Thursday, May 04, 2006

will fades will

you and i,
can't you see?
the perfect set
when you play the rocket
i can always be the jet

you and i,
can't you see?
together in a mutual smile
when i think loud
you stay silent for a while

you and me,
can't you see?
can make these days the best
reaching, teaching,
is this passion or a test?

you and me
can't you see?
could go left or could turn right
my world blooms
when he drink and talk all night

let's walk on this water
this bridge is under construction still
but i count all the minutes
'till your will fades in my will


Tuesday, May 02, 2006

citação sentida

henrique maximiliano dixit:
"deve haver algures o que quer que seja de mais perfeito do que nós próprios, um bem cuja presença nos confunde e cuja ausência nos é insuportável."
in, "a obra ao negro" de marguerite yourcenar

há mais de dez anos que ando com este livro para trás e para a frente e a sua leitura sempre se me tornou difícil, odisseica, impossível. presentemente, mergulho ávida e deliciosamente nos percursos de maximiliano e desse hermético zenão. vicissitudes da idade: a cabeça abre-se, para o pior e para o melhor. aqui está a prova do melhor. recomendo, faz-nos bem.

Monday, April 24, 2006

gus van sant

cada vez gosto mais dos filmes do gus van sant. revi o "elephant" ontem, com o miguel. é brilhante, de facto. ele não filma apenas, ele dança sobre o tempo. o sentido obtuso demonstra-se, na expressão daquele movimento, daquela coreografia, a essência última, e pura, do que é a capacidade/verdade fílmica.
tenho de rever o "gerry".
a cabeça que aquele homem deve ter!

Sunday, April 23, 2006


photo by fairyboy

a portrait song for thee

a poem that, in a few hours, can become a song.
to fairychild (from portugal to iceland).
"it's in the water baby"

a portrait song for thee

with my L issue
in my english spelling
i can make it last in lusty leisure

with this night addiction
and my weak self-caring,
it all stays still with some sort of pleasure

well i am tonight:
a jolly drunkie,
low-fi poet,
supa troopa,
arsonist

i was before:
the horny heart,
the regret sucker
all paradoxal
arty bitch

with my L issue
in my english spelling
i can always reach you; reykjavik

with these poor conditions
and my grammar melting
springs arrival always makes me sick

well i was:
the perfect lover,
head traveller,
lazy brain
in constant twist

half of me is:
huge and tiny,
neurotic schedule,
cursed genius,
onanist

these are, sometimes, words to feel an see
congratulate us
i made my portrait song for thee

i'd like to cross that bridge, i'd like to ride your bike,
napchild,
always catch your fairy golden strike



Saturday, April 15, 2006

3 anti-heróis

é durante aquele espaço de tempo que precede, ou intercala, o sono (deve ter um nome técnico, científico, mas eu não sei) que eu invento os meus anti-heróis.

O primeiro (inventei-a há alguns meses), é a Travequinja, o segundo é a Mikado Girl e o terceiro é a Pocket Demon.

mas agora não posso falar sobre isso, falo depois, agora chegou a caty. estamos na conversa. e depois tenho de ir comprar vinho e ir para casa do miguel para o jantar com o paul auster. não resisti a escarrapachar isto aqui. JANTAR COM O PAUL AUSTER.

Monday, April 10, 2006

para sentir no futuro

fingi que acordei para me lembrar o quão contrário o teu beijo era a espremer limões.

Thursday, April 06, 2006

um desejo forte

muèstrame tu lengua!

Monday, April 03, 2006

segunda-feira

nada como começar a semana cedo e a dar uma auto-insufladela no ego. depois de ler a redacção anterior:

vou fazer carpaccio do meu coração para alimentar putas e ricos.

fuck, sou mesmo um génio. só esta frase, num mundo mais dinâmico e interessante, noutro tempo e, definitivamente, noutro espaço, dar-me-ia direito a uma bolsa vitalícia de criação livre e onanista.

Tuesday, March 28, 2006

o acto da primavera

queres vir comigo?
vou pintar as unhas a animais ferozes!
vou guilhotinar a minha cabeça na boca de um crocodilo!
vou encantar uma legião de serpentes!
vou provocar choques em cadeia numa estrada nacional!
vou banquetear-me com os abutres!
vou rir-me com as hienas num talk show semanal!
vou discursar para as paramécias!
vou dormir com os inimigos!
vou fazer carpaccio do meu coração para alimentar putas e ricos!
queres vir comigo?
vou fazer nada, vou derreter o interior da cabeça perante o sol que não aquece nem vale a pena!
queres vir comigo?
vou espirrar, tenho alergia a portugal!



Friday, March 17, 2006

long thursday

(estou há vários anos para concretizar isto que há-de ser uma canção que hei-de cantar. hoje senti, mais ou menos, isto, a letra que trauteio para mim mesmo de uma canção que ainda não tem melodia mas que hei-de vir a cantar. isto nada tem de passional, nada.)

should i? tell me, should i? ah, ah, ah.
just like me, as far as i can see, you're just like me.

money and sperm make the world turn
money and sperm made my house burn

money and sperm make the world turn
money and sperm made me want to learn.

money and sperm made to happen this storm.
money and sperm made my heart warm.

it's me and the fucker,
oh, it's me and the fucker

it's me and this sucker
oh, it's me as a sucker.

divertes-me, não mais do que isso, não sabes nada do que escrevo. falas demais eu ouço, gosto de ouvir e tu és mais um acidente. ganhei mais um amigo, sei que sim, divertes-me. vim-me embora sem te agradecer, não foi por mal. obrigado por hoje, diverti-me. divertiste-me porque eu gosto de ouvir. nada disto tem a ver com dinheiro mas todas as nossas conversas (e acções) vão dar ao dinheiro. as surpresas do mundo, fazem-me rir (e a ti também), as surpresas do mundo. rir, rir.

não te disse, nem to direi, desmontaste-me a cama. montei-a a rir, hoje à tarde, antes de irmos rir mais uma vez. divertes-me, não mais do que isso e eu preciso de rir para além de mim. obrigado, pelo dinheiro que gastaste para nos fazer rir. quem diria que te havia de conhecer? o mundo é pequeno e o riso é tão fundamental. nada disto é passional.

Thursday, March 16, 2006

as canções

as canções, ah as canções, colecciono-as. as canções fazem tanto parte de mim como eu me pertenço a mim mesmo. uso-as, abuso-as (pois, sempre as canções como referência), sinto-as. servem para tudo, as canções. há alturas e situações da minha vida em que não me apetece expressar-me por mim mesmo: apetece-me, nessas alturas e situações, instalar canções. apetece-me ser uma juke box andante, creio que o sou. em quase tudo o que me acontece há sempre uma canção que se instala como se fosse uma tela sobre a qual a minha vida se pinta. vivo audiovisualmente, em sons e em imagens, vivo em videoclip.
receito e recito canções a mim mesmo, aos amigos, amantes e desconhecidos. estou sempre a trautear. quando descubro uma nova canção que me fascina apetece-me instalar a mesma no mundo. gostava que todo o mundo estivesse dentro dos meus headphones. está, às vezes está, eu sinto, eu sei que o consigo. apetece-me fazer espectáculos em que não se fala, só se canta, ou só se faz acontecer sobre as canções. deve ser por isso que gosto tanto de espectáculos de travesti, por est@s trabalham sobre as canções. as canções são trágicas, são cómicas, são tragicómicas, infinitamente finitas. são minhas, as canções, passam a ser-me e passam a ser tudo o quero e posso dizer: adequamo-nos. (hei-de voltar a este assunto mais tarde, há muito e mais, profundamente, por dizer/escrever).
segue-se a letra da canção em que estão neste momento três pessoas viciadas, eu sou uma delas. fui a última pessoa a conhecer a mesma mas sou o mais viciado. sou excessivo, eu sei e gosto.
"It Can't Come Quickly Enough" by Scissor Sisters
Sailling through the tunnels
In the morning by yourself
There's a very special feeling
True sensation all is well
If you stand and reach your arms out wide
Close your eyes and try to fly
It's an underground illusion
Tricking you from side to side
We knew all the answers
And we shouted them like anthems
Anxious and suspicious
That God knew how much we cheated
It can't come quickly enough
And now you've spent your life
Waiting for this moment
And when you finally saw it come
It passed you by and left you so defeated
Skyscrapers rise between us
Keeping me from finding you
If the concrete architecture
Dissapeared there'd be so few
Of us left to navigate and
Defend ourselves from the tide
It's an underground illusion
Tricking you from side to side
There's no indication of
What we were meant to be
Sucking up to strangers
Throwing wishes to the sea
It can't come quickly enough
And now you've spent your life
Waiting for this moment
And when you finally saw it come
It passed you by and
Left you so defeated
(quando a ouço, e ouço-a muitas vezes, apetece-me sorrir, beijar, viajar, embater, chorar e foder. tudo ao mesmo tempo, apetece-me tudo ao mesmo tempo, GANDA canção.

Saturday, March 11, 2006


e mai nada. mai nada. nada.

antes de dormir, fizeram-me bem

e onan diz, de si para si mesmo, como se dois demónios houvesse:
não te desejo mais do que todas as vezes ou todas as carícias do mundo. sei que as tens, precisas-te tu. não te preciso, imaculado, sei que não vens, precisas-te tu. estou a morrer de fome, entrecortado, sei que não tens, nasce-te tu. sou entrefeito, exasperado, sei que não vês, faz-te tu. sou de vidro, fosco e quebrado, estilhaçado, martela-me tu. morro e remorro, em mim sepultado, nascido e nado, em ti e em tu.
há-de haver um dia em que tudo te parecerá fosco, imóvel, irretornável, findo. nesse dia o espelho será o teu único interlocutor, vais rir-te, eu também me ri, e vais sentir-te detentor do princípio da criação. vais devorar tudo o que existe na cozinha, como se o mundo fosse acabar agora e como se a tua fome fosse um vendaval de vontade e de finito. finitei-me aqui, em ti.
e eis que onan é interrompido
elas fizeram-me bem, as adolescentes na cozinha, a madalena e amiga, fizeram-me bem. fizeram-me relatos da sua juventude. falaram-me de curtes e de rapazes da portela. e de problemas do enlace, do alto dos seu 17 anos, dos desencontros na discoteca, fizeram-me bem. estou tão próximo, fizeram-me bem, queremos o mesmo, fizeram-me bem. vamos dormir, fizeram-me bem.
afinal as miúdas tinham dois cigarros, fizeram-me bem.
tenho de ir, fizeram-me bem.
estou mais do que vivo, fizeram-me bem.
ainda não morri, reaprendo o riso, fizeram-me bem.
é uma dádiva, isto de ter cabeça, faço-me bem.
tu não me matas, nasço-me contigo, far-me-ei bem.
NÃO, EU AINDA NÃO MORRI. VIVO-ME, VOLÁTIL, BEM.

Friday, March 10, 2006

o rapaz e a rua

Esforcei-me, sem o planear, por perder todos os comboios, todos os aviões, todos e barcos e todas as composições que comportam em si a própria essência da cinestesia, para não poder parar de andar.
Se cortei as unhas foi por ti, foi para não te arranhar. Foi para não te ferir. Foi para não te deixar marcas do encontro da tua pele com as minhas mãos.
Desapareci-me. Podia esmagar-te agora. Posso esmagar-te quando eu quiser. Não existes. Posso esmagar-te ontem à noite e à hora de te encontrar. Não tens nome, nem cara, nem cheiro, nem história, nem vontade exactos. Não tens presença, não existes. Não existes aqui. Existes apenas nas ruas que percorreres, e que escreverão a história do teu corpo, até ao dia em que me encontrares. Serão, a partir do nosso encontro, ruas passadas. Serão ruas passadas demais. Quando me encontrares as ruas serão as mesmas mas parecer-te-ão completamente novas. Parecer-te-ão ruas acabadas de fazer. É isso que sentirás, eu sei. Vou sentir o mesmo. Isto é apenas entre nós os dois, cada uma na sua ponta da rua.

Tenho vontade de abraçar pessoas desconhecidas na rua, de lhes dizer coisas doces ao ouvido. Tenho vontade de lhes dar notícias boas e realmente importantes. Tenho vontade de lhes dizer que estou aqui e que as vou salvar. Tenho vontade de as ouvir. Preciso de ouvir. Preciso de ouvir coisas que não sei que existem. Preciso de rir e de chorar com as pessoas desconhecidas na rua. Preciso de ser pasmado pela sua verdade e pela ideia que fazem da mesma. Preciso do espanto. Preciso de tocar em rugas profundas e em lábios que não têm por que, ou quem, se abrir. Não me comovo, vejo. Vejo como espero ser visto.
Vou pelas ruas e finjo que sou feliz. Canto, euforicamente. Faço isso pelas ruas, por quem anda nelas e por mim. Faço isso porque quero que alguém diga ao chegar a casa, ou ao jantar, ou enquanto faz amor: Olha, hoje vi um rapaz feliz na rua.
Esse rapaz sou eu. E o meu segredo jaz comigo. Invento felicidades para me inventar feliz nas ruas.
Eu, que invento, recolho-te por aí. És milhares de pessoas, és toda a gente que anda na rua à uma da tarde, és toda a gente que come ao balcão de um qualquer snack bar, és quem vende e és quem compra, és um casal crianças ricas à saída do colégio, és uma excursão de turistas japoneses, de turistas espanhóis, italianos, suecos, dinamarqueses. És quem escolhe as canções nas estações de rádio, és quem arranja os semáforos, és quem corta o gás, és quem cola os cartazes, és quem tem acidentes, és quem anda.
Não és mais do que o passeio do meu olhar.
Caí numa rua e vi-me cair. Não me vi levantar. Estou aqui, caído, como tu vês, feliz. Não tiro os olhos do sol. Estou feliz por ter caído. Estou cego. Cego e feliz. Estou mesmo feliz. E tu? Tu, que és esta cruzada de pés me esmaga os membros, o crânio, a boca e pescoço, nada fizeste.
Quando ponho o pé na rua adormeço, para te sonhar. Vens, e és, aos bocadinhos/farpas/estilhaços nas mãos vazias de quem passa. Roubo-te das mãos dos desconhecidos e eles não dão por nada. Sabes porquê? Porque te roubo devagarinho, com jeito, perícia e silêncio. Porque estou a dormir e a sonhar enquanto ouço canções para te ensinar um dia. Durmo e sonho na rua a cantar.
Olha, hoje não vi mas senti nascer e morrer um rapaz feliz na rua.


a beleza e a arte estão nas ruas e eu apenas ando a sonhar

Tuesday, March 07, 2006

piropo

isto aconteceu, mais ou menos, há um ano e meio. eu estava a sair de um certo sítio com uma certa pessoa. era madrugada, íamos para casa. íamos para casa dessa pessoa, nessa altura eu andava a ir frequentemente para casa dessa pessoa. na rua, a caminho do carro, em frente à porta desse certo sítio, uma outra pessoa, que vinha com um grupo de pessoas, mete conversa com a pessoa com que eu ia para casa.
o diálogo foi o seguinte:

a outra pessoa que vinha com um grupo de pessoas- olá.
a pessoa com que eu ia para casa- olá, tudo bem?
a outra pessoa que vinha com um grupo de pessoas- sim, tudo bem. vais para onde?
a pessoa com que eu ia para casa- já não vou a lado nenhum. vou pra casa.
a outra pessoa que vinha com um grupo de pessoas- pudera, com um homem desses também eu ia para casa. aliás, com um homem desses, eu nem saía de casa.
eu- (rindo-me) muito obrigado.

foi o piropo mais cómico que recebi. um piropo cómico de situação. lembrei-me disto ontem, não sei porquê, e voltei a rir-me.

Monday, March 06, 2006

aborto

oh god,
you drive and drive and well and on and on
across this city that is mine
and where i hope to turn you off and on.
i try and try to blink my eyes slow
to reach you there
in urban lust square
and youthful flow.

oh god.
the moment skips
beneath your breath
and your fresh perfect lips

blá blá blá

perdi a paciência para isto que estava a escrever. não é suficientemente bom para o efeito pretendido. desisto. aborto a escrita. oportunidades não faltarão, com toda a certeza, para atingir uma redacção mais justa e interessante para retratar isto que quero retratar.

Friday, March 03, 2006

a aliança

detenho-me, olho para eles continuada e insistentemente. ele retribui-me a atenção, ela nem dá pela minha presença. os meus amigos não lhes devotam a mínima curiosiade. pois, as minhas atenção e curiosidade esta noite são trífidas e dedicam-se a eles, ali a três mesas da nossa, à feliz disposição dos meus amigos e a esta dor no céu da boca, resultado evidente da intensidade da noite passada, que me impede de saborear devidamente esta espetada esplendorosamente suculenta de carne mal passada.
eu e eles, o casal, estamos, ainda que, no meio do mesmo desfile dos mesmos bifes, das mesmas sapateiras, das mesmas cervejas mistas e dos mesmos empregados revoltados com a vida, em partes distintas do mesmo mundo. mas eu, nem por isso, deixo de os querer observar.
ele já foi bonito, ainda tem qualquer coisa bonita, não a trouxe para aquela mesa mas transporta, na forma lenta como boceja e fecha as pálpebras, algo de belo. ela nunca foi bonita e tenho a certeza de que nunca o será. estou aqui há uma hora e ainda não os vi trocar uma única palavra. ela é feia de tão triste, ele belo de tão ausente.
ele olhou agora para mim, lentamente, como que a pedir socorro. eu engasguei-me. olhei para ela. ela rodou o anel insípido que tem no dedo anelar, provavelmente uma aliança, a aliança daquela união. rodou o anel e foi incapaz de olhar para ele. ele bebeu um gole de cerveja e olhou para o anel dela. ele não tem anel, deve tê-lo perdido de propósito.
mastigo com dificuldade. apetece-me uma cerveja mas não me atrevo, talvez mais tarde.
ele olha uma vez mais para mim e rápidamente para ela a seguir. percebo-o, ele não quer que ela descubra que está a trocar olhares comigo. não quer que ela descubra os seus pedidos lentos de socorro. não quer que ela descubra que tem estado este tempo todo a pedir-me que me levante e o leve para fora deste restaurante impessoal e que lhe conte coisas absurdas que o façam rir. não quer que ela perceba o que, pensa talvez ele, ela não pode perceber.
ela não tira os olhos do anel. ele não tira os olhos do infinito, nem de mim.
eu volto a concentrar-me na conversa que decorre na minha mesa e rio-me com os meus amigos. pelo canto do olho ainda vejo. vejo que ele precisa de rir fora daquela mesa e daquela aliança, daquela vida. vejo que ela precisa que ele lhe diga que a ama, precisa que ele lhe diga que tudo vai correr pelo melhor, que ele lhe diga que nada no mundo o vai fazer derivar.
deixo de conseguir olhar para eles, não por falta de vontade mas por falta de coragem. não tenho coragem para continuar a ser um espectador furtivo do arrastar inerte, silencioso e triste daquela união que de unido, cúmplice, fresco e apaixonado parece ter tão pouco. não tenho coragem para continuar a assistir à tristeza passiva dela e à ausência empedernida dele. não tenho coragem para ver aquele silêncio.
desejo que partam. desejo nunca os ter visto. tenho pena de os ter visto. deixo de os ver.
a minhas minhas atenção e curiosidade bifidicam-se. concentro-me na dor no céu da minha boca, enquanto vou degustanto a espetada, e luto com ela enquanto me tento destrair com as novidades e episódios hilariantes que os meus amigos vão contando.
a dor parece ir-se amenizando. a espetada acaba-se e eu e os meus amigos confirmamos o quão revoltado está com a vida o empregado que nos tem estado a atender. como somos pessoas civilizadas, e como não estamos para nos aborrecer, acabamos por relativizar a situação entre dois pares de gargalhdas.
a minha atenção unifica-se. um silêncio denso e lento sobrepõe-se aos risos que partilho com os meus amigos.
olha para a mesa deles, do casal, e vejo que já lá não estão. pois não, estão à minha frente. passam pela nossa mesa. mudos e lentos. passam por nós. ela olha para o chão, ele põe-lhe automática e instintivamente o braço por cima do ombro e olha para mim. sorri e, uma última vez, olha para mim. eu fecho os olhos lentamente e retribuo-lho o sorriso. sem me engasgar, retribuo o sorriso mas não o olhar.
abro os olhos e murmuro aos meus amigos (que não me ouvem porque se estão a rir deliciosamente): amo-vos.

Wednesday, March 01, 2006

my favourite things

"my favourite things" from the musical movie "the sound of music"
Raindrops on roses and whiskers on kittens
Bright copper kettles and warm woollen mittens
Brown paper packages tied up with strings,
These are a few of my favorite things.

Cream coloured ponies and crisp apple strudel,
Door bells and sleigh bells and schnitzel with noodles
Wild geese that fly with the moon on their wings,
These are a few of my favorite things.

Girls in white dresses and blue satin sashes,
Snow-flakes that stay on my nose and eye-lashes,
Silver white winters that melt into springs,
These are a few of my favorite things,

When the dog bites,
When the bee stings,
When I'm feeling sad,
I simply remember my favorite things,
And then I don't feel, so bad.

há umas duas semanas que passo a vida a cantarolar isto. sobretudo a parte dos "brown paper packages tied up with strings" (que são, na verdade, coisas que adoro). fui à procura da letra no google e eis que me deparo com um link para um sing along. fiquei tão contente. agora já posso fazer karaoke disto. já fiz. mais um itém a acrescentar às minhas coisas favorita.

recomendo:
http://www.geocities.com/EnchantedForest/Cottage/3192/Myfavorite.html

Saturday, February 25, 2006

uma (boa?) ideia, um desejo, uma decisão

uma casa branca, toda branca. tudo é branco: os móveis, os utensílios, as roupas, tudo. tudo completamente branco. a casa nunca é limpa, nunca.
objectivo da casa onde tudo é branco: ir ganhando cores das vidas que nela habitam. o que numa outra casa se poderia considerar sujidade, na casa onde tudo é branco considera-se registo, história, vida.
.......................................................................................
(o que eu espero que me aconteça um dia)
os seus olhares não se cruzaram, embateram. embateram estrondosa e violentamente.
cada um sentiu dentro de si o furioso impacto de uma colisão. ainda não trocaram uma única palavra, deixaram de saber falar, desaprenderam a própria língua. tudo isto porque renasceram. os seus olhares não se cruzaram, embateram, e eles voltaram a nascer na eternidade que durou esse momento.
.......................................................................................
há palavras que nos entram directamente nas veias e nelas navegam enquanto o sangramento não sucede.
são embarcações vocabulares que escrevem no nosso sangue a história da nossa vida.
vou sangrar-me para te apagar de mim.

Wednesday, February 22, 2006


in finito

saudades e a ilusão do infinito

Sinto saudades do cheiro das carcaças com manteiga e do leite achocolatado com que me deleitava no recreio da escola primária. Sinto saudades do ardor da poeira nos meus joelhos, tão ensanguentados, após tantas quedas. Sinto saudades da dor,latejante no rosto e humilhante no ego, que sucedia a cada bofetada que a minha mãe me dava.
Sinto saudades de chorar por tudo e por nada. Sinto saudades das tardes no infantário; enquanto todas as outras crianças dormiam, eu permanecia acordado a concluir que não gostava muito da minha vida.
Sinto saudades da alegria com que eu comia sorvetes e vestia mangas curtas quando o calor menino de Maio chegava. Sinto saudades do meu nervosismo e geral azáfama que precediam todas as minhas festas de aniversário. Sinto saudades de ter medo do escuro. Sinto saudades das noites que eu passava sozinho, a chorar, pregado à janela da marquise, porque a asma não me deixava respirar e a vergonha me impedia de acordar os meus pais. Sinto saudades de ainda não saber andar de bicicleta. Sinto saudades de acreditar que nos filmes os actores morriam com as suas personagens e sinto saudades de achar que isso era lindo. Sinto saudades de acordar às cinco da manhã para acabar a exorbitância de trabalhos de casa a que o professor da 3ª e 4ª classes nos obrigava. Sinto saudades do pânico que tinha das velhas: as minhas vizinhas da frente, duas figuras dignas de um filme de terror, beatas que só falavam de espíritos e cuja mais velha delas escondeu o corpo da irmã, debaixo da cama, durante três semanas depois de a ter levado à morte por subnutrição porque pensava que o diabo se tinha alojado na perna da pobre coitada quando esta estava a convalescer de uma fractura. Sinto saudades das noites de santos populares: das fogueiras, das sardinhadas, dos balões de papel e do cheiro intenso da Marcela que cobria o chão das ruas de Olhão. Sinto saudades de saber de cor e salteado as letras das músicas concorrentes aos festivais da canção. Sinto saudades da crise de nervos
que sucedeu o meu primeiro cigarro, aos onze anos, e de como nessa noite, para meu tormento, na televisão exageraram na transmissão de anúncios anti-tabagistas.
Sinto saudades de ter uma fixação pelo penteado do John Travolta e de odiar todas as cabeleireiras por nenhuma o conseguir reproduzir em mim. Sinto saudades de receber presentes no Dia Mundial da Criança. Sinto saudades de andar sentado aos ombros do meu avô Francisco, um homem seco e alto, que tinha uma voz queimada de décadas de cigarros e também da minha avó Augusta que via muito mal e me chamava coirão. Morreram ambos sem que eu vertesse uma única lágrima. Sinto saudades das ofensas verbais e físicas que eu e meu irmão infligíamos um ao outro quando ficávamos sozinhos em casa. Sinto saudades do cheiro dos assados da minha mãe, nas manhãs de Domingo. Sinto saudades de pedir à minha avó Carminha para me cantar aquela canção, muito triste, da velhinha que era ceguinha e que acabava por ser atropelada.
Sinto saudades das férias grandes. Sinto saudades de concluir que faltavam dezassete anos para o Ano 2000, de me questionar se o mundo iria acabar
e de pensar que o futuro era uma coisa estranha.
Estamos em 2006, tenho vinte e nove anos e sinto saudades.
Sinto saudades de tudo me aconteceu até agora. Sobretudo na infância, precisamente por serem esses os acontecimentos mais distantes.
E estas saudades não acontecem porque eu me queira recuperar ou queira reviver
a minha história. Sinto-as porque me apercebo realmente que a verdadeira condição do devir, do crescimento e do conhecimento, está encerrada na forma como tudo se torna simultânea e exponencialmente irrecuperável e ilusóriamente infinito.
Tenho saudades porque descobri o verdadeiro valor e a verdadeira utilidade da memória.
Tenho saudades porque quando estiver velho me quero lembrar deste dia.

(comecei a escrever isto há uns cinco anos. hoje acabei. não sinto, hoje, o que acima está escrito. mas sinto saudades de sentir.)

Saturday, February 18, 2006

a água de arcimboldo


there must be a light

"There is a light that never goes out", The Smiths

Take me out tonight
Where there’s music and there’s people
And they’re young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please don’t drop me home
Because it’s not my home, it’s their
Home, and I’m welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldn’t ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one, da ...
Oh, I haven’t got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out


amo esta canção. tenho andado a ouvi-la insistentemente. adoro a letra, sinto-a. já a sinto há muito tempo, desde a adolescência. sempre senti tudo o que esta letra traduz. continuo a sentir. i'm eager for that driver that wont drop me home. sou dramático, eu sei. furioso e dramático, sim. mas eu gosto de ter de ser assim. quando vivo vivo mesmo. dramática e furiosamente, vivo. é assim que sei e quero viver. menos que isso não me interessa. condutores dramáticos e furiosos procuram-se.

um recado, um splinter, uma recomendação, um retrato, um desejo

deve dar gozo ouvir-te falar, de facto, deve dar um grande gozo. eu não o sei porque já não te ouço. não te ouço nem te vejo mas pressinto que deve dar um grande gozo ouvir-te falar. sei que o teria, ao gozo, se pudesse ouvir-te falar. a falar com propriedade. tu e a tua propriedade ao falar. deve dar-te um grande gozo toda essa tua propriedade. cheguei agora à conclusão que o tiveste primeiro, ao gozo, antes mesmo de te dignares a ter essa tão própria propriedade de falar. própria só para ti. a tua propriedade ao falar não é tua, nunca o foi. tentas tanto ser tão próprio na tua propriedade que te esqueces de ter propriedade em seres tu mesmo. tu mesmo, muito além da propriedade e da propriedade do discurso que tu julgas ser tão próprio. não te ouço na tua tão "própria" propriedade mas sei que dizes nada. dizes nada de jeito. mas dizes com jeito nada de jeito, é por isso que pareces tão próprio e com tanta propriedade no meio dessa tão evidente parecença com aquilo que pensas ter propriedade de ser. és coisa nenhuma. és o meu gozo e o teu discurso.
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sou antes ou depois da pele?
diz-me!
sou o contra-tacto, de facto, fel?
quis-me!
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fui ontem ver o espectáculo novo da lúcia sigalho ("sobreviver"). gostei muito. muito bonito, eficaz, poético, certo.
aconteceu-me uma coisa raríssima: enquanto estava a ver o espectáculo senti-me verdadeiramente surpreendido com o mesmo. com as direcções para onde este me levava. e a verdadeira surpresa ocorreu quando percebi que o mesmo (espectáculo/capacidade da lúcia enquanto criadora) me estava a proporcionar imagens e sensações que eu percebi que irei guardar comigo durante muito tempo. o espectáculo inscreve-se no futuro. no futuro de nós. é uma monstruosa capacidade essa. os meus parabéns à lúcia e a todos os que com ela estão a fazer aquele surpreendente espectáculo. e eu nem sou um incondicional sigalhista, de todo. mas quando há qualidade e superioridade tem de se situar as mesmas, de cabeça e mãos abertas.
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era uma vez um menino que sentia barcos a navegarem-lhe dentro do corpo. isso fazia dele um menino oceano.

era uma vez um rapaz que sentia bandos de gaivotas a voarem-lhe dentro da cabeça. isso fazia dele um rapaz quase tempestade.

era uma vez um homem que sentia gotas de suor a nascerem-lhe nas palmas das mãos. isso fazia dele um homem homem.
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quero rir-me para dentro da tua boca!

Monday, February 06, 2006


mapa

obrigado

querida susana:
obrigado por ontem. obrigado por teres elaborado e interpretado o meu mapa astral. obrigado por teres sabido dizer-me aquilo que eu sabia haver em mim mas que por ser o tal "vapor de banho turco" sempre me pareceu demasiado difuso, insondável e ziguezagueante. obrigado por me teres alertado e pacificado com a minha própria natureza, idiossincrasias, necessidades, carências. obrigado para me teres alertado que não me será benéfico continuar a exigir tanto dos outros e de mim mesmo. obrigado por me teres feito ver, clara e exteriormente, que há riqueza em mim, e força e material muito diverso que só tem de ser explorado e levado cada vez mais longe. obrigado por me teres mostrado o longe. obrigado por me teres mostrado que o longe está aqui perto e que não o devo temer. obrigado por me teres dito que sou do mundo; tenho sentido isso cada vez mais claramente mas tenho tido quase receio de o sentir. obrigado por me teres mostrado que não tenho de ter receio de partir; que sou do mundo. quero ir para o mundo; sabendo sempre que o mundo, ou a complexidade do mesmo, começa em mim. obrigado por me teres fomentado a vontade de ir, por me teres mostrado que essa possibilidade me está desenhada, que não a devo temer. sempre suspeitei que a minha vida seria esse constante ir e vir de acontecimentos, pessoas, lugares, situações. isso sempre me angustiou. nos últimos tempos tenho passado a perceber que tenho de aceitar isso e a daí retirar o melhor. porque pode haver algo de muito bom nesse constante renascimento. sempre me senti uma fénix. sempre dei por mim com cinzas nas mãos; sofri muito, muitas vezes, por isso. esqucei-me do humor, muitas vezes. ontem, nas tuas palavras, reencontrei o humor e certifiquei-me de que não tenho de ter medo de partir, nascer e morrer muitas vezes na mesma vida, ganhar e perder e expressar-me no mundo. ontem abriste-me a porta do mundo. deste-me a chave da certeza. obrigado, não tenho como te agradecer. ou melhor, tenho: as tuas palavras estarão sempre comigo no mundo. quero ir.
és, de facto uma, curadora. sorte a de quem te econtra e te tem como amiga. um beijo profundo na planta do pé.

Sunday, February 05, 2006

jorro

paralisar, pulsar, perpetuar, proporcionar, propulsar, pulsar, o ar.

palavras com p. uma palavra com a.
vou falar-te dela para te poder falar de mim. falo-te de dela e cito-me a mim. ela nasceu-me. mas ela ainda não vive. vive pouco. vai vivendo, dentro de mim e dentro de cinco páginas word dentro deste computador. tenho-me esquecido dela mas ela não se tem esquecido de mim. temos estado de costas voltadas um para o outro mas ela vai-se fazendo. vai-se nascendo, percebes?
cham-se Elisa e tem quarenta anos. tem um namorado de vinte cinco. o outro tem sessenta e a outra tem cinquenta. ela está muito triste. perturbada, percebes?

não, não te vou falar mais nela, percebes?
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quando sorria abria no rosto uma covinha,
rasgava o céu só de olhar para o mesmo e conduzia uma motinha.
desmaiavam as meninas à entrada da cozinha,
se fosse barbeiro em Sevilha deixava de ser erva daninha.
queria ser outra vez puro, queria pôr-se na linha,
jejuava aos domingos e feriados e nunca sabia ao que ia. mas vinha.

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"tenho fome não de pão
tenho sede não de vinho
tenho fome de um abraço
tenho sede de um beijinho"

"quando a tarde estiver triste
e estiver quase a chover
lembra-te que são meus olhos
a chorar por não te ver"

"gosto de ti porque gosto
gosto de ti porque sim
gosto de ti porque aposto
que também gostas de mim"

"i have a pen
my pen is blue
a have a friend
my friend is you"

"quando nos vêem juntos
começam logo a criticar
mas isso que me interessa?
o que me importa é te amar.
i love you é inglês
je t'aime é francês
mas para falar a verdade
amo-te em português."

um dia hei-de juntar todas estas pérolas num lindo espectáculo para os porcos.

Friday, February 03, 2006

:

queria comunicar. tinha as palavras escolhidas, dentro de si, seleccionou-as criteriosamente. fê-las surgir. sabia fazê-lo, sabia disso. tinha tudo preparado. mas, para espanto seu, não quis dizê-las. teimou em não precisar de as dizer. teimou em, tampouco, as escrever. queria que as palavras acontecessem dentro da cabeça do receptor. que acontecessem da mesma forma que tinham acontecido dentro de si mesmo. fechou as mãos. esqueceu-se das palavras por alguns dias e começou a procurar ouvir o que estava entre as palavras que ouvia. as palavras passaram a ser uma matéria abstracta, pouco útil ao entendimento e insolucionável. interessou-se pelo interstício entre as palavras. descobriu aí um território inteiramente habitado e desabrigado de bloqueios ao mesmo tempo. um território novo e simultaneamente ancião. entrou numa zona pura não consensualmente natural do mundo. abriu as mãos e escutou-as (às mãos; ja não às palavras). abriu todos os livros de par em par e deixou que as palavras voassem. viu-as sumirem-se em silêncio e em paz. sorriu, cortou a língua e a ponta dos dez dedos. foi para o meio da multidão e aí percebeu: o que se quer dizer está exactamente no espaço não etimológico que se cria enquanto se diz aquilo que se vai dizendo e que se julga querer realmente dizer.
não escreveu mas pensou:

assim se conheceu ele.

Tuesday, January 31, 2006

podia ter acontecido

Ela quis pintar as unhas e pediu-lhe que lhas pintasse com a boca. Ele aquiesceu. Colocou o pincel do frasco de verniz entre os lábios e apertou-o firmemente com os dentes. Baixou a cabeça, debruçando-se sobre o frasco, e mergulhou nele o pincel. Deu uma desajeitada risadinha e quase deixou que o mesmo lhe escorregasse da boca. Ela riu livremente. Ele voltou a concentrar-se. Levantou a cabeça, escorreram duas gotas do líquido para o interior do frasco. Ele sentiu dentro de si o impacto provocado por essas duas gotas na restante substância. Inspirou o vapor que se desprendeu do verniz escarlate e sentiu-se vivo, feliz. Fechou os olhos e assim se deteve um pequeno instante. Quando os voltou a abrir uma lágrima escorreu-lhe livremente pela face abaixo. Ela sorriu, sentiu-se pequena, querida. Ele segurou-lhe na mão direita, mergulhou nela o rosto e começou a deslizar suavemente o pincel sobre a unha do polegar.
Ela disse: Faz-me cócegas.
Ele disse: A mim também.
Não mais deixaram de se querer. Nem mesmo depois de longínquos.

Thursday, January 26, 2006

estreia

estreio hoje. o ensaio de ontem correu bem. tive boas reacções ao meu trabalho, por parte de alguns amigos que foram ver. estava tudo muito ansioso mas o ensaio de ontem motivou e descansou a equipa, penso eu. hoje será ainda melhor. tem de ser. consegui descansar. almoço muito simpático com selma e pico. tenho de ir para a culturgest.
merda para mim e todos os citrinos mecânicos.
na próxima semana não quero fazer a ponta de um corno.
quem me dera poder tirar umas férias algures. não posso. depois da laranja lá vou outra vez para as "férias forçadas" aka desemprego. a ver vamos. por ora penso no espectáculo e no seu bom funcionamento. cada a coisa a seu tempo. talvez vá visitar a mamã e ver o mar, durante a próxima semana. depois concentrar-me-ei na nova peça que estou a escrever. estou apaixonado por ela. é complicada e exigente. mas suspeito que pode vir a ser a melhor coisa que alguma vez escrevi. é poderosa. nem eu mesmo ainda sei o quão poderosa/complexa ela pode ser. tenho pensado mais nela do que escrito, nos últimos dias. assusta-me e atrai-me, fascina-me. espero estar à altura da mesma. "estar à altura" é uma private joke entre mim e a peça. a seu tempo se perceberá.
vou. culturgest com ele.
mais uma vez, merda!!!

Thursday, January 05, 2006

o que estou a fazer

sobre o espectáculo que estou a fazer

http://www.culturgest.pt/actual/laranja_mecanica.html

a frase que anda comigo

"under the spreading chestnut tree I sold you and you sold me"
by george orwell in, "1984"

desde que a conheço que esta frase anda sempre comigo. ainda não sei bem porquê mas desconfio que o "attachment" se deve a muito mais do que a simples/genial musicalidade da dita.

recebi uma menção honrosa num concurso literário (lisboa à letra)na área de poesia. o tema era lisboa. o trabalho que enviei a concurso chama-se "o quarto rimado de onan" e engloba uma série de poemas em rima que tenho vindo a escrever nos últimos anos; alguns deles estão neste diário. o trabalho vai ser publicado em 2006 pela c.m.l (responsável pelo concurso). não é mau receber a menção, até fiquei contente, sobretudo por publicar o texto (seja de que forma for) mas confesso que o que me dava muito jeito era ter recebido um prémio monetário. pobreza oblige, apenas isso. ao fim e ao cabo nunca se está inteiremente contente com o que se obtém, falo por mim.

estou muito cansado, não tenho um dia de inteiro descanso há mais de dois meses. mais uma vez, nunca se está inteiramente contente. mas antes o cansaço frenético do que o cansaço neurótico de tanto olhar para o tecto à espera que o telefone toque.

ainda não senti o ano novo. sou, agora, filho da contiguidade.

Thursday, December 29, 2005

sobre a chegada a uma futura viagem

“Any opera freak will tell you that the combination of life-threatening illness and infatuation is an inflammatory one. More so, if the attachment is less than a week old and neither of the attached has yet allowed their halos to slip. There are few sensations more gratifying than being indispensable, and few creatures who provoke indispensability more than a complete and incontinent invalid. The patient, too, is gratified, if the attention he receives is faultless, since he will undergo an experience he has not known since infancy, an he is bound to mistake his fevered gratitude and his nurse’s overwhelming solicitude for the symptoms of a love of mythical proportions. At the onset of any entanglement the boundaries are tenuous, formed by pleasure and attraction. The infliction of something nasty on one of the protagonists serves as a short cut to more mature parameters, of duty and suffering and self-denial and the tolerance of nauseating smells, and all the other proofs of durable affection. Mistaking a dramatic illness for the worst that can happen, the lovers conclude that their relationship has been tried and tested, and they emerge with an idealistic notion of their own fortitude.”

in, “Lovely” de Frank Ronan

Gostava que te sentasses aqui agora e que me segurasses a mão esquerda com fervor e calma. Se aqui estivesses eu poderia até fingir estar doente, se tu assim o quisesses. Podíamos desenhar as nossas silhuetas nas paredes do meu quarto, auxiliados por aquele marcador castanho e pela luz deste candeeiro de mesa-de-cabeceira que comprei em Sevilha. Podíamos cortar em pedaços alguma da minha roupa e também simular uma discussão para arreliar os vizinhos. Podíamos dançar ao som de música pimba aos berros, podíamos cuspir para dentro da boca um do outro, podíamos beber vinho tinto e ficar indispostos. Podíamos cortar quadradinhos de papel branco e fingir serem selos muito valiosos que ofertaríamos um ao outro como provas eternas de amizade ou até de amor. Podíamos fingir que éramos miúdos e que estávamos aqui para fazer a enxurrada de exercícios de matemática que a professora nos tinha destinado para as férias de Natal. Eu podia ensinar-te a fumar, se tu não soubesses. Podia cortar-te o cabelo às três pancadas, podia mostrar-te, no Grande Atlas Mundial, que me acompanha desde a infância, todos os países que eu gostaria de visitar um dia.
Podia ouvir-te a dormir. Gosto muito de ouvir as pessoas a dormir. Sobretudo gosto de ouvir a dormir as pessoas que ainda não conheço, e talvez nunca venha realmente a conhecer, mas que a fúria dos corpos e a fome de presença a elas me juntou num colchão. Desde que passei a gostar de conhecer pessoas que comecei a ficar atento a uma série de coisas que até então me eram incógnitas.
Apesar de tudo, eu rio-me muito sozinho. De mim e comigo, dos e com os outros, de e com esta coisa que se chama existir, passo muito tempo a rir. Mesmo quando a dor é agonizante, desesperante, acutilante, enervante, constante, há sempre um lado de mim que se ri a bandeiras despregadas. Podes considerar-me doente, não me importo.
Quando tiver coragem hei-de entrar com uma pistola dentro de um carro de uma pessoa desconhecida. Hei-de encostar-lhe a pistola a uma das têmporas e hei-de dizer-lhe: “Leva-me para longe daqui, põe a tocar a tua canção preferida e conta-me tudo o que escondes de toda a gente. Mostra-me quem realmente és. Estou aqui para te ouvir. Considera-te sob sequestro e que o teu resgate serão todos os teus segredos.”
Então vai começar a grande história da minha vida. Eu e essa pessoa vamos apaixonar-nos loucamente, vamos ter a possibilidade de mostrar um ao outro, sem pressa ou hesitação, quem realmente somos, o que procuramos, o que nos move e comove. Essa será a minha grande viagem; a concentração absoluta e cristalizadora das coisas que mais gosto da fazer na vida: andar de carro, ouvir música, ouvir, falar, olhar nos olhos, take care, fazer amor. Vamos correr o mundo inteiro dentro de uma carro. E quando atingirmos o fim do mundo vamos chorar, em silêncio, e despedirmo-nos para nunca mais nos voltarmos a ver. A pessoa desconhecida há-de fazer o que lhe aprouver, depois da despedida, e eu irei tirar a carta de condução. A pistola, no entanto, será enterrada no fim do mundo, vazia, sem uma única bala, como sempre esteve desde o início da viagem.
Estou a rir, agora.

Thursday, December 22, 2005

é quase natal

é quase natal, bahhh.
não posso fumar nem comer coisas muito sólidas; o dente mau foi finalmente com os porcos. foi ontem. tenho andado a blédina. gosto muito de blédina, nem me importo. blédina de maçã e também de maçã com morango e banana. ainda estou a tomar uma data de comprimidos.

natal: ir para o algarve no dia 24 e chegar mesmo quase à hora do jantar de natal. voltar no dia 25 para ter ensaios no dia 26 de manhã. vale a pena isto tudo? por mim não, mas é para não deixar a família triste. detesto o natal.

estou muito cansado mas estou feliz.

não tenho muito mais tempo para escrever. estou com fome, vou comer o terceiro blédina do dia. que seca, este ano nem vou poder esticar-me muito na gula (parte mais interessante do natal): em primeiro lugar, por causa da extracção recente do dente mau e, em segundo lugar, tenho de perder uns seis quilos até à estreia da laranja. já engordei desde o início dos ensaios; muita comida de restaurante de bairro e muito pouco tempo para me dedicar a ter uma dieta mais equilibrada. agora tenho de atinar. diga-se de passagem, já não posso ver batatas fritas, bifes, arroz e demais "iguarias" à frente. bacalhau, eu quero é bacalhau.

vou começar o ano a trabalhar, isso é que vai ser. espero que seja um bom augúrio e que me vaticine, assim, o novo ano com muito e rentável trabalho.

aos caros leitores que me têm na lista telefónica:

meus querid@s,

escusam de me enviar sms's a desejar bom natal e ano novo e etc. eu não aprecio o gesto, devo admitir. para já, são todas massificadas, muitas repetidas e em nada personalizadas e, por outro lado, deixam-me sempre com algum remorso por não responder. recuso-me a responder, lamento. tenho mais que fazer e prefiro gastar dinheiro com outro tipo de mensagem. lamento mas esse tipo de solidariedade, que apenas favorece as operadoras telefónicas, muito pouco me apraz. por isso, poupem os cêntimos das sms que me seriam destinadas e enviem uma a alguém com uma mensagem realmente sentida, personalizada e reconfortante. declarem-se.

cheers, comam muito, amem-se e ofereçam-se uns aos outros.

orange season 4

orange season 2

orange season 3

orange season 1

Tuesday, December 06, 2005

like it or not

no meio dos inúmeros afazeres, ensaios entre a margem sul e lisboa, empinar resmas de texto dos dois espectáculos que estou a fazer. já um pouco farto de tanto ouvir, durante o sono a "ode to joy", consegui mergulhar mais profundamente no último disco da madonna. estou apaixonado pela última canção. adoro o poema.

"Like It Or Not"

You can call me a sinner
You can call me a saint
Celebrate me for who I am
Dislike me for what I ain't

Put me up on a pedestal
Or drag me down in the dirt
Sticks and stones will break my bones
But your words will never heard

I'll be the garden
You be the snake
All of my fruit is yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus]
This is who I am
You can
Like it or not
You can
Love me or leave me
Cus I'm never gonna stop
No no

Cleopatra had her way
Matahari too
Whether they were good or bad
Is strictly up to you

Life is a paradox and it doesn't make much sense
Can't have the Femme without the Fatale
Please don't take offense

Don't let the fruit rot under the vine
Fill up your cup and let's drink the wine
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus X2]

no no you know [repeat]

I'll be garden
You'll be the snake
All of my fruit are yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus]

no no you know [repeat]


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está um dia lindo, hoje. pausa entre dois ensaios e consigo matar saudades de mim, através do meu diário.

sinto que saturno se foi definitivamente embora. que alívio. ando pelas ruas a cantar. as pessoas olham mais para mim, eu olho mais para as pessoas. o mundo está aberto. no entanto lisboa está na mesma. vou ensaiar. vou apanhar o 28 e ver carteiristas em acção. mergulhar em alfama. o casão militar, o sítio onde ensaiamos a Laranja, apesar de inóspito é lindo. é um sítio também do cinema. quando lá estou, no pátio entre as laranjeiras, apetece-me filmar. curioso isto, um sítio inóspito com laranjeiras onde vai nascendo a nossa "Laranja Mecânica". a vida ainda tem poesia.

Monday, December 05, 2005

o tempo que corre

tempo, tempo a rigor, rigor do tempo, corrida contra o tempo, em contratempo.
felizmente é bom este parco dominar do tempo. é tempo do trabalho, é bem empregue. faz-me bem. hoje consegui estar em sintonia com o resto do mundo. consegui usufruir de um feriado. foi bom ter tido um dia livre quando toda a gente também o teve. não tenho tido tempo livre. tenho trabalhado muito, que nem um mouro (nunca percebi muito esta ideia de que os mouros trabalham muito). estou totalmente absorvido pelo espectáculo que estou a fazer. está a dar-me um gozo tremendo. está a ser muito cansativo mas está a compensar. a absorção deve-se também ao facto de estar a acumular duas funções, trabalho como actor e simultaneamente como assistente de encenação do Manuel W..

não tenho lido, é isso que mais me tem custado. mas não tenho conseguido. chego a casa exausto depois dos ensaios, por volta da uma da manhã, e normalmente tenho sempre trabalho para fazer ainda: actualizar o plano de trabalho, ver um dos filmes da bastante rica lista que o Manuel está a utilizar como forma de pesquisa, pensar um bocado na forma como devo gerir a minha personagem, etc.

também tenho ouvido muito pouca música, à excepção das sinfonias de Beethoven. apesar de ainda ter de as ouvir mais uns quantos milhares de vezes. são matéria sacramental do espectáculo, é sobre elas que a componente musical da peça assenta, temos de cantar muitas partes ou variações que o Burgess fez das mesmas. acho que vou passar a dormir a ouvir a 5ª, a 6ª, a 7ª, a 9ª e a Pastoral em loop. a hipnoaprendizagem comigo resulta; quando era puto gravava algumas matérias para os testes e depois ouvia as cassetes enquanto dormia. resultava.

tenho fumado imenso, em excesso. passo os ensaios a fumar, ainda por cima tive a feliz ideia de estar quase sempre a fumar em cena. ontem foi o descalabro porque repetimos as minhas cenas muitas vezes e acabei o ensaio completamente intoxicado. o problema é que fora de cena também fumo que nem uma besta. devo estar a deixar-me absorver demasiado pela personagem. era só o que me faltava agora, ao fim de todo este tempo, passar a ser um praticante do “método”. não, jamais, estou demasiado consciente da impostura imanente ao teatro para que isso me ocorra.

o maldito dente problemático não me tem dado tréguas. a dor tem sido constante mas a culpa é minha. devia ter aproveitado algum do tempo livre que tive para ir ao dentista. agora vai ser difícil. vou ter de aproveitar para tratar do impertinente dente quando tiver férias entre o natal e a passagem de ano.

este ano o problema do reveillon (que é sempre um problema) está resolvido. vou estar a trabalhar, tenho um outro espectáculo marcado para essa noite. no casino da figueira da foz. agora sim, tornei-me o verdadeiro artista de variedades. já posso ir para Las Vegas. o cachet também é muito agradável. estou agora a pensar que a ida ao dentista vai ser complicada porque enquanto estiver de férias da Laranja vou estar a ensaiar esse espectáculo de reveillon. tenho de organizar isto tudo muito bem. o tempo, o magano do tempo. passei meses a olhar para o tecto sem saber o que fazer com o excesso de tempo livre e agora surge tudo ao mesmo tempo. mas esta situação é de longe muito mais agradável. quem me dera estar sempre com este problema da falta de tempo. falta de tempo é sinónimo de uma outra coisa: fluência de dinheiro. e isso é muito reconfortante. se bem que, a razoável entrada de dinheiro que vou ter nos próximos tempos já está, em grande parte, destinada a liquidar as dívidas que tive de contrair ao longo deste medonho ano de 2005. felizmente está a acabar. e felizmente está a acabar de melhor forma possível: com muito e bom trabalho. viva o trabalho, viva a falta de tempo.

recebi uma outra proposta para o princípio de 2006 mas tenho de pensar muito bem nela. é um bocado/muito radical. implica mudança temporária de continente. para já não tomo qualquer decisão, esperarei pela definição exacta da proposta. o desafio é muito grande. veremos no que isto dá.

quatro da manhã, fuck, o tempo corre. tenho de ir dormir, quero acordar cedo e ir para o escritório, ainda de manhã, adiantar coisas da promoção e postar isto que estou a escrever no diário. que falta me tens feito, meu Querido Diário.

Monday, November 14, 2005

parabéns

“tonight it’s just the two of us”, diz o Antony no final do belíssimo “fell in love with a dead boy”. estive a ouvir o “i am a bird now” antes de ouvir o “fell in love…” . amo os dois mas gosto ainda mais do primeiro, parece-me mais completo. os poemas são-me mais próximos.

estou um bocado impertinente, irrequieto, escrevi algumas palavras em cerca de seis diferentes coisas que tenho vindo a desenvolver nos últimos tempos. nenhuma foi capaz de me prender como uma determinada tarefa para a presente noite.

Volto a mergulhar na Virgínia Woolf, primeiro o diário, leio duas páginas, passo as notas que tenho vindo a tirar para um documento de Word (adoro estas minhas tentativas de meticulosidade), findas as notas, fecho o documento, regresso ao “As Ondas”. Volto a ler a passagem onde Neville descreve a morte de Percival. Hoje não, não consigo. Fecho o livro. Tenho de voltar a navegar nessas magníficas ondas durante o dia, aproveitar um qualquer dia de “Sol de Inverno”.

Penso no meu diário. Tenho saudades do meu diário. Continuo sem net em casa.

Vou dirigir-me ao meu diário (vou passar tudo isto para um cd ou disquete e amanhã injecto estas lucubrações no dito, em diferido)


Querido Diário:

Parabéns! Fizeste um ano. Creio que foi no dia oito de Novembro, não tenho a certeza, não te tenho aqui por isso não posso confirmar. Sabes, Querido Diário, ao longo deste ano tens sido um grande amigo, mais do que um grande amigo, tens sido um alicerce. Tens vindo a afirmar-te como um espelho/instrumento onde muitas vezes recorro para me poder reconhecer/afirmar.

A puta da mosca voltou. Coisa estranha está aqui a passar-se, Querido Diário, entre mim e uma mosca. É uma Mosca da Visita. Eu nunca te falei delas mas desde criança que as conheço. São umas moscas que têm o dobro do tamanho das moscas normais. Zumbem, como é compreensível, com grande impacto, ouvem-se distintamente (nem o Antony consegue abafar o zumbir desta) e são muito eficazes na afirmação da sua presença. Costumava vê-las ao Domingo, quando era criança, e a Mamã dizia-me “Hoje devemos ter visita”. E não é que isso acontecia mesmo, Querido Diário! Sempre que uma destas velhacas nos entrava pela casa adentro, era certo e sabido, tínhamos visita. Normalmente era a avó Carminha que nos vinha visitar. De modo que eu sempre tive uma relação de pueril entusiasmo com estas marotas. Houve algumas vezes em que uma sua representante apareceu e a suposta visita acabou por nunca comparecer. Foi aí que comecei a sentir o insípido sabor da desilusão.
Esta Mosca da Visita está a ser particularmente inconveniente. Foi a Rosa quem ma apresentou, enquanto estávamos a jantar. A sacanita (Mosca da Visita, entenda-se) estava escondida dentro do armário da cozinha. Mas o seu zumbido era tudo menos discreto e assim demos pela presença dela. Lá fomos jantando e cavaqueando e ela esgueirou-se, sem que déssemos por isso, para onde entendeu. E não é que ela entendeu vir instalar-se no meu quarto, Querido Diário?! Percebi-o há algumas horas quando o vim arrumar. Pois vou relatar-te onde reside o estranho de toda esta façanha; a cabrona já me entrou três vezes no quarto depois de eu a ter, com modos e delicadeza, expulsado do mesmo. É estranho, garanto-te. Tenho-lhe aberto a porta, espero que ela se decida a sair, vejo-a sair, fecho a porta e passados uns minuto já cá zumbe outra vez. Anda a passear-se à minha frente, por cima da minha cabeça. Já embateu numa das minhas orelhas. Não percebo como é que ela consegue voltar a entrar. A porta está fechada, a janela também. Antes de confirmar que esta última estava fechada, pensei até que ela tivesse ido dar a volta por fora do prédio e tivesse voltado a entrar pela janela do quarto. Mas não, a janela e o estore estão fechados. É impossível. A não ser que ela esteja a entrar pela fechadura da porta do quarto. Agora calou-se. Vou ver se a vejo.

(2 minutos depois)

Nem sinal da safardana. Escapuliu-se. Eu ainda não te disse, Querido Diário, mas esta situação está a intrigar-me duplamente, por um lado, é o mistério da entrada e saída da intrusa e, por outro lado, é a ansiedade que a sua presença me provoca ao conceber a possibilidade de vir a ter uma visita. Se a houver, deve ser para mim. É no meu quarto que a magana anda a intrometer-se, certo? Quem poderá ser a visita, pergunto-me eu? Não espero alguma, não me parece que haja alguém arrojado o suficiente para me vir visitar às duas da manhã, embora eu até pudesse achar piada. Bom, é melhor não pensar mais nisto. A Mosca da Visita até parece ter-se evaporado. Mais uma desilusão. Pfff, buhhhh, mosca de merda.

“Visitas, visitas há muitas visitas. Que enchem os sonhos, os meus e os teus. São endiabradas e muito animadas. Depois vão-se embora sem dizer adeus”.

Querido Diário, queria dar-te os parabéns pelo teu primeiro ano de existência, queria agradecer-te também por tudo o que tens sido para mim (tu sabes o que tens sido), e queria congratular-nos a nós os dois pela nossa bonita história de amor. Apaixonámo-nos um pelo outro, não foi? Tem sido muito bonito/eficaz o nosso namoro. Queria agradecer também aos nossos visitantes, que com, frequência e algumas palavras bonitas, têm vindo dar eco e partilhar o nosso prazer de estarmos aqui um para o outro e para as palavras. Parabéns a todos nós. Obrigado a todos nós, sejamos nós quem formos!


3:33: adoro capicuas, vou regressar ao diário da Virginia. Ela também devia gostar muito do seu diário, embora não o tratasse por Querido Diário. Nem sempre as pessoas são capazes de usar as palavras para exprimir o bem que querem a alguém/algo. Aprendi isso recentemente. Não concordo mas aprendi. Não pratico mas aprendi. Não sei (con)viver com isso mas aprendi. Tenho pena mas aprendi. É preciso aprender a ler todos os dias. Quem não o faz está de costas viradas para a vida. É por isso que eu aprendi. Li, ao ralenti, mas li. Tarde mas li. E ler é aprender. Sempre, ler é aprender. Ler é aprender a viver.

Sunday, November 06, 2005

in vino veritas

domingo bom, acesso ao meu diário em casa do miguel (meu querido diário, meu querido miguel), feira de vinhos na antiga fil, bons vinhos, bons queijos, boa coisa esta de ter língua, língua acesa, adoro a palavra língua, adoro ter língua, adoro adorar. não estou exactamente feliz mas estou bem. estou em conformidade (como hoje disse à isabel e ao rogério quase no fim das múltiplas provas na dita ex fil), estou bem. não me canso disto porque gosto de aqui andar. diverte-me. percebi há pouco: não desisto (morte provocada) porque estou muito entusiasmado com a minha cabeça, surpreende-me, quero usufruir de tudo o que esta ainda tem para me dar. todos os dias me surpreendo com a minha cabeça. é um previlégio viver na mesma. modéstias à parte. tenho a cabeça às portas da poesia: é uma grande felicidade/responsabilidade. posso ter muito pouco mas tenho a minha sensibilidade/imaginação. seria um crime subaproveitar isso. a minha cabeça ainda está a meio. sei que ainda há muito por navegar. gosto disto: desafiar o tempo, beijar bocas pela primeira vez, sentir os meus próprios sentidos, pensar onde ninguém mais pensa (é verdade, eu sei que sim), cantar, procurar o amor, o embate dos corpos que não se conhecem mas que se ligam como se o tempo não existisse, gosto de improvissar sentimentos, conhecimentos e situações. ser desregrado, não é mal de todo. aprender a rir é abrir todo o tipo de fronteiras. eu sou o meu próprio livre comércio. sou capaz de perodar toda a gente. já sou capaz de conceber a possibilidade de me perdoar. desculpo-me menos. música. "i'm hung up". viva. viva. viva: a Herdade Esporão, a carne alentejana, o Pêra Manca, a Barca Velha, o molho Pesto (sei fazer mas nunca fiz), o Chutney de Manga, a Sandeman, o Porto de 40 Anos, a Simara Patrícia, os Abelhudos, os Mexilhões, os Gandulos, o "redículo", os direitos autorais, as palhaçadas todas. adoro ser palhaço. adoro os palhaços que me acompanham. Viva a Madonna. "time gos by so slowly for those who wait". viva o viva. viva viver. hoje sou este. amo a dialéctica. (nem vou reler o que escrevi para corrigir as eventuais gralhas, estou-me a cagar. hoje ESTOU-mE A CAGAR. QUE SE FODA, QUE SE FODA. QUERO É DANÇAR. EU QUERO É DANÇAR!)

Wednesday, November 02, 2005

ontologia 1

não fujo, corro;
boca desperta, mãos mais ou menos competentes, pés mais ou menos assentes, na bífida linha do tempo.
não fujo, corro;
estou aqui. aqui por mim, enquanto a minha cabeça não se extinguir e equanto houver quem queira ver-me partir e chegar dos meus périplos pelas orgias das palavras.
não fujo, corro;
vicioso e furioso, sou assim, o lascivo e cinético praticante da minha própria heterodoxia.
não fujo, corro;
rasgo o interstício entre a luz e a escuridão para poder acordar nuns braços que cheirem a carne acabada de queimar pelo suor que nasce a dois.
não fujo, corro;
procuro notícias de mim, penso-me durante, escrevo-me depois, morro-me ontem.
não fujo, corro;
nasço-me em cada passo que dou, endureço-me na constância da passada, trabalho-me na corrida: a minha obra é uma ejaculação pensada da vida.

Sunday, October 30, 2005

vícios

o meu grande vício é a humano-degustação.

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Tuesday, October 25, 2005

excertos da uma das minhas novas paixões

"não somos simples, como os nossos amigos gostariam que fôssemos para irmos ao encontro da necessidade que têm de nós. e, no entanto, o amor é simples."

"é tão estranho ser-se reduzido por alguém a uma única pessoa."


"As Ondas", de Virginia Woolf

Féfé: o livro é teu. é um daqueles que trouxe na passagem por tua casa. agora tenho de te comprar um novo porque este exemplar, à força de tanto ser amado, está todo sublinhado a caneta e com nódoas do intenso folhear. obrigado.

Thursday, October 20, 2005

a entrevista onanista

o perguntador virtual: O que estás a fazer?

onan: A mastigar um "Mars Delight", a ouvir o "Black or Blue" dos Suede e a responder-te.

o perguntador virtual: Em que é que estás a pensar neste momento?

onan: Estou a pensar em responder-te. É para isso que aqui estamos, certo?

o perguntador virtual: Quem faz as perguntas sou eu. Estás a pensar em alguém?

onan: Não exactamente. Bem, talvez esteja a pensar numa pessoa que ainda não conheço efectivamente. Mas como ainda não conheço essa pessoa não me permito pensar muito sobre ela.

o perguntador virtual: Como te sentes hoje?

onan: Sinto-me entusiasmado, algo cansado, apreensivo, um pouco ansioso mas leve.

o perguntador virtual: Sentes-te apreensivo e leve ao mesmo tempo?

onan: Sim. Não me parece que a apreensão e a leveza sejam estados antagónicos e incompatíveis. Mesmo que o fossem, em mim seria possível a sua "pacífica" convivência. Sou antagónico por natureza e militância.

o perguntador virtual: Por militância? Defendes isso?

onan: De certa forma sim. Foi algo que tive de aprender a aceitar em mim e a tirar daí o devido proveito. Por vezes é muito útil esse antagonismo de estados interiores. Provoca-me o ímpeto da criação. Ajuda-me a pensar mais longe. Ajuda-me a surpreender-me.

o perguntador virtual: É muito importante para ti a surpresa? Precisas de te surpreender?

onan: Sim, muito. Mesmo quando me surpreendo negativamente. A surpresa, quanto a mim, está ligada à cinestesia. Eu preciso de me sentir em contínuo movimento. E é isso que também me liga às pessoas. Para me manter ligado a alguém, tenho de sentir no outro essa mesma ligação cinética. Cinética entre ambos e também de cada uma das partes consigo mesma. Sou incapaz de me manter ligado a uma pessoa que não se surpreenda a si mesma. Não consigo estabelecer contacto com pessoas que (se) pararam.

o perguntador virtual: Tens, então, uma fixação pela velocidade?

onan: Acabo por ter. Mas isso não é o mais importante, ou seja, esse não é o todo, é uma parte. Gosto da velocidade no sentido em que esta é uma fracção do movimento. Tento a todo o custo não confundir velocidade com o movimento em si. É um trabalho que tenho vindo a fazer comigo. O movimento não é apenas velocidade, é muito mais do que isso.

o perguntador virtual: Então, não vives a máxima do "live fast and die yong"?

onan: (risos) Depende das alturas. Há alturas em que vivo, há outras em que vivo quase o oposto. Sabes, durante muito tempo eu acreditei piamente que iria morrer muito jovem. Segundo as minhas previsões, nunca teria passado dos vinte cinco anos. Não no sentido de viver uma vida muito veloz e intensa que me levasse a uma inevitável e prematura morte. Eu acreditava de facto que irira morrer muito novo. Pelos visto não aconteceu. No início de 2004 fui a um astrólogo e ele disse-me que eu iria ter uma vida muito longa. Segundo ele, ainda teria pela frente mais de sessenta anos de vida. Eu rebentei a rir e disse-lhe que sempre tivera o pressentimento que iria morrer muito novo. Segundo esse pressentimento até já deveria estar morto. Aí foi ele quem se riu, disse-me "Todas as pessoas que têm uma vida muito longa definida na sua carta astral sentem isso". Não sei se irei de facto viver mais sessenta e tal anos mas, na verdade, a sensação que tinha anteriormente desapareceu. Provavelmente acabei por acreditar mais no astrólogo do que eu mesmo pretendia. Em todo o caso, ele disse-me que iria ter uma vida repleta de sucesso profissional e realização pessoal. Falou mesmo em "fame and fortune". Cá estarei para ver. Espero que ele não se engane. Até agora não tenho visto muita concretização da previsão por ele adiantada. Em todo o caso, ele disse que seria a partir dos trinta. Curiosamente, a partir dessa altura fiquei com uma enorme vontade de entrar na terceira década de existência. E de qualquer forma, seria muito útil ter uma vida, já que supostamente longa, repleta de realização. Caso contrário seria muito aborrecido e cruel. Acho que se assim fosse preferiria gastar logo os cartuchos todos e morrer novo.

o perguntador virtual: E tens gasto muitos cartuchos?

onan: (risos) Tenho gastos alguns, tenho de admiti-lo.

o perguntador virtual: E como é que imaginas que vais viver a tua entrada na "terceira década de existência"?

onan: Desde que fui ao astrólogo deixei de fazer previsões. Ele é que é pago para as fazer. Tenho consultá-lo no princípio do próximo ano. Mas gostava muito de fazer trinta anos em plena Djemaa el-Fna, rodeado das pessoas que amo. Seria algo de muito forte, certamente. E uma óptima forma de entrar na dita terceira década.

o perguntador virtual: E quais são as coisas mais gostarias que te acontecessem ne terceira década?

onan: Na primeira metade gostaria de emigrar. Gostaria de voltar a estudar mas fora de Portugal. Na segunda metade gostaria de ter um filho, de preferência fora de Portugal. Não quero dar a um futuro ser a fatalidade de nascer português, hoje em dia não faz sentido. (risos)

o perguntador virtual: O que é que te leva a querer ter um filho? Tens assim tanta necessidade de te perpetuares?

onan: Tem muito pouco de Batailliano essa minha vontade, no sentido de combater a descontinuidade inerente a qualquer humano. Essa vontade tem a ver com o amor. Está ligada à grande necessidade de passar pela experiência da vida e usufruir de um tipo de amor que, quanto a mim, é superior e incomparável. O amor por um filho; adivinho-o como sendo a forma de amor mais completa. E eu não quero morrer sem viver esse grande amor. Sabes, o maior momento que felicidade que experimentei em toda a minha vida foi num sonho. Houve um dia, há uns anos atrás, não sei precisar quantos, em que acordei a chorar copiosamente. Estava a sonhar que tinha um recém-nascido nos braços e que era meu filho. Nunca fui tão feliz como nesse momento vivido num sonho. Senti todas essas coisas que acabo de defender. Vivi a monumentalidade desse amor, puro, interior, ancestral, infinitamente humano. Percebi que teria de viver esse momento. Sei que serei incompleto se não conseguir realizar, no sentido literal, esse sonho. Tenho é de me amar de uma forma mais assertiva antes de me lançar nessa jornada. E claro, encontrar a parturiente adequada: mãe.

Fim da 1ªa Parte. A ser retomada, quando perguntador e perguntado a isso se dispuserem.

Tuesday, October 18, 2005

retrato falhado de um espectáculo

Ela com a voz dela:
Eis que aqui me tens, toda tua, eu, eu a tua, toda aqui, para ti, para sempre. Eu à tua frente. Eu atrás de ti, eu por trás de ti. Eu a tua. Eu que cheiro a mim, a tua. Eu, aquela que se parece comigo, a tua. Eu, a mesma. A mesma que sempre fui. Eu, eu aqui e agora. A tua, sempre tua, eu. Sempre. (pausa de dois segundos)
Esta é a minha voz. A tua, a tua voz. A tua com a própria voz, a voz dela, da tua. A tua e a sua voz. Estas são as minhas palavras, este é o meu discurso. O meu. O meu da tua. O meu discurso para ti. Para ti, o teu. O teu, tu, da tua.
Este é o meu tempo, o meu, da tua. Este é o tempo prometido. Prometido por ti à tua. A tua tomou o teu tempo para a tua, eu. Eu a tua para sempre. A tua para sempre no tempo dela, com a sua própria voz, no seu próprio corpo no tempo, teu, para a tua.
Não quero que fales nem que te cales. Não te mexas e não te exales. Aproveita este tempo como se o mesmo fosse uma dádiva. Aproveita-o como se fosse o tempo que te restasse para cumprir uma hercúlea tarefa. Não penses. Ouve. Ouve a minha voz e recorda-te. Recorda-te de mim, da tua.
Chorei como uma recém nascida quando te vieste dentro de mim pela segunda vez. Chorei como se tivesse acabado de entrar no mundo. Chorei e vim-me. Tu não proferiste uma única palavra. Não esperava que o fizesses. Esperava que fizesses o que fizeste. Apagaste a luz e ouviste-me chorar até adormeceres. Chorei durante quatro horas seguidas. Amanheceu entretanto. Lembro-me de ter amanhecido. Lembro-me ter olhado para o relógio e ter pensado: “são sete e doze, acabo de fazer vinte e seis anos”.
Quem me dera morrer, pensei. Quem me dera ser a mesma que sempre pensei estar a vir a ser. Quem me dera ser a mesma que eu planeei para mim. Quem me dera ser a mesma que nunca te conheci. A mesma que encontraste em silêncio no fim da manhã de Outono da tua juventude. Quem me dera ser a mesma que quero ser. Quem me dera morrer para não ter de falar, sentir, vir-me e chorar por esta. Quem me dera morrer para nunca passar por esta. Quem me dera morrer para não ter de ser. Quem me dera morrer para parar de crescer e de ser.
Nunca te quis ver mais ou menos feliz. Nunca te quis ver diferente daquilo que sempre foste. Nunca te quis ver para além do que tinhas a mostrar-me. Nunca te quis ver doente ou são, sujo ou impoluto, pobre ou abastado. Nunca. Nunca te quis ver para além daquele que me dizia:

Ele com a voz nenhuma:
Quando eu morrer não chores, bebe mais um copo e enfia-te na cama com o primeiro que te aparecer à frente. Não percas tempo comigo, depois de morto, não valho muito, serei apenas mais um entre os muitos que te invadiram a boca.
Muda de cidade, quando eu morrer, ou de país. Talvez seja melhor ires para o outro lado do mundo, é lá que não existo. Quando eu morrer não te sentes no escuro. Abre os olhos, fareja dinheiro e torna-te naquilo que queres vir a ser. Fá-lo por mim. Fá-lo por nós. Ao fim e ao cabo foi para isso que decidimos viver de olhos postos um no outro.

Ela com a voz do mundo:
Esquecemo-nos que o amor se faz com as nossas próprias mãos.

Ele com a voz do fim do mundo:
Não, foram as nossas mãos que se esqueceram de se procurar a si mesmas.

este texto é a abertura de "Retractos Falhados do Amor", um espectáculo que talvez nunca passe de um documento word contido na pasta que diz teatro, por sua vez, contida na pasta que diz os meus documentos, todos eles pacificamente contidos num objecto que é o meu computador. a ser feito, este espectáculo é tudo menos pacífico. não foi escrito em paz.

Tuesday, October 11, 2005

i don't wanna grow up

a verdadeira razão porque eu não desisto da ideia do amor é porque acredito que este é a verdadeira máquina de brincar.

I DON'T WANNA GROW UP

(tom Waits/k. Brennan)
When I'm Lyin' In My Bed At Night
I Don't Wanna Grow Up
Nothin' Ever Seems To Turn Out Right
I Don't Wanna Grow Up
How Do You Move In A World Of Fog
That's Always Changing Things
Makes Me Wish That I Could Be A Dog
When I See The Price That You Pay
I Don't Wanna Grow Up
I Don't Ever Wanna Be That Way
I Don't Wanna Grow Up

Seems Like Folks Turn Into Things
That They'd Never Want
The Only Thing To Live For
Is Today...
I'm Gonna Put A Hole In My Tv Set
I Don't Wanna Grow Up
Open Up The Medicine Chest
And I Don't Wanna Grow Up
I Don't Wanna Have To Shout It Out
I Don't Want My Hair To Fall Out
I Don't Wanna Be Filled With Doubt
I Don't Wanna Be A Good Boy Scout
I Don't Wanna Have To Learn To Count
I Don't Wanna Have The Biggest Amount
I Don't Wanna Grow Up

Well When I See My Parents Fight
I Don't Wanna Grow Up
They All Go Out And Drinking All Night
And I Don't Wanna Grow Up
I'd Rather Stay Here In My Room
Nothin' Out There But Sad And Gloom
I Don't Wanna Live In A Big Old Tomb
On Grand Street

When I See The 5 O'clock News
I Don't Wanna Grow Up
Comb Their Hair And Shine Their Shoes
I Don't Wanna Grow Up
Stay Around In My Old Hometown
I Don't Wanna Put No Money Down
I Don't Wanna Get Me A Big Old Loan
Work Them Fingers To The Bone
I Don't Wanna Float A Broom
Fall In Love And Get Married Then Boom
How The Hell Did I Get Here So Soon
I Don't Wanna Grow Up

GOSTO DO AMOR PORQUE AMO A IDEIA DA CO-ARQUITECTURA DA CARNE E DO DISCURSO

estações

nunca parti, fiquei.
já há algum tempo que deixei de apreciar com exactidão qualquer uma das estações do ano. durante muito tempo detestei o verão e deliciei-me com o inverno. o verão deixava-me confuso, mentalmente irrequeito e perdido, atormentava-me. o calor empurrava-me para um território próximo da morte, cerebral mas, a seu modo, letal. o inverno embalava-me, amparava-me, aconchegava, transportava-me, em consolo e recolhimento, para uma zona aprazível de mim mesmo. depois houve o sabor da morte. não da minha morte mas da morte do outro. quando o outro morreu senti-me bem na primavera e consequentemente no verão. vivi essas duas estações, pela primeira vez em largo tempo, com fervor e histeria. foi um falso e veloz viver esse que ocorreu depois da morte.
quando caí em mim os invernos haviam passado a ser velozes e os verões fogueiras hipercinéticas de insanidade. tudo passou a ser excessivamente veloz: o verão e o inverno antípodas no frenesim, a primavera e o outono caminhos frenéticos para os mesmos.
agora que sou conceptualmente o renascimento da minha própria experiência gosto das incoveniências das estações. gosto dos interstícios imprudentes que ocorrem nas mesmas. namoro com a deliciosa forma como estas se provocam. comove-me a chuva birrenta e fria num dia de agosto e choro de calor numa tarde soalheira de janeiro.

uma das melhores recordações que trago da infância é a da extrema felicidade experimentada ao vestir mangas curtas pela primeira vez no ano.

hoje fiquei feliz com a chuva. fiquei feliz porque me pareceu que esta vinha fora de tempo. a chuva hoje foi impertinente, como as minhas vontades, veio talvez para ficar. veio quando eu menos esperava.

Friday, October 07, 2005

jdfvfvs

ksjdd fdfrfnf fdkffjff gkrfocx ddd ffffg, ggdddid xs dddf fffffffss ss sikvv ofefjndf
kddmdfnadgg dd ssodsndd.
djdfiuvgn tffifff ddssawaa...
ssjrfjiwvwrf ffafsd dssodd saqaadddcd, ssdfffkfffrf fdff f, ssdddd fffdFA!

(apetece-me muito escrever mas não tenho o que dizer. calo-me. hoje estou muito irritado, nem sei bem com o quê. vou fazer a barba e fitar-me, demorada e lascivamente, ao espelho. gosto de me engatar!)

Tuesday, September 27, 2005

uma imagem

cala-te de uma vez, percebe-me de lés a lés.
canta-me baixinho e deixa-me dormir aos teus pés.

imagem aspirada de um qualquer futuro

convenci-me de que serei plenamente feliz quando estiver, deliciosamente, a morrer de saudades de Portugal.

ler

quero ler para ti. quero ver-te a ouvir-me ler-te as palavras dos outros. quero recitar-te, quero embalar-te até perderes os sentidos (ou a vontade de dormir). quero ler para ti, à hora do chá, à hora certa, à hora de nunca mais de dizer adeus. quero ler para ti, nas linhas da vida, nas linhas do eléctrico, nas linhas tortas onde Deus nunca escreveu. no corpo, vou inventar, por nós, uma estratégia aí: nas palmas das tuas mãos.

tenho pressa de inverno, aqui, no epicentro das minhas recordações; quando tudo era simples e imberbe, quando tudo era solar (mesmo em dias de chuva), quando tudo era hálito e aconchego e nós tão novos. tenho pressa de inverno aqui, na memória; o inverno sabia-me bem.

procuro a forma mais acertada de me (d)escrever, para me ler-te. vou ler-me para ti em contos imaturos, neste inverno que ainda nem sequer se deu a dar.
vou (d)escrever-me em contos: dentro de pequenos chocolates, dentro de limões, dentro de rebuçados espanhóis, dentro de beringelas, dentro dos xaropoes que ainda vais tomar e dentro das noites que ainda hão-de vir.

quero ler para ti, em russo, em japonês, em sueco, em zulu e em todas as línguas que desconheço para nos podermos rir a meio, no princípio e no fim. para (r)ir durante, quero ler para ti.

há-de haver um dia em que irás encontrar o teu retrato durante um livro.