Wednesday, February 13, 2008

apenas jardim - Menina Bonsai



Menina Bonsai
Está bem, vou decifrar-te, então, a quadra que teimas em designar de enigma.
Primeiro verso: as crianças são alarmes prontos a disparar.
Com a tomada de consciência das falácias dos sistemas morais, sociais, políticos, filosóficos e religiosos das sociedades capitalistas, as crianças vão, num futuro muito próximo, aperceber-se da dimensão do seu próprio poder nessas mesmas sociedades. Vão autonomizar-se e organizar-se entre si; formarão sociedades secretas que se afirmarão como simulacros das sociedades dos que eles chamarão “os graúdos”; quase à semelhança do que William Golding descreve na sua obra “O Senhor das Moscas”. Essas infanto-sociedades serão, no entanto, altamente subversivas e entrarão em choque e inevitável confronto com as formas comuns de poder instituído. Miúdos e graúdos, e seus respectivos governantes, entrarão numa guerra sem precedentes na história da Humanidade e a partir daí todo o sistema de valores morais, sociais, políticos e filosóficos será reformulado. Os grandes derrotados dessa guerra serão os miúdos e estes tornar-se-ão fontes de informação e poderosas armas de controlo do resto da população. Viver-se-á, em todo o ocidente, sob a jurisdição de um regime totalitário que regerá todas as nações. Chamar-se-á Uno Tenore e as crianças serão a grande arma desse regime. Serão elas os permanentes alarmes. Todo e qualquer ser adulto terá de estar em permanente contacto com, pelo menos, uma criança. Essa criança será o seu regulador moral e avaliará constantemente o grau de subserviência ou, pelo contrário, de rebelião que o adulto manifesta em relação ao regime. As crianças serão os grandes examinadores e estarão permanentemente a testar os cidadãos. Avaliarão um adulto mediante o teor de informação que este lhe transmite, avaliando também a qualidade dessa informação. Avaliarão, portanto, o grau de conhecimento do adulto e a conformidade que este apresenta relativamente às normas de conhecimento vigente - o chamado Uno Gnôsis. Qualquer dado minimamente desviante será detectado pela criança e imediatamente endereçado ao Comité Único que se encarregará de abrir um inquérito para avaliar o grau de desvio que o sujeito apresenta relativamente ao conhecimento definido, estipulado e imposto pelo Uno Tenore. Caso o grau de desvio seja inferior a 25% o sujeito sofrerá apenas um refresh ontos e poderá retomar a sua vida normal, apesar de ficar cadastrado. Se o grau de desvio do sujeito estiver situado entre os 25 e 50% ser-lhe-á imputado o delito de subversão e aplicado um finis praxis. Ou seja, o sujeito será impedido de formular qualquer empresa subjectiva. Após essa medida ser aplicada, o sujeito, passará, então, por todo o processo de nouveau self e trabalhará directamente para o Comité Único como formador de Uno Gnôsis. Caso o grau de desvio de gnose seja superior a 50% o sujeito será pura e simplesmente deleted, ou seja, apagado.
O segundo verso da quadra preende-se com o amor. Diz: controlam os adultos pela qualidade do amor que estes estão a dar.
As crianças avaliarão não a quantidade de amor que um adulto lhes devota, e por conseguinte a tudo o resto, mas definirão, isso sim, a qualidade desse amor. Os três graus de qualidade de Uno Love serão: mau, bom e óptimo. Se o Uno Love for mau o sujeito será imediatamente infatuated, pois não apresenta níveis de amor e devoção suficientes para com Uno Tenore e, logo, não será um bom obreiro. Se o Uno Love for bom e estável, então, não há qualquer alarme; o indivíduo é afim, devoto e conforme e, por conseguinte, um bom obreiro. Se o Uno Love for óptimo o sujeito será isolado e ser-lhe-ão ministrados love depressors, pois apresenta graves tendências para a dissonância, exacerbamento, subversão, pedofilia, lirismo, e fracas capacidades obreiras. Em caso de confirmação de perfil pedófilo, dissonante ou lírico, o sujeito, será imediatamente deleted.
Os restantes versos: "neste grande inquérito somos todos iguais e obrigados a responder" e "as crianças são alarmes: obrigam-nos a ser o que devemos ser", falam por si mesmos e apenas sintetizam tudo aquilo que acabo de explicar.

Monday, February 04, 2008

apenas jardim - Contrabaixo
























"Contrabaixo
(voz forçadamente rouca e austera; cita o pai)
Meu filho, acorda e ouve-me com toda a tua atenção. Decora cada uma das minhas palavras e recita-as para ti em cada um dos dias da tua vida. Jamais voltarás a ouvir-me dizer estas palavras, a não ser, claro, na tua memória.
O que está em cima é como o que está em baixo e o que está em baixo é como o que está em cima.
Hoje é o dia em que se completam sete anos desde que o mundo te conheceu e desde que tu começaste a conhecer o mundo.
Sete anos, sete.
Sete são os dias da criação do mundo.
Sete são os dias da semana.
Sete são os selos e as trombetas do apocalipse.
Sete são os pecados capitais.
Sete são as maravilhas do mundo.
Sete são os sábios da Grécia.
Sete são os braços da Menorah.
Sete são as notas musicais.
Sete são os palmos da sepultura.
Sete são as belas-artes.
Sete são as colinas de Roma.
Sete são as chagas de Cristo.
Sete são os astros sagrados.
Sete são as cores do arco-íris.
Sete são os elementais.
Sete são as vidas de um gato.
Sete são os chakras.
Sete são as virtudes cardinais humanas.
Sete são os orixás na Umbanda.
Sete são as cidades sagradas da Índia.
Sete são as igrejas da antiguidade.
Sete são os sacramentos.
Sete são os anões da branca de neve, meu filho.
Sete são as pragas sobre o Egipto.
Sete são os castigos de Caim.
Sete: o número cabalístico do ciclo e da harmonia.

E tu, meu filho, ao completares sete anos de vida fechas um ciclo da mesma. Fechas o ciclo da verborreia. A partir de agora terás de ter muito cuidado com as palavras. Vais ter de aprender a usá-las com conta, peso e medida. Tens de passar a empregá-las com economia e discernimento, com responsabilidade. As palavras podem ser os teus grandes defensores mas podem, muito mais facilmente, tornar-se os teus grandes inimigos. As palavras, quando usadas com displicência, ineficácia ou leviandade podem arruinar-te por muito e muito tempo. As palavras podem acabar contigo e não só aos olhos dos homens mas também aos olhos de Deus. Deus está sempre a ver-te, não te esqueças disso. Por isso, meu filho, escuta e interioriza as palavras sábias de teu pai. E lembra-te sempre: o segredo para uma vida serena, santa, é ouvir muito e falar pouco."
excerto de "apenas jardim"
o jardim cresce, apresenta-se fértil.

Tuesday, January 22, 2008

começou a jardinagem












Jardim
(fitando a audiência) Conheces aquela teoria que defende que quando estamos a dormir abandonamos o nosso corpo e derivamos para outro local? Certamente já ouviste falar. Foi o judaísmo que inaugurou e defendeu, primordialmente, essa premissa. No Islão existe, igualmente, a mesma crença. Segundo os islâmicos, quando estás a dormir, a tua alma deposita-se nas mãos de Alá. Ali permanece durante todo o teu sono. Se Alá a reclamar para si morrerás e não regressarás à vigília. Se ele adiar essa decisão, então, devolver-te-á à vida e far-te-á acordar.
Há, entre os praticantes de viagens e projecções astrais, quem defenda que o grande responsável pela cisão entre a tua alma e teu corpo durante o teu sono é a Lei de Coulomb. Segundo Coulomb o módulo da força entre duas cargas eléctricas punctiformes é directamente proporcional ao produto dos valores absolutos das duas cargas e inversamente proporcional ao quadrado da distância r entre elas. Esta força tanto pode ser atractiva como repulsiva, dependendo do sinal das cargas. É atractiva se as cargas tiverem sinais opostos. É repulsiva se as cargas tiverem o mesmo sinal. Ora, dizem os especialistas em viagens e projecções astrais, quando adormeces esta lei toma conta de ti e surte o seu efeito, assumindo o controlo do todo o teu ser. Porque quando adormeces o teu corpo entra em relaxamento e a intensidade das tuas ondas cerebrais desce drasticamente. Isso vai alterar a polaridade magnética do teu corpo; normalmente o teu corpo tem uma carga mais negativa mas, durante o teu sono, isso vai inverter-se e ele vai passar a ter uma carga positiva. A tua alma, por outro lado, tem uma polaridade positiva constante. Assim, quando a intensidade das tuas ondas cerebrais se altera, durante o teu sono, tanto o teu corpo como a tua alma se apresentam com polaridades positivas. É aí que entra a Lei de Coulomb. E acontece exactamente isso que estás a pensar. Ambos, corpo e alma, o teu corpo e a tua alma, se vão repelir. Neste cenário de repulsa a tua alma vai manifestar uma natural inclinação para abandonar o teu corpo e vai acabar por fazê-lo efectivamente.
Já percebeste então o que estou a querer dizer-te? Sim, este é o espaço para onde a tua alma, ou, se quiseres, a tua psy-khé, o teu eu consciente, o teu ser vivente, o teu yang, o teu atman ou, simplesmente, a tua mente, vem. É para aqui que vens no preciso momento em que adormeces e exactamente antes de acordares. É por aqui que passas quando partes para os sonhos e quando regressas deles. É aqui que deixas os resíduos do mundo real e do onírico. E esses resíduos são o que aduba este jardim. Esta é a tua passagem, secreta, apenas tua, ou melhor: era a tua passagem. O que agora vês é apenas o cenário da tua ausência.
excerto de "apenas jardim".
estreamos a 13 de março.
a aventura jardinesca ainda agora começou.
haja força e adubo, em nós, sobretudo em mim, para esta jardinagem.

Monday, January 07, 2008

oh what a world

"Oh, What A World", by Rufus Wainwright

Men reading fashion magazines
Oh what a world
It seems we live in
Straight man
Oh what a world
We live in

Why am i always on a plane or a fast train
Oh what a world my parents gave me
Always
Travelin' but not in love
Still i think i'm doin' fine
Wouldn't it be a lovely headline

Life is beautiful on a New York Times

Men reading fashion magazines
Oh what a world
It seems we live in
Straight man
Oh what a world
We live in

Why am i always on a plane or a fast train
Oh what a world my parents gave me
Always
Travelin' but not in love
Still i think i'm doin' fine
Wouldn't it be a lovely headline

Life is beautiful on a New York Times

Oh what a world we live in
Why am i always on a plane or a fast train
Oh what a world my parents gave me
Always
Travelin' but not in love
Still i think i'm doin' fine
Wouldn't it be a lovely headline

Life is Beautiful

(estou viciado nesta canção. tenho de a ouvir todos os dias, pelo menos, ao acordar e ao deitar. isto quando não a ouço em loop enquanto durmo. sei que é com ela que vai acabar o espectáculo que vou começar a ensaiar de hoje a uma semana. tenho esta semana para o acabar de escrever. nervos e intermitência na inspiração. que a santa rufulina me ajude e inspire!)
ao vivo:

Sunday, December 23, 2007

fim deste dia

eu sou o rickshaw insonorizado que te leva até ao centro nevrálgico da tua preciosa estupefacção. vamos cantar por aí? vamos desafinar lisboa, deixar sulcos, cravados, unha a unha, nas fachadas dos prédios, vamos implantar a verborreia! quero a escrita fina e a escrita normal em bic laranja e em bic cristal. vamos bicar por aí? com a força da garganta; vamos morrer nas ruas ao ralenti. acorda-me agora, de mansinho, com o calor menino das tua falangetas, toca-me, ao de leve, nas pontas das pestanas e dá-me uma razão para esta manhã ser mais manhã.
roga-me as pragas que quiseres e precises e achares. centra-te em mim. faz-me uma salada de frutas antológica. vê o mundo, sobe às árvores e serve-me a proibição, juntamente com a tua cabeça, numa bandeja de prata ou de plástico de uma loja de chineses. vai aprender outras línguas e fala-me delas. apresenta-me a fonética e o toque e a esperança. traz-me novidades e lendas. lembra-te de mim quando a tua vida correr perigo.
ouve-te cantar, por mim.torna-te o aprendiz e o feiticeiro. vai aprender a dominar, e a explicar, sim, a explicar, o onde, o quando, o como e o porquê do feng shui.
vai a roma, vai a pavia, vai à lua e à mouraria. vai ver a campa do jim morrison, vai ver o papa, vai espetar a tua cabeça numa estaca. vai à tropa, vai à muralha da china, faz o teu halloween com uma abóbora menina. vai à grécia e ao taj mahal, vai ver um quadro do marc chagall. vai ao circo e à suíça, se estás careca: cabeleira postiça. vai à escola, à universidade, vai ver o rosto da felicidade. vai de comboio, vai de avião, vai atravessar o rubicão. vai ao kosovo, aprender a ler, vai e volta, vai-te foder.
pronto, agora que fiz a descarga verborreica. agora que expeli o excesso das palavras, agora que toquei na facilidade; agora sim, posso ir masturbar-me e tentar dormir.

Friday, December 14, 2007

sobre a transnaturalidade e o conhecimento

um dia perguntei-lhe:
quem és tu?
fartei-me dessa, tão recorrente, rebuscada, retorcida, reciclada, ridícula, visão.
quem és tu? responde-me, foda-se, responde?
ficava horas e horas, dias e dias, meses e meses... anos não sei, a minha contemplação não ultrapassou os trezentos dias. mas ficava, portanto, muito tempo, demasiado tempo, diga-se, a receber pelo revestimento epidérmico toda e qualquer informação que o que julgava ser o exterior lhe pudesse facultar.
sim, pode dizer-se que se tratava de uma esponja.
natural? não, não vejo tal criatura como uma esponja natural. digamos que era, antes e acima de tudo (mas não acima de qualquer suspeita), uma esponja transnatural. tinha as motivações, as aspirações, as experiências, os desejos, as conclusões, em suma, o conhecimento transduzidos em magabytes; era uma criatura que se apresentava profundamente recolectora, uma criatura que respigava.
uma vez perguntei-lhe:
ouve lá, tu respigas o respirar?
piscou os olhos duas vezes, o sinal irrefutável de que a indignação se apoderara dos seus circuitos (a criatura não tinha exactamente circuitos, ainda não conseguira ser biónica; mas a metáfora aplica-se), clicou duas vezes no rato do laptop, pigarreou e procurou o significado de coprofagia no wikipedia.
o pior era a chuva; esborratava a tinta das suas paredes e das suas roupas, repletas de anotações e anotações.
o pior era a tempestade; a electricidade desistia do abastecimento e a criatura chorava a incapacidade e falsa verdade da autosustentabilidade das baterias de iões de lítio.
o pior foi mar; a criatura não lhe soube definir a cor e afogou-se nesse desconhecimento.
interrogou-se:
relativamente a mar, o que diz o wikipedia? blup, blup, blup, blup, blllllluuup, blllll
não aprendi a tempo. não aprendi com tempo. não aprendi (pensava a criatura enquanto morria).

Friday, November 16, 2007

zidane e jim black

apesar da grande curiosidade, ainda não tive oportunidade para ir ver "zidane". mas, pelo que fui lendo, acho a ideia muito boa. acho um exercício assertivíssimo. não posso mesmo deixar de ver. agora, acharia também muito interessante e assertivo que um projecto muito semelhante fosse desenvolvido em torno do jim black. a ideia surgiu-me há duas noites durante o concerto do projecto de ellery eskelin no cabaret maxime.
é impressionante observar o jim a tocar, é uma experiência, realmente, enriquecedora para todos os sentidos. é comovente a forma como ele explora ao limite o instrumento (bateria) e como é de limite a relação simbiótica que o seu corpo cria com o mesmo. a forma como o ritmo se instala, multiplica, divide, fragmenta em cada um dos seus membros é algo que nos deixa perplexos e desarmados. apetece mesmo ver toda a sua performance decomposta, filmada exaustivamente, complusivamente e degustá-la, em diferido, em tempo real, high motion e, sobretudo, ao ralenti.
percebe-se de facto, percebi agora eu, porque é que o jim black está há quatro anos em digressão pelo mundo. o mundo precisa de o ouvir e, essencialmente, de o ver.
cheers, mate.

http://home.earthlink.net/~eskelin/

http://www.jimblack.com/events.html


http://www.myspace.com/alasnoaxismusic

Wednesday, November 14, 2007

o autor desnaturado

meu queridíssimo, amadíssimo, estimadíssimo, fundamentalíssimo, diário:
fizeste três anos no dia oito de novembro e eu, autor desnaturado que sou, nem te congratulei (como sabes, a lembrança de datas de aniversários constitui um dos meus calcanhares de aquiles) . mil perdões e

MUITOS PARABÉNS!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

prometo que, para te compensar, durante este teu novo ano vou tentar ser mais produtivo no sentido de te enriquecer. prometo ainda algum esforço para que surpresas agradáveis te possam ser apresentadas em jeito de oferenda.
prometo tratar melhor de nós. prometo ser menos desnaturado. prometo não ter de voltar a prometer.

do sempre teu,
onan

Wednesday, November 07, 2007

choque

deixou uma vez mais, com a mente e nada mais do que a mente, que o talher se fizesse repousar sobre o dia de água. manteve intacta e serena a linha da boca e percorreu, segundo a segundo, o primeiro aviso que as suas células entre si fizeram aquando da visão de tão chocante criatura. o choque terá de ser encarado como um bom choque; o choque é um acontecimento feliz e, por isso mesmo, assim se pretende que continue.
não é todos os dias que as vidraças sucumbem à minha passagem - disse-me.
eu sei - disse eu, enquanto lhe lambia as falangetas.

anoiteceu. dormimos na rua ou em minha casa? dormimos? na minha rua ou em tua casa, acordados, tanto faz, desde que os dias não deixem de ser de água, desde que as sirenes não se calem, desde que não se dilua no ar esta pequena e estrondosa vontade de nos vermos a ouvirmos falar.
no chão, no tecto, nos esgotos, no telhado, debaixo das unhas: o choque.

não é todos os dias que as vidraças sucumbem a esta espécie de namoro - disse-me.

eu sei - não disse eu; sinto.

Wednesday, October 31, 2007

halloween statement

burn alive all motha fucking witches.
let starve, 'till death, all psycho bitches.
don't forget to listen to the teaches of peaches.

Saturday, October 20, 2007

saturday afternoon fever

querido diário:
não escrevo em ti há tanto tempo que ainda nem me tinha apercebido que o blogger tem melhorias no seu funcionamento.
não escrevo uma linha há semanas.
tenho uma dor estranha, desde segunda-feira, na direita baixa da zona abdominal. não é bem uma dor; é uma presença. um incómodo. acho difícil conseguir ir ao médico na próxima semana porque vou estar sempre a trabalhar (filmagens, id, bar, projecto das noites brancas, etc).
sábado à tarde: apetece-me andar de barco, comer cornetos de morango e castanhas, silêncio e um beijo teu em contraluz.

(preciso de viajar e fazer música).

Tuesday, September 18, 2007

the songs between us

the songs between us;
there where always dozens, hundreds and thousands of songs between, in and within us.
between you and me the songs and you mean many as the songs; almost as many as every single word in every single song; or all the words in all the songs together.
you and me together.
the songs between us as the nights and the days between us and all of our ages, and rages and emotional cages.
tonight i can´t sleep, again, and i can´t find any song to comfort me.
and i can't find or feel any of the many of you.
the songs between us, between you and me, are tonight a promised land for past or future memory.
this silence between me and me can tonight be the measure of the time i devoted to songs; devoted to thee.

Wednesday, September 12, 2007

estreamos dia 14: "se não me dás um revólver, ao menos tem pena de mim"



O revólver de TCHEKOV, em Sintra.
Completando o “Roteiro da Intemporalidade” iniciado em 2005 e dedicado aos três grandes dramaturgos que marcaram a passagem dos séculos XIX para o XX, Strindberg, Ibsen e Tchekov, a Companhia de Teatro de Sintra / Chão de Oliva vai apresentar dois espectáculos, baseados em obras deste último autor.

“Se não me dás um REVÓLVER, ao menos tem pena de mim” parte da fusão dos textos “Um Pedido de Casamento” e “O Trágico à Força”, incluídas do chamado grupo das “pequenas peças”, onde o fio dramatúrgico passa pela força dos temperamentos, o convencionalismo cerimonioso e ridículo, as regras impostas pela sociedade, tão “normais” e tão normalmente ridículas…

Esta 55ª produção da Companhia de Teatro de Sintra / Chão de Oliva, tem estreia marcada para o próximo dia 14 (ante-estreia a 13) na Casa de Teatro de Sintra, mantendo-se em cena até 14 de Outubro com representações de quinta a sábado às 21,30h e domingos às 18h.
São intérpretes Nuno Correia Pinto, Pedro Cardoso, Hugo Amaro, Sónia Louçada e Fernando Figueira; a fixação do texto, dramaturgia e encenação é de João de Mello Alvim.

Monday, September 10, 2007

um dos sintomas bons de sentimento oceânico

"Os mais poderosos incidentes de beleza são os que sentimos como descobertas pessoais, os que parecem destinar-se especificamente a nós, como se uma inteligência imensa nos tivesse escolhido e quisesse mostrar-nos algo."
michael cunningham in, "dias exemplares"
já por diversas vezes tenho exprimentado exactamente o que o michael cunningham descreve. nunca o tinha expressado por palavras; tinha-o sentido apenas. e cada vez com mais regularidade. isso tem reforçado, também, a minha convicção de que tenho a responsabilidade de escrever cada vez mais e com método, disciplina, profissionalmente; o meu verdadeiro trabalho.
descubro que este livro do michael cunningham está repleto de manifestações muito interessantes do chamado sentimento oceânico (debatido por freud e romain rolland) em que tenho andado ultimamente a pensar. e eu acho que a arte pode ser o grande repositor do desconsolo primordial do eu nesse processo. e acho isso bom. e gosto te sentir isso, por muito patológico que seja; por muito errado que esteja.

Monday, September 03, 2007

statement

o meu sonho é viver num país inventado pela pipilotti rist e governado pela annie sprinkle.

Thursday, August 30, 2007

breaking glass

ele colocou o dedo indicador da mão esquerda sobre o rebordo do copo; fê-lo tombar e observou-o, plácida ou, julgar-se-ia, pela expressão que o rosto apresentava, friamente a rebolar mesa fora até no chão se estilhaçar.
ela sorriu e fez o mesmo.
nessa noite não mais falaram; nem na seguinte, nem na noite que sucedeu a essa. na verdade, jamais voltaram a trocar uma única palavra.
o amor que os une passou a ser isso: os dedos indicadores, o som do vidro a partir, cacos no chão e um abraço permanente, profundo, amigo, quente e impressionantemente resistente; amor à prova de choque, abrigo eterno das tempestades que as bocas geram antes, durante e depois das palavras.
partem tudo por onde passam; há quem os tema, quem os abomine, quem os ature e quem deles zombe. partem tudo por onde passam mas todos sabem que o fazem porque, numa noite há muito ida, decidiram, em conjunto e em silêncio, jamais partir o coração um ao outro.

Monday, August 27, 2007

narciso (contre-plongé)

serei eu quem contempla as estrelas ou serão elas quem, lá do alto, me vigia?
certo estou de que:
cada vez que uma cadente se torna e no vazio se precipita
é porque um abraço meu tenta, pois à distância não resiste.
ou:
de me mirar se cansou e de ser estrela desiste.

Wednesday, August 22, 2007

a sobriedade

era assim, convicto de ter a pele coberta pela realidade da claridade,
que se atrevia a percorrer os labirínticos caminhos que o levariam à sua,
muito aspirada e verdadeira, verdade.

era assim - um olho aberto e um outro fechado - ao fim da tarde
que fazia a consulta aos arquivos, dóceis e ásperos, abertos
nessa sua tão tenra idade.

era assim, semi-perdido/semi-achado, impotente na fugacidade
que tentava decifrar -boca a boca-
o palimpsesto que descobrira ser a moralidade.

é assim, numa tarde de agosto,
que se escreve - de mudar, de reler, de ver, de querer- a vontade.

é isto a que chama a sua sobriedade.

Tuesday, August 21, 2007

um retrato de onan






um retrato de ricardo batista

Saturday, August 18, 2007

a solidao feia do homem bonito - 7

decisão:

cinco intépretes, cinco homens: 22, 33, 44, 55, 66


a cada um dos homens corresponderá um, ou mais, dos elementos/símbolos


22: vespa (os olhos)

33: frigorífico (o coração)

44: fogão (o cérebro)

55: revestimentos dos símbolos/embrulhos dos mesmos/citações de christo e jeanne-claude (pele)

66: maçarico/cordas (nervos), escadote (memória)


frase comum a todos:

no fundo, no fundo, sou um homem bonito a quem nada realmente feio ou bonito acontece.



configuração:

entra a cena e o público há um quarto de uma quarta parede. uma faixa, da largura da "boca de cena", com cerca de 1,5m de altura em acrílico.
o chão da cena está coberto com bolas de esferovite (cerca de um metro de altura).

as paredes: ainda não sei.


pensar:

na antiga ideia de total ausência dos sentidos, na tetraplegia, na funcionalidade apenas do orgãos vitais. o cérebro encarcerado; a lucidez mais pura; a terrível prisão. o tempo todo para a cogita. finis praxis.