está decidido; o homem é bonito e a solidão é feia.
novo elemento: um motociclo, uma vespa encarnada ou azul turquesa.
o homem bonito alimenta-se de filmes italianos.
isto não é um monólogo.
trabalho a fazer: pesquisar a história da vespa e a importância da mesma na sociedade e cinema italianos. fazer uma procura detalhada das campanhas publicitárias realizadas pela marca nas décadas de 50, 60 e 70.
subjects: repescar a ideia de fridge buzz in the summer quiet afternoons que me assola há meses e me remete para os bons momentos de infância passados em casa dos meus avós maternos. os sons da infância, os pequenos elementos pós-uterinos. a quietude de se ser pequeno e a tormenta de ainda não se ser suficientemente grande. a suspeita da criança relativamente ao peso do mundo. a criança que sofre por antecipação. a mediunidade da criança só.
Monday, August 06, 2007
Sunday, August 05, 2007
o título
a solidão bonita do homem feio, ou: a solidão feia do homem bonito.???
esta é a minha presente dúvida. e é exactamente esse esclarecimento que decidírá o título da peça de teatro que pretendo escrever. e definirá , muito concreta e taxativamente, o miolo (comecei a fartar-me do vocábulo: conteúdo) da mesma.
estou mais inclinado para o homem bonito, confesso. gosto mais dessa solidão.
elementos: um fogão muito velho, um frigorífico muito velho, um escadote muito velho (cheio de tinta), um maçarico novo e um homem bonito. bolas e mais bolas de esferovite. um homem bonito e a verborreia.
a articulação dos elementos não revelo, nem a relação da "boniteza" com a "feieza" da solidão.
o meu laptop está sem carregador, está portanto comatoso, escrevo no do meu irmão. como perdi o gosto pela "manuscritura" (apesar de ter trazido para o algarve o caderno lindo e tosco que comprei em fort kochim) decido usar o meu diário como bloco de notas.
não é a primeira vez; jamais será a última.
(ainda irei pensar no peso que tem a última frase que acabo de redigir).
feio? bonito? feia? bonita? soli dão, ão, ão, ão. (pode, mas não tem porque, rimar com laptop do irmão).
esta é a minha presente dúvida. e é exactamente esse esclarecimento que decidírá o título da peça de teatro que pretendo escrever. e definirá , muito concreta e taxativamente, o miolo (comecei a fartar-me do vocábulo: conteúdo) da mesma.
estou mais inclinado para o homem bonito, confesso. gosto mais dessa solidão.
elementos: um fogão muito velho, um frigorífico muito velho, um escadote muito velho (cheio de tinta), um maçarico novo e um homem bonito. bolas e mais bolas de esferovite. um homem bonito e a verborreia.
a articulação dos elementos não revelo, nem a relação da "boniteza" com a "feieza" da solidão.
o meu laptop está sem carregador, está portanto comatoso, escrevo no do meu irmão. como perdi o gosto pela "manuscritura" (apesar de ter trazido para o algarve o caderno lindo e tosco que comprei em fort kochim) decido usar o meu diário como bloco de notas.
não é a primeira vez; jamais será a última.
(ainda irei pensar no peso que tem a última frase que acabo de redigir).
feio? bonito? feia? bonita? soli dão, ão, ão, ão. (pode, mas não tem porque, rimar com laptop do irmão).
Tuesday, July 03, 2007
b.i.
o meu b.i, expirou há mais de um mês; ainda não fiz a ponta de um corno para o renovar. não me apetece.
hoje decidi que iria arrumar algumas coisas, in and out: finalmente ir às finanças para tratar da porcaria dos imis em atraso e conceber o plano de pagamento faseado (done), limpar e arrumar o quarto (parcialmente done: a roupa de cama foi mudada, aspirar fica para outro dia, quando a sinusite mo permitir, arrumar a bagunça na secretária e no estirador foi tarefa, uma vez mais, adiada porque a falta de paciência me impediu), opto, para compensar a inconclusão da tarefa anterior, por inventar, e cumprir, uma outra tarefa não prevista: lavar ténis, mochilas e tapetes do quarto (done, a máquina acabou de o fazer), estender (tarefa ainda não cumprida). por ora fica adiada outra tarefa cuja importância, não apenas de hoje mas de há muito tempo para cá é para mim inegável: voltar a mergulhar em "malos aires", o romance que venho a escrever há dois anos. esta tarefa fica, quer parecer-me, por hoje, adiada. opto por regressar ao meu diário, que nestes últimos meses tem sido bastante relegado para um plano pouco classificável e pouco recomendável.
a decisão deste regresso ocorreu-me enquanto andava nesta onda de lavagens e, parciais, limpezas.
numa das playlists do iTunes regresso aos The Killers, ocorre a regressão. há dois anos atrás estava completamente fascinado pelas belas composições destes senhores. e este regresso, imprevisto, hoje fez-me querer voltar ao meu diário. cobriu-me de nostalgia. não que há dois anos atrás seja um tempo que me seja particularmente grato e fácil recordar. a ansiedade é quase a mesma, a insatisfação também, a apreensão é agora maior.
recordo-me de há dois anos andar pelas ruas a ouvir "Somebody Told Me" e "All These Things That I Have Done" aos berros nos headphones e isso me ajudar a atenuar a ansiedade. lembro-me também que quando ouvia a segunda canção que referi ter uma irreprimível vontade de começar a correr pelas ruas sem rumo certo; a recordação que tenho é de ter vontade de correr horas, dias a fio. imaginava, então, o início de um filme em que um homem corre por lisboa desenfreadamente. um homem que corre mas que não foge. um homem que corre porque não se pode dar ao luxo de parar (ao mesmo tempo que se ouve a canção que enunciei). eu conseguia ver a indiferença que era devotada, pelos outros transeuntes, ao corredor; como se fosse normal. o homem apenas tinha uma única intenção: correr tão velozmente que a velocidade conseguida lhe possibilitasse entrar numa outra dimensão, onde correr não fosse necessário. onde correr fosse absurdo. onde correr fosse impossível.
All These Things That I've Done
When there's nowhere else to run
Is there room for one more son
One more son
If you can hold on
If you can hold on, hold on
I wanna stand up, I wanna let go
You know, you know - no you don't, you don't
I wanna shine on in the hearts of men
I wanna mean it from the back of my broken hand
Another head aches, another heart breaks
I am so much older than I can take
And my affection, well it comes and goes
I need direction to perfection, no no no no
Help me out
Yeah, you know you got to help me out
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You know you got to help me out
And when there's nowhere else to run
Is there room for one more son
These changes ain't changing me
The gold-hearted boy I used to be
Yeah, you know you got to help me out
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You know you got to help me out
You're gonna bring yourself down
Yeah, you're gonna bring yourself down
Yeah, you're gonna bring yourself down
[x10]
I got soul, but I'm not a soldier
I got soul, but I'm not a soldier
Yeah, you know you got to help me out
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You know you got to help me out
You're gonna bring yourself down
You're gonna bring yourself down
Yeah, oh don't you put me on the back burner
You're gonna bring yourself down
Yeah, you're gonna bring yourself down
Over and in, last call for sin
While everyone's lost, the battle is won
With all these things that I've done
All these things that I've done
If you can hold on
If you can hold on
(amanhã vou ao arquivo de identificação de lisboa. exigirei que no meu novo bilhete de identidade conste a letra que acabei de transcrever. i mean every word of it.)
continuo a correr, não a fugir.
Monday, June 11, 2007
esta noite inventa-se
esta noite invento sensações.
invento o cheiro do céu da tua boca, deixado e desejado, nas pontas do meus dedos.
invento o sorriso que me deixas estampado no rosto, preservado e adocicado, quando me beijas e sais da cama porque o dia cedo te chama.
invento a memória do nervoso miudinho (sentido a dois, eu sei) que precede o momento, bem calculado, bem cicatrizado, bem escrito, da nossa tão primeira vez.
invento o cheiro, já fresco, do fim dessa tarde em que, sem rodeio, receio, reclusão, me dizes: amo-te com certeza.
invento o arrepio que o teu sussurro, branco, brando, bravo, me provoca no lóbulo da orelha direita, tão atenta, no escuro domingueiro dessa noite no cinema.
invento o gozo das minhas mãos quando cozinham para ti.
invento o gosto da minha escrita.
invento o gosto da tua leitura; onde te afundas sem reserva, máscara, revolução.
invento a paz e as palavras.
invento o inventar.
invento o cheiro do céu da tua boca, deixado e desejado, nas pontas do meus dedos.
invento o sorriso que me deixas estampado no rosto, preservado e adocicado, quando me beijas e sais da cama porque o dia cedo te chama.
invento a memória do nervoso miudinho (sentido a dois, eu sei) que precede o momento, bem calculado, bem cicatrizado, bem escrito, da nossa tão primeira vez.
invento o cheiro, já fresco, do fim dessa tarde em que, sem rodeio, receio, reclusão, me dizes: amo-te com certeza.
invento o arrepio que o teu sussurro, branco, brando, bravo, me provoca no lóbulo da orelha direita, tão atenta, no escuro domingueiro dessa noite no cinema.
invento o gozo das minhas mãos quando cozinham para ti.
invento o gosto da minha escrita.
invento o gosto da tua leitura; onde te afundas sem reserva, máscara, revolução.
invento a paz e as palavras.
invento o inventar.
Wednesday, May 30, 2007
iamx em lisboa
dia 05 de junho no lux.
quem perder este concerto é asno.
no que me diz respeito, é um sonho concretizado; o iamx (chris corner) é uma das minhas grandes referências.
the real self made man vais estar entre nós.
estou em contagem decrescente.
Thursday, May 17, 2007
casa de bonecas (promo)

este é o espectáculo que estou a fazer. estreia amanhã.
recomendo a visita a esta casa (casa de teatro de sintra; convertida agora em "casa de bonecas").
todas as informações aqui:
http://www.chaodeoliva.com/cartaz.htm
Tuesday, April 24, 2007
a avó carminha

a foto da minha querida avó Carminha que sempre amei (a avó e a foto). sempre me pareceu, aqui, uma estrela do cinema mudo.
tirei-a no dia do seu funeral, com o telefone, por isso a qualidade é tão pouca. mas muita é a qualidade da imensa lembrança que esta tão especial mulher deixou em mim.
amo-te, sempre, minha querida avó.
Tuesday, April 17, 2007
Saturday, April 07, 2007
torrente
vitaliciamente sendo
vitaliciamente, tu
vitaliciamente crendo:
where the fuck are you?
olhos de ver,
esperança de ter,
viver e morrer
ter o que não ler.
rir e fartar
mundo na cama
querer é durar
língua com lama
nunca te li
foste-me a ferros
enegreci
sou anti-berros
dia que nasce, oh, ai de mim
sou este traste, vivo-me assim
a minha língua é este país que se faz à força de tanto se calar.
a minha visão turva-se, apraz-se (com isso), mas... eu não.
hei-de querer; oh, eu hei-de querer.
mirar-te para?
eu ainda não me comecei... aguarda-me.
rir e rir, para não, apenas, sorrir.
sou hipercineticamente metaneurasténico, e?
vitaliciamente, tu
vitaliciamente crendo:
where the fuck are you?
olhos de ver,
esperança de ter,
viver e morrer
ter o que não ler.
rir e fartar
mundo na cama
querer é durar
língua com lama
nunca te li
foste-me a ferros
enegreci
sou anti-berros
dia que nasce, oh, ai de mim
sou este traste, vivo-me assim
a minha língua é este país que se faz à força de tanto se calar.
a minha visão turva-se, apraz-se (com isso), mas... eu não.
hei-de querer; oh, eu hei-de querer.
mirar-te para?
eu ainda não me comecei... aguarda-me.
rir e rir, para não, apenas, sorrir.
sou hipercineticamente metaneurasténico, e?
Thursday, March 29, 2007
descubra as diferenças
no que a diferenças diz respeito, o que distingue os dois grandes mitos da humanidade: amor e deus?
deus dura para sempre
deus dura para sempre
uma riminha
enquanto fazia a barba surgiu-me uma riminha à António Aleixo. Cá vai:
tinha fulano de sicrano
particular digestão:
comia moelas de frango,
arrotava faisão.
dedico este post a todas as bertas arrotadeiras que por aí cirandam.
("popular, surrealizar por aí í, popular...")
tinha fulano de sicrano
particular digestão:
comia moelas de frango,
arrotava faisão.
dedico este post a todas as bertas arrotadeiras que por aí cirandam.
("popular, surrealizar por aí í, popular...")
Saturday, March 17, 2007
o fio da navalha deixou de ser o artimanhoso, habitual e insuspeito fio da navalha para passar a ser o insuspeito, habitual e artimanhoso fio do serrote.
sobes-desces-desces-sobes, intáctil, voraz, locónico, o vórtice do esforço que assiste o simples acto de abrir ou, mesmo, fechar os olhos. escreves, escreves, rescreves, rescreves-te; desmoronas, posicionas, clonas a vontade, a voltagem; decisão.
sabes que, mais cedo ou mais tarde, te casarás com a sintaxe e a semântica e a superlativa capacidade de poder, querer, instituir.
no fio do serrote permaneces, admoestas, feneces a tua capacidade, ou vontade, de voar.
finges que morres, pressentes, desenhas a tua vontade de fugir.
apregoas, amaldiçoas, doas a tua, volátil, voltaica, volitiva, vontade de sentir (e ir).
escrever é abrir portas, é ser abençoado, é poder ver -tempo-, é escavar em todo o lado.
a coisa mais maravilhosa da escrita (suspeita minha pouco provada) é poder ter acesso ao que ainda nunca existiu. isto é avassalador, é enorme. é disso que eu tenho medo. é disso que eu tenho de viver. é isso que me procura,
sobes-desces-desces-sobes, intáctil, voraz, locónico, o vórtice do esforço que assiste o simples acto de abrir ou, mesmo, fechar os olhos. escreves, escreves, rescreves, rescreves-te; desmoronas, posicionas, clonas a vontade, a voltagem; decisão.
sabes que, mais cedo ou mais tarde, te casarás com a sintaxe e a semântica e a superlativa capacidade de poder, querer, instituir.
no fio do serrote permaneces, admoestas, feneces a tua capacidade, ou vontade, de voar.
finges que morres, pressentes, desenhas a tua vontade de fugir.
apregoas, amaldiçoas, doas a tua, volátil, voltaica, volitiva, vontade de sentir (e ir).
escrever é abrir portas, é ser abençoado, é poder ver -tempo-, é escavar em todo o lado.
a coisa mais maravilhosa da escrita (suspeita minha pouco provada) é poder ter acesso ao que ainda nunca existiu. isto é avassalador, é enorme. é disso que eu tenho medo. é disso que eu tenho de viver. é isso que me procura,
Tuesday, March 13, 2007
bloco de notas 1
enquanto a musa anda sabe-se lá onde e não me visita, vou eu visitando as notas soltas, muitas inacabadas, que jazem na pasta "os meus documentos" do meu pc.
nota 1 (sem nome, mais um acesso de febre rimática; terá uns quatro meses)
A hora é chegada
Aprender a tremer
Ter tudo ou ter nada
Gemer é crescer
Deitar tudo por terra
Ter a faca na liga
Dizer sim à guerra
Rematar à antiga.
Ter sorte ou azar
Dormir com o inimigo
Abrir os olhos em par
Ir com gosto ao castigo
Cantar p’ra espantar
Correr sem fugir
Ser um barco; afundar
Resolver é emergir
Fazer por fim a mala
Ter o tecto no mundo
Esquecer a própria fala
Cair no sono profundo
Fixar bem o olhar
Curar a garganta por dentro
Ter quem gostar de amar
Ser belo em movimento
nota 1 (sem nome, mais um acesso de febre rimática; terá uns quatro meses)
A hora é chegada
Aprender a tremer
Ter tudo ou ter nada
Gemer é crescer
Deitar tudo por terra
Ter a faca na liga
Dizer sim à guerra
Rematar à antiga.
Ter sorte ou azar
Dormir com o inimigo
Abrir os olhos em par
Ir com gosto ao castigo
Cantar p’ra espantar
Correr sem fugir
Ser um barco; afundar
Resolver é emergir
Fazer por fim a mala
Ter o tecto no mundo
Esquecer a própria fala
Cair no sono profundo
Fixar bem o olhar
Curar a garganta por dentro
Ter quem gostar de amar
Ser belo em movimento
Friday, March 09, 2007
caro diário:
aqui fica uma confissão que ainda não te havia feito e que há muito está adiada.
...............................................................
faz hoje cinco meses que a avó Cárminha nos deixou. o coração dela deixou de bater por volta das onze da manhã do dia cinco de outubro de dois mil e seis. morreu porque o coração decidiu deixar de bater. o coração dela, sempre tão grande, do tamanho do mundo, não lhe coube mais no peito; partiu-se numa segunda-feira.
a avó Cárminha foi a pessoa que mais incondional e puramente me amparou, e, estou certo, percebeu ao longo da vida. chorava sempre que me via, umas três vezes por ano. o coração dela decidiu parar e, a partir desse dia, houve algo no meu coração que se estilhaçou. não sei bem o quê mas que aconteceu, lá isso, aconteceu. comecei a sentir mais o meu coração, literalmente.
epitáfio ideal:
pura, atenta, nobre, doce
- do bem para o bem, sempre-
o anjo mais anjo que o mundo ao mundo trouxe
(à avó carminha, que tinha um coração maior que o mundo. queria postar uma foto linda que tenho dela mas o hello picasa não parece funcionar hoje a meu favor.)
aqui fica uma confissão que ainda não te havia feito e que há muito está adiada.
...............................................................
faz hoje cinco meses que a avó Cárminha nos deixou. o coração dela deixou de bater por volta das onze da manhã do dia cinco de outubro de dois mil e seis. morreu porque o coração decidiu deixar de bater. o coração dela, sempre tão grande, do tamanho do mundo, não lhe coube mais no peito; partiu-se numa segunda-feira.
a avó Cárminha foi a pessoa que mais incondional e puramente me amparou, e, estou certo, percebeu ao longo da vida. chorava sempre que me via, umas três vezes por ano. o coração dela decidiu parar e, a partir desse dia, houve algo no meu coração que se estilhaçou. não sei bem o quê mas que aconteceu, lá isso, aconteceu. comecei a sentir mais o meu coração, literalmente.
epitáfio ideal:
pura, atenta, nobre, doce
- do bem para o bem, sempre-
o anjo mais anjo que o mundo ao mundo trouxe
(à avó carminha, que tinha um coração maior que o mundo. queria postar uma foto linda que tenho dela mas o hello picasa não parece funcionar hoje a meu favor.)
Monday, March 05, 2007
as mãos
angel: "wich hands are my hands, wich hands are your hands?"
tess: "they are all your hands!"
in, "tess" de roman polanski (a partir de "tess of d'uberville" de thomas hardy)
o amor é um trabalho manual; descobri isto há uns anos.
(não tenho a certeza se a minha transcrição é literal; o que conta é, no fundo, a mensagem. a literalidade não passa de um conceito pequeno burguês!!!)
tess: "they are all your hands!"
in, "tess" de roman polanski (a partir de "tess of d'uberville" de thomas hardy)
o amor é um trabalho manual; descobri isto há uns anos.
(não tenho a certeza se a minha transcrição é literal; o que conta é, no fundo, a mensagem. a literalidade não passa de um conceito pequeno burguês!!!)
Thursday, February 15, 2007
o grande amante
regresso hoje a lisboa, estou no algarve.
sonhei com facas hoje; não sei o que significa, procuro na net mas a resposta obtida nos sites brasileiros manhosos desanima-me. não me dou ao trabalho de aprofundar a pesquisa. sonhei com facas, pronto, paciência. podia ter sonhado com rodas dentadas ou bombas de hidrogénio.
faz hoje exactamente um mês que cheguei à Índia; essa bela e doce Índia. a esta hora estaria muito provavelmente a almoçar no leopold pela primeira vez. oh, que saudades do leopold!
não escrevi mais depois de cochim. fomos de lá para trinvandrum (não gostei de trinvandrum). esse viagem de comboio foi ao fim da tarde, anoiteceu entretanto. não usufruí, portanto, da porta do comboio nem do desfilar da Índia. era noite, veria muito pouco. fiquei na carruagem, ouvi o "six" dos mansun e fiz um desenho nas últimas páginas do caderno tosco que comprei em cochim. em trinvandrum foi difícil arranjar onde jantar. na manhã seguinte fomos ao mercado e a um templo cujos nomes não me recordo; recordo-me de que gostei. apanhámos, nessa tarde, o avião de regresso a mumbai. mumbai, mumbai, a gigantesca, viva, electrizante mumbai. chegámos ao fim do dia, demorámos uma hora e meia de taxi do aeroporto até colaba causeway, instalámo-nos no hotel causeway e fomos jantar ao nosso velho leopold. finalmente voltei a devorar half roast fry chicken; as saudades que eu tinha do leopold; aqui já não havia bules para esconder a cerveja, nem estratagemas. havia, de novo, a bela da garrafa da kingfisher à nossa frente. no dia seguinte percorremos mumbai como nunca; de manhã à noite. foi a nossa despedida, mumbai num domingo; uma bela despedida. fomos jantar no fancy "goa portuguesa", que tinha um proprietário muito particular. o dia seguinte foi o stress para levantar dinheiro, pagar o hotel e ir para o aeroporto. e aí, nessa viagem de táxi, as belas viagens de táxi que se fazem na Índia (sobretudo em mumbai), tive a minha hora de despedida. tal como se nos apresentou, assim se despediu, mumbai, suja, viva, cheia, forte, sonora, bela, doce; assim se despediu mumbai pela janela.
confirmei o que sempre suspeitei: a Índia é a grande janela, é a grande pintura, é a grande, grande, grande, liberdade.
demorei uns dois dias até conseguir desfazer a mala. o jet lag bateu forte. quando chegámos a londres estava exausto e indisposto, triste. dormimos em londres e regressámos cedíssimo para portugal. frio.
chegámos a lisboa e tudo nos parecia calmo, muito calmo, perguntámo-nos se seria feriado. não era; era lisboa, a, agora tão, pequena lisboa. o trânsito era fluído, não havia multidões, não havia uma sinfonia de buzinas. lisboa parecia ao ralenti. assim fiquei, ao ralenti.
não me conseguia decidir a desfazer a mala, não queria fazê-lo; seria acabar definitivamente a viagem. reuni forças e fi-lo. um nó na garganta. tudo cheirava a Índia, as roupas, os sacos, a própria mochila, as minhas mãos ficaram a cheirar a Índia. um choro pequenino, mais interior do que efectivo. comecei a ouvir os cds que comprei e prossegui. coloquei tudo em cima da cama e detive-me a olhar as coisas: as roupas que levei e que usei (poucas), as roupas que levei e não usei (muitas), as roupas que comprei, a bolsa com os medicamentos, os chinelos, a toalha de praia, tudo. tudo tinha estado na Índia; tudo ainda estava, de certa forma, na Índia. percebi que o que sentia era tão estranho e forte e palpável como o fim de uma relação da qual se sai ferido. a mesma necessidade de reconstrução de tudo o que a mesma foi, o coleccionismo das memórias da relação, das memórias do outro, do cheiro do outro, da voz do outro, da pele, suor e sangue do outro. percebi que chorava a Ìndia como se de um amante se tratasse. estranho mas tão real. ainda tenho tudo por arrumar no quarto, trabalhei durante o fim de semana e no domingo vim para o algarve para votar e ver a minha mãe e mano. só ontem consegui dormir mais do que cinco horas. só ontem comecei a recuperar. hoje estou triste e ansioso, por partir e voltar uma vez mais, apetecia-me ficar aqui no ninho um pouco mais. sem nada para fazer. mas sei que vou ter de me preparar. vou ter de entrar de novo na minha vida. sei que vou ter de entrar no meu quarto e organizar os destroços da suspensão que teve de haver entre mim e o meu grande amante: Índia.
parti com saudades do voltar!
Thursday, February 01, 2007
india song 9 (um dia para mim em fort cochin)
caro diario:
outra vez a mesma conversa de que hoje e' feriado e que por isso nao se serve alcool. esta conversa foi no restaurante onde tivemos de almocar no primeiro dia aqui em fort cochin. fui entao para a esplanada dos rapazes que parecem estar pastilhados que fica junto ao posto de turismo. aqui nesta esplanada, onde ha dois dias, apesar de ser feriado, nao houve grande impedimento em ter uma vodka cola ao jantar, aqui, nesta esplanada, repetiram o numero de ontem ao jantar no restaurante que fica junto ao kerala kathakali centre, servem-nos cerveja em bules e canecas para cha ou cafe. pois que ja consta um bule desse tao especifico cha no meu interior. pelo que, estou algo flutuante.
eles foram fazer o tal passeio de barco no qual eu nunca tive interesse, fiquei, portanto, com o dia para mim. so far esta a correr muito bem. estava a precisar de passar umas horas sozinho tambem. nao porque esteja mal com os meus queridos amigos mas porque ja sao muitos dias sempre acompanhado, apenas isso.
antes de prosseguir com o presente dia, caro diario, vou contar-te o resto de calicut e os dois primeiros dias em fort cochin. entao, calicut e' feio, sujo, turvo, energia estranha (sente-se logo quando la se chega), o hotel era muito bom, o melhor (em termos de pingarelhice) onde ja estivemos. chega'mos, fomos para o hotel, toma'mos um duche, and'amos um pouco pela rua do hotel e acab'amos por desistir e apanhar um rickshaw para a praia (a tal onde o senhor vasco da gama chegou). chegados 'a praia depar'amo-nos com uma grande concentracao de pessoas no areal e um palco. um genero de festival. estava a tocar uma banda engracada, de cochin (faziam umja mistura de sort of free jazz com musica tradicional indiana), giro. acab'amos por nos fartar de ali estar e fomos embora. marisa e miguel nao tinham fome, eu e joni sim. par'amos num cafe armado em ocidentaloide que vendia fruta e sumos e la comemos melao e ananase etc. apanh'aos um rickshaw, com dificuldade, e est'avamos a dirigir-nos para o hotel, onde eu e o joni plane'avamos jantar, e ouvimos, vindo de um parque, ja perto do hotel, musica e agitacao. pergunt'amos ao senhor do rickshaw o que era e ele disse: kathakali. hsiteria geral. em coro: stop. sa'imos a correr do rickshaw e entr'amos parque adentro para ver a performance. foi entao, em calicut, querido diario, naquela estranha e turva cidade, que eu vi o meu primeiro espectaculo de kathakali (que como sabes 'e uma curiosidade-paixao com algum tempo e uma das grandes razoes da minha vinda ao sul da india). estavam meia duzia de gatos pingados a na assistencia, n'os l'a no acocor'amos e, eis senao quando, vem um senhor ter connosco e providencia quatro cadieras para fic'assemos bem instalados. o espect'aculo entusiasmou-nos mas tamb'em nos deixou a impressao (ontem confirmada) de que era um bocadinho bufao demais. finda a performance (a qual foi pontuado por uma nao menos surpreendete performance de um dos assistentes que, pelos vistos, 'e um maluco local e que ficou muito agitado com a nossa presenca), o senhor que nos deu as cadeiras fez questao de nos apresentar toda a gente que o cercava. ficamos entao a saber que estava a decorrer em calucut um festival de folclore de kerala (sort of, esta performance de kathakali e o concerto da praia eram, portanto, prova disso), este academia de khatakali era mesmo de calicut, fomos apresentados ao guru, o mestre de kathakali daquela academia, um velhinho com uns oculos garrafias que era igual 'a minha ha muito falecida avo inocencia augusta (que tambem usava uns oculos garrafais). uns dedinhos de conversa no parque e l'a volt'amos para o hotel. dia a seguir, bem cedo, rum'amos a ernakulam (estacao de comboio que permite a chegada a fort cochin e nome de uma localidade que 'e tipo almada de cochin).
essa viagem de comboio foi, para mim, outro dos momentos altos desta viagem. passei as quatro horas da viagem praticamente pendurado na porta do comboio. 'e impossivel ficar dentro da carruagem, as janelas tem grades e os vidros sao bacos e quase sepia. foi linda esta viagem, um calor fantastico a torrar-me o corpo, a india a desfilar perante o meu olhar. a felicidade absoluta: a india a desfilar, o calor no corpo, e a musica nos meus headphones. nada mais. assim sou inteiramente feliz. nao preciso de mais. podia passar assim o resto da vida: num comboio a ver a india e a ouvir musica. houve alturas em que nao consegui evitar uma afoita lagrima. e vi a imagem mais linda de sempre, a dois km de uma localidade chamada karakad (nao a posso descrever, 'e minha, para sempre e nao a consigo descrever, mas estou seguro de que um dia hei-de pisar aquele chao). nao consigo descrever a felicidade que obtenho nestas viagens de comboio (tao sonhadas). o olho fotografico, o coracao ligado ao tempo. o tempo do olho, a pintura do mundo.
fort cochin 'e muito agrad'avel, muito mesmo. ontem fomos ver um espect'aculo de khatakali numa academia mesmo (http://www.cyberkerala.com/kathakali/, http://en.wikipedia.org/wiki/Kathakali). muito bom, genial, complexo, simples, muito bem executado, faz pensar imenso nas ligacoes do ocidente e do oriente (teatro classico, tradicao, folclore, etc), um cantor magnifico, um dos actores (o mais velho, provavelmente o mestre) de cortar a respiracao. muito bom, quero mais kathakali na minha vida. hei-de estudar muito mais profundamente.
hoje tirei o dia para mim. acordei e comecei a ouvir o grande fausto ("por este rio acima"), que o miguel trouxe, e comec'amos a ouvir ontem 'a noite, e que aqui faz todo o sentido. tenho estado a dia todo a ouvir o disco em repeat (ainda estou: "navegar, navegar, mas o minha cana verde...")
tomei o pequeno almoco no monte carlo (mistura de vertigo, com noobai e royale), e a seguir fui "a saint francis church. de seguida um rickxhaw para o bairro judeu (jew town). fui 'a sinagoga: comprei um belo de um pyjama (finalizado ao meu gosto, por um senhor alfaiate velhinho), comprei essencia de amber musk, incenso, especiarias, e acho que mais nada. a seguir um rickshaw de regresso a fort cochin, eplanada: acabar de ler o livro da frida, cerveja no bule. agora cyber coiso a postar. agora vou fazer uma massagem ayurvedica. como ja gastei mais do que devia e j'a 'e tarde (espero que me atendam) vou fazer uma massagem para a sinusite apenas. nao vou fazer a tal full body (em que os senhores so nao te mexem no cerebro porque nao esta 'a vista). vou
de novo o fausto. que bom, acabar o post com esta genail cancao, uma das minhas preferidas de sempre.
Lembra-me um sonho lindo
Quase acabado
Lembra-me un céu abertoOutro fechado
Estala-me a veia em sangue
Estrangulada
Estoira no peito um grito
À desfilada
Canta rouxinol canta
Não me dês pena
Cresce girasol cresce
Entre açucenas
Afaga-me o corpo todo
Se te pertenço
Rasga-me o ventre ardendo
Em fumos de incenso
Ai, como eu te quero
Ai, de madrugada
Ai, alma da terra
Ai, lindaAssim deitada
Ai, como eu te amo
Ai, tão sossegada
Ai, beijo-te o corpo
Ai, seara
Tão desejada
Fausto Bordalo Dias (o genio que portugal mal consegue ver mas que grandemente o louva)
Wednesday, January 31, 2007
india song 8 (onan em fort cochin)
caro diario:
como te disse, the reward came perfect (depois da atribulada viagem de comboio nocturna, que nos levou de margao a kannur).
como te disse, the reward came perfect (depois da atribulada viagem de comboio nocturna, que nos levou de margao a kannur).
assim que chegamos a estacao de kannur tinhamos um senhor a nossa espera, na plataforma, que tinha sido enviado pelo dono do costa malabari. este senhor era o nosso taxista, e, qual nao foi o meu espanto, os taxis aqui eram todos (como em todo o estado de kerala, presumo) os maginificos ambassadores (carros indianos com design dos anos cinquenta) nos quais eu, desde mumbai, estava mortinho por andar . em mumbai e goa tambem os ha mas nao sao os taxis convencionais e usam-se como carros do diplomaticos. (em kerala ja os vi em varias cores, do branco ao candy pink). aqui fica uma foto que encontrei na net de um ambassador http://www.flickr.com/photos/94926204@N00/101517603/
bem, a razao da nossa ida a kannur depreendeu-se com o facto de querermos ir ver um theyyam (http://www.theyyam.com/, http://en.wikipedia.org/wiki/Theyyam) e o sitio que nos foi recomendado pelo nosso grande querido lonely planet (como something special) foi exactamente o costa malabari (http://www.costamalabari.com/beachholidays.htm). caro diario, esta foi the big reward. o costa malabari apresenta-se como um sitio maravilhoso, uma guest house super intimista, numa localidade minima, no meio da selva, chamada thottada. a comida, maioritariamente vegetariana, simplesmente genial, os pouquissimos hospedes que la estavam eram uns irlandeses de meia idade (a excepcao de uma rapariga, filha de um casal) que foram uma bela companhia. grande, grande, grande bonus deste sitio: uma praia deserta, simplesmente linda, ainda melhor que palolem. agua quente, um caminho genial (entre a nossa casa e a praia) que comportava toda uma fauna, milhares de coqueiros, uma sinfonia de sons desconhecidos e pessoas simplesmente maravilhosas que davam tudo por ter dois minutos de conversa. outro grande, grande, grande bonus: o dono do costa malabari, o senhor kurian (a quem nos estivemos sempre a chamar senhor saudi e nao sabemos porque motivo) nao e nada mais nada menos do que um grande estudioso dos theyyam. proporcionou-nos, assim, um ponto alto da nossa viagem. fomos ver o theyyam, que acontecia num templo a 10 km de kannur, as quatro da manha. a cerimonia durou ate as sete e tal (pelo menos para nos). simplesmente genial. forte, telurico, puro. nao se consegue descrever com facilidade. momento muito bom (mas que na altura nos deu um formigueiro na barriga): de repente, fomos o centro das atencoes, levaram-nos para as traseiras do templo, sentaram-nos numas cadeiras e deram-nos a provar uma bebida genero arroz doce. fizeram um circulo a nossa volta a ver-nos beber aquilo. os primeiros visados: eu, miguel e joni. depois foram buscar a marisa e os nossos amiguinhos irlandeses e puseram-se a nossa volta (deviam ser uns trinta, homens e rapazes). eu estava todo enojado porque, como nos os tres fomos os primeiros a ter a honra, vimo-los a passar por agua (de um balde que para la estava) os copos de metal onde nos seria servida a iguaria. eu tentei fingir que bebia aquilo (o problema nao era o que se estava a beber, que era leite e arroz e canela e cardamomo; o leite fora muito provavelmente fervido. o problema era mesmo a agua da lavagem). um dos rapazes, ao ver que eu nao estava a deliciar-me com a bebida, pergunta-me: "dont you like it" e eu "its very good"; ele "than drink it'. e nao tive outro remedio senao dar mais um generoso gole na mistela.
adiante, gracas a shiva nada nos aconteceu. ate agora, e ja passaram uns bons dias, nenhum bicho desinterico noa atacou.
agora tenho de ir almocar. a marisa ja chegou da massagem ayurvedica e eles tambem ja estao a acabar. eu nao fiz hoje, vou fazer amanha enquanto eles vao num passeio de barco no qual nao tenho interesse. amanha fico por aqui, dou umas voltas by my own, vou tentar comprar especiarias e um pyjama e depois faco a massagem.
depois de dois belos dias em kannur fomos (o que me custou essa partida) para calicut. calicut muito feio, sujo, urbano mau. coisa muito boa: fomos a praia (onde o vasco da gama chegou e engane-se quem pense que existe algo que assinale fisicamente a coisa) ...
tenho mesmo de ir.
conto depois
Monday, January 29, 2007
india song 7 (onan, qual vasco da gama, chega a calicut)
caro diario:
chegamos ha cerca de quatro horas a calicut. foi aqui, nesta cidade que ate agora nada conhecemos, alem do hotel (bom), estacao dos comboios e caoticas ruas, que vasco da gama desembarcou em 1498. falar-te-ei mais tarde de belo momento que tivemos hoje de manha, ainda na praia de thottada, com um rapaz de 16 anos que sabia de vasco da gama, cricket, historia e religiao como um verdadeiro senhor. realmente incrivel a cultura que este povo tem e o empenho, desde sempre, no saber.
estivemos em palolem beach, o nosso paraiso turistico-freak, ate sexta-feira. depois apanhamos um comboio ate kannur. viagem realmente terrivel, um pesadelo; tinhamos bilhetes sleeper 2 ac. acontece que, como tivemos imensas dificuldades em conseguir os ditos, porque aqui os comboios esgotam constantemente (chega a estar-se uma semana a espera de um bilhete de comboio) um dos lugares estava separado dos outros. tinhamos as camas 1,2,3 e 44 da nossa carruagem. estavamos a contar trocar o tal 44 com a pessoa que o viesse ocupar, de forma a ficarmos todos juntos. eu acabei por ir para a cama 4, que era a que ficava por cima do miguel que era a 3 (a marisa era a 1 e o joni a 2). estava ja eu prestes a dormir, ja de cama feita, unisedil tomado, a ouvir as belas cantigas dos tres tristes tigres quando a marisa e o miguel me chamam e comunicam que a senhora indiana que ali estava especada era a dona do meu lugar e que se recusava a trocar. acho que fez uma mini peixeirada (em indiano mini massalada) e eu, por me recusar a ter de ir para o fim da carruagem, para a tal cama 44, dormir ao pe de pessoas que nao conhecia de lado nenhum (e tambem porque achei que nao tinha de ser eu o sacrificado), la decidi que dormia no chao da carruagem. chao este nojento, note-se, e com a possibilidade de ser visitado por uma ou outra barata (que as ha, e nao sao poucas, nos comboios indianos). resultado: nao dormi nada, cheio de comichoes, acordado constantemente pelo ir e vir de pessoas na carruagem (inclusivamente dois senhores, provavelmente revisores, que decidiram ter uma especie de reuniao noutra cama a um metro de nos, e pelo furor desse cavalo de ferro indiano a cavalgar noite fora pelos carris desta bela india. eu ja suspeitava que andar de comboio ca so de dia. mas muitas vezes tem de se viajar de noite (porque as viagens sao longuissimas, porque so se consegue bilhete nesse comboio, ou para nao se perder um dia numa cidade.
mas como shiva parece ser grande, the reward came perfect...
contarei depois.
a marisa e o joni querem ir ver esta bela (deve ser, deve) calicut.
pormenores mais tarde.
o joni tirou-me uma foto aqui a postar, depois publico.
agora vamos ver onde chegou esse senhor vasco da gama.
parece que nevou em lisboa. aqui estao 35 graus (mais coisa, menos coisa).
estou morto por beber outra kingfisher bem fresquinha.
tenho de ir. a marisa e o miguel chegaram agora ao cyber coiso, que fica numas galeria por baixo do hotel
Monday, January 22, 2007
india song 6 (onan em goa)
palolem beach, 17:15:
acho que apanhei uma insolacao nas pernas. estou a senti-las a ferver. esqueci-me de por creme nas pernas e tenho estado a tarde toda no alpendre da "cabana junto a praia" (qual tema de jose cid) a ler ao sol. adivinha-se uma bela noite. olha, antes isso de desinteria (como o pobre do joni que esta a desfazer-se ha 3 dias).
palolem beach: lembra-me duas coisas, a serie "a praia da china" e o filme a "praia". agua quente mas nao translucida (areia nao clara), um palmeiral selvagem a nossa frente, uma grande baia, uma ilha selvagem no lado direito da baia (quando se esta virado para o mar) e dezenas de pequenos "resorts" com beach shacks ao longo da mesma. paradisiaco. o tempo aqui parece que para. estamos num paraiso freak, apesar de ser ate para o caro dentro dos padroes indianos. mas mesmo assim ainda nao esta estragado pela prospeccao turistica. ainda se mantem tudo semi tosco e depois esta praia resolve tudo pela beleza imponente que tem.
quando vinha do cabanal, para o cyber onde agora estou e que fica tambem muito proximo da praia, descobri uma formula infalivel para nao ser interpelado pelos pescadores e angariadores que estao constantemente a querer levar-nos a fazer uma "boat trip to see the dolphins". ate ja foi uma ter comigo a cabana a querer impingir-me uma para amanha. ate foi a proposta mais barata de todas, andam a pedir 400 rupias por pessoa e ela pede 150. a ver vamos, eu gostava de ir mas temos de entrar em contencao de despesas. ja gastamos muito mais do que haviamos previsto. parece ser tudo muito barato mas acaba por nao ser a pechincha que se apregoa sempre. eles ja aprenderam muito bem a lidar com toda esta torrente de interessados pela tao especial india. ha coisas em que a diferenca dos nossos precos ainda se mostra muito grande (na maioria das coisas) mas ha outras que nem por isso. quer dizer... as coisas estao mais unifomizadas do que era suposto (ate pelo que fomos percebendo pelas indicacoes do lonely planet e outros guias). mumbai sabiamos que era caro, e ate agora foi o sitio mais caro mas a diferenca (e isso foi o que surpreendeu) nos outros sitios nao parece ser assim tao grande. mas goa significa turismo (e crescente) por isso nao choca que assim seja.
momento muito bom da viagem: a viagem de comboio entre mumbai e goa (estacao de karmali). este era um momento que eu aguardava com grande expectativa. uma coisa com que sempre sonhei e que me comecou a crescer na cabeca desde o momento em que comecamos a alinhavar a viagem. andar de comboio na india, durante muitas horas, ver a india, entrar pela india adentro. sobretudo porque nos ultimos meses sempre que entrava num comboio, no metro, num taxi, em lisboa, a ultima coisa que me apetecia era que essa deslocacao acabasse. tinha uma fome enorme de me deixar ir, de me deixar conduzir: tao farto, insatisfeito, entediado e exausto estava dos meus meus dias. nessas alturas a índia surgia (como desde ha muito) como o refugio que eu criei na minha cabeca. o refugio dos dias melhores, aquele sitio, situacao, sentimento, sensacao ou cenario que fantasiamos e ao qual recorremos muitas vezes to save us from grief. por isso quando percebi, ha pouco mais de um mes, que tinha a possibilidade de vir a india essa foi logo a imagem que apareceu na cabeca: finalmente vou andar de comboio na india, durante muitas horas, a ver a india, horas e horas a ver a india. nessa noite (na noite em que decidi fazer esta viagem) nao dormi.
a viagem de comboio comecou com um choque. ao entrar no comboio fiquei em estado de choque (isto da india primeiro estranha-se e depois entranha-se). tinhamos comprado bilhetes sleepers 3 ac. quer isto dizer: deitados, 3 de cada lado, ar condicionado (a la indiana, claro). pois isto para mim, na minha efabuladora e pouco efectivamente viajada mente, era ter acesso a um vagao de camas, com compartimentos, etc. mesmo que muito old school, era isso que eu esperava. ate porque a experiencia ate agora em termos de comboios, na viagem a nasik, era positiva. na viagem para la fomos sem ar condicionado e era mais precario mas no regresso, numa carruagem com ar condicionado, a viagem foi muito agradavel e a carruagem (dentro dos tramites indianos) era bastante confortavel. pois que o meu choque sucede quando entro na carruagem do comboio para karmali e me deparo com o que parece uma estagnacao no tempo. as carruagens sleepers parecem ser o interior de um submarino russo durante a guerra fria. o choque nao vem da precaridade: vem da austeridade (nao consigo explicar isto muito bem), da massificacao, do muito pouco para muitos, na funcionalidade maxima com o minimo.
(estou a perder a capacidade de articular frases, sinto que nada disto que escrevo acaba por ser suficientemente justo para expressar aquilo que vivo e quero transmitir. falta-me imenso vocabulario em portugues, ja falo com os meus amigos em ingles. quando escrevo tenho imensas duvidas em algumas palavras. que coisa tao parva e estranha. ainda nao escrevi uma unica linha na agenda moleskine (o tal cadreno preto de capa dura, que acabou por nao ser assim tao dura) que comprei. conclusao: so irei conseguir escrever a india depois da india).
para concluir a viagem de comboio: foi muito especial, como eu esperava. a india foi acontecendo. conforme as horas iam passando, 12 horas, note-se, para percorrer 654km, a india foi-se desenhando dentro da minha cabeca. a india que eu vim desenhando ao longo dos anos, dentro de mim, como um local fantastico, mitico, o refugio. a india desenhou-se e nao mostra ser um sitio mitico mas sim um sitio efectivo: feito de paisagens luxuriantes, de selva virgem, cursos de agua, cordilheiras, pessoas sempre, mesmo nos sitios mais inospitos e aparentemente desertos, povoacoes minimas e pauperrimas, uma luz sempre difusa e doce, o cheiro a lixo constante e que tambem nos parece doce, o cheiro das queimadas que se fazem para repelir os mosquitos, estacoes de comboio a cair de podres, outras mais intactas, outras bonitas, os carros e os rickshaws que tambem sao doces como o seu fumo que tambem acaba por ser doce. a india nao se mostra o sitio que sempre jukguei mitico e cristalizado. india igual a doce-amargo. bittersweet india. india igual a real, muito real. a india acontece-se, muito e realmente.
anteontem quando vinhamos nas motas de candolim para panaji, no fim do dia, eu e o miguel a cantar big hits da madonna, conclui que a india era bonita mas nao chegava a ser bela. mas, logo ali, suspeitei que a minha conclusao nao se ficaria por ali. hoje, fiz-lhe a errata, na minha cabeca: a india acaba por ser bela sem chegar a ser exactamente bonita.
e com isto me vou a ver se ainda consigo dar um mergulho antes de jantar.
(nao revi nada do que escrevi, erros, dislexias, etc, serao muito possiveis, nao revi pontuacao mas neste teclado isso seria impossivel)
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