele colocou o dedo indicador da mão esquerda sobre o rebordo do copo; fê-lo tombar e observou-o, plácida ou, julgar-se-ia, pela expressão que o rosto apresentava, friamente a rebolar mesa fora até no chão se estilhaçar.
ela sorriu e fez o mesmo.
nessa noite não mais falaram; nem na seguinte, nem na noite que sucedeu a essa. na verdade, jamais voltaram a trocar uma única palavra.
o amor que os une passou a ser isso: os dedos indicadores, o som do vidro a partir, cacos no chão e um abraço permanente, profundo, amigo, quente e impressionantemente resistente; amor à prova de choque, abrigo eterno das tempestades que as bocas geram antes, durante e depois das palavras.
partem tudo por onde passam; há quem os tema, quem os abomine, quem os ature e quem deles zombe. partem tudo por onde passam mas todos sabem que o fazem porque, numa noite há muito ida, decidiram, em conjunto e em silêncio, jamais partir o coração um ao outro.

Monday, August 27, 2007

narciso (contre-plongé)

serei eu quem contempla as estrelas ou serão elas quem, lá do alto, me vigia?
certo estou de que:
cada vez que uma cadente se torna e no vazio se precipita
é porque um abraço meu tenta, pois à distância não resiste.
ou:
de me mirar se cansou e de ser estrela desiste.

Wednesday, August 22, 2007

a sobriedade

era assim, convicto de ter a pele coberta pela realidade da claridade,
que se atrevia a percorrer os labirínticos caminhos que o levariam à sua,
muito aspirada e verdadeira, verdade.

era assim - um olho aberto e um outro fechado - ao fim da tarde
que fazia a consulta aos arquivos, dóceis e ásperos, abertos
nessa sua tão tenra idade.

era assim, semi-perdido/semi-achado, impotente na fugacidade
que tentava decifrar -boca a boca-
o palimpsesto que descobrira ser a moralidade.

é assim, numa tarde de agosto,
que se escreve - de mudar, de reler, de ver, de querer- a vontade.

é isto a que chama a sua sobriedade.

Tuesday, August 21, 2007

um retrato de onan






um retrato de ricardo batista

Saturday, August 18, 2007

a solidao feia do homem bonito - 7

decisão:

cinco intépretes, cinco homens: 22, 33, 44, 55, 66


a cada um dos homens corresponderá um, ou mais, dos elementos/símbolos


22: vespa (os olhos)

33: frigorífico (o coração)

44: fogão (o cérebro)

55: revestimentos dos símbolos/embrulhos dos mesmos/citações de christo e jeanne-claude (pele)

66: maçarico/cordas (nervos), escadote (memória)


frase comum a todos:

no fundo, no fundo, sou um homem bonito a quem nada realmente feio ou bonito acontece.



configuração:

entra a cena e o público há um quarto de uma quarta parede. uma faixa, da largura da "boca de cena", com cerca de 1,5m de altura em acrílico.
o chão da cena está coberto com bolas de esferovite (cerca de um metro de altura).

as paredes: ainda não sei.


pensar:

na antiga ideia de total ausência dos sentidos, na tetraplegia, na funcionalidade apenas do orgãos vitais. o cérebro encarcerado; a lucidez mais pura; a terrível prisão. o tempo todo para a cogita. finis praxis.

a solidao feia do homem bonito - 6

(o blogspot num mac não tem metade das potencialidades; como muitas coisas. é uma pena. está tudo feito para pc.)


bloco de notas:

discurso

66



nunca velejei mas fartei-me de andar de bicicleta. é por isso que ainda tenho as pernas tonificadas, é por isso que ainda subo bem escadas e escalo coisas, é por isso que não consigo parar de andar dentro desta casa. este corredor conhece-me bem; de lés a lés, este corredor, conhece todos os meus podres e todas as minhas pequenas virtudes.
amanhã vou dançar; faço sessenta e seis anos e sei que ainda sou um homem bonito. nunca velejei mas fartei-me de foder. e o que preciso amanhã, no dia em que farei sessenta e seis anos, é de uma valentíssima foda.


material:

os bailes da terceira idade.

Saturday, August 11, 2007

a solidão feia do homem bonito 5

excerto de uma conversa tida no messenger com o ricardo batista.

esta conversa é um material para o presente projecto.

i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude: eu

i am no good: ricardo

excerto:


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
por acaso já tinha pensado em convidar-te para me desenhares o espaço da peça q vou começar a escrever
aquela para a qual estou a recolher material no blog

i am no good diz:
sim
i am no good diz:
tenho ido ao teu blog ver
i am no good diz:
a vespa
i am no good diz:
o christo
i am no good diz:
falas também de uma série de outros objectos
i am no good diz:
mas não contas como estão relacionados


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
sim, ainda não posso revelar

i am no good diz:
ok


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
só estou a levantar material formal; estou a começar pelos elementos. ainda não escrevi nada. sei do que vou falar mas pouco mais do q isso. e o texto vai partir dessa solidão feia de um homem muito bonito; perdido em elementos que são memórias... ou mesmo personagens

i am no good diz:
(o titulo parecia-me óbvio. nao percebi a tua dúvida)


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
como assim?

i am no good diz:
começas por questionar-te


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
sim

i am no good diz:
a solidao feia do homem bonito ou a solidao bonita do homeme feio


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
eu não sabia se o homem havia de ser feio ou bonito


i am no good diz:
lololol


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
ou se a solidão era feia ou bonita; seriam duas coisas muito distintas


i am no good diz:

sendo tu um onanista achas que o homem poderia ser feio?


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
podia ser... e a sua solidão ser bonita e, contudo, onanista


i am no good diz:
sim, podia, mas nao serias tu


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
mas não é necessáriamente autobiográfico; não quero muito que seja

i am no good diz:
eu, pessoalmente, acho sempre mais interessante alguém bonito com as mãos muitos sujas


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
pois, é mto melhor. ou com o coração muito sujo


i am no good diz:
mais interessante do que alguém muito feio com as mãos brancas como o mármore.


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
eu quero que os elementos sejam velhos e sujos mas que o espaço seja imaculado; quase de espuma. um gigante banho de espuma

i am no good diz:
e se o espaço for uma casa de banho branca? toda branca, até os canos?
quase como a casa de banho do greenaway?


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
não quero um espaço mto concreto. mas é por aí. e os elementos: o frigorífico, fogão, a vespa estarão pendurados. o sujo está no ar; o chão é imaculado. daí as bolas de esferovite. uma brancura imponente.


i am no good diz:
quem diz casa de banho diz sala, ou quarto. totalmente branca, luminosa e imaculada, com os objectos pendurados, com cordas e correntes, sujos, empoeirados, como cadáveres.


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
that's it. e há a possibilidade de estarem embrulhados; daí o christo.

i am no good diz:
sim. um invólucro, que pode ser rasgado revelando o interior


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
mais do que isso: queimado; daí o maçarico

i am no good diz:
hum... assim os objectos em suspenso teriam de ser de um material nao incendiável, para que no decorrer da peça


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
são de ferro


i am no good diz:
possas pegar fogo no ar e o invólucro possa arder sem perigo


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
vai haver um extintor. uma coisa que quero usar há muito numa peça


i am no good diz:
sempre que queimares um objecto o quarto ficara mais sujo?


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
mas eu quero essa erosão
e os objectos estarão pendurados por cordas que terão de arder
para ao longo da peça caírem no chão


i am no
good diz:
mas sujam o quarto


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
sim, dá um trabalhão.



i am no good diz:
ok, tinha percebido que não querias o quarto sujo.


i want my heart and brian to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
no início não. mas vai sujando-se.


i am no good diz:
sim, foi o que eu disse, lol,
mas pareceu-me que tinhas dito q não querias a erosão


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
não, eu quero erosão.
percebeste mal


i am no good diz:
ok.
i am no good diz:
pois percebi
i am no good diz:
lolol
i am no good diz:
esquece


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
os objectos são os orgão vitais dele

i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
o fogão é o cérebro

i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
o frigorífico o coração

i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
a vespa são os olhos

i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
os embrulhos a pele

i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
as cordas os nervos

i am no good diz:
porquê tanta importância dada aos olhos?


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
o escadote é a memória


i am no good diz:
porque não ao coração?


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
ainda não está definida a importância dada a cada elemento

i am no good diz:
ok ok.


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
posso transcrever esta conversa no meu blog?


i am no good diz:
podes


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
só no q diz respeito a esta parte da conversa.

i am no good diz:
sim. o meu projecto não interessa para o teu blog


i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
porque cheguei a conclusões e questões importantes nesta conversa.


i am no good diz:
óptimo

i want my heart and brain to be wrapped by christo and jeanne-claude diz:
so, i'll do it now.


i am no good diz:
eu vou tomar banho
ate ja


.......................................................

o trabalho do ricardo pode ser consultado aqui:

http://mauvest.blogs.sapo.pt/

a solidão feia do homem bonito 4





















mais materiais (estes para a forma)/referências antigas:
para o miolo (conteúdo)
conseguir: a poesia de cyril christo
reler: a poesia de anno birkin e de jeff buckley

Friday, August 10, 2007

a solidão feia do homem bonito 3

hoje sonhei que eram servidas ao Tio Vânia sapateiras.
e acordei a pensar nisso.
e revi todos os anti-heróis russos que adoro.
e percebi que eles têm estado a "marinar" dentro de mim.
e percebi que neste presente trabalho podem ser à minha moda cozinhados.

materiais:

  • dostoiévksy: o jogador, o duplo, noites brancas, o idiota, crime e castigo
  • máximo gorki: o albergue nocturno, os ex homens, os orlof
  • tchékhov: o ginjal, trágico à força, tio vânia

Thursday, August 09, 2007

a solidão feia do homem bonito 2

materiais:

a vespa e o cinema

listagem:

  • vacations roman, of William Wilder (1953)
  • friends for the skin, of Franc Red (1955)
  • mogli and buoi, of Leonardo de Mitri (1956)
  • fathers and sons, of Mario Monicelli (1956)
  • poor but beautiful, of Dino Risi (1956)
  • beautiful but poor, of Dino Risi (1957)
  • the coconut of mother, of Mauro Morassi (1957)
  • paris destination, of Gene Kelly (1957)
  • females three times, of Steno (1957)
  • the giants touch the sky, Gordon Douglas (1957)
  • ladro he, ladra she, of Luigi Zampa (1957)
  • hunting to the ladro, of Alfred Hitchcok (1958)
  • vacations to ischia, of Mario Small Rooms (1958)
  • anna di brooklin, of Carl Lastrica (1958)
  • sinners in blue jeans, of Marcel Carné (1958)
  • first love, of Mario Small Rooms (1958)
  • the saint girl of public square peter, of Peter Costa (1958)
  • storys of summer, Gianni Franciolini (1958)
  • blood on asphalt, of Bernard Borderie (1858)
  • it changes them, of Camillo Mastrocinque (1958)
  • an easy man, of Paul Heusch (1958)
  • the usuals ignoti (1958)
  • hello, hello child, of Sergio Grieco (1959)
  • like before, of Rudolf Maté (1959)
  • la dolce vita, of Federico Fellini (1959)
  • the mattatore, of Dino Risi (1959)
  • the world of night, of Luigi Vanzi (1959)
  • the good night, of Mauro Bolognini (1959)
  • the enemy of my moglie, of Gianni Puccini (1959)
  • likeable mascalzone, of Mario Amendola (1959)
  • archimedes clochard (1959)
  • the tartassati ones, of Steno with Totò and Aldo Fabrizi (1959)
  • urlatori to the slab, of Lucio Fulci (1960)
  • the prince stalk, of Maurizio Arena (1960)
  • dangerous mothers, of Domenico Paolella (1960)
  • the super girl sprint, of Fernaud Pointrenaud (1960)
  • she returns to september, of Robert Mulligan (1961)
  • two husbands for time, of Ralph Thomas (1961)
  • i kiss... you kisses, of Piero Vivarelli (1961)
  • the new angels, of Ugo Gregoretti (1961)
  • jessica, of Jean Negulesco (1961)
  • not, my darling daughter, of Ralph Thomas (1961)
  • boccaccio 70, of Mario Monicelli (1962)
  • diciottenni in sunlight, of Camillo Mastrocinque (1962)
  • sunday of summer, Guglielmo Petroni (1962)
  • the dongiovanni of the blue coast, (1962)
  • the loves must learn, of Delmer From Ves (1962)
  • grand prix, (1966)
  • american graffiti; of G. Lucas (1973)
  • quadrophenia, of F. Roddam (1979)
  • scarface, of Brian de Palma (1983)
  • sapore od sea, of Vanzina (1984)
  • the boy of campaign (1984)
  • absolute beginners, of J. Temple (1986)
  • the boy of the pony express, (1986)
  • seven chili in seven days, of L. Verdone (1986)
  • good morning vietnam, of Barry Levinson (1987)
  • mine first forty years (1987)
  • the grat blek, of G. Pigeons (1987)
  • per diem beloved, of Nanni Moretti (1993)
  • enemies for skin, (1994)
  • of love and shadow, (1994)
  • the river barber, (1994)
  • jack frusciante e' eited from group (1996)
  • american devout (1999)
  • the talented mr. ripley (1999)
  • saving silverman (2001)
  • breath (2002)
  • about a boy (2002)
  • alfie (a remake of 66), (2003)
  • who's your daddy (2003)
  • legally blonde 2 (2003)
  • premiere fois que j'a eu 20 ans (2004)
  • the day after tomorrow (2004)
  • saint antonio (2004)
  • american party (2004)
  • alfie (2004)
  • saimir (2004)
  • sky captain and the world of tomorrow (2004)
  • handbook of love (2005)
  • the interpreter (2005)
  • munich, of Steven Spielberg (2005)

a solidão feia do homem bonito


Monday, August 06, 2007

o título - 2

está decidido; o homem é bonito e a solidão é feia.

novo elemento: um motociclo, uma vespa encarnada ou azul turquesa.


o homem bonito alimenta-se de filmes italianos.

isto não é um monólogo.


trabalho a fazer: pesquisar a história da vespa e a importância da mesma na sociedade e cinema italianos. fazer uma procura detalhada das campanhas publicitárias realizadas pela marca nas décadas de 50, 60 e 70.

subjects: repescar a ideia de fridge buzz in the summer quiet afternoons que me assola há meses e me remete para os bons momentos de infância passados em casa dos meus avós maternos. os sons da infância, os pequenos elementos pós-uterinos. a quietude de se ser pequeno e a tormenta de ainda não se ser suficientemente grande. a suspeita da criança relativamente ao peso do mundo. a criança que sofre por antecipação. a mediunidade da criança só.

Sunday, August 05, 2007

o título

a solidão bonita do homem feio, ou: a solidão feia do homem bonito.???

esta é a minha presente dúvida. e é exactamente esse esclarecimento que decidírá o título da peça de teatro que pretendo escrever. e definirá , muito concreta e taxativamente, o miolo (comecei a fartar-me do vocábulo: conteúdo) da mesma.


estou mais inclinado para o homem bonito, confesso. gosto mais dessa solidão.


elementos: um fogão muito velho, um frigorífico muito velho, um escadote muito velho (cheio de tinta), um maçarico novo e um homem bonito. bolas e mais bolas de esferovite. um homem bonito e a verborreia.


a articulação dos elementos não revelo, nem a relação da "boniteza" com a "feieza" da solidão.

o meu laptop está sem carregador, está portanto comatoso, escrevo no do meu irmão. como perdi o gosto pela "manuscritura" (apesar de ter trazido para o algarve o caderno lindo e tosco que comprei em fort kochim) decido usar o meu diário como bloco de notas.

não é a primeira vez; jamais será a última.

(ainda irei pensar no peso que tem a última frase que acabo de redigir).

feio? bonito? feia? bonita? soli dão, ão, ão, ão. (pode, mas não tem porque, rimar com laptop do irmão).

Tuesday, July 03, 2007

b.i.

o meu b.i, expirou há mais de um mês; ainda não fiz a ponta de um corno para o renovar. não me apetece.
hoje decidi que iria arrumar algumas coisas, in and out: finalmente ir às finanças para tratar da porcaria dos imis em atraso e conceber o plano de pagamento faseado (done), limpar e arrumar o quarto (parcialmente done: a roupa de cama foi mudada, aspirar fica para outro dia, quando a sinusite mo permitir, arrumar a bagunça na secretária e no estirador foi tarefa, uma vez mais, adiada porque a falta de paciência me impediu), opto, para compensar a inconclusão da tarefa anterior, por inventar, e cumprir, uma outra tarefa não prevista: lavar ténis, mochilas e tapetes do quarto (done, a máquina acabou de o fazer), estender (tarefa ainda não cumprida). por ora fica adiada outra tarefa cuja importância, não apenas de hoje mas de há muito tempo para cá é para mim inegável: voltar a mergulhar em "malos aires", o romance que venho a escrever há dois anos. esta tarefa fica, quer parecer-me, por hoje, adiada. opto por regressar ao meu diário, que nestes últimos meses tem sido bastante relegado para um plano pouco classificável e pouco recomendável.
a decisão deste regresso ocorreu-me enquanto andava nesta onda de lavagens e, parciais, limpezas.
numa das playlists do iTunes regresso aos The Killers, ocorre a regressão. há dois anos atrás estava completamente fascinado pelas belas composições destes senhores. e este regresso, imprevisto, hoje fez-me querer voltar ao meu diário. cobriu-me de nostalgia. não que há dois anos atrás seja um tempo que me seja particularmente grato e fácil recordar. a ansiedade é quase a mesma, a insatisfação também, a apreensão é agora maior.
recordo-me de há dois anos andar pelas ruas a ouvir "Somebody Told Me" e "All These Things That I Have Done" aos berros nos headphones e isso me ajudar a atenuar a ansiedade. lembro-me também que quando ouvia a segunda canção que referi ter uma irreprimível vontade de começar a correr pelas ruas sem rumo certo; a recordação que tenho é de ter vontade de correr horas, dias a fio. imaginava, então, o início de um filme em que um homem corre por lisboa desenfreadamente. um homem que corre mas que não foge. um homem que corre porque não se pode dar ao luxo de parar (ao mesmo tempo que se ouve a canção que enunciei). eu conseguia ver a indiferença que era devotada, pelos outros transeuntes, ao corredor; como se fosse normal. o homem apenas tinha uma única intenção: correr tão velozmente que a velocidade conseguida lhe possibilitasse entrar numa outra dimensão, onde correr não fosse necessário. onde correr fosse absurdo. onde correr fosse impossível.
All These Things That I've Done

When there's nowhere else to run
Is there room for one more son
One more son
If you can hold on
If you can hold on, hold on
I wanna stand up, I wanna let go
You know, you know - no you don't, you don't
I wanna shine on in the hearts of men
I wanna mean it from the back of my broken hand
Another head aches, another heart breaks
I am so much older than I can take
And my affection, well it comes and goes
I need direction to perfection, no no no no
Help me out
Yeah, you know you got to help me out
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You know you got to help me out
And when there's nowhere else to run
Is there room for one more son
These changes ain't changing me
The gold-hearted boy I used to be
Yeah, you know you got to help me out
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You know you got to help me out
You're gonna bring yourself down
Yeah, you're gonna bring yourself down
Yeah, you're gonna bring yourself down
[x10]
I got soul, but I'm not a soldier
I got soul, but I'm not a soldier
Yeah, you know you got to help me out
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You know you got to help me out
You're gonna bring yourself down
You're gonna bring yourself down
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You're gonna bring yourself down
Yeah, you're gonna bring yourself down
Over and in, last call for sin
While everyone's lost, the battle is won
With all these things that I've done
All these things that I've done
If you can hold on
If you can hold on
(amanhã vou ao arquivo de identificação de lisboa. exigirei que no meu novo bilhete de identidade conste a letra que acabei de transcrever. i mean every word of it.)
continuo a correr, não a fugir.

Monday, June 11, 2007

esta noite inventa-se

esta noite invento sensações.
invento o cheiro do céu da tua boca, deixado e desejado, nas pontas do meus dedos.
invento o sorriso que me deixas estampado no rosto, preservado e adocicado, quando me beijas e sais da cama porque o dia cedo te chama.
invento a memória do nervoso miudinho (sentido a dois, eu sei) que precede o momento, bem calculado, bem cicatrizado, bem escrito, da nossa tão primeira vez.
invento o cheiro, já fresco, do fim dessa tarde em que, sem rodeio, receio, reclusão, me dizes: amo-te com certeza.
invento o arrepio que o teu sussurro, branco, brando, bravo, me provoca no lóbulo da orelha direita, tão atenta, no escuro domingueiro dessa noite no cinema.
invento o gozo das minhas mãos quando cozinham para ti.
invento o gosto da minha escrita.
invento o gosto da tua leitura; onde te afundas sem reserva, máscara, revolução.
invento a paz e as palavras.
invento o inventar.

Wednesday, May 30, 2007

iamx em lisboa

finalmente em lisboa, o genial iamx.
dia 05 de junho no lux.
quem perder este concerto é asno.
no que me diz respeito, é um sonho concretizado; o iamx (chris corner) é uma das minhas grandes referências.
the real self made man vais estar entre nós.
estou em contagem decrescente.

Thursday, May 17, 2007

casa de bonecas (promo)


este é o espectáculo que estou a fazer. estreia amanhã.
recomendo a visita a esta casa (casa de teatro de sintra; convertida agora em "casa de bonecas").
todas as informações aqui:

http://www.chaodeoliva.com/cartaz.htm

Tuesday, April 24, 2007

a avó carminha



a foto da minha querida avó Carminha que sempre amei (a avó e a foto). sempre me pareceu, aqui, uma estrela do cinema mudo.
tirei-a no dia do seu funeral, com o telefone, por isso a qualidade é tão pouca. mas muita é a qualidade da imensa lembrança que esta tão especial mulher deixou em mim.
amo-te, sempre, minha querida avó.

Tuesday, April 17, 2007

uffff

negative
(and the panic in my bedsit goes away)

Saturday, April 07, 2007

torrente

vitaliciamente sendo
vitaliciamente, tu
vitaliciamente crendo:
where the fuck are you?

olhos de ver,
esperança de ter,
viver e morrer
ter o que não ler.

rir e fartar
mundo na cama
querer é durar
língua com lama

nunca te li
foste-me a ferros
enegreci
sou anti-berros

dia que nasce, oh, ai de mim
sou este traste, vivo-me assim

a minha língua é este país que se faz à força de tanto se calar.

a minha visão turva-se, apraz-se (com isso), mas... eu não.

hei-de querer; oh, eu hei-de querer.

mirar-te para?

eu ainda não me comecei... aguarda-me.

rir e rir, para não, apenas, sorrir.

sou hipercineticamente metaneurasténico, e?

Thursday, March 29, 2007

descubra as diferenças

no que a diferenças diz respeito, o que distingue os dois grandes mitos da humanidade: amor e deus?

deus dura para sempre

uma riminha

enquanto fazia a barba surgiu-me uma riminha à António Aleixo. Cá vai:


tinha fulano de sicrano
particular digestão:
comia moelas de frango,
arrotava faisão.

dedico este post a todas as bertas arrotadeiras que por aí cirandam.

("popular, surrealizar por aí í, popular...")

Saturday, March 17, 2007

o fio da navalha deixou de ser o artimanhoso, habitual e insuspeito fio da navalha para passar a ser o insuspeito, habitual e artimanhoso fio do serrote.
sobes-desces-desces-sobes, intáctil, voraz, locónico, o vórtice do esforço que assiste o simples acto de abrir ou, mesmo, fechar os olhos. escreves, escreves, rescreves, rescreves-te; desmoronas, posicionas, clonas a vontade, a voltagem; decisão.
sabes que, mais cedo ou mais tarde, te casarás com a sintaxe e a semântica e a superlativa capacidade de poder, querer, instituir.
no fio do serrote permaneces, admoestas, feneces a tua capacidade, ou vontade, de voar.
finges que morres, pressentes, desenhas a tua vontade de fugir.
apregoas, amaldiçoas, doas a tua, volátil, voltaica, volitiva, vontade de sentir (e ir).

escrever é abrir portas, é ser abençoado, é poder ver -tempo-, é escavar em todo o lado.

a coisa mais maravilhosa da escrita (suspeita minha pouco provada) é poder ter acesso ao que ainda nunca existiu. isto é avassalador, é enorme. é disso que eu tenho medo. é disso que eu tenho de viver. é isso que me procura,

Tuesday, March 13, 2007

bloco de notas 1

enquanto a musa anda sabe-se lá onde e não me visita, vou eu visitando as notas soltas, muitas inacabadas, que jazem na pasta "os meus documentos" do meu pc.

nota 1 (sem nome, mais um acesso de febre rimática; terá uns quatro meses)

A hora é chegada
Aprender a tremer
Ter tudo ou ter nada
Gemer é crescer

Deitar tudo por terra
Ter a faca na liga
Dizer sim à guerra
Rematar à antiga.

Ter sorte ou azar
Dormir com o inimigo
Abrir os olhos em par
Ir com gosto ao castigo

Cantar p’ra espantar
Correr sem fugir
Ser um barco; afundar
Resolver é emergir

Fazer por fim a mala
Ter o tecto no mundo
Esquecer a própria fala
Cair no sono profundo

Fixar bem o olhar
Curar a garganta por dentro
Ter quem gostar de amar
Ser belo em movimento

Friday, March 09, 2007

caro diário:

aqui fica uma confissão que ainda não te havia feito e que há muito está adiada.

...............................................................


faz hoje cinco meses que a avó Cárminha nos deixou. o coração dela deixou de bater por volta das onze da manhã do dia cinco de outubro de dois mil e seis. morreu porque o coração decidiu deixar de bater. o coração dela, sempre tão grande, do tamanho do mundo, não lhe coube mais no peito; partiu-se numa segunda-feira.

a avó Cárminha foi a pessoa que mais incondional e puramente me amparou, e, estou certo, percebeu ao longo da vida. chorava sempre que me via, umas três vezes por ano. o coração dela decidiu parar e, a partir desse dia, houve algo no meu coração que se estilhaçou. não sei bem o quê mas que aconteceu, lá isso, aconteceu. comecei a sentir mais o meu coração, literalmente.

epitáfio ideal:

pura, atenta, nobre, doce
- do bem para o bem, sempre-
o anjo mais anjo que o mundo ao mundo trouxe


(à avó carminha, que tinha um coração maior que o mundo. queria postar uma foto linda que tenho dela mas o hello picasa não parece funcionar hoje a meu favor.)

Monday, March 05, 2007

as mãos

angel: "wich hands are my hands, wich hands are your hands?"
tess: "they are all your hands!"


in, "tess" de roman polanski (a partir de "tess of d'uberville" de thomas hardy)

o amor é um trabalho manual; descobri isto há uns anos.
(não tenho a certeza se a minha transcrição é literal; o que conta é, no fundo, a mensagem. a literalidade não passa de um conceito pequeno burguês!!!)

Thursday, February 15, 2007

o grande amante

regresso hoje a lisboa, estou no algarve.
sonhei com facas hoje; não sei o que significa, procuro na net mas a resposta obtida nos sites brasileiros manhosos desanima-me. não me dou ao trabalho de aprofundar a pesquisa. sonhei com facas, pronto, paciência. podia ter sonhado com rodas dentadas ou bombas de hidrogénio.
faz hoje exactamente um mês que cheguei à Índia; essa bela e doce Índia. a esta hora estaria muito provavelmente a almoçar no leopold pela primeira vez. oh, que saudades do leopold!
não escrevi mais depois de cochim. fomos de lá para trinvandrum (não gostei de trinvandrum). esse viagem de comboio foi ao fim da tarde, anoiteceu entretanto. não usufruí, portanto, da porta do comboio nem do desfilar da Índia. era noite, veria muito pouco. fiquei na carruagem, ouvi o "six" dos mansun e fiz um desenho nas últimas páginas do caderno tosco que comprei em cochim. em trinvandrum foi difícil arranjar onde jantar. na manhã seguinte fomos ao mercado e a um templo cujos nomes não me recordo; recordo-me de que gostei. apanhámos, nessa tarde, o avião de regresso a mumbai. mumbai, mumbai, a gigantesca, viva, electrizante mumbai. chegámos ao fim do dia, demorámos uma hora e meia de taxi do aeroporto até colaba causeway, instalámo-nos no hotel causeway e fomos jantar ao nosso velho leopold. finalmente voltei a devorar half roast fry chicken; as saudades que eu tinha do leopold; aqui já não havia bules para esconder a cerveja, nem estratagemas. havia, de novo, a bela da garrafa da kingfisher à nossa frente. no dia seguinte percorremos mumbai como nunca; de manhã à noite. foi a nossa despedida, mumbai num domingo; uma bela despedida. fomos jantar no fancy "goa portuguesa", que tinha um proprietário muito particular. o dia seguinte foi o stress para levantar dinheiro, pagar o hotel e ir para o aeroporto. e aí, nessa viagem de táxi, as belas viagens de táxi que se fazem na Índia (sobretudo em mumbai), tive a minha hora de despedida. tal como se nos apresentou, assim se despediu, mumbai, suja, viva, cheia, forte, sonora, bela, doce; assim se despediu mumbai pela janela.
confirmei o que sempre suspeitei: a Índia é a grande janela, é a grande pintura, é a grande, grande, grande, liberdade.
demorei uns dois dias até conseguir desfazer a mala. o jet lag bateu forte. quando chegámos a londres estava exausto e indisposto, triste. dormimos em londres e regressámos cedíssimo para portugal. frio.
chegámos a lisboa e tudo nos parecia calmo, muito calmo, perguntámo-nos se seria feriado. não era; era lisboa, a, agora tão, pequena lisboa. o trânsito era fluído, não havia multidões, não havia uma sinfonia de buzinas. lisboa parecia ao ralenti. assim fiquei, ao ralenti.
não me conseguia decidir a desfazer a mala, não queria fazê-lo; seria acabar definitivamente a viagem. reuni forças e fi-lo. um nó na garganta. tudo cheirava a Índia, as roupas, os sacos, a própria mochila, as minhas mãos ficaram a cheirar a Índia. um choro pequenino, mais interior do que efectivo. comecei a ouvir os cds que comprei e prossegui. coloquei tudo em cima da cama e detive-me a olhar as coisas: as roupas que levei e que usei (poucas), as roupas que levei e não usei (muitas), as roupas que comprei, a bolsa com os medicamentos, os chinelos, a toalha de praia, tudo. tudo tinha estado na Índia; tudo ainda estava, de certa forma, na Índia. percebi que o que sentia era tão estranho e forte e palpável como o fim de uma relação da qual se sai ferido. a mesma necessidade de reconstrução de tudo o que a mesma foi, o coleccionismo das memórias da relação, das memórias do outro, do cheiro do outro, da voz do outro, da pele, suor e sangue do outro. percebi que chorava a Ìndia como se de um amante se tratasse. estranho mas tão real. ainda tenho tudo por arrumar no quarto, trabalhei durante o fim de semana e no domingo vim para o algarve para votar e ver a minha mãe e mano. só ontem consegui dormir mais do que cinco horas. só ontem comecei a recuperar. hoje estou triste e ansioso, por partir e voltar uma vez mais, apetecia-me ficar aqui no ninho um pouco mais. sem nada para fazer. mas sei que vou ter de me preparar. vou ter de entrar de novo na minha vida. sei que vou ter de entrar no meu quarto e organizar os destroços da suspensão que teve de haver entre mim e o meu grande amante: Índia.
parti com saudades do voltar!

Thursday, February 01, 2007

india song 9 (um dia para mim em fort cochin)

caro diario:

outra vez a mesma conversa de que hoje e' feriado e que por isso nao se serve alcool. esta conversa foi no restaurante onde tivemos de almocar no primeiro dia aqui em fort cochin. fui entao para a esplanada dos rapazes que parecem estar pastilhados que fica junto ao posto de turismo. aqui nesta esplanada, onde ha dois dias, apesar de ser feriado, nao houve grande impedimento em ter uma vodka cola ao jantar, aqui, nesta esplanada, repetiram o numero de ontem ao jantar no restaurante que fica junto ao kerala kathakali centre, servem-nos cerveja em bules e canecas para cha ou cafe. pois que ja consta um bule desse tao especifico cha no meu interior. pelo que, estou algo flutuante.
eles foram fazer o tal passeio de barco no qual eu nunca tive interesse, fiquei, portanto, com o dia para mim. so far esta a correr muito bem. estava a precisar de passar umas horas sozinho tambem. nao porque esteja mal com os meus queridos amigos mas porque ja sao muitos dias sempre acompanhado, apenas isso.
antes de prosseguir com o presente dia, caro diario, vou contar-te o resto de calicut e os dois primeiros dias em fort cochin. entao, calicut e' feio, sujo, turvo, energia estranha (sente-se logo quando la se chega), o hotel era muito bom, o melhor (em termos de pingarelhice) onde ja estivemos. chega'mos, fomos para o hotel, toma'mos um duche, and'amos um pouco pela rua do hotel e acab'amos por desistir e apanhar um rickshaw para a praia (a tal onde o senhor vasco da gama chegou). chegados 'a praia depar'amo-nos com uma grande concentracao de pessoas no areal e um palco. um genero de festival. estava a tocar uma banda engracada, de cochin (faziam umja mistura de sort of free jazz com musica tradicional indiana), giro. acab'amos por nos fartar de ali estar e fomos embora. marisa e miguel nao tinham fome, eu e joni sim. par'amos num cafe armado em ocidentaloide que vendia fruta e sumos e la comemos melao e ananase etc. apanh'aos um rickshaw, com dificuldade, e est'avamos a dirigir-nos para o hotel, onde eu e o joni plane'avamos jantar, e ouvimos, vindo de um parque, ja perto do hotel, musica e agitacao. pergunt'amos ao senhor do rickshaw o que era e ele disse: kathakali. hsiteria geral. em coro: stop. sa'imos a correr do rickshaw e entr'amos parque adentro para ver a performance. foi entao, em calicut, querido diario, naquela estranha e turva cidade, que eu vi o meu primeiro espectaculo de kathakali (que como sabes 'e uma curiosidade-paixao com algum tempo e uma das grandes razoes da minha vinda ao sul da india). estavam meia duzia de gatos pingados a na assistencia, n'os l'a no acocor'amos e, eis senao quando, vem um senhor ter connosco e providencia quatro cadieras para fic'assemos bem instalados. o espect'aculo entusiasmou-nos mas tamb'em nos deixou a impressao (ontem confirmada) de que era um bocadinho bufao demais. finda a performance (a qual foi pontuado por uma nao menos surpreendete performance de um dos assistentes que, pelos vistos, 'e um maluco local e que ficou muito agitado com a nossa presenca), o senhor que nos deu as cadeiras fez questao de nos apresentar toda a gente que o cercava. ficamos entao a saber que estava a decorrer em calucut um festival de folclore de kerala (sort of, esta performance de kathakali e o concerto da praia eram, portanto, prova disso), este academia de khatakali era mesmo de calicut, fomos apresentados ao guru, o mestre de kathakali daquela academia, um velhinho com uns oculos garrafias que era igual 'a minha ha muito falecida avo inocencia augusta (que tambem usava uns oculos garrafais). uns dedinhos de conversa no parque e l'a volt'amos para o hotel. dia a seguir, bem cedo, rum'amos a ernakulam (estacao de comboio que permite a chegada a fort cochin e nome de uma localidade que 'e tipo almada de cochin).
essa viagem de comboio foi, para mim, outro dos momentos altos desta viagem. passei as quatro horas da viagem praticamente pendurado na porta do comboio. 'e impossivel ficar dentro da carruagem, as janelas tem grades e os vidros sao bacos e quase sepia. foi linda esta viagem, um calor fantastico a torrar-me o corpo, a india a desfilar perante o meu olhar. a felicidade absoluta: a india a desfilar, o calor no corpo, e a musica nos meus headphones. nada mais. assim sou inteiramente feliz. nao preciso de mais. podia passar assim o resto da vida: num comboio a ver a india e a ouvir musica. houve alturas em que nao consegui evitar uma afoita lagrima. e vi a imagem mais linda de sempre, a dois km de uma localidade chamada karakad (nao a posso descrever, 'e minha, para sempre e nao a consigo descrever, mas estou seguro de que um dia hei-de pisar aquele chao). nao consigo descrever a felicidade que obtenho nestas viagens de comboio (tao sonhadas). o olho fotografico, o coracao ligado ao tempo. o tempo do olho, a pintura do mundo.
fort cochin 'e muito agrad'avel, muito mesmo. ontem fomos ver um espect'aculo de khatakali numa academia mesmo (http://www.cyberkerala.com/kathakali/, http://en.wikipedia.org/wiki/Kathakali). muito bom, genial, complexo, simples, muito bem executado, faz pensar imenso nas ligacoes do ocidente e do oriente (teatro classico, tradicao, folclore, etc), um cantor magnifico, um dos actores (o mais velho, provavelmente o mestre) de cortar a respiracao. muito bom, quero mais kathakali na minha vida. hei-de estudar muito mais profundamente.
hoje tirei o dia para mim. acordei e comecei a ouvir o grande fausto ("por este rio acima"), que o miguel trouxe, e comec'amos a ouvir ontem 'a noite, e que aqui faz todo o sentido. tenho estado a dia todo a ouvir o disco em repeat (ainda estou: "navegar, navegar, mas o minha cana verde...")
tomei o pequeno almoco no monte carlo (mistura de vertigo, com noobai e royale), e a seguir fui "a saint francis church. de seguida um rickxhaw para o bairro judeu (jew town). fui 'a sinagoga: comprei um belo de um pyjama (finalizado ao meu gosto, por um senhor alfaiate velhinho), comprei essencia de amber musk, incenso, especiarias, e acho que mais nada. a seguir um rickshaw de regresso a fort cochin, eplanada: acabar de ler o livro da frida, cerveja no bule. agora cyber coiso a postar. agora vou fazer uma massagem ayurvedica. como ja gastei mais do que devia e j'a 'e tarde (espero que me atendam) vou fazer uma massagem para a sinusite apenas. nao vou fazer a tal full body (em que os senhores so nao te mexem no cerebro porque nao esta 'a vista). vou
de novo o fausto. que bom, acabar o post com esta genail cancao, uma das minhas preferidas de sempre.
Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me un céu abertoOutro fechado
Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira no peito um grito
À desfilada
Canta rouxinol canta
Não me dês pena
Cresce girasol cresce
Entre açucenas
Afaga-me o corpo todo
Se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo
Em fumos de incenso
Ai, como eu te quero
Ai, de madrugada
Ai, alma da terra
Ai, lindaAssim deitada
Ai, como eu te amo
Ai, tão sossegada
Ai, beijo-te o corpo
Ai, seara
Tão desejada
Fausto Bordalo Dias (o genio que portugal mal consegue ver mas que grandemente o louva)

Wednesday, January 31, 2007

india song 8 (onan em fort cochin)

caro diario:

como te disse, the reward came perfect (depois da atribulada viagem de comboio nocturna, que nos levou de margao a kannur).

assim que chegamos a estacao de kannur tinhamos um senhor a nossa espera, na plataforma, que tinha sido enviado pelo dono do costa malabari. este senhor era o nosso taxista, e, qual nao foi o meu espanto, os taxis aqui eram todos (como em todo o estado de kerala, presumo) os maginificos ambassadores (carros indianos com design dos anos cinquenta) nos quais eu, desde mumbai, estava mortinho por andar . em mumbai e goa tambem os ha mas nao sao os taxis convencionais e usam-se como carros do diplomaticos. (em kerala ja os vi em varias cores, do branco ao candy pink). aqui fica uma foto que encontrei na net de um ambassador http://www.flickr.com/photos/94926204@N00/101517603/
bem, a razao da nossa ida a kannur depreendeu-se com o facto de querermos ir ver um theyyam (http://www.theyyam.com/, http://en.wikipedia.org/wiki/Theyyam) e o sitio que nos foi recomendado pelo nosso grande querido lonely planet (como something special) foi exactamente o costa malabari (http://www.costamalabari.com/beachholidays.htm). caro diario, esta foi the big reward. o costa malabari apresenta-se como um sitio maravilhoso, uma guest house super intimista, numa localidade minima, no meio da selva, chamada thottada. a comida, maioritariamente vegetariana, simplesmente genial, os pouquissimos hospedes que la estavam eram uns irlandeses de meia idade (a excepcao de uma rapariga, filha de um casal) que foram uma bela companhia. grande, grande, grande bonus deste sitio: uma praia deserta, simplesmente linda, ainda melhor que palolem. agua quente, um caminho genial (entre a nossa casa e a praia) que comportava toda uma fauna, milhares de coqueiros, uma sinfonia de sons desconhecidos e pessoas simplesmente maravilhosas que davam tudo por ter dois minutos de conversa. outro grande, grande, grande bonus: o dono do costa malabari, o senhor kurian (a quem nos estivemos sempre a chamar senhor saudi e nao sabemos porque motivo) nao e nada mais nada menos do que um grande estudioso dos theyyam. proporcionou-nos, assim, um ponto alto da nossa viagem. fomos ver o theyyam, que acontecia num templo a 10 km de kannur, as quatro da manha. a cerimonia durou ate as sete e tal (pelo menos para nos). simplesmente genial. forte, telurico, puro. nao se consegue descrever com facilidade. momento muito bom (mas que na altura nos deu um formigueiro na barriga): de repente, fomos o centro das atencoes, levaram-nos para as traseiras do templo, sentaram-nos numas cadeiras e deram-nos a provar uma bebida genero arroz doce. fizeram um circulo a nossa volta a ver-nos beber aquilo. os primeiros visados: eu, miguel e joni. depois foram buscar a marisa e os nossos amiguinhos irlandeses e puseram-se a nossa volta (deviam ser uns trinta, homens e rapazes). eu estava todo enojado porque, como nos os tres fomos os primeiros a ter a honra, vimo-los a passar por agua (de um balde que para la estava) os copos de metal onde nos seria servida a iguaria. eu tentei fingir que bebia aquilo (o problema nao era o que se estava a beber, que era leite e arroz e canela e cardamomo; o leite fora muito provavelmente fervido. o problema era mesmo a agua da lavagem). um dos rapazes, ao ver que eu nao estava a deliciar-me com a bebida, pergunta-me: "dont you like it" e eu "its very good"; ele "than drink it'. e nao tive outro remedio senao dar mais um generoso gole na mistela.
adiante, gracas a shiva nada nos aconteceu. ate agora, e ja passaram uns bons dias, nenhum bicho desinterico noa atacou.
agora tenho de ir almocar. a marisa ja chegou da massagem ayurvedica e eles tambem ja estao a acabar. eu nao fiz hoje, vou fazer amanha enquanto eles vao num passeio de barco no qual nao tenho interesse. amanha fico por aqui, dou umas voltas by my own, vou tentar comprar especiarias e um pyjama e depois faco a massagem.
depois de dois belos dias em kannur fomos (o que me custou essa partida) para calicut. calicut muito feio, sujo, urbano mau. coisa muito boa: fomos a praia (onde o vasco da gama chegou e engane-se quem pense que existe algo que assinale fisicamente a coisa) ...
tenho mesmo de ir.
conto depois