Saturday, July 19, 2008
blame canada 7
voltaste!!!
ainda não consegui, nem de perto, nem de longe, aniquilar a saudade.
mon amour,
l'aventure (re)commence.
Tuesday, July 15, 2008
blame canada- 6
no entanto,
"a saudade é uma espera
é uma aflição
se é primavera
é um fim de outono
um tempo morno
é quase verão
em pleno inverno
é um abandono"
in, "porque não me vês", de fausto
it feels good to feel feelings for you! (would sound nice in one of our songs, no?)
Sunday, July 13, 2008
blame canada- 5
Friday, July 11, 2008
blame canada- 4
in a week we will, finally, be in each other's arms!
"into my arms", by nick cave
I don't believe in an interventionist God
But I know, darling, that you do
But if I did I would kneel down and ask Him
Not to intervene when it came to you
Not to touch a hair on your head
To leave you as you are
And if He felt He had to direct you
Then direct you into my arms
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
And I don't believe in the existence of angels
But looking at you I wonder if that's true
But if I did I would summon them together
And ask them to watch over you
To each burn a candle for you
To make bright and clear your path
And to walk, like Christ, in grace and love
And guide you into my arms
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
And I believe in Love
And I know that you do too
And I believe in some kind of path
That we can walk down, me and you
So keep your candlew burning
And make her journey bright and pure
That she will keep returning
Always and evermore
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms, O Lord
Into my arms
Wednesday, July 09, 2008
Monday, July 07, 2008
blame canada- 3
this is what i feel and it tastes good to feel what other people wrote.
flowers in the window (by travis)
When I first held you I was cold
A melting snowman I was told
But there was no one there to hold
Before I swore that I would be alone forever more
Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
There is no reason to feel bad
But there are many seasons to feel glad, sad, mad
It's just a bunch of feelings that we have
To hold
But I am here to help you with the load
Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
So now we're here and now is fine
So far away from there and there is time, time, time
To plant new seeds and watch them grow
So there'll be flowers in the window when we go
Wow look at us now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, out in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
Wow look at you now
Flowers in the window
It's such a lovely day
And I'm glad you feel the same
Cause to stand up, up in the crowd
You are one in a million
And I love you so
Let's watch the flowers grow
Let's watch the flowers grow!
tum tum, tum tum, tum tum
("you know i feel it in my heartbeat...
wich makes me feel like the only one,
the only one,
that the light shines on")
Wednesday, July 02, 2008
blame canada- 2
where i guess you wish me not-
been down there, really there,
you can bet i'm not a slut
been down there, really there,
just to make myself alive,
there, really there,
without you i can't survive
been down there, really there,
oh, such cute boys,
been down there, really there,
look at them and i see: toys
been down there, really there,
and i walk with no regret
been down there, really there,
what i've waisted i'll forget
been down there, really there,
and always think of you
so much faster, so much better, perfect,
you'll never sever , i wont do that too.
esta rima é pobre, fraca, despropositada. não está à tua altura. i'm drunk, really drunk, so much drunk. tu, meu querido e defendido amor, não mereces que eu te conspurque com esta leitura/redacção. mas eu vou fazê-lo. tenho de fazê-lo, não posso deixar de fazê-lo. estive no antro, naquele antro de que já algumas vezes te falei. não me arrependo, de todo, estive lá e gostei. nada me tocou, nada me moveu, realmente cá dentro, nada me abalou, nada. estive, vi, fui visto, falei, deixei falar e vim... vim para ti... expressamente para ti.
vim para te encontrar, no simples acto de te escrever. vim para ti. regressei-te, no simples acto de me recolher. porque recolher-me, sem ti, já não é o mesmo verbo. vim morar aqui, onde quero que tu mores, tu ouças, tu chores. vim adormecer na dor, calma e, ainda amena, certeza de não te ter. vim pensar em ti. i've been down there e tu nunca me saíste da cabeça. não houve, sequer, um segundo de hesitação. sou teu e tudo o resto é um espectáculo, uma parefernália, uma triste exibição,
bem, fiz aqui uma pausa de mais de dez minutos. borrifei-me para a anterior composição. fodi-me todo, esta noite, porque assim o decidi. fodi-me, tomei essa decisão, enquanto via e escutava, com miguel, pedro, mari, a rita lee. fizeste-me falta ali. pensei, durante o concerto, tanto em ti. faria todo o sentido ter-te ali. estiveste. hei-de contar-te. miss you so much. vou dormir. tu, estiveste ali. é isso que é maravilhoso no amor: faz alguém estar onde nunca sonha estar. decerto, estou onde não estou. eu sei disso. e tu, só tu, estás aqui.
beijo-te a amo-te como só eu sei (eu sei).
i miss our waking up.
you are my fellow and, you know, my guy.
(escrevo-te aqui porque este, aqui, sou, realmente, eu.)
"fique bem,
fique forte.
não temos tempo
para temer a morte"
rita lee, in pic-nic
Monday, June 30, 2008
blame canada - 1
i'll wait for you always (how can't i?)
Thursday, May 15, 2008
poor misguided fool
- a frescura de um jacto de água que me venha, realmente, refrescar o cérebro (tão despido, tão sem qualquer tipo de revestimento, tão escancarado, tão prostrado a este céu; tão poucas vezes aberto).
- o interior absoluto da parede que separa, há longos e longos anos, a minha casa do precipício, feroz/delicioso, que é a rua.
- o início exacto da vida (consciente, táctil, meu).
há outras frustrações desta ordem mas, em virtude das altas concentrações de egocentrismo e tédio, por ião quadrado, na minha pessoa, recuso-me a redigi-las; prefiro senti-las.
as frustrações são para se sentir, não para se redigir.
o amor, sim, é para ser escrito (com as duas mãos).
e nós ainda tão tetrápodes.
a banda sonora das dores nas minhas mãos durante esta redacção:
"Poor Misguided Fool", by Starsailor
As soon as you sound like him
Give me a call
When you're so sensitive
It's a long way to fall
Whenever you need a home
I will be there
Whenever you're all alone
And nobody cares
You're just a poor misguided fool
Who thinks they know what I should do
A line for me and a line for you
I lose my right to a point of view
Whenever you reach for me
I'll be your guide
Whenever you need someone
To keep it inside
Whenever you need a home
I will be there
Whenever you're all alone
And nobody cares
You're just a poor misguided fool
Who thinks they know what I should do
A line for me and a line for you
I lose my right to a point of view
I'll be your guide in the morning
You cover up bullet holes
As soon as you sound like him
Give me a call
When you're so sensitive
Its a long way to fall
You're just a poor misguided fool
Who thinks they know what I should do
A line for me and a line for you
I lose my right to a point of view
Friday, May 02, 2008
olhares sobre o jardim - 2
Ana Oliveira
Friday, March 28, 2008
sleep tight
vou dormir. mal, mas como sei; como quero.
fiz um jardim para dormir, fiz um jardim para acordar e isso ninguém me tira. ninguém me tira porque eu não quero.
ainda bem que não há escolas de dormir, nem de acordar. ainda bem que não há escolas de naufragar.
eu não quero!
Monday, March 24, 2008
apenas jardim - Apenas Maria
O dia está triste, choroso, velado e assim estou eu. Chove, dentro e fora do jardim, há vento, frio: tempestade. Um temporal enorme, na cidade e em mim. Toda eu chovo por dentro. Um vórtice na cabeça, um terramoto no coração.
Tento ver-me, por fora e por dentro, na vidraça desta janela. Serei eu esta? Reconheço-me? Serei eu realmente esta? Que fiz eu? Que alcancei? Que adjectivos terei? Gostava de lhes poder perguntar mas não tenho coragem. Gostava que todos me pudessem qualificar, já que eu não o consigo. Estou cansada, muito cansada, doente talvez.
Qual será o sabor da alegria? O sabor de uma gargalhada? Qual será a sua textura? Posso morrer agora sem nunca ter aprendido a cantar. Gostava de ter aprendido uma canção alegre, calma, serena, uma canção de embalar. Gostava de ter aprendido uma lengalenga. Gostava de ter patinado no gelo e boiado no mar. Gostava de ter engolido neve. Gostava de ter podido tratar de cavalos, de ter andado um dia inteiro numa roda gigante de onde pudesse ter visto toda a cidade. Gostava de ter bordado lenços com versos de amor. Gostava de ter festejado todos os meus aniversários, dava tudo para ter podido apagar todas as velas. Se pudesse voltar atrás faria tudo por tudo para saber tocar harpa, para dançar nua no deserto, para pilotar um avião, para ter uma receita de um bolo só minha, para viver com índios e cowboys, para pintar as unhas de amarelo, para ter ajudado os doentes e desprotegidos, para ter decorado todas as capitais de todos os países do mundo. Quando era pequena o meu sonho era ser pirata. Lembro-me de na estória do Peter Pan me sentir muito mais inclinada para os vilões. Lembro-me do dia preciso em que me apaixonei pelo Capitão Gancho. Foi ao fim de tarde e eu imaginei-me a ser resgatada por ele, a ser feita prisoneira. Fantasiei tanto esse amor. Esperei-o durante anos. Ele nunca chegou a aparecer. O Peter Pan também não mas esse não me interessava, sempre o achei amaricado. Eu não queria voar, queria, isso sim, navegar. Queria enterrar tesouros, saquear fortunas, usar uma pala no olho, beber rum e passar toda a minha vida a rasgar mares e oceanos. Queria ser pirata. Queria uma vida de aventura e de risco. Queria uma vida especial. Especial. Sim, foi isso que sempre procurei, qualquer coisa especial. É tão óbvio, tão óbvio, que até chega ser ridículo; ao mesmo tempo que é altamente enternecedor. Eu, que nada tenho de especial, sempre esperei por tudo o que de especial a vida tivesse para me oferecer. Sempre estive dependente dessa oferta. E o que é que fiz para a merecer? Nada, nada de especial.
Nada de especial, foi a frase que mais ouvi durante toda a minha vida. Foi a frase que sempre me definiu. A frase com que me definiram logo assim que cheguei a este mundo. Sou a mais nova de sete irmãs, todas chamadas Maria. A primeira das minhas irmãs chama-se Maria Certeza porque os meus pais tinham a certeza absoluta da data em que a conceberam. A segunda chama-se Maria do Espanto porque todos ficaram espantados com a sua prematura beleza; os meus pais não eram exactamente bonitos. A terceira chama-se Maria do Fogo; no preciso momento em que veio ao mundo os céus encheram-se de luz e de cor, devido ao fogo de artifício, como que a celebrar o seu nascimento. A quarta chama-se Maria Eurovisão porque quando começou o trabalho do seu parto a minha mãe estava a ver o Festival Eurovisão da Canção e não pôde ver a Simone de Oliveira a cantar a desfolhada. A quinta chama-se Maria Lunar porque nasceu numa noite de eclipse da lua. A sexta chama-se Maria Buarque porque quando estava no ventre da minha mãe era muito irrequieta e só se acalmava quando ela punha a tocar a Ópera do Malandro. Eu sou a sétima filha e sou Maria. Sou apenas Maria, porque relacionado com o meu nascimento não sobreveio algo de particularmente especial. Os meus pais olharam para mim e nada lhes ocorreu, eu nada lhes inspirei. De seguida, olharam um para o outro e disseram: não tem nada de especial, fica Maria, apenas Maria.
E se eu morrer agora, o que há para dizer sobre mim? Possivelmente nada, nada de especial. Há uma coisa que sempre me destacou mas não é uma coisa especial. Não é especial porque não é feliz e as pessoas só consideram especial algo que é feliz, sublime, encantador. A minha quase especialidade não é encantadora, é triste, dissuasora. É uma falha, um handicap. Nunca fui capaz de produzir uma única gargalhada. Nunca me ri, nunca manifestei o mínimo indício de alegria. Nasci, cresci e possivelmente irei morrer sisuda. Procurei em vão até ao dia de hoje a minha gargalhada. Quando fiz doze anos ofereceram-me um gravador para que eu pudesse gravar os poemas de amor, sombrios e tristes, que tão bem sabia recitar. Não gravei um sequer. Em vez disso comecei a gravar sorrateiramente as gargalhadas das outras pessoas. Comecei por gravar as das minhas seis irmãs, depois as dos outros meninos na escola e depois as dos adultos. Ficava dias a fio de orelha colada às portas dos vizinhos, sempre atenta e pronta a gravar uma gargalhada quando esta do nada surgisse. Gravei milhares de gargalhadas em toda a minha vida. Reproduzi, em rigorosíssimos ensaios, cada uma delas até à exaustão. Ainda o faço. Mas nenhuma delas me serve, nenhuma me adoptou. Sei que não é assim que vou encontrar a minha própria gargalhada mas não consigo evitar a gravação e a reprodução das alheias. Tornou-se um vício. Sim, tenho de admitir; admitir sobretudo para mim mesma: o que faço não é mais do que um vício. Vazio, falsamente compensador, autoritário como todos os vícios. Os vícios são tiranos e nós tão pequenos. Os vícios não são nada de especial.
Wednesday, March 19, 2008
olhares sobre o jardim
Monday, March 10, 2008
Monday, March 03, 2008
Wednesday, February 27, 2008
apenas jardim- diálogo: menina bonsai e perchista do pensamento
É curiosa e surpreendente a sua explicação. A sua primeira quadra apresenta um significativo volte-face na concepção que a literatura habitualmente nos dá das distopias. É como se se desse uma inversão da forma.
Menina Bonsai
Sim, a inversão está apenas na forma. Nem será exactamente uma inversão; será um apuramento, um reajuste da forma. O conteúdo, esse, manter-se-á intacto.
Perchista do Pensamento
Sim, o conteúdo sim; o controle, a repressão, o condicionamento, a massificação e a anulação do indivíduo estão certamente presentes.
Menina Bonsai
Sim, estão presentes; estão no presente. É por isso, que tão claramente, estarão no futuro. A distopia não é apenas fantasia da literatura e do cinema. É, para alguns, ainda uma vaga e indefinida presença no presente mas uma certeza no futuro.
Perchista do Pensamento
Se o George Orwell soubesse que se enganou apenas nas dimensões do brother certamente iria rir-se muito. Mal sabia ele que no futuro, segundo a sua quadra, o indivíduo não é controlado pelo Big Brother mas pelo Smaller Brother. (ri-se)
Menina Bonsai
Na verdade, o que ele define como Big Brother não deixa de existir. O Big Brother terá apenas outro nome: Uno Tenore. O Smaller Brother, como lhe chama, ou Smaller Brothers, pois serão imensos, não passarão de instrumentos de controlo desse Uno Tenore.
Perchista do Pensamento
Mas, diga-me uma coisa, essas crianças serão criaturas biónicas, simulacros de seres humanos pequenos? É isso? Ou serão seres humanos normais? Vão crescer, por exemplo?
Menina Bonsai
Serão seres humanos perfeitamente normais. Na verdade, muito poucas criaturas serão biónicas, porque as criaturas biónicas servirão para tarefas específicas. Terão poderes particulares que não serão acessíveis ao comum mortal. E, sim, essas crianças, esses instrumentos de controlo, irão crescer e tornar-se igualmente obreiros. A capacidade de controlo e supervisão ir-se-á diluir ao longo da puberdade e da adolescência, para que, chegada a idade adulta, essas crianças se tornem obreiros incorruptíveis. É claro que todo este processo é feito de forma gradual e será apurado geração após geração. Chegará uma altura, num futuro não muito distante, após a guerra entre miúdos e graúdos, em que toda a gente será obrigada a procriar. E à nascença cada indivíduo é formatado, injectado com Uno Gnôsis, para que se torne um detector de desvios. Em apenas três gerações toda a população será obreira.
Perchista do Pensamento
Está mesmo convencida disso?
Menina Bonsai
Plenamente. Esta é uma parte do futuro, totalmente inscrita no presente. Basta olhar para as crianças de agora, ou melhor, para as relações que temos com as crianças de agora. Para a forma como lidamos com elas, como as formatamos, como as defendemos e ofendemos. Basta, também, olhar para nós, para a nossa credulidade, para o nosso alheamento, para a nossa inércia. Basta ler o presente.
Perchista do Pensamento
Deve ser muito ingrato ser-se, como a menina, uma espécie de oráculo, profeta.
Menina Bonsai
(rindo-se) Não sou profeta, muito menos um oráculo. Não tenho qualquer convergência com a divindade. Se quer que lhe diga, nem acredito no divino. Sou talvez visionária. Melhor do que isso, sou uma leitora atenta e assertiva, de tudo. Sabe qual é o meu nome?
Perchista do Pensamento
Não, ainda não. Ainda não necessitei de saber.
Menina Bonsai
Bonsai, Menina Bonsai. Represento a visão.
Perchista do Pensamento
Sim, isso eu já tinha percebido. Já tinha percebido que a menina era a visão. Agora Bonsai…
Menina Bonsai
Comecei a tremer muito cedo, sabe!? E quando isso aconte…
Perchista do Pensamento
(interrompendo-a) Segundo o René Chár é preciso tremer para crescer.
Menina Bonsai
Oh, também conhece René Chár?
Perchista do Pensamento
Aqui todos conhecemos René Chár.
Este fanático das nuvens
Mulher do Chapéu
Tem o poder sobrenatural
Apenas Maria
De deslocar para distâncias consideráveis
Menina Bonsai
As paisagens habituais.
Perchista do Pensamento
Começou, então, a tremer muito cedo? Isso quer dizer que começou a crescer muito cedo?
Menina Bonsai
Sim, em criança era portadora de crescimento precoce. Um dia equivalia para mim a uma semana. Esse crescimento precoce era mais interior do que exterior, apesar de também acontecer no exterior. Não era envelhecimento precoce, como acontece a quem padece de progeria. Eu crescia muito velozmente, apenas isso. Assimilava tudo muito rápida e assertivamente. O que se passou foi que eu amadureci muito cedo e passei a ver o mundo distintamente quando era ainda muito pequena. Percebi o mundo de rajada e isso passou a aterrorizar-me. Forcei-me então a crescer pouco e mais lentamente. Quase como o Oskar, a personagem central de “O Tambor”, de Günter Grass. Mas Oskar conseguiu deixar de crescer; eu não. Apenas alterei a forma de crescer. Sobretudo aqui; este jardim possibilitou-me isso. Mas, por agora, não me apetece falar mais de mim. Estou cansada. Estou turva e desfocada. Vou fechar os olhos. Fale-me de si, nunca o ouvi falar de si. Faça por mostrar-se, tenho os olhos bem fechados e agora não posso vê-lo. Deixe-me ouvi-lo ser.
Perchista do Pensmento
Eu, tal como a menina, também estou muito cansado. Sinto-me exausto, mesmo. Estou completamente esgotado e quase prestes a desistir. Não sei se continuarei a vir a este jardim. O que aqui descobri parece ter-se dissolvido e não consigo evitar questionar-me se continua a valer a pena vir e estar aqui. O cansaço parece ter tomado conta do jardim. O cansaço e o esgotamento abateram-se sobre nós.
Menina Bonsai
(alheada, exausta) É verdade. Sim, isso é verdade.
Wednesday, February 13, 2008
apenas jardim - Menina Bonsai

Está bem, vou decifrar-te, então, a quadra que teimas em designar de enigma.
Primeiro verso: as crianças são alarmes prontos a disparar.
Com a tomada de consciência das falácias dos sistemas morais, sociais, políticos, filosóficos e religiosos das sociedades capitalistas, as crianças vão, num futuro muito próximo, aperceber-se da dimensão do seu próprio poder nessas mesmas sociedades. Vão autonomizar-se e organizar-se entre si; formarão sociedades secretas que se afirmarão como simulacros das sociedades dos que eles chamarão “os graúdos”; quase à semelhança do que William Golding descreve na sua obra “O Senhor das Moscas”. Essas infanto-sociedades serão, no entanto, altamente subversivas e entrarão em choque e inevitável confronto com as formas comuns de poder instituído. Miúdos e graúdos, e seus respectivos governantes, entrarão numa guerra sem precedentes na história da Humanidade e a partir daí todo o sistema de valores morais, sociais, políticos e filosóficos será reformulado. Os grandes derrotados dessa guerra serão os miúdos e estes tornar-se-ão fontes de informação e poderosas armas de controlo do resto da população. Viver-se-á, em todo o ocidente, sob a jurisdição de um regime totalitário que regerá todas as nações. Chamar-se-á Uno Tenore e as crianças serão a grande arma desse regime. Serão elas os permanentes alarmes. Todo e qualquer ser adulto terá de estar em permanente contacto com, pelo menos, uma criança. Essa criança será o seu regulador moral e avaliará constantemente o grau de subserviência ou, pelo contrário, de rebelião que o adulto manifesta em relação ao regime. As crianças serão os grandes examinadores e estarão permanentemente a testar os cidadãos. Avaliarão um adulto mediante o teor de informação que este lhe transmite, avaliando também a qualidade dessa informação. Avaliarão, portanto, o grau de conhecimento do adulto e a conformidade que este apresenta relativamente às normas de conhecimento vigente - o chamado Uno Gnôsis. Qualquer dado minimamente desviante será detectado pela criança e imediatamente endereçado ao Comité Único que se encarregará de abrir um inquérito para avaliar o grau de desvio que o sujeito apresenta relativamente ao conhecimento definido, estipulado e imposto pelo Uno Tenore. Caso o grau de desvio seja inferior a 25% o sujeito sofrerá apenas um refresh ontos e poderá retomar a sua vida normal, apesar de ficar cadastrado. Se o grau de desvio do sujeito estiver situado entre os 25 e 50% ser-lhe-á imputado o delito de subversão e aplicado um finis praxis. Ou seja, o sujeito será impedido de formular qualquer empresa subjectiva. Após essa medida ser aplicada, o sujeito, passará, então, por todo o processo de nouveau self e trabalhará directamente para o Comité Único como formador de Uno Gnôsis. Caso o grau de desvio de gnose seja superior a 50% o sujeito será pura e simplesmente deleted, ou seja, apagado.
O segundo verso da quadra preende-se com o amor. Diz: controlam os adultos pela qualidade do amor que estes estão a dar.
As crianças avaliarão não a quantidade de amor que um adulto lhes devota, e por conseguinte a tudo o resto, mas definirão, isso sim, a qualidade desse amor. Os três graus de qualidade de Uno Love serão: mau, bom e óptimo. Se o Uno Love for mau o sujeito será imediatamente infatuated, pois não apresenta níveis de amor e devoção suficientes para com Uno Tenore e, logo, não será um bom obreiro. Se o Uno Love for bom e estável, então, não há qualquer alarme; o indivíduo é afim, devoto e conforme e, por conseguinte, um bom obreiro. Se o Uno Love for óptimo o sujeito será isolado e ser-lhe-ão ministrados love depressors, pois apresenta graves tendências para a dissonância, exacerbamento, subversão, pedofilia, lirismo, e fracas capacidades obreiras. Em caso de confirmação de perfil pedófilo, dissonante ou lírico, o sujeito, será imediatamente deleted.
Os restantes versos: "neste grande inquérito somos todos iguais e obrigados a responder" e "as crianças são alarmes: obrigam-nos a ser o que devemos ser", falam por si mesmos e apenas sintetizam tudo aquilo que acabo de explicar.
Monday, February 04, 2008
apenas jardim - Contrabaixo

(voz forçadamente rouca e austera; cita o pai)
O que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima.
Hoje é o dia em que se completam sete anos desde que o mundo te conheceu e desde que tu começaste a conhecer o mundo.
Sete anos, sete.
Sete são os dias da criação do mundo.
Sete são os dias da semana.
Sete são os selos e as trombetas do apocalipse.
Sete são os pecados capitais.
Sete são as maravilhas do mundo.
Sete são os sábios da Grécia.
Sete são os braços da Menorah.
Sete são as notas musicais.
Sete são os palmos da sepultura.
Sete são as belas-artes.
Sete são as colinas de Roma.
Sete são as chagas de Cristo.
Sete são os astros sagrados.
Sete são as cores do arco-íris.
Sete são os elementais.
Sete são as vidas de um gato.
Sete são os chakras.
Sete são as virtudes cardinais humanas.
Sete são os orixás na Umbanda.
Sete são as cidades sagradas da Índia.
Sete são as igrejas da antiguidade.
Sete são os sacramentos.
Sete são os anões da branca de neve, meu filho.
Sete são as pragas sobre o Egipto.
Sete são os castigos de Caim.
Sete: o número cabalístico do ciclo e da harmonia.
E tu, meu filho, ao completares sete anos de vida fechas um ciclo da mesma. Fechas o ciclo da verborreia. A partir de agora terás de ter muito cuidado com as palavras. Vais ter de aprender a usá-las com conta, peso e medida. Tens de passar a empregá-las com economia e discernimento, com responsabilidade. As palavras podem ser os teus grandes defensores mas podem, muito mais facilmente, tornar-se os teus grandes inimigos. As palavras, quando usadas com displicência, ineficácia ou leviandade podem arruinar-te por muito e muito tempo. As palavras podem acabar contigo e não só aos olhos dos homens mas também aos olhos de Deus. Deus está sempre a ver-te, não te esqueças disso. Por isso, meu filho, escuta e interioriza as palavras sábias de teu pai. E lembra-te sempre: o segredo para uma vida serena, santa, é ouvir muito e falar pouco."
Tuesday, January 22, 2008
começou a jardinagem

Há, entre os praticantes de viagens e projecções astrais, quem defenda que o grande responsável pela cisão entre a tua alma e teu corpo durante o teu sono é a Lei de Coulomb. Segundo Coulomb o módulo da força entre duas cargas eléctricas punctiformes é directamente proporcional ao produto dos valores absolutos das duas cargas e inversamente proporcional ao quadrado da distância r entre elas. Esta força tanto pode ser atractiva como repulsiva, dependendo do sinal das cargas. É atractiva se as cargas tiverem sinais opostos. É repulsiva se as cargas tiverem o mesmo sinal. Ora, dizem os especialistas em viagens e projecções astrais, quando adormeces esta lei toma conta de ti e surte o seu efeito, assumindo o controlo do todo o teu ser. Porque quando adormeces o teu corpo entra em relaxamento e a intensidade das tuas ondas cerebrais desce drasticamente. Isso vai alterar a polaridade magnética do teu corpo; normalmente o teu corpo tem uma carga mais negativa mas, durante o teu sono, isso vai inverter-se e ele vai passar a ter uma carga positiva. A tua alma, por outro lado, tem uma polaridade positiva constante. Assim, quando a intensidade das tuas ondas cerebrais se altera, durante o teu sono, tanto o teu corpo como a tua alma se apresentam com polaridades positivas. É aí que entra a Lei de Coulomb. E acontece exactamente isso que estás a pensar. Ambos, corpo e alma, o teu corpo e a tua alma, se vão repelir. Neste cenário de repulsa a tua alma vai manifestar uma natural inclinação para abandonar o teu corpo e vai acabar por fazê-lo efectivamente.
Já percebeste então o que estou a querer dizer-te? Sim, este é o espaço para onde a tua alma, ou, se quiseres, a tua psy-khé, o teu eu consciente, o teu ser vivente, o teu yang, o teu atman ou, simplesmente, a tua mente, vem. É para aqui que vens no preciso momento em que adormeces e exactamente antes de acordares. É por aqui que passas quando partes para os sonhos e quando regressas deles. É aqui que deixas os resíduos do mundo real e do onírico. E esses resíduos são o que aduba este jardim. Esta é a tua passagem, secreta, apenas tua, ou melhor: era a tua passagem. O que agora vês é apenas o cenário da tua ausência.
Monday, January 07, 2008
oh what a world
Men reading fashion magazines
Oh what a world
It seems we live in
Straight man
Oh what a world
We live in
Why am i always on a plane or a fast train
Oh what a world my parents gave me
Always
Travelin' but not in love
Still i think i'm doin' fine
Wouldn't it be a lovely headline
Life is beautiful on a New York Times
Men reading fashion magazines
Oh what a world
It seems we live in
Straight man
Oh what a world
We live in
Why am i always on a plane or a fast train
Oh what a world my parents gave me
Always
Travelin' but not in love
Still i think i'm doin' fine
Wouldn't it be a lovely headline
Life is beautiful on a New York Times
Oh what a world we live in
Why am i always on a plane or a fast train
Oh what a world my parents gave me
Always
Travelin' but not in love
Still i think i'm doin' fine
Wouldn't it be a lovely headline
Life is Beautiful


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