Monday, July 17, 2006

saturday

"only an expert can deal with the problem"
vi a minha amada, de quase sempre, laurie anderson pela primeira vez. sábado passado no castelo de montemor-o-novo. genial. aquela mulher é genial. apesar de o castelo ter uma atmosfera linda, forte, enigmática, tenho de concordar com a dany. um concerto da laurie anderson, ou este concerto, talvez resulte melhor num espaço fechado, onde se pode estar confortavelmente sentado, sem ter de estar a sacudir as melgas; é necessária a abstracção do corpo. a laurie anderson instala-se dentro da nossa cabeça (na minha está instalada há uns quinze anos). por isso é que me comoveu tanto a citação feita à comédia de Aristófanes "As Aves". é tão bom constatar que as pessoas cujo trabalho nós admiramos também se comovem com as mesmas coisas que nós. "As Aves" é uma das minhas peças clássicas de eleição. A foi muito bom ver a laurie anderson aludir à tal cotovia que, ao sepultar o pai na própria nuca, inventou a memória.
"underwear gods" é também, apesar de menos surpreendente, um conceito interessante e comovente. foi isso que o trabalho da laurie sempre me provocou: comoção no interior da cabeça. exactamente aquilo que pretendo atingir quando me disponho a trabalhar.

Friday, July 14, 2006

2 declarações

1 (particular)
estavas ali, serviste para o efeito pretendido. apenas isso, indiferenciadamente, estou certo. clap, clap, clap (isto são palmas, batidas com ar blasé, à la victoria beckham.)

2 (totalmente geral, sem destinatário definido)
who burps in the end burps a lot better.


crudo

A tua boca descolou-se, rápida e furiosamente, da minha mas
deixei nela presa toda a importância dos meu olhos.
Os teus olhos, quando se fixam nos meus, oferecem-me
o regresso fugaz da pálida ideia do sabor da tua boca.
As tuas mãos são duas estações de calor e contratempo.
As palavras, que agora escrevo, são barcos que se afundam numa saudade que ainda não existe mas cuja fecundação adivinho no fundo da minha garganta.
Quando partires sei que vou fechar os olhos e a boca
para poder mudar de voz na paz que tu mereces que eu adquira.
Ofereceste-me a minha primeira guitarra e eu não consigo deixar de a abraçar (porque tu estás dentro e fora da futura afinação).
Agora ela dorme sempre a meu lado e transporta-me a música que tu és. Durmo neste doce dançar contigo.
Amo-te com gosto, ar e melodia.
(algo mudou dentro de mim nestes últimos dois dias. creio que deixei de sentir isto. ainda não tenho a certeza, mas é possível que sim. por isso é que decidi publicar o poema, para que conste: memória futura.)

Wednesday, July 12, 2006

um poema com sete ou oito anos cuja verdade o tempo não apagou (eterno retorno)

Vou rimar
só por rimar
para não cortar
a jugular


Três cabeças numa chaveta
Tenho um romance na barriga
Siameses na ampulheta
Do mundo chega-me a intriga

A Pandora tem boceta?
Não tens sangue; é jeropiga
Filho de Maria Antonieta
És rapaz ou rapariga?

Eu sou a jóia e tu a a coroa
Esta tensão é irritante
Mudei de pele cá em Lisboa
Tornei-me um altifalante

No verão tudo me enjoa
Eu sou esperto e tu ignorante
Eu feliz? Ah, essa é boa!
Gosto de ti: Coração Mutante

Monday, July 10, 2006

30

foi ontem, 09 de julho, finalmente entrei nos trinta. vamos lá ver se se cumprem as previsões de certos visionários e esta década me traz a, tão ansiada, prosperidade. a ver vamos.
em todo o caso sinto-me próspero por ter os melhores amigos do mundo. felizmente não são poucos e são simplesmente maravilhosos. no sábado, ontem e hoje as acções de todos eles em conjunto e de alguns em particular (selma, miguel, xana, sandra e julián) deixaram-me profundamente comovido, esperançado, feliz. eu sei como sou amado, por vós, meus queridos. e amo-vos muito e vocês fazem-me querer ser uma pessoa melhor. um grande obrigado a todos, you live in me forever. vocês são a minha principal inspiração.

Thursday, July 06, 2006

tem de ser

deixou de me fazer bem, gostar muito de ti, por isso tenho de deixar de gostar muito de ti. passarei a gostar apenas. a vida tem destas coisas...
....................................................................g...a.....m...e.....o....v....e.....r..........
o problema reside no facto de isto nunca ter sido um jogo. ou talvez seja o jogo da vida. o jogo de quem vive. eu vivo.

Saturday, June 24, 2006

um haiku com um ano

rua do norte,
fim de junho a nascer -
os pombos namoram.

Monday, June 19, 2006

uma declaração

para _ _ _ _ cão,

gostar de ti é gostar muito de ti e é gostar muito de gostar muito de ti.
gostar de muito de ti é muito bom, porque tu mereces.
gostar muito de ti é olhar para ti e sentir que a vida pulsa e que a vida é boa.
gostar muito de ti é ter vontade de sorrir e de cantar e de comunicar.
gostar muito de ti é querer ouvir e fazer música para a cantar a toda a gente.
gostar muito de ti é querer viajar, dentro e fora da cabeça.
gostar muito de ti é querer aprender e é querer ensinar.
gostar muito de ti é querer ouvir-te e é querer falar-te.
gostar muito de ti é gostar muito de estar simplesmente contigo; é comunicar.
gostar muito de ti é uma das melhores coisas que me aconteceu nos últimos anos.
gostar muito de ti é saber que, aconteça o que acontecer, serás sempre muito, muito especial na minha vida e na minha memória.
gostar muito de ti é presente e é futuro.
gostar muito de ti é muito, muito simples.
gostar muito de ti vale a pena por tudo isto.
gostar muito de ti é viver.
gostar muito de ti é ser eu.
gostar muito de ti é o antes, o durante e o depois da arte.
gostar muito de ti é criar; é pensar a sentir.
gostar muito de ti é querer ser melhor, para ti, para mim e para o mundo.
gostar muito de ti é o princípio daquilo que eu serei; daquilo que quero ser.
obrigado, por seres assim: alguém de quem é muito bom gostar-se.

Friday, June 16, 2006

parabéns à lena

"música não é barulho! música é silêncio; é pausa!"
lena d'água dixit.

obrigado lena pelo maravilhoso espectáculo de ontem no maxime. duas horas de arrepios, dos bons. mais uma vez conseguiste, e desta vez plenamente, deixar-me aparolado. provaste que a tua arte é perene e anímica, que é uma força da natureza, que é revolucionária e sempre tão fresca, pura. a tua presença transborda a fúria de um primeiro momento. e isso arrepia porque é como a força de uma maré.
parabéns, lena.
e sim, fuck olhó robot! viva o silêncio e a pausa (que tu transportas tão bem).

Thursday, June 08, 2006

medula party para um início de junho

correm, mas não fogem.
embatem, uns nos outros, e dançam, blandiciosos, no ar.
tornam as línguas inequívocas como rastos de cometas.
já não se surpreendem mas deixam-se ficar à espera que um flanco lhes apresente a frescura de um quadro que ainda se está a pensar pintar ou, até mesmo, o frescor leitoso de um primeiro beijo trocado às escondidas.
vivem de olhos fechados, não por medo da luz, ou devoção à escuridão, mas porque querem prolongar até ao infinito a suspeita de que todos os dias podem ser iguais na sua tão desastrada diferença.
carregam no corpo apenas o peso da própria pele e riem-se disso como se as palavras fossem milhões de pequenas partículas de um gás desconhecido que projecta na atmosfera (ao instituir-lhe novas discretíssimas tonalidades) o frugal tempo de vida de uma sensação, necessidade ou desejo.
não são serenos nem furiosos; são livres e acutilantes como as notas desta música que toda sabe mas que jamais alguém se atreveu a inventar.

Monday, June 05, 2006

anti-haiku

(regresso a casa, domingo, 08:3?h, rua d. pedro v)
gulls try to match-
imaginary waterfront-
right mood to compose an haiku, but i don't.

Saturday, June 03, 2006

spit it out

apaixonei-me por esta canção do genial IAMX. apaixonei-me sem perceber que ela viria a tornar-se o hino daquilo que sinto. durante esta semana todas as palavras desta canção têm sido exactamente tudo aquilo que tenho sentido e que poderia vir a ter vontade de te dizer. é magnífico isto das canções se tornarem retratos nítidos das nossas vidas. eu sinto cada uma das seguintes palavras. mas isto é um assunto meu.
"spit it out", by iamx
And if you're hurting
I will replace the noise with silence instead
Flushing out your head
If you like it violent
We can play rough and tumble
Fall into bed
And I won't breathe so you can recover
When you're in pieces
Just follow the echo of my voice
It's okay
Tune into that frequency
Don't fight your reflex
Embrace the instinct
You can feel your way
Through the bed and weak face in the end
'cause it breaks my heart
That we live this way
I know people need love
'cause them people never play the game
And we talk the talk
We communicate
The people need love
Those people never play the game
Pleasure for pleasure
It eases consequence
And love for a fall
But I know you love to take a risk
The past is weakness
Don't beg the question when the answer is war
There are moments when I'm overcome
'cause it breaks my heart
That we live this way
I know people need love
'cause them people never play the game
And we talk the talk
We communicate
Them people need love
Those people never play the game
And it breaks my heart
And it breaks my heart
In love
.............................................................................................................................................
agora as minhas palavras (o meu spit out). para acabar de uma vez com o assunto.
you remember the ending
i remember a little bit more.
why did it happened? we don't know,
maybe it was the engine that pushed us, into each other, when it closed it's door.
you remember the the ending
i remember feeling pulsion, bodies rush and bodies lost.
four? you said four kisses?
i wanna buy you that memory. please tell me, how much does it cost?
(done now!)

Sunday, May 28, 2006

a verdade

gosto tanto de ti!

Wednesday, May 24, 2006

stomach butterflies

to a. (while september does not come)

at the same time odd and warm
and
quite hard to explain
but
i get a glimpse of heaven
when you say:
"i want to fuck you brain"

now always eager to get home
at
the end of shallow day
i start
to smile at six o'clock
wondering
how fresh will be the things you'll say

i'm ready to throw knives out
and say farewell to whats and whys
let me thank you, napchild,
for bringing, back to me, these sweet stomach butterflies

Thursday, May 18, 2006

post modern icarus

i would catch if i could reach you
when you fall i know i'll lose my muse
don't want to be the one to preach you
your addicted to this rushing abuse

why, why, tell me why,
do you bring your chaos to the sky
when we come here to fly, to fly, to fly?

why, why, tell me why,
do you cause explosions in the sky
when we come here to fly, to fly, to fly our pain away?

there are no more lessons to teach you
since we've waisted all our springs
pick up your debris from the the ocean
love is useless without wings

why, why, tell me why,
do you bring your chaos to the sky
when we come here to fly, to fly, to fly?

why, why, tell me why,
do you always try to taint the sky
when we come here to fly, to fly, to fly our pain away?

we fly, and fly, to achieve bliss
but we're no myths from ancient greece.

we fly, and fly, to achieve bliss
but we're no myths from ancient greece.

fly, fly, to achieve bliss,
babe, you're not still in ancient greece.

(a letra de uma nova canção em que estamos, os nude, a trabalhar. vim agora do ensaio e acabei de a escrever em definitivo aqui. ao fim e ao cabo, este diário também é um bloco de notas.)

Wednesday, May 17, 2006

uma fantasia

comer romãs a correr, de mão dada,
bocas que escorrem uma para dentro da outra.
olhar fixo no outro a tarde inteira e crer juntos que se está num templo do Butão.
encher a banheira com água, sal e páginas dos livros todos que se gosta, ler nas plantas dos pés, nas axilas e no sexo as frases que se foi sublinhando, a solo, ao longo da vida.
lavar louça nas escadas do prédio e pintar com verniz dos chineses os dentes das vizinhas mal humoradas.
fazer desenhos obscenos, com guache e tinta de água, nas fachadas de todos os ministérios.
entrar em táxis e dar, convicta e soberbamente, ao motorista a indicação para só parar em Dresden.
ficar em total imobilidade e silêncio durante dois dias de agosto e apenas agitar os corpos para dar pequenos tragos em água das pedras choca.
comer bolachas de água e sal e rasgar notas de cinquenta euros em pedacinhos mínimos; fazer chuva de euro-confetis.
adormecer com vontade de acordar para estar de novo aqui, ou na lapónia, de dedos entrelaçados.
a paixão é isto: o vício de matar o teu tempo, nesta dádiva clara do meu.
(finda a fantasia descubro que tenho o tempo todo para mim e para o relógio.) hmmmmpffffff. faz-se tarde, vou dormir.
o diário de onan, esta virtual e tabularrásica entidade, ganha, pela primeiríssima vez, expressão e afirma:
- Este demónio mente. Onan tem fobia a relógios, não os possui, não se compreendem mutuamente. Quando Onan pensa, fantasia e conclui os relógios páram no seu pulso e implodem. E Onan passa noites em claro a tentar medir a intensidade do parto de cada novo minuto. Deixai-o mentir, é assim que adormece.


Tuesday, May 16, 2006

farewell Elisa promenade

o terçolho está menor, ainda dói, mas, em todo o caso, não foi por isso que acordei. acordou-me o sonho e o barulho da folha de papel a arrastar-se, sobre o tapete, à porta do quarto (eram um quarto para as oito). dormi quatro horas e meia, não consegui dormir mais; não o lamento, hoje não o lamento.
a folha estava lá; vi-a quando decidi levantar-me para vir escrever; era um recado da rosa, por causa do dinheiro. ai, o dinheiro.
o sonho:
a H., que não é de todo actriz, estava a fazer um espectáculo sobre a sua ligação com o A.. a D. entrava no palco e, qual espectro, seguia a H. durante toda a acção; invadia-lhe o palco e deixava-se ficar, em silêncio, porque a ligação de H. a A. foi, como toda a gente sabe, uma terrível facada para D..
este sonho fez-me perceber uma série de coisas; levou-me, de novo, a Elisa. god, Elisa voltou e foi em força. este sonho fez-me perceber muita coisa; sobretudo a questão da espectralidade, o registo suspenso, o filtro onírico. é por aí, é por aí que Elisa tem de ir. é incrível que tenha sido através de um sonho, com uma das pessoas que mais amo na vida, que Elisa, essa mulher que me tem obcecado nos últimos meses, que vai e volta e que ainda não tem a consistência suficiente para que eu a escreva de fio a pavio, tenha voltado.
a espectralidade não é exactamente de Elisa, é de Ele. Elisa torna-se um espectro quando conferencia com Ele. mas Elisa não estará mais com Ele. na verdade, penso que Ele já estará morto. Elisa conferencia com um espectro, daí a sua grande perturbação. Elisa ficou presa na frescura interrompida da sua juventude, é por isso que não consegue ser agora Elisa.
o sonho trouxe-me de volta Elisa e o nome da obra. valeu a pena dormir pouco, hoje valeu a pena dormir pouco. hoje começa, em ganas e fúria, neste ataque concreto e profícuo de maníaca ansiedade primaveril (síndroma que cada vez estou mais certo possuir), a obra: Farewell Elisa Promenade.
ainda bem que voltaste, Elisa. não vou deixar-te partir de novo.
(este verde rima com promenade) é primavera, senhores, e eu não páro!

Sunday, May 14, 2006

uma conclusão

se o mundo é isto: um mar revolto de vontades arbitrárias.
eu sou: uma jangada insolente (mas nunca muda)!