Thursday, January 18, 2007

india song 5 (back to mumbai)

(ACENTUACAO E PONTUACAO DIFUSOS, COMO A LUZ DA INDIA)
hoje foi o regresso a mumbai, depois de termos ido ontem para nasik e ter la passado a noite. tivemos ontem a primeira incursao no sistema ferroviario indiano. eficiente, de facto, mas particular. nada de porcos e galinhas mas com a venda constante de agua, cha, cafe, chamucas, sandes, souvenirs, eunucos a pedir (os primeiros que vimos), bonecos, revistas, etc. facto muito particular: o nome dos passageiros afixa-se em lista a porta da carruagem. ninguem ocupa o lugar de ninguem, nunca.
nasik e uma das cidades sagradas, uma pequena varanasi (a cidade que sonho visitar mas que nao vai ser possivel nesta viagem porque fica muito a norte e apenas temos tres semanas): vacas com fartura, das sagradas, bela vida que tem as vacas, um rio, sagrado, claro, onde os fieis se banham, templos. uma cidade pauperrima, realmente um mergulho na india profunda. nesta pequena aldeia, de 12000 habitantes, o rebolico, na devida escala, nao fica atras do de mumbai. mas eu confesso que prefiro mumbai (com os seus restantes 18 milhoes). hoje fiquei feliz por ter regressado ao nosso velho hotel causeway na avenida colaba. a avenida colaba e uma das principais arterias da cidade, muito proxima do gateway to india e onde tudo circula. de volta ao nosso velho leopold, sitio obrigatorio para turistas e indianos neste rebolico, uma especie de peters a indiana.
hoje fomos a elefanta, a ilha que fica em frente a mumbai e que deve ser o que de mais monumental, historico, ancestral ha a destacar ca. com as suas grutas escavadas na pedra onde se podem ver estatuas gigantes das divindades. uma hora barco para la chegar numa especie de mini cacilheiros.

consideracoes (mais interessantes que vagos e superficiais relatos): a india demonstra ser o que eu esperava, um constante contraste, movimento, caos que se organiza, ancestralidade, pobreza extrema, frenesim, idade. india sinonimo de idade. o que surpreende e a dignidade que esta impressa e tacita em todo esse caos. uma integridade e dignidade que perpassa, ou atravessa mesmo, tudo e todos e que se faz respeitar. isso supera o constante assedio (inofensivo), a impotencia perante a pobreza geral, a impotencia perante a impotencia, o medo de adoecer (so far nada de grave a declarar nessa materia, e todos os dias damos gracas aos deuses por isso).

ja em marrocos tinha concluido que a carencia se demonstra uma grande amiga da resolucao. a pobreza extrema gera uma imaginacao extrema, para la dos limites que sempre antevi. e a grande dignidade deste povo, como certamente a de muitos na mesma situacao, vem na forma dessa grande e inevitavel imaginacao.
ha nobreza no olhar do rapaz que te seduz para lhe comprares um brinquedo obsoleto, nos seis rapazes que te servem no restaurante em nasik e te tratam principescamente (e tu sentes-te mal por estares nessa situacao numa cidade que parece a buraca ampliada cinquenta vezes), como ha nobreza e dignidade no homem que hoje vimos, em elefanta, a flutuar em cima de uma placa de esferovite, que nao tinha mais de um metro, e que usava os chinelos como remos para chegar a um barco. ha nobreza e dignidade nesta gente, nobreza no sobreviver, no estar, no receber. pureza e dignidade. sentes-te completamente seguro sempre, sentes-te mal quando concebes a ideia de poderes nao estar seguro, mesmo quando estas rodeado por dez taxistas que te tentam angariar. so assim pode ser, ninguem tem culpa de serem muitos e todos tem de sobreviver. como tu, sobreviver. tu que apenas os vieste ver.

deixamos mumbai dentro de sete horas. partimos para goa, essa goa por mim ha muito sonhada.

coisa estranha: estou na india ha quatro dias e ja sinto saudades disto.

contrariamente ao que se diz sempre, mumbai fica em nos. em mim ficou. estava com muito medo dela mas bem no fundo eu sabia que iria gostar. esta coisa dos milhoes toca em qualquer coisa ca dentro, nao sei bem o que. mas toca. talvez seja esta sensacao de que nos milhares de pessoas que estao sempre a tua volta ha a forca dos milhoes que nao ves mas que estao, exponencialmente, tambem a tua volta. mumbai fica... grande e pequena de tao pura. um caos que se regula, como qualquer efectivo caos.
andar no meio do transito em mumbai torna-se viciante como uma droga. e eu sou um demonio vicioso.

ate ja mumbai, ola goa.

Monday, January 15, 2007

india song 4 (onan em mumbai)

querido diario:

mumbai, at last.
o que a seguir escreverei carece de acentuacao e alguma pontuacao. este teclado demonstra ser algo diferente.

ate agora tudo corre pelo melhor. as primeiras intencoes foram cumpridas: aterrar, trocar dinheiro imediatamente (operacao rapida e bem sucedida e com o minimo de prejuizo), deixar os casacos de inverno e demais bagagens desnecessarias num locker (o locker, note_se , trata-se de um barracao anexo ao aeroporto onde uma rapariga ate simpatica, de sari, regista e da entrada, com um rapaz menos simpatico e sem sari, da bagagem em questao. pagaremos 45 rupias por dia apesar de no quadro onde esta o precario estar indicado que sao 15 por dia. ao notar o facto reclamamos mas a rapariga simpatica de sari e o rapaz menos simpatico sem sari sao bastante peremptorios em esclarecer que naquele quadro, apesar de so para eles ser nitido, estao apenas indicadas as tabelas de precos para pessoal do staff das companhias aereas, portanto, o comum dos mortais paga as tais 45 que, presumo eu, decidiram eles cobrar pela nossa pinta. enfim, this is india and we knew it in advance), apos deixar a bagagem preterida vamos negociar o pre-paid taxi que nos levara ate ao aeroporto domestico onde iremos comprar na air deccan os bilhetes que nos trarao de regresso a mumbai no dia 3 de fevereiro, viremos entao de trivandrum (bastante a sul da india). operacoes bem sucedidas: a negociata do prepaid taxi (que nos faz a primeira incursao, 6 km, no, digamos, bastante particular trafego de mumbai... uma macacada) e a compra dos bilhetes que conseguimos por um preco mais baixo do que era previsto.
compra feita, passo seguinte: arranjar um novo taxi que nos leve do aeroporto domestico ate ao causeway hotel, onde agora me encontro, 400 rupias de tarifa: justo. agora sim, mumbai comeca.
mumbai a uma da tarde exibe um calor bastante aconchegante e muito similar ao de lisboa numa torrida tarde de agosto mas revela tambem um pequeno pormenor. ha todo um nevoeiro que em nada condiz com a temperatura. o nevoeiro acaba por ser a espessa camada de smog que torna a cidade algo difusa e que cola a todos os nossos sentidos, sobretudo ao tactil, cola-se um bocadinho a nossa pele. o transito infernal mas para nos, algo euforicos mas exaustos, parece muito divertido. o miguel conclui que seria para ele muito dificil conduzir nesta cidade. eu, que jamais em tempo algum condizirei, concordo. um caos, de viaturas, taxis, mais e menos jurassicos (os nossos sao e ainda bem, lindos, dos anos setenta (suponnho), amarelos e pretos), auto rickshaws, motas e muitas, muitas muitas pessoas. um caos de sons, um caos de pequenas e pauperrimas construcoes ao longo da estrada que acolhem os mais diversos tipor de actividade comercial, esgotos a ceu aberto, sim existem e as pessoas vivem quase, ou mesmo, neles, um cheiro pouco agradavel, vegetacao tropical, muita gente, uma sinfonia de buzinas, milhares de buzinas. movimento. a india, presumo eu, desde ja, sinonimo de movimento. eles estao sempre em transito. chegamos ao hotel, que reservamos avancadamente, apreensivos. o quarto ate se mostra agradavel, tem casa de banho e fica no coracao da cidade. o chuveiro da casa de banho demonstra ser a propria casa de banho mas ficamos contentes. duche e rua com eles. porta da india, mesmo perto do hotel, estamos mesmo no coracao de mumbai. comer, no leopolds, uma mistura de brasileira, com galeto, com o dos colunas em sevilha. simpatico. comemos bem. passear ver muita gente. comecou ontem o festival de musica e danca de mumbai. um espectaculo de rua mesmo na porta da india.
tenho de ir. todos dormem. o joni chegou a recepcao do hotel agora. estou tonto do jet leg, a hora paga para estar na net acaba. tenho de me ir deitar. pareco estar num barco, acho que vou cair da cadeira. estou muito tonto. calor. bom. dormir e sonhar que estou, finalmente na india. amanha ha mais MUMBAI.

Saturday, January 13, 2007

india song 3 (india countdown)

MENOS DE 24 HORAS! NERVOS! QUE BOM; QUE BOM! ESTÁ QUASE TUDO PRONTO! ATÉ A TOSSE ESTÁ MAIS CONTIDA. ESTOU CHEIO DE FOME E AINDA NÃO COMPREI O CADERNO DE CAPA DURA. TENHO DE IR À FNAC. E DEPOIS NOOBAI DAR PARABÉNS À ANDRESA.
PARABÉNS LÍGIA E ANDRESA!
QUASE: OLÁ ÍNDIA (ESPERO NÃO ENCONTRAR O CAVACO)!

Friday, January 12, 2007

india song 2 (india countdown)

caro diário:
afinal não te dediquei o tempo que era suposto, nestes últimos dias. livrei-me dos trabalhos forçados mas não fiquei, por isso, com mais tempo. A Índia aproxima-se a grande velocidade. Faltam, quase precisamente, quarenta e oito horas para a partida.
O stress ainda persiste. A mala ainda não está totalmente feita; compras de última hora (um caderno preto daqueles de capa dura, uma bic gel, um duplo jeck de headphones, para eu e o Miguelito partilharmos as melodias, e mais algumas coisas que ainda não risquei da lista).Muito provavelmente o que ainda falta comprar serão coisas de farmácia; este mês já lá deixei perto de duzentos e cinquenta euros. A quantidade de químicos que tenho intrometido no corpo (vacinas para Hepatite A e B, Mefloquin: profiláctico da Malária, vacina Anti Febre Tifóide, vacina Antitetânica, Amoxicilina, Brufen e Vibrocil para a apropriadíssima crise de Sinusite que está a preceder a viagem e Mucosolvan) dariam para abrir um laboratório farmacêutico caso se procedesse à incineração desta exausta carcaça.
Os nervos regressam, ainda tenho de deixar uma série de coisas tratadas: dinheiros e afins, telefonemas, e deixar as coisas vagamente organizadas em casa.
Agora, esta carcaça vai comer e vai guardar os setecentos euros que tem dentro da mala em casa. Ah, comprar uma bolsa para guardar o dinheiro junto ao corpo, já me esquecia. E tenho de ir comprar o protector solar para a Marisa.
Muito stress, Caro Diário. We'll meet in Mumbai.

Thursday, January 04, 2007

india song 1

caro diário:

está cada vez mais perto o momento em que finalmente terei tempo para poder estar contigo. esse tão ansiado momento em que te farei algumas revelações e confidências. o momento em que possa em ti, como em tantas vezes, fazer uma catarse. para já fica a novidade que há muito desejo dar-te: VAMOS PARA A ÍNDIA, EU E TU. AQUI ESTÀ O NOSSO PRESENTE; PELOS MEUS TRINTA ANOS, PELOS TEUS DOIS ANOS E POR ESTE NOVO ANO. DAQUI A DEZ DIAS VAMOS PARA A ÍNDIA!!!
QUE SHIVA NOS (A)GUARDE!

Sunday, December 10, 2006

saudades

querido diário:
Fizeste dois anos em Novembro. Tenho saudades tuas, nossas. Não tenho tempo para nós. Há muita coisa que te queria contar, algumas tristes, outras nem por isso. Não tenho tempo, não tenho tempo. Sobreviver dói, cansa, quase mata. Espero voltar a viver em 2007. tenho tantas saudades nossas. Não tenho tempo.

Parabéns, querido diário. Passados dois anos ainda aqui estamos; mas cada vez estamos menos aqui.

Friday, October 06, 2006

quase

és uma quase-musa e eu creio ter tudo o que a uma quase-musa se pode oferecer: a extensão da voz e todo o léxico da atenção.
---------------------------------------------------------------------------

não estou a viver: rasga-me ao meio, parte-me em dois.

Monday, September 18, 2006

sentir

não sinto coisa alguma. não sinto; nem mesmo o vazio!
ah, sinto apenas uma coisa: a falta de tempo para poder escrever. a falta de tempo para poder sentir-me a escrever!
apenas a escrita importa e é para ela que menos posso viver!
não sinto coisa alguma. prefiro não sentir o vazio.

Wednesday, August 30, 2006

febre rimática

há uns anos atrás deu-me uma febre rimática. desde então, não tenho parado de fazer composições em rima. aqui fica um dos produtos dessa febre, a que sempre achei piada; ainda acho.

LÁBIOS

Uns lábios de mel
para orar a Rehael.

Uns lábios de sol posto
para provar o teu mosto.

Uns lábios de amargura
para pintar com tintura.

Uns lábios de carvão
para recitar o corão.

Uns lábios de metal
para escarrar no Natal.

Uns lábios de ocidente
para fazer música num pente.

Uns lábios de solstício
para continuar este vício.

Uns lábios de doçura
para louvar a literatura.

Uns lábios de sabão
para salvar um irmão.

Uns lábios de cocaína
para perpetuar esta sina.

Uns lábios de papel
para me manter sempre fiel.

Uns lábios de telefone
para verter água num cone.

Uns lábios de papiro
para mudar o rumo de um tiro.

Uns lábios de faca
para arrancar uma estaca.

Uns lábios de sorvete
para oferecer a um canivete.

Uns lábios de poliglota
para não rir de uma anedota.

Uns lábios de gim
para não me tornar ruim.

Uns lábios de lisboeta
para partir uma ampulheta.

Uns lábios de tecido
para filtrar a libido.

Uns lábios de porcelana
para provar a chanfana.

Uns lábios de escrita
para cantar uma canção bonita.

Uns lábios de Julho
para trincar um gorgulho.

Uns lábios de marmelada
para não conter a gargalhada.

Uns lábios de cicuta
para acusar um filho da puta.

Uns lábios de verão
para escorregar no corrimão.

Uns lábios de haxixe
para cuspir azeviche.

Uns lábios alentejanos
para corrigir os enganos.

Uns lábios de hedonista
para baralhar o machista.

Uns lábios de alegoria
para reinventar a poesia.

Uns lábios de computador
para registar o nosso amor.

E com um beijo trama
percorremos o mundo na cama.

Antes, durante e depois
somos felizes sempre os dois.

Pois, enquanto tiveres uns lábios assim
este poema não chega ao fim.

Uns lábios de electricidade
para reviver a puberdade.

Uns lábios de carnaval
para ser uma flor do mal.

Uns lábios de ...
para...

Uns lábios de ...
para...

(Preenche os espaços em branco s.f.f.. Afinal os lábios são teus!)

Wednesday, August 16, 2006

làtigo

làtigo:
projecto de música electrónica que eu e o nuno, baixista da minha banda (nude), formámos há cerca de seis meses.
estivemos durante estes meses a trabalhar em alguns temas inéditos e contamos, a partir de setembro, começar a trabalhar no disco de estreia do projecto e a preparar um show case para ser apresentado em bares, discotecas, bas fonds, desse mundo fora.
uma vez que os nude se extinguiram, este será o projecto musical que nos permitirá levar em frente as nossas ambições musicais.
é um projecto mais conciso e consensual, ambos temos as mesmas referências e objectivos e há uma grande organicidade no trabalho. até agora tem havido, e creio que assim continuará a ser. além de que o nuno, ao longo dos últimos anos, tem investido na aquisição e know how relativos a maquinarias e procedimentos técnicos fundamentais ao tipo de música que queremos desenvolver. na verdade, acho que ele apresenta já um grande domínio aliado a uma grande criatividade. o que me deixa bastante à vontade também para criar. é um processo, apesar de mais circunscrito, bastante mais livre. e, também, um passado de mais de oito anos a trabalhar na mesma banda deu-nos a sintonia que permite a tal organicidade referida e requerida.
aqui fica o link da nossa página no myspace:
o template ainda não é personalizado, faltam fotos actuais nossas, uma boa descrição do projecto, as canções são apenas demos gravadas num estúdio caseiro, etc. em todo o caso, dá para o projecto se ir divulgando e para recebermos feedback dos eventuais visitantes.
o convite está feito.
opiniões, críticas, lavagens de ego, destruições de ego, piropos e todo o tipo de impressões serão bem recebidos.
cheers

Tuesday, August 15, 2006

dois bons materiais

já acordei umas cinco vezes hoje. estou com uma tosse horrenda e tenho o peito cheio de uma compacta e impertinente massa expectoral que teima em sair ao relenti.
em todo o caso, em duas das vezes que acordei fi-lo para digerir dois bons materiais que se me nasceram na cabeça. o primeiro material é o início de um poema. o segundo material é uma mensagem mas é também um grande achado imagético-existencialisto-literário e pode, com toda a certeza, vir a tornar-se num bom material a aproveitar para o romance que estou a escrever. assim é:

bom material 1
não falas, nem cantas, nem tremes, nem voas; tu não te situas.
caminhas comigo no gume agudo da faca das ruas.

bom material 2
continua a dar-me música! manda-me um telegrama cantado a dizer que não me queres!

Friday, August 04, 2006

i wont run away again

gracias, muchas gracias.
(estar contigo é estar feliz. e isso é bom, muito bom. basta-me, bastas-me)

Thursday, August 03, 2006

present mood (based on last night)

"revolution, dope, guns, fucking in the streets"

(forget the guns, keep the revolution, come with me and use as a dope, let's keep fucking in the streets)

Tuesday, August 01, 2006

sem destinatário

um poema azul

é no apartar da línguas que a vida começa.
adormeço,
durante este cair sem voar dentro do céu da tua boca,
enquanto a tarde volta a ser, uma vez mais, demasiado tarde para nós.

mas cabe-me esta certeza:
Mudámos o rumo, a fúria do sangue, e a certeza das mãos à força de tanto termos sido amantes.

(tem-me acontecido com frequência um certo fenómeno: escrevo poemas, muitas vezes letras das canções que canto, sem que estes se proponham relatar, atingir, situar, algo concreto. escrevo-os sem um referente. passados meses ou até anos acabo por viver as situações que escrevi a priori. creio que este poema é um desses casos. não que não tenha vivido algo que não se possa inscrever no poema mas, tenho essa certeza, porque este foi escrito sem um referente. escrevi-o pela beleza que penso estar contida na ideia do mesmo. é, portanto, uma estória escrita antes de ser vivida. ou talvez seja eu a armar-me em visionário, para brincar com o tédio. on va voir!)

Tuesday, July 25, 2006

a minha canção de embalar

Divine, by Antony and The Johnsons

Good-Bye, baby
Baby, good-bye
Divine, oh Divine
Falling like a picture of time
Oh he was the Mother of America
He was my self-determined guru
Myself, I hold your big fat heart in my hands
And I hold your burning heart in my hands

A supernova
A flame on fire
Shining in the darkness
Did someone mention a rapture
Well I turn to think of you
Who walked the way with so much pain
Who holds the mirror up to fools
And I'll murder the ingrates
Who stand in our way!
And I'll swallow shit, laughing
On my bed of hay!
And I hold your burning heart in my hands

And I hold your burning heart in my hands
A supernova
A flame on fire
Shining in the darkness
Divine

Divine
A supernova

A flame on fire
Shining in the darkness

é bom quando alguém sabe escrever e cantar o amor e tem a possibilidade de o fazer. viva o antony.

--------------------------------------------------------------------------------------------------------------

um dia hei-de cantar esta canção e hei-de pensar em ti.

why do you let me run away?
i've nothing left to say.
maybe this is the way.
you let me run away.
......................................................................................................................................

faz hoje uma semana. eu queria ir, sim eu queria, mas tive medo e não fui. quem perde sou eu, talvez. and you let me run away.
.......................................................................................................................................

ainda gosto muito de ti.

Monday, July 17, 2006

saturday

"only an expert can deal with the problem"
vi a minha amada, de quase sempre, laurie anderson pela primeira vez. sábado passado no castelo de montemor-o-novo. genial. aquela mulher é genial. apesar de o castelo ter uma atmosfera linda, forte, enigmática, tenho de concordar com a dany. um concerto da laurie anderson, ou este concerto, talvez resulte melhor num espaço fechado, onde se pode estar confortavelmente sentado, sem ter de estar a sacudir as melgas; é necessária a abstracção do corpo. a laurie anderson instala-se dentro da nossa cabeça (na minha está instalada há uns quinze anos). por isso é que me comoveu tanto a citação feita à comédia de Aristófanes "As Aves". é tão bom constatar que as pessoas cujo trabalho nós admiramos também se comovem com as mesmas coisas que nós. "As Aves" é uma das minhas peças clássicas de eleição. A foi muito bom ver a laurie anderson aludir à tal cotovia que, ao sepultar o pai na própria nuca, inventou a memória.
"underwear gods" é também, apesar de menos surpreendente, um conceito interessante e comovente. foi isso que o trabalho da laurie sempre me provocou: comoção no interior da cabeça. exactamente aquilo que pretendo atingir quando me disponho a trabalhar.

Friday, July 14, 2006

2 declarações

1 (particular)
estavas ali, serviste para o efeito pretendido. apenas isso, indiferenciadamente, estou certo. clap, clap, clap (isto são palmas, batidas com ar blasé, à la victoria beckham.)

2 (totalmente geral, sem destinatário definido)
who burps in the end burps a lot better.


crudo

A tua boca descolou-se, rápida e furiosamente, da minha mas
deixei nela presa toda a importância dos meu olhos.
Os teus olhos, quando se fixam nos meus, oferecem-me
o regresso fugaz da pálida ideia do sabor da tua boca.
As tuas mãos são duas estações de calor e contratempo.
As palavras, que agora escrevo, são barcos que se afundam numa saudade que ainda não existe mas cuja fecundação adivinho no fundo da minha garganta.
Quando partires sei que vou fechar os olhos e a boca
para poder mudar de voz na paz que tu mereces que eu adquira.
Ofereceste-me a minha primeira guitarra e eu não consigo deixar de a abraçar (porque tu estás dentro e fora da futura afinação).
Agora ela dorme sempre a meu lado e transporta-me a música que tu és. Durmo neste doce dançar contigo.
Amo-te com gosto, ar e melodia.
(algo mudou dentro de mim nestes últimos dois dias. creio que deixei de sentir isto. ainda não tenho a certeza, mas é possível que sim. por isso é que decidi publicar o poema, para que conste: memória futura.)

Wednesday, July 12, 2006

um poema com sete ou oito anos cuja verdade o tempo não apagou (eterno retorno)

Vou rimar
só por rimar
para não cortar
a jugular


Três cabeças numa chaveta
Tenho um romance na barriga
Siameses na ampulheta
Do mundo chega-me a intriga

A Pandora tem boceta?
Não tens sangue; é jeropiga
Filho de Maria Antonieta
És rapaz ou rapariga?

Eu sou a jóia e tu a a coroa
Esta tensão é irritante
Mudei de pele cá em Lisboa
Tornei-me um altifalante

No verão tudo me enjoa
Eu sou esperto e tu ignorante
Eu feliz? Ah, essa é boa!
Gosto de ti: Coração Mutante

Monday, July 10, 2006

30

foi ontem, 09 de julho, finalmente entrei nos trinta. vamos lá ver se se cumprem as previsões de certos visionários e esta década me traz a, tão ansiada, prosperidade. a ver vamos.
em todo o caso sinto-me próspero por ter os melhores amigos do mundo. felizmente não são poucos e são simplesmente maravilhosos. no sábado, ontem e hoje as acções de todos eles em conjunto e de alguns em particular (selma, miguel, xana, sandra e julián) deixaram-me profundamente comovido, esperançado, feliz. eu sei como sou amado, por vós, meus queridos. e amo-vos muito e vocês fazem-me querer ser uma pessoa melhor. um grande obrigado a todos, you live in me forever. vocês são a minha principal inspiração.

Thursday, July 06, 2006

tem de ser

deixou de me fazer bem, gostar muito de ti, por isso tenho de deixar de gostar muito de ti. passarei a gostar apenas. a vida tem destas coisas...
....................................................................g...a.....m...e.....o....v....e.....r..........
o problema reside no facto de isto nunca ter sido um jogo. ou talvez seja o jogo da vida. o jogo de quem vive. eu vivo.

Saturday, June 24, 2006

um haiku com um ano

rua do norte,
fim de junho a nascer -
os pombos namoram.

Monday, June 19, 2006

uma declaração

para _ _ _ _ cão,

gostar de ti é gostar muito de ti e é gostar muito de gostar muito de ti.
gostar de muito de ti é muito bom, porque tu mereces.
gostar muito de ti é olhar para ti e sentir que a vida pulsa e que a vida é boa.
gostar muito de ti é ter vontade de sorrir e de cantar e de comunicar.
gostar muito de ti é querer ouvir e fazer música para a cantar a toda a gente.
gostar muito de ti é querer viajar, dentro e fora da cabeça.
gostar muito de ti é querer aprender e é querer ensinar.
gostar muito de ti é querer ouvir-te e é querer falar-te.
gostar muito de ti é gostar muito de estar simplesmente contigo; é comunicar.
gostar muito de ti é uma das melhores coisas que me aconteceu nos últimos anos.
gostar muito de ti é saber que, aconteça o que acontecer, serás sempre muito, muito especial na minha vida e na minha memória.
gostar muito de ti é presente e é futuro.
gostar muito de ti é muito, muito simples.
gostar muito de ti vale a pena por tudo isto.
gostar muito de ti é viver.
gostar muito de ti é ser eu.
gostar muito de ti é o antes, o durante e o depois da arte.
gostar muito de ti é criar; é pensar a sentir.
gostar muito de ti é querer ser melhor, para ti, para mim e para o mundo.
gostar muito de ti é o princípio daquilo que eu serei; daquilo que quero ser.
obrigado, por seres assim: alguém de quem é muito bom gostar-se.

Friday, June 16, 2006

parabéns à lena

"música não é barulho! música é silêncio; é pausa!"
lena d'água dixit.

obrigado lena pelo maravilhoso espectáculo de ontem no maxime. duas horas de arrepios, dos bons. mais uma vez conseguiste, e desta vez plenamente, deixar-me aparolado. provaste que a tua arte é perene e anímica, que é uma força da natureza, que é revolucionária e sempre tão fresca, pura. a tua presença transborda a fúria de um primeiro momento. e isso arrepia porque é como a força de uma maré.
parabéns, lena.
e sim, fuck olhó robot! viva o silêncio e a pausa (que tu transportas tão bem).

Thursday, June 08, 2006

medula party para um início de junho

correm, mas não fogem.
embatem, uns nos outros, e dançam, blandiciosos, no ar.
tornam as línguas inequívocas como rastos de cometas.
já não se surpreendem mas deixam-se ficar à espera que um flanco lhes apresente a frescura de um quadro que ainda se está a pensar pintar ou, até mesmo, o frescor leitoso de um primeiro beijo trocado às escondidas.
vivem de olhos fechados, não por medo da luz, ou devoção à escuridão, mas porque querem prolongar até ao infinito a suspeita de que todos os dias podem ser iguais na sua tão desastrada diferença.
carregam no corpo apenas o peso da própria pele e riem-se disso como se as palavras fossem milhões de pequenas partículas de um gás desconhecido que projecta na atmosfera (ao instituir-lhe novas discretíssimas tonalidades) o frugal tempo de vida de uma sensação, necessidade ou desejo.
não são serenos nem furiosos; são livres e acutilantes como as notas desta música que toda sabe mas que jamais alguém se atreveu a inventar.

Monday, June 05, 2006

anti-haiku

(regresso a casa, domingo, 08:3?h, rua d. pedro v)
gulls try to match-
imaginary waterfront-
right mood to compose an haiku, but i don't.

Saturday, June 03, 2006

spit it out

apaixonei-me por esta canção do genial IAMX. apaixonei-me sem perceber que ela viria a tornar-se o hino daquilo que sinto. durante esta semana todas as palavras desta canção têm sido exactamente tudo aquilo que tenho sentido e que poderia vir a ter vontade de te dizer. é magnífico isto das canções se tornarem retratos nítidos das nossas vidas. eu sinto cada uma das seguintes palavras. mas isto é um assunto meu.
"spit it out", by iamx
And if you're hurting
I will replace the noise with silence instead
Flushing out your head
If you like it violent
We can play rough and tumble
Fall into bed
And I won't breathe so you can recover
When you're in pieces
Just follow the echo of my voice
It's okay
Tune into that frequency
Don't fight your reflex
Embrace the instinct
You can feel your way
Through the bed and weak face in the end
'cause it breaks my heart
That we live this way
I know people need love
'cause them people never play the game
And we talk the talk
We communicate
The people need love
Those people never play the game
Pleasure for pleasure
It eases consequence
And love for a fall
But I know you love to take a risk
The past is weakness
Don't beg the question when the answer is war
There are moments when I'm overcome
'cause it breaks my heart
That we live this way
I know people need love
'cause them people never play the game
And we talk the talk
We communicate
Them people need love
Those people never play the game
And it breaks my heart
And it breaks my heart
In love
.............................................................................................................................................
agora as minhas palavras (o meu spit out). para acabar de uma vez com o assunto.
you remember the ending
i remember a little bit more.
why did it happened? we don't know,
maybe it was the engine that pushed us, into each other, when it closed it's door.
you remember the the ending
i remember feeling pulsion, bodies rush and bodies lost.
four? you said four kisses?
i wanna buy you that memory. please tell me, how much does it cost?
(done now!)

Sunday, May 28, 2006

a verdade

gosto tanto de ti!

Wednesday, May 24, 2006

stomach butterflies

to a. (while september does not come)

at the same time odd and warm
and
quite hard to explain
but
i get a glimpse of heaven
when you say:
"i want to fuck you brain"

now always eager to get home
at
the end of shallow day
i start
to smile at six o'clock
wondering
how fresh will be the things you'll say

i'm ready to throw knives out
and say farewell to whats and whys
let me thank you, napchild,
for bringing, back to me, these sweet stomach butterflies

Thursday, May 18, 2006

post modern icarus

i would catch if i could reach you
when you fall i know i'll lose my muse
don't want to be the one to preach you
your addicted to this rushing abuse

why, why, tell me why,
do you bring your chaos to the sky
when we come here to fly, to fly, to fly?

why, why, tell me why,
do you cause explosions in the sky
when we come here to fly, to fly, to fly our pain away?

there are no more lessons to teach you
since we've waisted all our springs
pick up your debris from the the ocean
love is useless without wings

why, why, tell me why,
do you bring your chaos to the sky
when we come here to fly, to fly, to fly?

why, why, tell me why,
do you always try to taint the sky
when we come here to fly, to fly, to fly our pain away?

we fly, and fly, to achieve bliss
but we're no myths from ancient greece.

we fly, and fly, to achieve bliss
but we're no myths from ancient greece.

fly, fly, to achieve bliss,
babe, you're not still in ancient greece.

(a letra de uma nova canção em que estamos, os nude, a trabalhar. vim agora do ensaio e acabei de a escrever em definitivo aqui. ao fim e ao cabo, este diário também é um bloco de notas.)

Wednesday, May 17, 2006

uma fantasia

comer romãs a correr, de mão dada,
bocas que escorrem uma para dentro da outra.
olhar fixo no outro a tarde inteira e crer juntos que se está num templo do Butão.
encher a banheira com água, sal e páginas dos livros todos que se gosta, ler nas plantas dos pés, nas axilas e no sexo as frases que se foi sublinhando, a solo, ao longo da vida.
lavar louça nas escadas do prédio e pintar com verniz dos chineses os dentes das vizinhas mal humoradas.
fazer desenhos obscenos, com guache e tinta de água, nas fachadas de todos os ministérios.
entrar em táxis e dar, convicta e soberbamente, ao motorista a indicação para só parar em Dresden.
ficar em total imobilidade e silêncio durante dois dias de agosto e apenas agitar os corpos para dar pequenos tragos em água das pedras choca.
comer bolachas de água e sal e rasgar notas de cinquenta euros em pedacinhos mínimos; fazer chuva de euro-confetis.
adormecer com vontade de acordar para estar de novo aqui, ou na lapónia, de dedos entrelaçados.
a paixão é isto: o vício de matar o teu tempo, nesta dádiva clara do meu.
(finda a fantasia descubro que tenho o tempo todo para mim e para o relógio.) hmmmmpffffff. faz-se tarde, vou dormir.
o diário de onan, esta virtual e tabularrásica entidade, ganha, pela primeiríssima vez, expressão e afirma:
- Este demónio mente. Onan tem fobia a relógios, não os possui, não se compreendem mutuamente. Quando Onan pensa, fantasia e conclui os relógios páram no seu pulso e implodem. E Onan passa noites em claro a tentar medir a intensidade do parto de cada novo minuto. Deixai-o mentir, é assim que adormece.


Tuesday, May 16, 2006

farewell Elisa promenade

o terçolho está menor, ainda dói, mas, em todo o caso, não foi por isso que acordei. acordou-me o sonho e o barulho da folha de papel a arrastar-se, sobre o tapete, à porta do quarto (eram um quarto para as oito). dormi quatro horas e meia, não consegui dormir mais; não o lamento, hoje não o lamento.
a folha estava lá; vi-a quando decidi levantar-me para vir escrever; era um recado da rosa, por causa do dinheiro. ai, o dinheiro.
o sonho:
a H., que não é de todo actriz, estava a fazer um espectáculo sobre a sua ligação com o A.. a D. entrava no palco e, qual espectro, seguia a H. durante toda a acção; invadia-lhe o palco e deixava-se ficar, em silêncio, porque a ligação de H. a A. foi, como toda a gente sabe, uma terrível facada para D..
este sonho fez-me perceber uma série de coisas; levou-me, de novo, a Elisa. god, Elisa voltou e foi em força. este sonho fez-me perceber muita coisa; sobretudo a questão da espectralidade, o registo suspenso, o filtro onírico. é por aí, é por aí que Elisa tem de ir. é incrível que tenha sido através de um sonho, com uma das pessoas que mais amo na vida, que Elisa, essa mulher que me tem obcecado nos últimos meses, que vai e volta e que ainda não tem a consistência suficiente para que eu a escreva de fio a pavio, tenha voltado.
a espectralidade não é exactamente de Elisa, é de Ele. Elisa torna-se um espectro quando conferencia com Ele. mas Elisa não estará mais com Ele. na verdade, penso que Ele já estará morto. Elisa conferencia com um espectro, daí a sua grande perturbação. Elisa ficou presa na frescura interrompida da sua juventude, é por isso que não consegue ser agora Elisa.
o sonho trouxe-me de volta Elisa e o nome da obra. valeu a pena dormir pouco, hoje valeu a pena dormir pouco. hoje começa, em ganas e fúria, neste ataque concreto e profícuo de maníaca ansiedade primaveril (síndroma que cada vez estou mais certo possuir), a obra: Farewell Elisa Promenade.
ainda bem que voltaste, Elisa. não vou deixar-te partir de novo.
(este verde rima com promenade) é primavera, senhores, e eu não páro!

Sunday, May 14, 2006

uma conclusão

se o mundo é isto: um mar revolto de vontades arbitrárias.
eu sou: uma jangada insolente (mas nunca muda)!

nada

nada, quero nada de ti.
já alguém te pediu algo tão concreto?
quando fores grande vais lembrar-te de mim!
e vais saber o que é o aqui e o agora.
vais viver!

Saturday, May 13, 2006

medula parties vs coração e o nome

não retenho os nomes, retenho as vozes.
estico os cheiros, ficam-me nas mãos; este ficou, nos dedos (falanginhas e falangetas) da mão direita.
mão direita, lado direito: onde não está o coração.
não retenho os nomes; retenho a espessura dos cabelos e as cores dos dentes (o grau ou ausência de brancura).
processo os timbres das vozes, alojam-se nos meus pavilhões auriculares, mas jamais os arrumo cronologicamente; ecoam conforme lhes apraz.
eu só ouço, com paixão e atenção, as canções que me fazem cócegas na gelatina dos ossos (medula party).
não retenho os nomes, retenho palavras ao acaso e diferentes formas de as pronunciar.
selecciono frases chave para me trazerem, onanistamente ou não, à memória decalques de rostos que me cativaram na escuridão de um qualquer antro.
não retenho os nomes, retenho a forma de acordar, retenho a forma de um abraço, retenho (na lista preguiçosa do telefone) números de telefone, retenho o recolher ritual da roupa para a voltar a instalar no corpo (quase sempre o silêncio, retenho-o também com perícia), retenho o fechar da porta, retenho o dizer adeus (com o lado direito da boca, onde não está o coração).
não retenho os nomes porque sou hieroglífico (nos tempos que correm, bidimensional); vivo a torto e a direito no mundo. apenas sou esquerdino antes de adormecer, quando sinto com a mão esquerda o bater do coração e recito, com o lado esquerdo da boca, a beleza do teu nome.


Wednesday, May 10, 2006

quem és tu?

quase à minha frente, a uma confortável distância.
não fui capaz de tirar os óculos, creio que corei.
olhares cruzados no vidro.
tentei não olhar demais, para não gastar e porque estava em doce choque.
um rosto assim, tão desconhecido e, deliciosamente, tão familiar.
uns olhos que não eram apenas uns olhos. uns olhos que eram os portões de um olhar onde eu consegui viajar milhares de quilómetros.
uma boca assim, tão pronta ao beijo e ao mimo, que denuncia perfeitamente o tardio e arrastado vício da chucha.
maior do que eu, talvez com mais idade.
um embate, de vermelho com vermelho; os dois de vermelho.
tinha um fio de couro com um amuleto quase invisível ao pescoço.
invento um desejo para aquele amuleto.
saiu no marquês, eu continuei imóvel a tentar inventar-lhe também um aroma.
acabei de me apaixonar no metro.
quem és tu?

Sunday, May 07, 2006

esboços inúteis e os anti-neurais

deixou-se andar à deriva, à tona, ao sabor da corrente, porque reaprendeu, nesse fim de tarde, a fazer do mar uma estância de brincar. lembrou-se de quando era criança, as tardes de agosto: nadar e cantar, cantar a nadar, nadar e cantar para tentar falar com Deus. recuperou o método de outrora mas agora Deus não estava presente, no céu que namorava o mar e muito menos dentro de si mesmo.
deixou-se andar, à deriva, tão dormente, e esperou que a noite chegasse. o mar tornou-se uma estância de brincar às escuras.
.....................................................................................................................

hey, hey,
drop your mask now or soon
i'm not your conscience or your devil
but the world is not a ball room

hey, hey,
i'm awake for more than a week
i dream everywhere cose i can
but giving birth can make us sick

hey, hey,
------------------------------------------------------------------------------------------------------------------

hoje estou impróprio para consumo. duas noites longas seguidas deixam a pessoa neste estado:neura.

tenho ouvido incessantemente a minha canção nova. gosto mesmo muito, acho que tem bastante potencial. acho que os làtigo (projecto de música electrónica que eu e o nuno formámos) tem mesmo pernas para andar. o fairyboy também gosta muito da canção, confessou-me estar viciado.

felizmente tenho tinho dois bons anti-neurais: meat to the beat (a nossa nova canção) e o perdurar do embevecimento obtido com o maravilhoso espectáculo do tom zé, na culturgest. genial. aquele homem é, de facto, muito inteligente. o espectáculo, que não é um concerto, como diz o próprio, é uma "sessão de paradoxos". um verdadeiro encontro com o sublime. eu já adorava as canções dele mas vê-lo a interpretá-las e a explicar a origem das mesmas é um privilégio. belo, de heráclito a ezra pound, estimulante e belo. simples e belo.

http://www.tomze.com.br/

Thursday, May 04, 2006

will fades will

you and i,
can't you see?
the perfect set
when you play the rocket
i can always be the jet

you and i,
can't you see?
together in a mutual smile
when i think loud
you stay silent for a while

you and me,
can't you see?
can make these days the best
reaching, teaching,
is this passion or a test?

you and me
can't you see?
could go left or could turn right
my world blooms
when he drink and talk all night

let's walk on this water
this bridge is under construction still
but i count all the minutes
'till your will fades in my will


Tuesday, May 02, 2006

citação sentida

henrique maximiliano dixit:
"deve haver algures o que quer que seja de mais perfeito do que nós próprios, um bem cuja presença nos confunde e cuja ausência nos é insuportável."
in, "a obra ao negro" de marguerite yourcenar

há mais de dez anos que ando com este livro para trás e para a frente e a sua leitura sempre se me tornou difícil, odisseica, impossível. presentemente, mergulho ávida e deliciosamente nos percursos de maximiliano e desse hermético zenão. vicissitudes da idade: a cabeça abre-se, para o pior e para o melhor. aqui está a prova do melhor. recomendo, faz-nos bem.

Monday, April 24, 2006

gus van sant

cada vez gosto mais dos filmes do gus van sant. revi o "elephant" ontem, com o miguel. é brilhante, de facto. ele não filma apenas, ele dança sobre o tempo. o sentido obtuso demonstra-se, na expressão daquele movimento, daquela coreografia, a essência última, e pura, do que é a capacidade/verdade fílmica.
tenho de rever o "gerry".
a cabeça que aquele homem deve ter!

Sunday, April 23, 2006


photo by fairyboy

a portrait song for thee

a poem that, in a few hours, can become a song.
to fairychild (from portugal to iceland).
"it's in the water baby"

a portrait song for thee

with my L issue
in my english spelling
i can make it last in lusty leisure

with this night addiction
and my weak self-caring,
it all stays still with some sort of pleasure

well i am tonight:
a jolly drunkie,
low-fi poet,
supa troopa,
arsonist

i was before:
the horny heart,
the regret sucker
all paradoxal
arty bitch

with my L issue
in my english spelling
i can always reach you; reykjavik

with these poor conditions
and my grammar melting
springs arrival always makes me sick

well i was:
the perfect lover,
head traveller,
lazy brain
in constant twist

half of me is:
huge and tiny,
neurotic schedule,
cursed genius,
onanist

these are, sometimes, words to feel an see
congratulate us
i made my portrait song for thee

i'd like to cross that bridge, i'd like to ride your bike,
napchild,
always catch your fairy golden strike



Saturday, April 15, 2006

3 anti-heróis

é durante aquele espaço de tempo que precede, ou intercala, o sono (deve ter um nome técnico, científico, mas eu não sei) que eu invento os meus anti-heróis.

O primeiro (inventei-a há alguns meses), é a Travequinja, o segundo é a Mikado Girl e o terceiro é a Pocket Demon.

mas agora não posso falar sobre isso, falo depois, agora chegou a caty. estamos na conversa. e depois tenho de ir comprar vinho e ir para casa do miguel para o jantar com o paul auster. não resisti a escarrapachar isto aqui. JANTAR COM O PAUL AUSTER.

Monday, April 10, 2006

para sentir no futuro

fingi que acordei para me lembrar o quão contrário o teu beijo era a espremer limões.

Thursday, April 06, 2006

um desejo forte

muèstrame tu lengua!

Monday, April 03, 2006

segunda-feira

nada como começar a semana cedo e a dar uma auto-insufladela no ego. depois de ler a redacção anterior:

vou fazer carpaccio do meu coração para alimentar putas e ricos.

fuck, sou mesmo um génio. só esta frase, num mundo mais dinâmico e interessante, noutro tempo e, definitivamente, noutro espaço, dar-me-ia direito a uma bolsa vitalícia de criação livre e onanista.

Tuesday, March 28, 2006

o acto da primavera

queres vir comigo?
vou pintar as unhas a animais ferozes!
vou guilhotinar a minha cabeça na boca de um crocodilo!
vou encantar uma legião de serpentes!
vou provocar choques em cadeia numa estrada nacional!
vou banquetear-me com os abutres!
vou rir-me com as hienas num talk show semanal!
vou discursar para as paramécias!
vou dormir com os inimigos!
vou fazer carpaccio do meu coração para alimentar putas e ricos!
queres vir comigo?
vou fazer nada, vou derreter o interior da cabeça perante o sol que não aquece nem vale a pena!
queres vir comigo?
vou espirrar, tenho alergia a portugal!



Friday, March 17, 2006

long thursday

(estou há vários anos para concretizar isto que há-de ser uma canção que hei-de cantar. hoje senti, mais ou menos, isto, a letra que trauteio para mim mesmo de uma canção que ainda não tem melodia mas que hei-de vir a cantar. isto nada tem de passional, nada.)

should i? tell me, should i? ah, ah, ah.
just like me, as far as i can see, you're just like me.

money and sperm make the world turn
money and sperm made my house burn

money and sperm make the world turn
money and sperm made me want to learn.

money and sperm made to happen this storm.
money and sperm made my heart warm.

it's me and the fucker,
oh, it's me and the fucker

it's me and this sucker
oh, it's me as a sucker.

divertes-me, não mais do que isso, não sabes nada do que escrevo. falas demais eu ouço, gosto de ouvir e tu és mais um acidente. ganhei mais um amigo, sei que sim, divertes-me. vim-me embora sem te agradecer, não foi por mal. obrigado por hoje, diverti-me. divertiste-me porque eu gosto de ouvir. nada disto tem a ver com dinheiro mas todas as nossas conversas (e acções) vão dar ao dinheiro. as surpresas do mundo, fazem-me rir (e a ti também), as surpresas do mundo. rir, rir.

não te disse, nem to direi, desmontaste-me a cama. montei-a a rir, hoje à tarde, antes de irmos rir mais uma vez. divertes-me, não mais do que isso e eu preciso de rir para além de mim. obrigado, pelo dinheiro que gastaste para nos fazer rir. quem diria que te havia de conhecer? o mundo é pequeno e o riso é tão fundamental. nada disto é passional.

Thursday, March 16, 2006

as canções

as canções, ah as canções, colecciono-as. as canções fazem tanto parte de mim como eu me pertenço a mim mesmo. uso-as, abuso-as (pois, sempre as canções como referência), sinto-as. servem para tudo, as canções. há alturas e situações da minha vida em que não me apetece expressar-me por mim mesmo: apetece-me, nessas alturas e situações, instalar canções. apetece-me ser uma juke box andante, creio que o sou. em quase tudo o que me acontece há sempre uma canção que se instala como se fosse uma tela sobre a qual a minha vida se pinta. vivo audiovisualmente, em sons e em imagens, vivo em videoclip.
receito e recito canções a mim mesmo, aos amigos, amantes e desconhecidos. estou sempre a trautear. quando descubro uma nova canção que me fascina apetece-me instalar a mesma no mundo. gostava que todo o mundo estivesse dentro dos meus headphones. está, às vezes está, eu sinto, eu sei que o consigo. apetece-me fazer espectáculos em que não se fala, só se canta, ou só se faz acontecer sobre as canções. deve ser por isso que gosto tanto de espectáculos de travesti, por est@s trabalham sobre as canções. as canções são trágicas, são cómicas, são tragicómicas, infinitamente finitas. são minhas, as canções, passam a ser-me e passam a ser tudo o quero e posso dizer: adequamo-nos. (hei-de voltar a este assunto mais tarde, há muito e mais, profundamente, por dizer/escrever).
segue-se a letra da canção em que estão neste momento três pessoas viciadas, eu sou uma delas. fui a última pessoa a conhecer a mesma mas sou o mais viciado. sou excessivo, eu sei e gosto.
"It Can't Come Quickly Enough" by Scissor Sisters
Sailling through the tunnels
In the morning by yourself
There's a very special feeling
True sensation all is well
If you stand and reach your arms out wide
Close your eyes and try to fly
It's an underground illusion
Tricking you from side to side
We knew all the answers
And we shouted them like anthems
Anxious and suspicious
That God knew how much we cheated
It can't come quickly enough
And now you've spent your life
Waiting for this moment
And when you finally saw it come
It passed you by and left you so defeated
Skyscrapers rise between us
Keeping me from finding you
If the concrete architecture
Dissapeared there'd be so few
Of us left to navigate and
Defend ourselves from the tide
It's an underground illusion
Tricking you from side to side
There's no indication of
What we were meant to be
Sucking up to strangers
Throwing wishes to the sea
It can't come quickly enough
And now you've spent your life
Waiting for this moment
And when you finally saw it come
It passed you by and
Left you so defeated
(quando a ouço, e ouço-a muitas vezes, apetece-me sorrir, beijar, viajar, embater, chorar e foder. tudo ao mesmo tempo, apetece-me tudo ao mesmo tempo, GANDA canção.

Saturday, March 11, 2006


e mai nada. mai nada. nada.

antes de dormir, fizeram-me bem

e onan diz, de si para si mesmo, como se dois demónios houvesse:
não te desejo mais do que todas as vezes ou todas as carícias do mundo. sei que as tens, precisas-te tu. não te preciso, imaculado, sei que não vens, precisas-te tu. estou a morrer de fome, entrecortado, sei que não tens, nasce-te tu. sou entrefeito, exasperado, sei que não vês, faz-te tu. sou de vidro, fosco e quebrado, estilhaçado, martela-me tu. morro e remorro, em mim sepultado, nascido e nado, em ti e em tu.
há-de haver um dia em que tudo te parecerá fosco, imóvel, irretornável, findo. nesse dia o espelho será o teu único interlocutor, vais rir-te, eu também me ri, e vais sentir-te detentor do princípio da criação. vais devorar tudo o que existe na cozinha, como se o mundo fosse acabar agora e como se a tua fome fosse um vendaval de vontade e de finito. finitei-me aqui, em ti.
e eis que onan é interrompido
elas fizeram-me bem, as adolescentes na cozinha, a madalena e amiga, fizeram-me bem. fizeram-me relatos da sua juventude. falaram-me de curtes e de rapazes da portela. e de problemas do enlace, do alto dos seu 17 anos, dos desencontros na discoteca, fizeram-me bem. estou tão próximo, fizeram-me bem, queremos o mesmo, fizeram-me bem. vamos dormir, fizeram-me bem.
afinal as miúdas tinham dois cigarros, fizeram-me bem.
tenho de ir, fizeram-me bem.
estou mais do que vivo, fizeram-me bem.
ainda não morri, reaprendo o riso, fizeram-me bem.
é uma dádiva, isto de ter cabeça, faço-me bem.
tu não me matas, nasço-me contigo, far-me-ei bem.
NÃO, EU AINDA NÃO MORRI. VIVO-ME, VOLÁTIL, BEM.