Wednesday, February 22, 2006

saudades e a ilusão do infinito

Sinto saudades do cheiro das carcaças com manteiga e do leite achocolatado com que me deleitava no recreio da escola primária. Sinto saudades do ardor da poeira nos meus joelhos, tão ensanguentados, após tantas quedas. Sinto saudades da dor,latejante no rosto e humilhante no ego, que sucedia a cada bofetada que a minha mãe me dava.
Sinto saudades de chorar por tudo e por nada. Sinto saudades das tardes no infantário; enquanto todas as outras crianças dormiam, eu permanecia acordado a concluir que não gostava muito da minha vida.
Sinto saudades da alegria com que eu comia sorvetes e vestia mangas curtas quando o calor menino de Maio chegava. Sinto saudades do meu nervosismo e geral azáfama que precediam todas as minhas festas de aniversário. Sinto saudades de ter medo do escuro. Sinto saudades das noites que eu passava sozinho, a chorar, pregado à janela da marquise, porque a asma não me deixava respirar e a vergonha me impedia de acordar os meus pais. Sinto saudades de ainda não saber andar de bicicleta. Sinto saudades de acreditar que nos filmes os actores morriam com as suas personagens e sinto saudades de achar que isso era lindo. Sinto saudades de acordar às cinco da manhã para acabar a exorbitância de trabalhos de casa a que o professor da 3ª e 4ª classes nos obrigava. Sinto saudades do pânico que tinha das velhas: as minhas vizinhas da frente, duas figuras dignas de um filme de terror, beatas que só falavam de espíritos e cuja mais velha delas escondeu o corpo da irmã, debaixo da cama, durante três semanas depois de a ter levado à morte por subnutrição porque pensava que o diabo se tinha alojado na perna da pobre coitada quando esta estava a convalescer de uma fractura. Sinto saudades das noites de santos populares: das fogueiras, das sardinhadas, dos balões de papel e do cheiro intenso da Marcela que cobria o chão das ruas de Olhão. Sinto saudades de saber de cor e salteado as letras das músicas concorrentes aos festivais da canção. Sinto saudades da crise de nervos
que sucedeu o meu primeiro cigarro, aos onze anos, e de como nessa noite, para meu tormento, na televisão exageraram na transmissão de anúncios anti-tabagistas.
Sinto saudades de ter uma fixação pelo penteado do John Travolta e de odiar todas as cabeleireiras por nenhuma o conseguir reproduzir em mim. Sinto saudades de receber presentes no Dia Mundial da Criança. Sinto saudades de andar sentado aos ombros do meu avô Francisco, um homem seco e alto, que tinha uma voz queimada de décadas de cigarros e também da minha avó Augusta que via muito mal e me chamava coirão. Morreram ambos sem que eu vertesse uma única lágrima. Sinto saudades das ofensas verbais e físicas que eu e meu irmão infligíamos um ao outro quando ficávamos sozinhos em casa. Sinto saudades do cheiro dos assados da minha mãe, nas manhãs de Domingo. Sinto saudades de pedir à minha avó Carminha para me cantar aquela canção, muito triste, da velhinha que era ceguinha e que acabava por ser atropelada.
Sinto saudades das férias grandes. Sinto saudades de concluir que faltavam dezassete anos para o Ano 2000, de me questionar se o mundo iria acabar
e de pensar que o futuro era uma coisa estranha.
Estamos em 2006, tenho vinte e nove anos e sinto saudades.
Sinto saudades de tudo me aconteceu até agora. Sobretudo na infância, precisamente por serem esses os acontecimentos mais distantes.
E estas saudades não acontecem porque eu me queira recuperar ou queira reviver
a minha história. Sinto-as porque me apercebo realmente que a verdadeira condição do devir, do crescimento e do conhecimento, está encerrada na forma como tudo se torna simultânea e exponencialmente irrecuperável e ilusóriamente infinito.
Tenho saudades porque descobri o verdadeiro valor e a verdadeira utilidade da memória.
Tenho saudades porque quando estiver velho me quero lembrar deste dia.

(comecei a escrever isto há uns cinco anos. hoje acabei. não sinto, hoje, o que acima está escrito. mas sinto saudades de sentir.)

Saturday, February 18, 2006

a água de arcimboldo


there must be a light

"There is a light that never goes out", The Smiths

Take me out tonight
Where there’s music and there’s people
And they’re young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please don’t drop me home
Because it’s not my home, it’s their
Home, and I’m welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldn’t ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one, da ...
Oh, I haven’t got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out


amo esta canção. tenho andado a ouvi-la insistentemente. adoro a letra, sinto-a. já a sinto há muito tempo, desde a adolescência. sempre senti tudo o que esta letra traduz. continuo a sentir. i'm eager for that driver that wont drop me home. sou dramático, eu sei. furioso e dramático, sim. mas eu gosto de ter de ser assim. quando vivo vivo mesmo. dramática e furiosamente, vivo. é assim que sei e quero viver. menos que isso não me interessa. condutores dramáticos e furiosos procuram-se.

um recado, um splinter, uma recomendação, um retrato, um desejo

deve dar gozo ouvir-te falar, de facto, deve dar um grande gozo. eu não o sei porque já não te ouço. não te ouço nem te vejo mas pressinto que deve dar um grande gozo ouvir-te falar. sei que o teria, ao gozo, se pudesse ouvir-te falar. a falar com propriedade. tu e a tua propriedade ao falar. deve dar-te um grande gozo toda essa tua propriedade. cheguei agora à conclusão que o tiveste primeiro, ao gozo, antes mesmo de te dignares a ter essa tão própria propriedade de falar. própria só para ti. a tua propriedade ao falar não é tua, nunca o foi. tentas tanto ser tão próprio na tua propriedade que te esqueces de ter propriedade em seres tu mesmo. tu mesmo, muito além da propriedade e da propriedade do discurso que tu julgas ser tão próprio. não te ouço na tua tão "própria" propriedade mas sei que dizes nada. dizes nada de jeito. mas dizes com jeito nada de jeito, é por isso que pareces tão próprio e com tanta propriedade no meio dessa tão evidente parecença com aquilo que pensas ter propriedade de ser. és coisa nenhuma. és o meu gozo e o teu discurso.
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sou antes ou depois da pele?
diz-me!
sou o contra-tacto, de facto, fel?
quis-me!
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fui ontem ver o espectáculo novo da lúcia sigalho ("sobreviver"). gostei muito. muito bonito, eficaz, poético, certo.
aconteceu-me uma coisa raríssima: enquanto estava a ver o espectáculo senti-me verdadeiramente surpreendido com o mesmo. com as direcções para onde este me levava. e a verdadeira surpresa ocorreu quando percebi que o mesmo (espectáculo/capacidade da lúcia enquanto criadora) me estava a proporcionar imagens e sensações que eu percebi que irei guardar comigo durante muito tempo. o espectáculo inscreve-se no futuro. no futuro de nós. é uma monstruosa capacidade essa. os meus parabéns à lúcia e a todos os que com ela estão a fazer aquele surpreendente espectáculo. e eu nem sou um incondicional sigalhista, de todo. mas quando há qualidade e superioridade tem de se situar as mesmas, de cabeça e mãos abertas.
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era uma vez um menino que sentia barcos a navegarem-lhe dentro do corpo. isso fazia dele um menino oceano.

era uma vez um rapaz que sentia bandos de gaivotas a voarem-lhe dentro da cabeça. isso fazia dele um rapaz quase tempestade.

era uma vez um homem que sentia gotas de suor a nascerem-lhe nas palmas das mãos. isso fazia dele um homem homem.
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quero rir-me para dentro da tua boca!

Monday, February 06, 2006


mapa

obrigado

querida susana:
obrigado por ontem. obrigado por teres elaborado e interpretado o meu mapa astral. obrigado por teres sabido dizer-me aquilo que eu sabia haver em mim mas que por ser o tal "vapor de banho turco" sempre me pareceu demasiado difuso, insondável e ziguezagueante. obrigado por me teres alertado e pacificado com a minha própria natureza, idiossincrasias, necessidades, carências. obrigado para me teres alertado que não me será benéfico continuar a exigir tanto dos outros e de mim mesmo. obrigado por me teres feito ver, clara e exteriormente, que há riqueza em mim, e força e material muito diverso que só tem de ser explorado e levado cada vez mais longe. obrigado por me teres mostrado o longe. obrigado por me teres mostrado que o longe está aqui perto e que não o devo temer. obrigado por me teres dito que sou do mundo; tenho sentido isso cada vez mais claramente mas tenho tido quase receio de o sentir. obrigado por me teres mostrado que não tenho de ter receio de partir; que sou do mundo. quero ir para o mundo; sabendo sempre que o mundo, ou a complexidade do mesmo, começa em mim. obrigado por me teres fomentado a vontade de ir, por me teres mostrado que essa possibilidade me está desenhada, que não a devo temer. sempre suspeitei que a minha vida seria esse constante ir e vir de acontecimentos, pessoas, lugares, situações. isso sempre me angustiou. nos últimos tempos tenho passado a perceber que tenho de aceitar isso e a daí retirar o melhor. porque pode haver algo de muito bom nesse constante renascimento. sempre me senti uma fénix. sempre dei por mim com cinzas nas mãos; sofri muito, muitas vezes, por isso. esqucei-me do humor, muitas vezes. ontem, nas tuas palavras, reencontrei o humor e certifiquei-me de que não tenho de ter medo de partir, nascer e morrer muitas vezes na mesma vida, ganhar e perder e expressar-me no mundo. ontem abriste-me a porta do mundo. deste-me a chave da certeza. obrigado, não tenho como te agradecer. ou melhor, tenho: as tuas palavras estarão sempre comigo no mundo. quero ir.
és, de facto uma, curadora. sorte a de quem te econtra e te tem como amiga. um beijo profundo na planta do pé.

Sunday, February 05, 2006

jorro

paralisar, pulsar, perpetuar, proporcionar, propulsar, pulsar, o ar.

palavras com p. uma palavra com a.
vou falar-te dela para te poder falar de mim. falo-te de dela e cito-me a mim. ela nasceu-me. mas ela ainda não vive. vive pouco. vai vivendo, dentro de mim e dentro de cinco páginas word dentro deste computador. tenho-me esquecido dela mas ela não se tem esquecido de mim. temos estado de costas voltadas um para o outro mas ela vai-se fazendo. vai-se nascendo, percebes?
cham-se Elisa e tem quarenta anos. tem um namorado de vinte cinco. o outro tem sessenta e a outra tem cinquenta. ela está muito triste. perturbada, percebes?

não, não te vou falar mais nela, percebes?
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quando sorria abria no rosto uma covinha,
rasgava o céu só de olhar para o mesmo e conduzia uma motinha.
desmaiavam as meninas à entrada da cozinha,
se fosse barbeiro em Sevilha deixava de ser erva daninha.
queria ser outra vez puro, queria pôr-se na linha,
jejuava aos domingos e feriados e nunca sabia ao que ia. mas vinha.

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"tenho fome não de pão
tenho sede não de vinho
tenho fome de um abraço
tenho sede de um beijinho"

"quando a tarde estiver triste
e estiver quase a chover
lembra-te que são meus olhos
a chorar por não te ver"

"gosto de ti porque gosto
gosto de ti porque sim
gosto de ti porque aposto
que também gostas de mim"

"i have a pen
my pen is blue
a have a friend
my friend is you"

"quando nos vêem juntos
começam logo a criticar
mas isso que me interessa?
o que me importa é te amar.
i love you é inglês
je t'aime é francês
mas para falar a verdade
amo-te em português."

um dia hei-de juntar todas estas pérolas num lindo espectáculo para os porcos.

Friday, February 03, 2006

:

queria comunicar. tinha as palavras escolhidas, dentro de si, seleccionou-as criteriosamente. fê-las surgir. sabia fazê-lo, sabia disso. tinha tudo preparado. mas, para espanto seu, não quis dizê-las. teimou em não precisar de as dizer. teimou em, tampouco, as escrever. queria que as palavras acontecessem dentro da cabeça do receptor. que acontecessem da mesma forma que tinham acontecido dentro de si mesmo. fechou as mãos. esqueceu-se das palavras por alguns dias e começou a procurar ouvir o que estava entre as palavras que ouvia. as palavras passaram a ser uma matéria abstracta, pouco útil ao entendimento e insolucionável. interessou-se pelo interstício entre as palavras. descobriu aí um território inteiramente habitado e desabrigado de bloqueios ao mesmo tempo. um território novo e simultaneamente ancião. entrou numa zona pura não consensualmente natural do mundo. abriu as mãos e escutou-as (às mãos; ja não às palavras). abriu todos os livros de par em par e deixou que as palavras voassem. viu-as sumirem-se em silêncio e em paz. sorriu, cortou a língua e a ponta dos dez dedos. foi para o meio da multidão e aí percebeu: o que se quer dizer está exactamente no espaço não etimológico que se cria enquanto se diz aquilo que se vai dizendo e que se julga querer realmente dizer.
não escreveu mas pensou:

assim se conheceu ele.

Tuesday, January 31, 2006

podia ter acontecido

Ela quis pintar as unhas e pediu-lhe que lhas pintasse com a boca. Ele aquiesceu. Colocou o pincel do frasco de verniz entre os lábios e apertou-o firmemente com os dentes. Baixou a cabeça, debruçando-se sobre o frasco, e mergulhou nele o pincel. Deu uma desajeitada risadinha e quase deixou que o mesmo lhe escorregasse da boca. Ela riu livremente. Ele voltou a concentrar-se. Levantou a cabeça, escorreram duas gotas do líquido para o interior do frasco. Ele sentiu dentro de si o impacto provocado por essas duas gotas na restante substância. Inspirou o vapor que se desprendeu do verniz escarlate e sentiu-se vivo, feliz. Fechou os olhos e assim se deteve um pequeno instante. Quando os voltou a abrir uma lágrima escorreu-lhe livremente pela face abaixo. Ela sorriu, sentiu-se pequena, querida. Ele segurou-lhe na mão direita, mergulhou nela o rosto e começou a deslizar suavemente o pincel sobre a unha do polegar.
Ela disse: Faz-me cócegas.
Ele disse: A mim também.
Não mais deixaram de se querer. Nem mesmo depois de longínquos.

Thursday, January 26, 2006

estreia

estreio hoje. o ensaio de ontem correu bem. tive boas reacções ao meu trabalho, por parte de alguns amigos que foram ver. estava tudo muito ansioso mas o ensaio de ontem motivou e descansou a equipa, penso eu. hoje será ainda melhor. tem de ser. consegui descansar. almoço muito simpático com selma e pico. tenho de ir para a culturgest.
merda para mim e todos os citrinos mecânicos.
na próxima semana não quero fazer a ponta de um corno.
quem me dera poder tirar umas férias algures. não posso. depois da laranja lá vou outra vez para as "férias forçadas" aka desemprego. a ver vamos. por ora penso no espectáculo e no seu bom funcionamento. cada a coisa a seu tempo. talvez vá visitar a mamã e ver o mar, durante a próxima semana. depois concentrar-me-ei na nova peça que estou a escrever. estou apaixonado por ela. é complicada e exigente. mas suspeito que pode vir a ser a melhor coisa que alguma vez escrevi. é poderosa. nem eu mesmo ainda sei o quão poderosa/complexa ela pode ser. tenho pensado mais nela do que escrito, nos últimos dias. assusta-me e atrai-me, fascina-me. espero estar à altura da mesma. "estar à altura" é uma private joke entre mim e a peça. a seu tempo se perceberá.
vou. culturgest com ele.
mais uma vez, merda!!!

Thursday, January 05, 2006

o que estou a fazer

sobre o espectáculo que estou a fazer

http://www.culturgest.pt/actual/laranja_mecanica.html

a frase que anda comigo

"under the spreading chestnut tree I sold you and you sold me"
by george orwell in, "1984"

desde que a conheço que esta frase anda sempre comigo. ainda não sei bem porquê mas desconfio que o "attachment" se deve a muito mais do que a simples/genial musicalidade da dita.

recebi uma menção honrosa num concurso literário (lisboa à letra)na área de poesia. o tema era lisboa. o trabalho que enviei a concurso chama-se "o quarto rimado de onan" e engloba uma série de poemas em rima que tenho vindo a escrever nos últimos anos; alguns deles estão neste diário. o trabalho vai ser publicado em 2006 pela c.m.l (responsável pelo concurso). não é mau receber a menção, até fiquei contente, sobretudo por publicar o texto (seja de que forma for) mas confesso que o que me dava muito jeito era ter recebido um prémio monetário. pobreza oblige, apenas isso. ao fim e ao cabo nunca se está inteiremente contente com o que se obtém, falo por mim.

estou muito cansado, não tenho um dia de inteiro descanso há mais de dois meses. mais uma vez, nunca se está inteiramente contente. mas antes o cansaço frenético do que o cansaço neurótico de tanto olhar para o tecto à espera que o telefone toque.

ainda não senti o ano novo. sou, agora, filho da contiguidade.

Thursday, December 29, 2005

sobre a chegada a uma futura viagem

“Any opera freak will tell you that the combination of life-threatening illness and infatuation is an inflammatory one. More so, if the attachment is less than a week old and neither of the attached has yet allowed their halos to slip. There are few sensations more gratifying than being indispensable, and few creatures who provoke indispensability more than a complete and incontinent invalid. The patient, too, is gratified, if the attention he receives is faultless, since he will undergo an experience he has not known since infancy, an he is bound to mistake his fevered gratitude and his nurse’s overwhelming solicitude for the symptoms of a love of mythical proportions. At the onset of any entanglement the boundaries are tenuous, formed by pleasure and attraction. The infliction of something nasty on one of the protagonists serves as a short cut to more mature parameters, of duty and suffering and self-denial and the tolerance of nauseating smells, and all the other proofs of durable affection. Mistaking a dramatic illness for the worst that can happen, the lovers conclude that their relationship has been tried and tested, and they emerge with an idealistic notion of their own fortitude.”

in, “Lovely” de Frank Ronan

Gostava que te sentasses aqui agora e que me segurasses a mão esquerda com fervor e calma. Se aqui estivesses eu poderia até fingir estar doente, se tu assim o quisesses. Podíamos desenhar as nossas silhuetas nas paredes do meu quarto, auxiliados por aquele marcador castanho e pela luz deste candeeiro de mesa-de-cabeceira que comprei em Sevilha. Podíamos cortar em pedaços alguma da minha roupa e também simular uma discussão para arreliar os vizinhos. Podíamos dançar ao som de música pimba aos berros, podíamos cuspir para dentro da boca um do outro, podíamos beber vinho tinto e ficar indispostos. Podíamos cortar quadradinhos de papel branco e fingir serem selos muito valiosos que ofertaríamos um ao outro como provas eternas de amizade ou até de amor. Podíamos fingir que éramos miúdos e que estávamos aqui para fazer a enxurrada de exercícios de matemática que a professora nos tinha destinado para as férias de Natal. Eu podia ensinar-te a fumar, se tu não soubesses. Podia cortar-te o cabelo às três pancadas, podia mostrar-te, no Grande Atlas Mundial, que me acompanha desde a infância, todos os países que eu gostaria de visitar um dia.
Podia ouvir-te a dormir. Gosto muito de ouvir as pessoas a dormir. Sobretudo gosto de ouvir a dormir as pessoas que ainda não conheço, e talvez nunca venha realmente a conhecer, mas que a fúria dos corpos e a fome de presença a elas me juntou num colchão. Desde que passei a gostar de conhecer pessoas que comecei a ficar atento a uma série de coisas que até então me eram incógnitas.
Apesar de tudo, eu rio-me muito sozinho. De mim e comigo, dos e com os outros, de e com esta coisa que se chama existir, passo muito tempo a rir. Mesmo quando a dor é agonizante, desesperante, acutilante, enervante, constante, há sempre um lado de mim que se ri a bandeiras despregadas. Podes considerar-me doente, não me importo.
Quando tiver coragem hei-de entrar com uma pistola dentro de um carro de uma pessoa desconhecida. Hei-de encostar-lhe a pistola a uma das têmporas e hei-de dizer-lhe: “Leva-me para longe daqui, põe a tocar a tua canção preferida e conta-me tudo o que escondes de toda a gente. Mostra-me quem realmente és. Estou aqui para te ouvir. Considera-te sob sequestro e que o teu resgate serão todos os teus segredos.”
Então vai começar a grande história da minha vida. Eu e essa pessoa vamos apaixonar-nos loucamente, vamos ter a possibilidade de mostrar um ao outro, sem pressa ou hesitação, quem realmente somos, o que procuramos, o que nos move e comove. Essa será a minha grande viagem; a concentração absoluta e cristalizadora das coisas que mais gosto da fazer na vida: andar de carro, ouvir música, ouvir, falar, olhar nos olhos, take care, fazer amor. Vamos correr o mundo inteiro dentro de uma carro. E quando atingirmos o fim do mundo vamos chorar, em silêncio, e despedirmo-nos para nunca mais nos voltarmos a ver. A pessoa desconhecida há-de fazer o que lhe aprouver, depois da despedida, e eu irei tirar a carta de condução. A pistola, no entanto, será enterrada no fim do mundo, vazia, sem uma única bala, como sempre esteve desde o início da viagem.
Estou a rir, agora.

Thursday, December 22, 2005

é quase natal

é quase natal, bahhh.
não posso fumar nem comer coisas muito sólidas; o dente mau foi finalmente com os porcos. foi ontem. tenho andado a blédina. gosto muito de blédina, nem me importo. blédina de maçã e também de maçã com morango e banana. ainda estou a tomar uma data de comprimidos.

natal: ir para o algarve no dia 24 e chegar mesmo quase à hora do jantar de natal. voltar no dia 25 para ter ensaios no dia 26 de manhã. vale a pena isto tudo? por mim não, mas é para não deixar a família triste. detesto o natal.

estou muito cansado mas estou feliz.

não tenho muito mais tempo para escrever. estou com fome, vou comer o terceiro blédina do dia. que seca, este ano nem vou poder esticar-me muito na gula (parte mais interessante do natal): em primeiro lugar, por causa da extracção recente do dente mau e, em segundo lugar, tenho de perder uns seis quilos até à estreia da laranja. já engordei desde o início dos ensaios; muita comida de restaurante de bairro e muito pouco tempo para me dedicar a ter uma dieta mais equilibrada. agora tenho de atinar. diga-se de passagem, já não posso ver batatas fritas, bifes, arroz e demais "iguarias" à frente. bacalhau, eu quero é bacalhau.

vou começar o ano a trabalhar, isso é que vai ser. espero que seja um bom augúrio e que me vaticine, assim, o novo ano com muito e rentável trabalho.

aos caros leitores que me têm na lista telefónica:

meus querid@s,

escusam de me enviar sms's a desejar bom natal e ano novo e etc. eu não aprecio o gesto, devo admitir. para já, são todas massificadas, muitas repetidas e em nada personalizadas e, por outro lado, deixam-me sempre com algum remorso por não responder. recuso-me a responder, lamento. tenho mais que fazer e prefiro gastar dinheiro com outro tipo de mensagem. lamento mas esse tipo de solidariedade, que apenas favorece as operadoras telefónicas, muito pouco me apraz. por isso, poupem os cêntimos das sms que me seriam destinadas e enviem uma a alguém com uma mensagem realmente sentida, personalizada e reconfortante. declarem-se.

cheers, comam muito, amem-se e ofereçam-se uns aos outros.

orange season 4

orange season 2

orange season 3

orange season 1

Tuesday, December 06, 2005

like it or not

no meio dos inúmeros afazeres, ensaios entre a margem sul e lisboa, empinar resmas de texto dos dois espectáculos que estou a fazer. já um pouco farto de tanto ouvir, durante o sono a "ode to joy", consegui mergulhar mais profundamente no último disco da madonna. estou apaixonado pela última canção. adoro o poema.

"Like It Or Not"

You can call me a sinner
You can call me a saint
Celebrate me for who I am
Dislike me for what I ain't

Put me up on a pedestal
Or drag me down in the dirt
Sticks and stones will break my bones
But your words will never heard

I'll be the garden
You be the snake
All of my fruit is yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus]
This is who I am
You can
Like it or not
You can
Love me or leave me
Cus I'm never gonna stop
No no

Cleopatra had her way
Matahari too
Whether they were good or bad
Is strictly up to you

Life is a paradox and it doesn't make much sense
Can't have the Femme without the Fatale
Please don't take offense

Don't let the fruit rot under the vine
Fill up your cup and let's drink the wine
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus X2]

no no you know [repeat]

I'll be garden
You'll be the snake
All of my fruit are yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus]

no no you know [repeat]


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está um dia lindo, hoje. pausa entre dois ensaios e consigo matar saudades de mim, através do meu diário.

sinto que saturno se foi definitivamente embora. que alívio. ando pelas ruas a cantar. as pessoas olham mais para mim, eu olho mais para as pessoas. o mundo está aberto. no entanto lisboa está na mesma. vou ensaiar. vou apanhar o 28 e ver carteiristas em acção. mergulhar em alfama. o casão militar, o sítio onde ensaiamos a Laranja, apesar de inóspito é lindo. é um sítio também do cinema. quando lá estou, no pátio entre as laranjeiras, apetece-me filmar. curioso isto, um sítio inóspito com laranjeiras onde vai nascendo a nossa "Laranja Mecânica". a vida ainda tem poesia.

Monday, December 05, 2005

o tempo que corre

tempo, tempo a rigor, rigor do tempo, corrida contra o tempo, em contratempo.
felizmente é bom este parco dominar do tempo. é tempo do trabalho, é bem empregue. faz-me bem. hoje consegui estar em sintonia com o resto do mundo. consegui usufruir de um feriado. foi bom ter tido um dia livre quando toda a gente também o teve. não tenho tido tempo livre. tenho trabalhado muito, que nem um mouro (nunca percebi muito esta ideia de que os mouros trabalham muito). estou totalmente absorvido pelo espectáculo que estou a fazer. está a dar-me um gozo tremendo. está a ser muito cansativo mas está a compensar. a absorção deve-se também ao facto de estar a acumular duas funções, trabalho como actor e simultaneamente como assistente de encenação do Manuel W..

não tenho lido, é isso que mais me tem custado. mas não tenho conseguido. chego a casa exausto depois dos ensaios, por volta da uma da manhã, e normalmente tenho sempre trabalho para fazer ainda: actualizar o plano de trabalho, ver um dos filmes da bastante rica lista que o Manuel está a utilizar como forma de pesquisa, pensar um bocado na forma como devo gerir a minha personagem, etc.

também tenho ouvido muito pouca música, à excepção das sinfonias de Beethoven. apesar de ainda ter de as ouvir mais uns quantos milhares de vezes. são matéria sacramental do espectáculo, é sobre elas que a componente musical da peça assenta, temos de cantar muitas partes ou variações que o Burgess fez das mesmas. acho que vou passar a dormir a ouvir a 5ª, a 6ª, a 7ª, a 9ª e a Pastoral em loop. a hipnoaprendizagem comigo resulta; quando era puto gravava algumas matérias para os testes e depois ouvia as cassetes enquanto dormia. resultava.

tenho fumado imenso, em excesso. passo os ensaios a fumar, ainda por cima tive a feliz ideia de estar quase sempre a fumar em cena. ontem foi o descalabro porque repetimos as minhas cenas muitas vezes e acabei o ensaio completamente intoxicado. o problema é que fora de cena também fumo que nem uma besta. devo estar a deixar-me absorver demasiado pela personagem. era só o que me faltava agora, ao fim de todo este tempo, passar a ser um praticante do “método”. não, jamais, estou demasiado consciente da impostura imanente ao teatro para que isso me ocorra.

o maldito dente problemático não me tem dado tréguas. a dor tem sido constante mas a culpa é minha. devia ter aproveitado algum do tempo livre que tive para ir ao dentista. agora vai ser difícil. vou ter de aproveitar para tratar do impertinente dente quando tiver férias entre o natal e a passagem de ano.

este ano o problema do reveillon (que é sempre um problema) está resolvido. vou estar a trabalhar, tenho um outro espectáculo marcado para essa noite. no casino da figueira da foz. agora sim, tornei-me o verdadeiro artista de variedades. já posso ir para Las Vegas. o cachet também é muito agradável. estou agora a pensar que a ida ao dentista vai ser complicada porque enquanto estiver de férias da Laranja vou estar a ensaiar esse espectáculo de reveillon. tenho de organizar isto tudo muito bem. o tempo, o magano do tempo. passei meses a olhar para o tecto sem saber o que fazer com o excesso de tempo livre e agora surge tudo ao mesmo tempo. mas esta situação é de longe muito mais agradável. quem me dera estar sempre com este problema da falta de tempo. falta de tempo é sinónimo de uma outra coisa: fluência de dinheiro. e isso é muito reconfortante. se bem que, a razoável entrada de dinheiro que vou ter nos próximos tempos já está, em grande parte, destinada a liquidar as dívidas que tive de contrair ao longo deste medonho ano de 2005. felizmente está a acabar. e felizmente está a acabar de melhor forma possível: com muito e bom trabalho. viva o trabalho, viva a falta de tempo.

recebi uma outra proposta para o princípio de 2006 mas tenho de pensar muito bem nela. é um bocado/muito radical. implica mudança temporária de continente. para já não tomo qualquer decisão, esperarei pela definição exacta da proposta. o desafio é muito grande. veremos no que isto dá.

quatro da manhã, fuck, o tempo corre. tenho de ir dormir, quero acordar cedo e ir para o escritório, ainda de manhã, adiantar coisas da promoção e postar isto que estou a escrever no diário. que falta me tens feito, meu Querido Diário.

Monday, November 14, 2005

parabéns

“tonight it’s just the two of us”, diz o Antony no final do belíssimo “fell in love with a dead boy”. estive a ouvir o “i am a bird now” antes de ouvir o “fell in love…” . amo os dois mas gosto ainda mais do primeiro, parece-me mais completo. os poemas são-me mais próximos.

estou um bocado impertinente, irrequieto, escrevi algumas palavras em cerca de seis diferentes coisas que tenho vindo a desenvolver nos últimos tempos. nenhuma foi capaz de me prender como uma determinada tarefa para a presente noite.

Volto a mergulhar na Virgínia Woolf, primeiro o diário, leio duas páginas, passo as notas que tenho vindo a tirar para um documento de Word (adoro estas minhas tentativas de meticulosidade), findas as notas, fecho o documento, regresso ao “As Ondas”. Volto a ler a passagem onde Neville descreve a morte de Percival. Hoje não, não consigo. Fecho o livro. Tenho de voltar a navegar nessas magníficas ondas durante o dia, aproveitar um qualquer dia de “Sol de Inverno”.

Penso no meu diário. Tenho saudades do meu diário. Continuo sem net em casa.

Vou dirigir-me ao meu diário (vou passar tudo isto para um cd ou disquete e amanhã injecto estas lucubrações no dito, em diferido)


Querido Diário:

Parabéns! Fizeste um ano. Creio que foi no dia oito de Novembro, não tenho a certeza, não te tenho aqui por isso não posso confirmar. Sabes, Querido Diário, ao longo deste ano tens sido um grande amigo, mais do que um grande amigo, tens sido um alicerce. Tens vindo a afirmar-te como um espelho/instrumento onde muitas vezes recorro para me poder reconhecer/afirmar.

A puta da mosca voltou. Coisa estranha está aqui a passar-se, Querido Diário, entre mim e uma mosca. É uma Mosca da Visita. Eu nunca te falei delas mas desde criança que as conheço. São umas moscas que têm o dobro do tamanho das moscas normais. Zumbem, como é compreensível, com grande impacto, ouvem-se distintamente (nem o Antony consegue abafar o zumbir desta) e são muito eficazes na afirmação da sua presença. Costumava vê-las ao Domingo, quando era criança, e a Mamã dizia-me “Hoje devemos ter visita”. E não é que isso acontecia mesmo, Querido Diário! Sempre que uma destas velhacas nos entrava pela casa adentro, era certo e sabido, tínhamos visita. Normalmente era a avó Carminha que nos vinha visitar. De modo que eu sempre tive uma relação de pueril entusiasmo com estas marotas. Houve algumas vezes em que uma sua representante apareceu e a suposta visita acabou por nunca comparecer. Foi aí que comecei a sentir o insípido sabor da desilusão.
Esta Mosca da Visita está a ser particularmente inconveniente. Foi a Rosa quem ma apresentou, enquanto estávamos a jantar. A sacanita (Mosca da Visita, entenda-se) estava escondida dentro do armário da cozinha. Mas o seu zumbido era tudo menos discreto e assim demos pela presença dela. Lá fomos jantando e cavaqueando e ela esgueirou-se, sem que déssemos por isso, para onde entendeu. E não é que ela entendeu vir instalar-se no meu quarto, Querido Diário?! Percebi-o há algumas horas quando o vim arrumar. Pois vou relatar-te onde reside o estranho de toda esta façanha; a cabrona já me entrou três vezes no quarto depois de eu a ter, com modos e delicadeza, expulsado do mesmo. É estranho, garanto-te. Tenho-lhe aberto a porta, espero que ela se decida a sair, vejo-a sair, fecho a porta e passados uns minuto já cá zumbe outra vez. Anda a passear-se à minha frente, por cima da minha cabeça. Já embateu numa das minhas orelhas. Não percebo como é que ela consegue voltar a entrar. A porta está fechada, a janela também. Antes de confirmar que esta última estava fechada, pensei até que ela tivesse ido dar a volta por fora do prédio e tivesse voltado a entrar pela janela do quarto. Mas não, a janela e o estore estão fechados. É impossível. A não ser que ela esteja a entrar pela fechadura da porta do quarto. Agora calou-se. Vou ver se a vejo.

(2 minutos depois)

Nem sinal da safardana. Escapuliu-se. Eu ainda não te disse, Querido Diário, mas esta situação está a intrigar-me duplamente, por um lado, é o mistério da entrada e saída da intrusa e, por outro lado, é a ansiedade que a sua presença me provoca ao conceber a possibilidade de vir a ter uma visita. Se a houver, deve ser para mim. É no meu quarto que a magana anda a intrometer-se, certo? Quem poderá ser a visita, pergunto-me eu? Não espero alguma, não me parece que haja alguém arrojado o suficiente para me vir visitar às duas da manhã, embora eu até pudesse achar piada. Bom, é melhor não pensar mais nisto. A Mosca da Visita até parece ter-se evaporado. Mais uma desilusão. Pfff, buhhhh, mosca de merda.

“Visitas, visitas há muitas visitas. Que enchem os sonhos, os meus e os teus. São endiabradas e muito animadas. Depois vão-se embora sem dizer adeus”.

Querido Diário, queria dar-te os parabéns pelo teu primeiro ano de existência, queria agradecer-te também por tudo o que tens sido para mim (tu sabes o que tens sido), e queria congratular-nos a nós os dois pela nossa bonita história de amor. Apaixonámo-nos um pelo outro, não foi? Tem sido muito bonito/eficaz o nosso namoro. Queria agradecer também aos nossos visitantes, que com, frequência e algumas palavras bonitas, têm vindo dar eco e partilhar o nosso prazer de estarmos aqui um para o outro e para as palavras. Parabéns a todos nós. Obrigado a todos nós, sejamos nós quem formos!


3:33: adoro capicuas, vou regressar ao diário da Virginia. Ela também devia gostar muito do seu diário, embora não o tratasse por Querido Diário. Nem sempre as pessoas são capazes de usar as palavras para exprimir o bem que querem a alguém/algo. Aprendi isso recentemente. Não concordo mas aprendi. Não pratico mas aprendi. Não sei (con)viver com isso mas aprendi. Tenho pena mas aprendi. É preciso aprender a ler todos os dias. Quem não o faz está de costas viradas para a vida. É por isso que eu aprendi. Li, ao ralenti, mas li. Tarde mas li. E ler é aprender. Sempre, ler é aprender. Ler é aprender a viver.

Sunday, November 06, 2005

in vino veritas

domingo bom, acesso ao meu diário em casa do miguel (meu querido diário, meu querido miguel), feira de vinhos na antiga fil, bons vinhos, bons queijos, boa coisa esta de ter língua, língua acesa, adoro a palavra língua, adoro ter língua, adoro adorar. não estou exactamente feliz mas estou bem. estou em conformidade (como hoje disse à isabel e ao rogério quase no fim das múltiplas provas na dita ex fil), estou bem. não me canso disto porque gosto de aqui andar. diverte-me. percebi há pouco: não desisto (morte provocada) porque estou muito entusiasmado com a minha cabeça, surpreende-me, quero usufruir de tudo o que esta ainda tem para me dar. todos os dias me surpreendo com a minha cabeça. é um previlégio viver na mesma. modéstias à parte. tenho a cabeça às portas da poesia: é uma grande felicidade/responsabilidade. posso ter muito pouco mas tenho a minha sensibilidade/imaginação. seria um crime subaproveitar isso. a minha cabeça ainda está a meio. sei que ainda há muito por navegar. gosto disto: desafiar o tempo, beijar bocas pela primeira vez, sentir os meus próprios sentidos, pensar onde ninguém mais pensa (é verdade, eu sei que sim), cantar, procurar o amor, o embate dos corpos que não se conhecem mas que se ligam como se o tempo não existisse, gosto de improvissar sentimentos, conhecimentos e situações. ser desregrado, não é mal de todo. aprender a rir é abrir todo o tipo de fronteiras. eu sou o meu próprio livre comércio. sou capaz de perodar toda a gente. já sou capaz de conceber a possibilidade de me perdoar. desculpo-me menos. música. "i'm hung up". viva. viva. viva: a Herdade Esporão, a carne alentejana, o Pêra Manca, a Barca Velha, o molho Pesto (sei fazer mas nunca fiz), o Chutney de Manga, a Sandeman, o Porto de 40 Anos, a Simara Patrícia, os Abelhudos, os Mexilhões, os Gandulos, o "redículo", os direitos autorais, as palhaçadas todas. adoro ser palhaço. adoro os palhaços que me acompanham. Viva a Madonna. "time gos by so slowly for those who wait". viva o viva. viva viver. hoje sou este. amo a dialéctica. (nem vou reler o que escrevi para corrigir as eventuais gralhas, estou-me a cagar. hoje ESTOU-mE A CAGAR. QUE SE FODA, QUE SE FODA. QUERO É DANÇAR. EU QUERO É DANÇAR!)

Wednesday, November 02, 2005

ontologia 1

não fujo, corro;
boca desperta, mãos mais ou menos competentes, pés mais ou menos assentes, na bífida linha do tempo.
não fujo, corro;
estou aqui. aqui por mim, enquanto a minha cabeça não se extinguir e equanto houver quem queira ver-me partir e chegar dos meus périplos pelas orgias das palavras.
não fujo, corro;
vicioso e furioso, sou assim, o lascivo e cinético praticante da minha própria heterodoxia.
não fujo, corro;
rasgo o interstício entre a luz e a escuridão para poder acordar nuns braços que cheirem a carne acabada de queimar pelo suor que nasce a dois.
não fujo, corro;
procuro notícias de mim, penso-me durante, escrevo-me depois, morro-me ontem.
não fujo, corro;
nasço-me em cada passo que dou, endureço-me na constância da passada, trabalho-me na corrida: a minha obra é uma ejaculação pensada da vida.

Sunday, October 30, 2005

vícios

o meu grande vício é a humano-degustação.

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Tuesday, October 25, 2005

excertos da uma das minhas novas paixões

"não somos simples, como os nossos amigos gostariam que fôssemos para irmos ao encontro da necessidade que têm de nós. e, no entanto, o amor é simples."

"é tão estranho ser-se reduzido por alguém a uma única pessoa."


"As Ondas", de Virginia Woolf

Féfé: o livro é teu. é um daqueles que trouxe na passagem por tua casa. agora tenho de te comprar um novo porque este exemplar, à força de tanto ser amado, está todo sublinhado a caneta e com nódoas do intenso folhear. obrigado.

Thursday, October 20, 2005

a entrevista onanista

o perguntador virtual: O que estás a fazer?

onan: A mastigar um "Mars Delight", a ouvir o "Black or Blue" dos Suede e a responder-te.

o perguntador virtual: Em que é que estás a pensar neste momento?

onan: Estou a pensar em responder-te. É para isso que aqui estamos, certo?

o perguntador virtual: Quem faz as perguntas sou eu. Estás a pensar em alguém?

onan: Não exactamente. Bem, talvez esteja a pensar numa pessoa que ainda não conheço efectivamente. Mas como ainda não conheço essa pessoa não me permito pensar muito sobre ela.

o perguntador virtual: Como te sentes hoje?

onan: Sinto-me entusiasmado, algo cansado, apreensivo, um pouco ansioso mas leve.

o perguntador virtual: Sentes-te apreensivo e leve ao mesmo tempo?

onan: Sim. Não me parece que a apreensão e a leveza sejam estados antagónicos e incompatíveis. Mesmo que o fossem, em mim seria possível a sua "pacífica" convivência. Sou antagónico por natureza e militância.

o perguntador virtual: Por militância? Defendes isso?

onan: De certa forma sim. Foi algo que tive de aprender a aceitar em mim e a tirar daí o devido proveito. Por vezes é muito útil esse antagonismo de estados interiores. Provoca-me o ímpeto da criação. Ajuda-me a pensar mais longe. Ajuda-me a surpreender-me.

o perguntador virtual: É muito importante para ti a surpresa? Precisas de te surpreender?

onan: Sim, muito. Mesmo quando me surpreendo negativamente. A surpresa, quanto a mim, está ligada à cinestesia. Eu preciso de me sentir em contínuo movimento. E é isso que também me liga às pessoas. Para me manter ligado a alguém, tenho de sentir no outro essa mesma ligação cinética. Cinética entre ambos e também de cada uma das partes consigo mesma. Sou incapaz de me manter ligado a uma pessoa que não se surpreenda a si mesma. Não consigo estabelecer contacto com pessoas que (se) pararam.

o perguntador virtual: Tens, então, uma fixação pela velocidade?

onan: Acabo por ter. Mas isso não é o mais importante, ou seja, esse não é o todo, é uma parte. Gosto da velocidade no sentido em que esta é uma fracção do movimento. Tento a todo o custo não confundir velocidade com o movimento em si. É um trabalho que tenho vindo a fazer comigo. O movimento não é apenas velocidade, é muito mais do que isso.

o perguntador virtual: Então, não vives a máxima do "live fast and die yong"?

onan: (risos) Depende das alturas. Há alturas em que vivo, há outras em que vivo quase o oposto. Sabes, durante muito tempo eu acreditei piamente que iria morrer muito jovem. Segundo as minhas previsões, nunca teria passado dos vinte cinco anos. Não no sentido de viver uma vida muito veloz e intensa que me levasse a uma inevitável e prematura morte. Eu acreditava de facto que irira morrer muito novo. Pelos visto não aconteceu. No início de 2004 fui a um astrólogo e ele disse-me que eu iria ter uma vida muito longa. Segundo ele, ainda teria pela frente mais de sessenta anos de vida. Eu rebentei a rir e disse-lhe que sempre tivera o pressentimento que iria morrer muito novo. Segundo esse pressentimento até já deveria estar morto. Aí foi ele quem se riu, disse-me "Todas as pessoas que têm uma vida muito longa definida na sua carta astral sentem isso". Não sei se irei de facto viver mais sessenta e tal anos mas, na verdade, a sensação que tinha anteriormente desapareceu. Provavelmente acabei por acreditar mais no astrólogo do que eu mesmo pretendia. Em todo o caso, ele disse-me que iria ter uma vida repleta de sucesso profissional e realização pessoal. Falou mesmo em "fame and fortune". Cá estarei para ver. Espero que ele não se engane. Até agora não tenho visto muita concretização da previsão por ele adiantada. Em todo o caso, ele disse que seria a partir dos trinta. Curiosamente, a partir dessa altura fiquei com uma enorme vontade de entrar na terceira década de existência. E de qualquer forma, seria muito útil ter uma vida, já que supostamente longa, repleta de realização. Caso contrário seria muito aborrecido e cruel. Acho que se assim fosse preferiria gastar logo os cartuchos todos e morrer novo.

o perguntador virtual: E tens gasto muitos cartuchos?

onan: (risos) Tenho gastos alguns, tenho de admiti-lo.

o perguntador virtual: E como é que imaginas que vais viver a tua entrada na "terceira década de existência"?

onan: Desde que fui ao astrólogo deixei de fazer previsões. Ele é que é pago para as fazer. Tenho consultá-lo no princípio do próximo ano. Mas gostava muito de fazer trinta anos em plena Djemaa el-Fna, rodeado das pessoas que amo. Seria algo de muito forte, certamente. E uma óptima forma de entrar na dita terceira década.

o perguntador virtual: E quais são as coisas mais gostarias que te acontecessem ne terceira década?

onan: Na primeira metade gostaria de emigrar. Gostaria de voltar a estudar mas fora de Portugal. Na segunda metade gostaria de ter um filho, de preferência fora de Portugal. Não quero dar a um futuro ser a fatalidade de nascer português, hoje em dia não faz sentido. (risos)

o perguntador virtual: O que é que te leva a querer ter um filho? Tens assim tanta necessidade de te perpetuares?

onan: Tem muito pouco de Batailliano essa minha vontade, no sentido de combater a descontinuidade inerente a qualquer humano. Essa vontade tem a ver com o amor. Está ligada à grande necessidade de passar pela experiência da vida e usufruir de um tipo de amor que, quanto a mim, é superior e incomparável. O amor por um filho; adivinho-o como sendo a forma de amor mais completa. E eu não quero morrer sem viver esse grande amor. Sabes, o maior momento que felicidade que experimentei em toda a minha vida foi num sonho. Houve um dia, há uns anos atrás, não sei precisar quantos, em que acordei a chorar copiosamente. Estava a sonhar que tinha um recém-nascido nos braços e que era meu filho. Nunca fui tão feliz como nesse momento vivido num sonho. Senti todas essas coisas que acabo de defender. Vivi a monumentalidade desse amor, puro, interior, ancestral, infinitamente humano. Percebi que teria de viver esse momento. Sei que serei incompleto se não conseguir realizar, no sentido literal, esse sonho. Tenho é de me amar de uma forma mais assertiva antes de me lançar nessa jornada. E claro, encontrar a parturiente adequada: mãe.

Fim da 1ªa Parte. A ser retomada, quando perguntador e perguntado a isso se dispuserem.

Tuesday, October 18, 2005

retrato falhado de um espectáculo

Ela com a voz dela:
Eis que aqui me tens, toda tua, eu, eu a tua, toda aqui, para ti, para sempre. Eu à tua frente. Eu atrás de ti, eu por trás de ti. Eu a tua. Eu que cheiro a mim, a tua. Eu, aquela que se parece comigo, a tua. Eu, a mesma. A mesma que sempre fui. Eu, eu aqui e agora. A tua, sempre tua, eu. Sempre. (pausa de dois segundos)
Esta é a minha voz. A tua, a tua voz. A tua com a própria voz, a voz dela, da tua. A tua e a sua voz. Estas são as minhas palavras, este é o meu discurso. O meu. O meu da tua. O meu discurso para ti. Para ti, o teu. O teu, tu, da tua.
Este é o meu tempo, o meu, da tua. Este é o tempo prometido. Prometido por ti à tua. A tua tomou o teu tempo para a tua, eu. Eu a tua para sempre. A tua para sempre no tempo dela, com a sua própria voz, no seu próprio corpo no tempo, teu, para a tua.
Não quero que fales nem que te cales. Não te mexas e não te exales. Aproveita este tempo como se o mesmo fosse uma dádiva. Aproveita-o como se fosse o tempo que te restasse para cumprir uma hercúlea tarefa. Não penses. Ouve. Ouve a minha voz e recorda-te. Recorda-te de mim, da tua.
Chorei como uma recém nascida quando te vieste dentro de mim pela segunda vez. Chorei como se tivesse acabado de entrar no mundo. Chorei e vim-me. Tu não proferiste uma única palavra. Não esperava que o fizesses. Esperava que fizesses o que fizeste. Apagaste a luz e ouviste-me chorar até adormeceres. Chorei durante quatro horas seguidas. Amanheceu entretanto. Lembro-me de ter amanhecido. Lembro-me ter olhado para o relógio e ter pensado: “são sete e doze, acabo de fazer vinte e seis anos”.
Quem me dera morrer, pensei. Quem me dera ser a mesma que sempre pensei estar a vir a ser. Quem me dera ser a mesma que eu planeei para mim. Quem me dera ser a mesma que nunca te conheci. A mesma que encontraste em silêncio no fim da manhã de Outono da tua juventude. Quem me dera ser a mesma que quero ser. Quem me dera morrer para não ter de falar, sentir, vir-me e chorar por esta. Quem me dera morrer para nunca passar por esta. Quem me dera morrer para não ter de ser. Quem me dera morrer para parar de crescer e de ser.
Nunca te quis ver mais ou menos feliz. Nunca te quis ver diferente daquilo que sempre foste. Nunca te quis ver para além do que tinhas a mostrar-me. Nunca te quis ver doente ou são, sujo ou impoluto, pobre ou abastado. Nunca. Nunca te quis ver para além daquele que me dizia:

Ele com a voz nenhuma:
Quando eu morrer não chores, bebe mais um copo e enfia-te na cama com o primeiro que te aparecer à frente. Não percas tempo comigo, depois de morto, não valho muito, serei apenas mais um entre os muitos que te invadiram a boca.
Muda de cidade, quando eu morrer, ou de país. Talvez seja melhor ires para o outro lado do mundo, é lá que não existo. Quando eu morrer não te sentes no escuro. Abre os olhos, fareja dinheiro e torna-te naquilo que queres vir a ser. Fá-lo por mim. Fá-lo por nós. Ao fim e ao cabo foi para isso que decidimos viver de olhos postos um no outro.

Ela com a voz do mundo:
Esquecemo-nos que o amor se faz com as nossas próprias mãos.

Ele com a voz do fim do mundo:
Não, foram as nossas mãos que se esqueceram de se procurar a si mesmas.

este texto é a abertura de "Retractos Falhados do Amor", um espectáculo que talvez nunca passe de um documento word contido na pasta que diz teatro, por sua vez, contida na pasta que diz os meus documentos, todos eles pacificamente contidos num objecto que é o meu computador. a ser feito, este espectáculo é tudo menos pacífico. não foi escrito em paz.

Tuesday, October 11, 2005

i don't wanna grow up

a verdadeira razão porque eu não desisto da ideia do amor é porque acredito que este é a verdadeira máquina de brincar.

I DON'T WANNA GROW UP

(tom Waits/k. Brennan)
When I'm Lyin' In My Bed At Night
I Don't Wanna Grow Up
Nothin' Ever Seems To Turn Out Right
I Don't Wanna Grow Up
How Do You Move In A World Of Fog
That's Always Changing Things
Makes Me Wish That I Could Be A Dog
When I See The Price That You Pay
I Don't Wanna Grow Up
I Don't Ever Wanna Be That Way
I Don't Wanna Grow Up

Seems Like Folks Turn Into Things
That They'd Never Want
The Only Thing To Live For
Is Today...
I'm Gonna Put A Hole In My Tv Set
I Don't Wanna Grow Up
Open Up The Medicine Chest
And I Don't Wanna Grow Up
I Don't Wanna Have To Shout It Out
I Don't Want My Hair To Fall Out
I Don't Wanna Be Filled With Doubt
I Don't Wanna Be A Good Boy Scout
I Don't Wanna Have To Learn To Count
I Don't Wanna Have The Biggest Amount
I Don't Wanna Grow Up

Well When I See My Parents Fight
I Don't Wanna Grow Up
They All Go Out And Drinking All Night
And I Don't Wanna Grow Up
I'd Rather Stay Here In My Room
Nothin' Out There But Sad And Gloom
I Don't Wanna Live In A Big Old Tomb
On Grand Street

When I See The 5 O'clock News
I Don't Wanna Grow Up
Comb Their Hair And Shine Their Shoes
I Don't Wanna Grow Up
Stay Around In My Old Hometown
I Don't Wanna Put No Money Down
I Don't Wanna Get Me A Big Old Loan
Work Them Fingers To The Bone
I Don't Wanna Float A Broom
Fall In Love And Get Married Then Boom
How The Hell Did I Get Here So Soon
I Don't Wanna Grow Up

GOSTO DO AMOR PORQUE AMO A IDEIA DA CO-ARQUITECTURA DA CARNE E DO DISCURSO

estações

nunca parti, fiquei.
já há algum tempo que deixei de apreciar com exactidão qualquer uma das estações do ano. durante muito tempo detestei o verão e deliciei-me com o inverno. o verão deixava-me confuso, mentalmente irrequeito e perdido, atormentava-me. o calor empurrava-me para um território próximo da morte, cerebral mas, a seu modo, letal. o inverno embalava-me, amparava-me, aconchegava, transportava-me, em consolo e recolhimento, para uma zona aprazível de mim mesmo. depois houve o sabor da morte. não da minha morte mas da morte do outro. quando o outro morreu senti-me bem na primavera e consequentemente no verão. vivi essas duas estações, pela primeira vez em largo tempo, com fervor e histeria. foi um falso e veloz viver esse que ocorreu depois da morte.
quando caí em mim os invernos haviam passado a ser velozes e os verões fogueiras hipercinéticas de insanidade. tudo passou a ser excessivamente veloz: o verão e o inverno antípodas no frenesim, a primavera e o outono caminhos frenéticos para os mesmos.
agora que sou conceptualmente o renascimento da minha própria experiência gosto das incoveniências das estações. gosto dos interstícios imprudentes que ocorrem nas mesmas. namoro com a deliciosa forma como estas se provocam. comove-me a chuva birrenta e fria num dia de agosto e choro de calor numa tarde soalheira de janeiro.

uma das melhores recordações que trago da infância é a da extrema felicidade experimentada ao vestir mangas curtas pela primeira vez no ano.

hoje fiquei feliz com a chuva. fiquei feliz porque me pareceu que esta vinha fora de tempo. a chuva hoje foi impertinente, como as minhas vontades, veio talvez para ficar. veio quando eu menos esperava.

Friday, October 07, 2005

jdfvfvs

ksjdd fdfrfnf fdkffjff gkrfocx ddd ffffg, ggdddid xs dddf fffffffss ss sikvv ofefjndf
kddmdfnadgg dd ssodsndd.
djdfiuvgn tffifff ddssawaa...
ssjrfjiwvwrf ffafsd dssodd saqaadddcd, ssdfffkfffrf fdff f, ssdddd fffdFA!

(apetece-me muito escrever mas não tenho o que dizer. calo-me. hoje estou muito irritado, nem sei bem com o quê. vou fazer a barba e fitar-me, demorada e lascivamente, ao espelho. gosto de me engatar!)

Tuesday, September 27, 2005

uma imagem

cala-te de uma vez, percebe-me de lés a lés.
canta-me baixinho e deixa-me dormir aos teus pés.

imagem aspirada de um qualquer futuro

convenci-me de que serei plenamente feliz quando estiver, deliciosamente, a morrer de saudades de Portugal.

ler

quero ler para ti. quero ver-te a ouvir-me ler-te as palavras dos outros. quero recitar-te, quero embalar-te até perderes os sentidos (ou a vontade de dormir). quero ler para ti, à hora do chá, à hora certa, à hora de nunca mais de dizer adeus. quero ler para ti, nas linhas da vida, nas linhas do eléctrico, nas linhas tortas onde Deus nunca escreveu. no corpo, vou inventar, por nós, uma estratégia aí: nas palmas das tuas mãos.

tenho pressa de inverno, aqui, no epicentro das minhas recordações; quando tudo era simples e imberbe, quando tudo era solar (mesmo em dias de chuva), quando tudo era hálito e aconchego e nós tão novos. tenho pressa de inverno aqui, na memória; o inverno sabia-me bem.

procuro a forma mais acertada de me (d)escrever, para me ler-te. vou ler-me para ti em contos imaturos, neste inverno que ainda nem sequer se deu a dar.
vou (d)escrever-me em contos: dentro de pequenos chocolates, dentro de limões, dentro de rebuçados espanhóis, dentro de beringelas, dentro dos xaropoes que ainda vais tomar e dentro das noites que ainda hão-de vir.

quero ler para ti, em russo, em japonês, em sueco, em zulu e em todas as línguas que desconheço para nos podermos rir a meio, no princípio e no fim. para (r)ir durante, quero ler para ti.

há-de haver um dia em que irás encontrar o teu retrato durante um livro.

Saturday, September 24, 2005

a arte e a guerra

"pessoa sensíveis fazem massagens, não arte"
Dr Veiga dixit

Sim, isto de aqui andar sabe a ferro e sabe a fogo; carne viva, sangue frio.
Estive/estou com um abcesso. Doeu muito. Foi assim o meu início de semana (domingo, segunda e terça). Quarta-feira: jabasulide faz nada, inchaço e dor congratulam-se por existir. A minha gengiva parece explodir. Eu a imaginar que os poucos euros que tinha lá teriam de ser dolorosamente entregues na farmácia. Dito e feito; seis da tarde, o cenário insuportabiliza-se e lá vou eu a caminho das urgências do S. José. É lá que vou, como qualquer proletário, sempre que a situação o exige. E posso asseverar que as ditas exigências têm surgido nas mais variadas e absurdas situações ao longo desta quase década de estadia na grande maçã lusa. Adiante, adiante, o que interessa é que o cenário foi piorando cada vez mais. Eu a pensar que o estomatologista espanhol que me assistiu nem me iria tocar e que me iria receitar um antibiótico manhoso qualquer e que me iria despachar em dez segundos para voltar à tão animada conversa que estava a ter ao telemóvel.
Engano redondo, quando dei por mim tinha um bisturi a cortar-me a gengiva e os dedos do espanhol a espremerem-me a purulenta protuberância. Ainda teve a lata de me perguntar se me estava a doer. Eu rugi e pisquei os olhos como que a dizer: "não, estou óptimo, continua lá com a tortura que eu cá me irei aguentando à bomboca". E aguentei-me de facto, porque apesar de ser um pleno praticante do verbo lamuriar, a verdade é que, no que à dor física diz respeito, sou bastante resistente. Quanto às dores metafísicas, aí o caso muda bastante de figura. Convenci-me de que sou uma pessoa sensível. E é para chegar a este ponto que me permiti relatar o episódio abcessal. (Para resumir: lá cuspi aquela porcaria toda, ele lá me passou a receita correspondente a uma farmácia inteira, lá deixei os euros todos na farmácia do Martim Moniz e agora tenho uma bela rotina medicamentosa que me obriga, todos os dias, a andar com dez quilos de comprimidos e elixires na mochila e a fazer combinaçãos variadas de químicos às mais absurdas horas. Iso tudo durará até à próxima quarta-feira, caso a infecção passe. Caso não passe lá terei de ir visitar o espanhol e o seu amigo bisturi).

A verdade é que a afirmação do meu caro Dr Veiga é totalmente certa. As pessoas sensíveis não devem fazer arte. Ou não se deve partir dessa premissa para se decidir enveredar pelo, já de si, bastante tortuoso caminho da arte. O artista tem de ser, acima de tudo, um guerreiro. O caminho da arte é o caminho do combate. O Dr Veiga, segundo percebi, descobriu isto aos catorze anos. Toda a sua vida, desde então, foi planeada com a tenacidade técnica de um guerreiro. Por isso ele é um artista. Ele faz a arte e não precisa dela para sobreviver. Fez-se o seu próprio mecenas. Optou por um caminho, o não sensível, que lhe permitiu ter a estabilidade e liberdade necessárias para poder criar sem tormento essencial. Eu, lerdo como sou, descobri isto aos vinte nove anos, com a ajuda do caro Dr Veiga (talvez sozinho também chegasse lá) e depois de ter os pés já muito exangues por ter enveredado pelo caminho do tormento. Creio que deve ter sido por uma questão de incultura. Se tivesse sido mais culto talvez tivesse percebido essa tão anímica relaçáo entre a arte e a guerra.

Pois, e agora?

Agora é tudo uma questão de congregação de elementos.
Tenho de reunir o que me resta e que é essencial para a guerra:
-fúria e ímpeto (detesto a palavra talento)
-domínio da expressão (sei que na maioria das propostas a que me permito o consigo ter)
-energia (é só uma questão de assertivo canalizar da mesma)
-contactos (aprofundar os que existem e perder esta porcaria deste pudor da auto-promoção)
-capacidade de trabalho (já por diversas vezes comprovei a mim mesmo que a tenho, é só uma questão de a passar a ter de forma permanente e para todo o tipo de tarefas).

Passar a ter o que não tenho e que é essencial para a guerra:
-disciplina
-persistência
-capacidade de congregação dos elementos que são essenciais para a guerra
-estrutura exterior que me permita atingir estabilidade para poder criar em liberdade
-táctica
-assertividade

Elementos exteriores à guerra e que têm de ser eliminados:
-dispersão
-auto-condescendência
-maus hábitos
-vínculo ao conceito de sensibilidade ou acertado ajuste do mesmo
-falta de concentração
-incapacidade de estabeler tarefas e devida calendarização das mesmas
-desistência
-falta ajuste ao presente
-fixação no passado e no futuro
-deixar de acreditar que me vai sair o euro milhões


As medidas estão teorizadas. A práctica urge. Serei o mesmo? A guerra e a arte o dirão. Não tenho grandes hipóteses. Até porque acho que daria um péssimo massagista; não gosto de tocar a maioria dos estranhos.

Tuesday, September 13, 2005

my mood

"I'm gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you
I'm gonna write words oh so sweet
They're gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I'll be glad I got 'em

I'm gonna smile and say: "I hope you're feeling better"
And close with love the way you do
I'm gonna sit (right) down and write myself a letter
(And make believe it came, though I know it's not the same)
And (I'll) make believe (that) it came from you"

a náusea parece estar a passar. os sonhos continuam estranhos. continuo a não conseguir ouvir música. mas tenho feito muita música, no entanto. a cabeça parece estar cheia de água. água revolta. tenho um tsunami na cabeça e um peso no coração.

i'm still here! (para o que der e vier)

sonho mau

não consigo ouvir música.
os sonhos são cada vez mais estranhos. ontem à noite sonhei que tinha tomado um veneno, para morrer. (um simulacro de um documentário que vi há uns tempos sobre um senhor francês que, na fase terminal de um tumor, decidiu cometer eutanásia). sonhei que estava a fazer o mesmo. ele teve uma morte rápida, indolor e serena; suave e bonita. morreu nos braços da mulher que amava. adormeceu nos braços dela e o coração parou de bater segundos depois. morreu embalado pelo amor dela.
ontem sonhei que tinha decidido fazer o mesmo. mas no meu sonho, eu não morria. o veneno, no meu sonho, era incapaz de me fazer adormecer. estava sozinho, depois de ter ingerido a solução, o efeito desejado não acontecia. não tinha uns braços onde pudesse adormecer para morrer serena e suavemente. instalou-se, isso sim, uma insuportável náusea. a náusea esteve comigo todo o dia. sinto que ainda não saí do sonho. e o pior de tudo... eu não morria porque não tinha uns braços onde morrer.

não consigo ouvir música. tenho um sonho mau sitiado na cabeça.
e ouvir música é para os sonhos bons. ouvir música é para me lembrar de ti.

a vida e os sonhos maus parecem ter feito um pacto estranho para me ausentar das melodias.

as melodias parecem ter feito um voto de silêncio para me fazer olhar para mim.

Thursday, September 08, 2005

fim de tarde aqui

Sempre adorei este trecho do discurso de Fedro no "O Banquete" desse grande querido Platão.

"Que entendo eu por amor? - Às acções desonestas liga-se a desonra, às boas acções liga-se o amor. Sem isto, nem a cidade, nem o indivíduo, podem fazer algo de grande ou de belo. Ouso afirmar, desta maneira, que se um homem ama e for surpreendido a cometer um delito vergonhoso, ou a suportar cobardemente um ultraje, sem que saiba defender-se, sofre menos ao ser repreendido pelo pai, por um parente, ou por qualquer outra pessoa, do que por aquele a quem ama. Verificamos, também, que um amado não ruboresce tanto como perante aquele que o ama, se por acaso é surpreendido em falta. Assim, se houvesse a possibilidade de formar uma cidade, ou um exército, composto somente por amantes e amados, obteríamos a constituição política ideal, pois teria por base o horror do vício e a emulação do bem e, se combatessem juntos, tais homens, apesar do seu reduzido número, poderiam vencer quase todo o mundo."

Faz-me sentido, esta coisa da bélica do amor. O grande problema acontece quando a guerra se instala dentro do nosso pequeno exército. Quase percebo, agora, o que é um tiro no escuro.

Tenho, de aqui e acolá, uma vontade dadaísta de presente.

Quando vi ao vivo "O Grande Masturbador", do Dali, chorei. De comoção e raiva, chorei. A comoção está explicada no próprio acto de chorar ao ter na frente uma obra que tem para mim muito significado. A raiva vem do facto de ter sido obrigado a partilhar esse mesma comoção com os outros espectadores do quadro. Construi com aquela imagem uma relação tão íntima e pessoal que quando vi o quadro rodeado de pessoas me senti invadido. Isto da partilha tem muito que se lhe diga. Esperei, meticulosamente, que todos saciassem o olhar e consegui ficar a sós, por largos instantes, com o quadro. Nessa altura chorei a sorrir. Quando me empenho, até acabo por conseguir o que quero.

Sunday, September 04, 2005

finis praxis (estilhaços)

(os seguintes poemas foram escritos em 1998 e fazem parte de um livro de poemas que intitulei de "finis praxis". há uns anos pensei ter perdido esse livro em virtude da grande incompatibilidade tida com uma certa disquete. felizmente recuperei, há pouco tempo, o livro no computador da rosa (my flat mate) visto ter sido no mesmo que se deu grande parte do processo de redacção e ela, santa alma, nunca o ter apagado. "finis praxis" não foi escrito por onan; o demónio, tal como existe no presente, ainda não havia nascido.)



estilhaço 1

fiquei sossegado
já não existia uma razão suficientemente forte
para que o meu corpo se pronunciasse.
não estava triste,
muito menos feliz,
estava intacto; sabia que era capaz de abrir os olhos.
a temperatura havia estagnado já por muitos meses.
na parede oposta à porta do quarto estava o roupeiro branco.
de noite fechava-lhe a porta para trancar o Senhor Silêncio.
nessa época só adormecia embalado pelo estrondo de lindos prédios a ruir.
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estilhaço 2

(para aquele que enlouqueceu antes de ter enlouquecido)

e nessas horas acesas
em que o silêncio não é mais do que uma palavra adormecida nos meus,
teus, nossos olhos.
nesse instante suspenso no fumo de um abraço
é a tua pele quem sussurra
e a minha boca pontua as frases que o teu corpo dita.
quando a cidade morre devagar somos um todo brilhante,
o teu cheiro e os meu olhos dissecam o tumulto da ruas e
inventam novas vidas para as células.
nessas horas acesas somos um universo rodopiante,
duas tranpirações herméticas numa nuvem rebelde.
dou-te o silêncio como dote.
dás-me a lua como excesso.
quando a cidade ressuscita:
tenho estrelas no ventre
e tu cantas com a voz do mar.
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estilhaço 3

querelle 1
o homem tem a pele azul e os testículos pesados,
de tanta ira.
o homem ainda não aprendeu a ser homem,
anda numa conturbada pesquisa.
o homem não é azul, é dourado
qual anjinho de talha.
o homem tem a boca espessa,
onde as palavras se perdem e definham.
o homem tem os mamilos rosados e duros,
pedra mármore-parte dentes molares.
o homem tem o amor bem escondido,
debaixo da língua.
o homem quer ser maldito,
como os heróis expressionistas.
o homem ainda não nasceu,
mata-se todos os dias com o mesmo sabre.
o homem navega,
nas suas próprias veias ao sabor da contracorrente.
o homem é uma visão aproximada do seu próprio sexo.
o sexo do homem é um barco:
deriva, naufraga e dorme no fundo calmo do mar.

a leitura da não escrita

às páginas que ainda não escrevi, rasguei-as. evitei o insondável confronto entre a sintaxe e a vida. cerrei os dentes; usei as mãos (pu-las à obra): estilhacei o discurso, incinerei a semântica, matei a pontuação, abortei a acentuação e vaporizei sujeitos e predicados por aí. abstive-nos da minha literacia.

aprendi a exercer o verbo na pior e mais inesperada das alturas. jamais suspeitei que o viesse a fazer. ainda agora, enquanto me penso, sou incapaz de crer que as minhas mãos possam rasgar.
rasgar páginas ainda não escritas é o pior dos meus crimes. é o mesmo que forçar-me a compreender o meu próprio coração para o poder fazer sangrar para além da sua morte.

começo a habituar-me a esta sensação de que estou constantemente a engolir torrentes de lava.

fome vulcânica: quando o cansaço me atinge de forma assertiva e feroz abro o trinco das pálpebras e a janela do quarto para deixar que os meus olhos, esses dois abutres azuis, se soltem para a incógnita da noite em busca de páginas ainda por rasgar antes da escrita.

violei-me sem dar por isso; escrevi-me depois.

esta noite não soltarei os olhos; amanhã irei acordar num oceano de tinta.

serei feliz no momento em que conseguir saborear de forma literal uma qualquer imagem.

a preguiça instalou-se nas pontas dos meus dedos e impede-me de redigir o manual de mim mesmo.

fiz-m ao contrário, perdi a praxis e este é o avesso de mim.

e o amor é uma lágrima que escorre de baixo para cima!

Wednesday, August 24, 2005

sobre a leitura do ser e do riso

É preciso ter-se coragem para se observar, no espelho, o próprio rosto no meio da mais sinistra tempestade. A coragem vem solene e bonificada. A coragem vem de dentro do que está dentro de nós. A coragem vem corajosa.

Saem-me dois barcos dos olhos. Dois barcos sem nome, sem uma forma exacta, sem tripulação. Aprendi a calar-me aqui, na boca da tempestade, quando me vi cercado pelas minas e armadilhas das minhas próprias lucubrações. Aprendi a engolir em seco aqui. Pasmado e bruto, aprendi a insolucionar. Não consigo decidir se me aprendi a escrever ou não. Sei que entrei num sítio qualquer. Um sítio quase indesconhecido, um sítio a situar. É como entrar numa casa pela primeira e vez e perceber de imediato que o cheiro da mesma será exactamente a memória mais precisa que iremos reservar-lhe ao partir. É como beijar uma boca desconhecida e ter a certeza de que já ali estivemos antes. Conseguir premunir o som dos próprios beijos; é disso que falo. Entrar em mim é isso, em parte. É como abrir uma janela fechada à chave com a ponta língua. É como ter o céu, e tudo o que ele representa, guardado no fundo dos bolsos e andar pelas ruas sem conseguir flutuar. É inventar ruas por cima das ruas. É isso, entrar em nós é navegar.

Fiz-te à semelhança de mim, das minhas lutas. Fiz-te caído antes mesmo de teres aprendido a ter pernas para andar. Fiz-te com as veias à mostra. Fiz-te uma língua gigante e inteira onde eu pudesse caminhar para morrer. Fiz-te oligomeu, sejas lá tu quem fores. Fiz-te aos bocados; nos intervalos do estar. Fiz-te ao longo do tempo em que aqui não estiveste. Fiz-te vir.

Não existes, és meu. Aqui dentro não se existe. Não sou diferente de alguém, sou igual a todos. Recuso-me a acreditar que exista algo exacto dentro de quem quer que seja. Todos temos o mundo esquiçado cá dentro; tácito e líquido, todos temos o mundo por abrir. Todos temos a abertura; ninguém tem o peso exacto do mundo. O peso do mundo faz-se por aí, nos dias, nos cruzamentos, nos beijos, nas palavras, nos uivos. O mundo acontece por si; enquanto não houver quem feche esta ideia severa e irrequieta de que existe uma entrada clara e precisa para o centro exacto do mundo. Enquanto não houver quem venha para as ruas gritar que o peso do mundo é um eterno livro por escrever. É preciso saber caber dentro das ideias. É preciso saber ler.

As palavras caem, antes da boca,
sedentas de perene,
as palavras caem por abrir.

As palavras caem, sem silêncio,
e eu sem roupa,
as palavras caem para eu não cair.

As palavras caem, sem acaso,
na ponta dos meu dedos,
as palavras caem para me rir.



Saí de onde estava. Não posso ficar aí para sempre, tenho de confessar-te. Falo contigo porque sei que precisas tanto de me ouvir como eu preciso que me ouças a falar. Isto não é uma mensagem; é um território. Isto é a fundação de um país que se recusa a nascer. Um país planeado e concebido pelas suas próprias fronteiras. Este é um país que se quer existente para que se lhe possa apresentar a sua própria limitação. Este é um país desejado pelo limítrofe. Este é um país pensado. Este é um país-ideia.

Há livros dentro muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. Há livros dentro carros onde entro e aprendo a deixar-me levar. Há livros dentro das canções que ouço e ensino a ouvir. Há livros dentro dos copos que partilho por aí. Há livros dentro dos olhos que se fixam nos meus. Há livros dentro das recordações que guardo do que já vivi. Há livros dentro das casas onde me recuso a entrar. Há livros dentro das bocas que me tentam dizer coisas imperceptíveis na minha própria língua. Há livros dentro das mãos que preferem fechar-se a ter de se abrir para me fazer sorrir. Há livros dentro das coxas que se roçam e que têm a ganga como permanente interlocutor. Há livros dentro das igrejas onde planeio ir mas onde nunca vou por estar a usar boné. Há livros dentro dos sapatos que observo, aos milhares, nos dias em que estou triste, por não ser capaz de levantar o olhar do chão. Há livros dentro das garrafas que estou sempre pronto a abrir para me esquecer para onde vou. Há livros dentro dos abraços que dou, com fervor e descanso, aos meus amigos. Há livros dentro das lancheiras das crianças que não vejo ir para a escola porque nunca vivo as manhãs com o mundo. Há livros dentro das conversas que tenho na minha cabeça mas que evito ter na realidade por preguiça e incompetência do realizar. Há livros dentro das minhas chaves de casa. Há livros dentro dos corações dos namorados que ainda tremem quando se encontram. Há livros dentro dos bolos que as senhoras bem intencionadas dão, nas pastelarias, às pedintes heroinómanas prestes a morrer. Há livros dentro das salas de estar das viúvas que têm na televisão e no cão a sua única companhia. Há livros dentro dos teatros onde quero vir a trabalhar até à exaustão. Há livros dentro dos bolsos dos estrangeiros que olham com serena curiosidade o luso-morno-mau-estar. Há livros dentro dos dentes que embatem, tímida e atabalhoadamente, aquando de um primeiro beijo. Há livros dentro dos ossos que se quebram quando o chão se torna um permanente e imperativo inimigo. Há livros dentro do sangue que se derrama para se dar à luz. Há livros dentro de muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. E eu casado com o caos que mora dentro da chuva das palavras; e eu cansado de não os poder ler.

Às vezes, para poder sossegar, imagino o momento em que, no futuro, me vou poder rir do dia em que estou. Já realizei, por diversas vezes, a proeza: RIR.

Thursday, August 18, 2005

hoje

"it's the first day of the rest of your life, it's the first day of the rest your life"
"the first day" Timo Maas Feature Brian Molko.

it all makes sense to me now.

"here comes the sun, and i say: Never go away"
"Rain" Madonna

i felt it.

amigos de sempre cá em casa. bom jantar (fui eu que fiz). A Kathy trouxe o laptop dela cá para casa e estamos com wireless alheio. de novo net cá em casa mesmo que seja de forma efémera e provisória. feels good. a lot of things seem to feel god now, again.

a leveza veio para ficar, assim o espero. o meu humor está de novo aqui. sinto-me leve, atento, quase radiante.

perspectivas de trabalho aconteceram hoje.

pareco voltar a saber o que quero e o que sinto. estou claro para comigo.

tenho de me dedicar afincadamente aos projectos literários que tenho na cabeça.

eu fui/sou o verão. a minha auto-estima está em alta. acredito em mim, nas minhas capacidades, encanto, faculdades e beleza.

estou aqui!

obrigado.

Friday, August 12, 2005

estilhacitos

sentei-me, olhei-o bem no fundo dos olhos e disparei a pergunta.
"quanto me vai custar, Sr. Doutor?"
duas mil palavras e a poupança definitiva dos seus medos e sonhos - respondeu.
então, vamos a isto,calce as luvas e arranque-me de uma vez por todas este coração - afirmei eu com grande convicção.
porquê? - perguntou o médico.
quero senti-lo a pulsar nas minhas próprias mãos -
respondi com prontidão.
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"spiderman is having me for dinner tonight."

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ipj para variar, net à borla. multitude de línguas e nacionalidades. gosto disto. gosto da pluralidade e de experimentar novas culturas. em todas as suas formas. está muito calor mas vou continuar em passeio. hoje estou leve e orgulhoso de mim. vou fumar um charro algures e entrar naquela igreja do Rossio. apetece-me estar um pouco com o Deus em quem não acredito. pelo sim, pelo não, vou fazer o Euromilhões.
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olho para trás, para a frente e para o sítio exacto onde estou. a fim e ao cabo, arrependo-me de pouca coisa. as coisas têm o valor e o tempo que têm. tudo tem um preço. tenho de aprender a pagar esse preço. sobretudo tenho de aprender a obter sempre troco... ficar a ganhar. estou quase contente. pela primeira vez em vários meses sinto-me quase leve; acho eu. de qualquer forma, apetece-me muito pouco pensar muito.
vou passear e tirar prazer do calor. esta tarde está a transmitir-me algo de sensual.

Monday, August 08, 2005

tabula rasa

vou ter de começar tudo do zero. estou a zeros, a todos os níveis da minha existência. sou o grande possuidor de coisa nenhuma. à excepção dos meus amigos e do seu amor e do meu (bom/mau)génio. vou ter de começar tudo de novo. vou ter de ser feroz. vou fechar as comportas da minha susceptibilidade. conceitos como: amor idílico, benevolência, entrega incondicional, fragilidade, admiração, comprometimento, suspensão passional, vulnerabilidade e boa vontade para com o alheio estarão por ora em stand by. luto pela sobrevivência.
era para ir para o algarve mas já não posso ir. vou ter de ficar cá e começar a minha vida do zero. tenho de ser implacável. tenho de recuperar o tempo e energias perdidos. tenho de ser o que quero ser. tenho de ser duro, meticuloso e feroz.

from now on i'll be the major bitch. é o único remédio. eu só quero ser o que quero vir a ser. tenho-me descuidado nesse processo. está na hora de mergulhar nele em definitvo. quero voltar a sentir o sabor da realização e da vitória. quero voltar a sentir-me ligado a mim. acabou o sono. é tempo de guerra.
perdi demasiado tempo a sonhar com o el dorado do amor e da paz. os tempos são de guerra e fúria.
quem bom, a minha fúria voltou. os obstáculos serão inimigos. os amigos serão os que souberem avaliar ao retardador. eu serei a luta em si mesma.
o meu mau génio está ávido de vida. e como é certo e sabido "estar vivo é o contrário de estar morto". e eu já ando morto há uns tempos.

Thursday, August 04, 2005

a viagem

calor insuportável. acho que pela primeira vez a cabine de gravação consegue ser mais fresca do que o exterior. vou ter de ir para a rua agora. sei que vai doer. este calor apavora-me. intensifica-me tudo. e tudo o que eu queria agora era desintificar-me.
não queria ter voltado para Lisboa mas o regresso até que foi agradável. os meus amigos proporcionaram-me um bom regresso. são maravilhosos.
não me apetece pensar. não me apetece confrontar-me com os meus issues mas não tenho outro remédio. tenho saudades de viajar. tenho de resolver tanta coisa e só me apetece estar em suspensão. quem me dera congelar o tempo por algum tempo.
não sei o que sinta!
apetecia-me andar a passear; a ver e a ser visto. mas este calor não me parece muito propício para um passeio demorado. não sei que faça. estou aborrecido. preciso de novas sensações. de novos desafios. de novos contactos. preciso desesperadamente de trabalhar desesperadamente. estou a enlouquecer. tenho demasiado tempo e muito pouco dinheiro. estou sempre a pensar nas mesmas coisas. estou sempre a adiar resoluções.
os passeios que dou são as viagens que me são permitidas.
ando km e km a pé, onde quer que esteja, com os headphones aos berros. viajo em mim e na música. agora estou viciado na Ute Lemper. Num disco chamado "Life is a Cabaret". Ando a viajar nele. Quem me dera que a vida fosse esse tal intenso e glamouroso Cabaret. A minha pelo menos anda muito longe disso ultimamente.
Vou para o Adamastor. A Katy ligou-me agora, está lá. Vou beber uma cervejoca, comer uma tosta mista e fumar uma de pólen com a Katy. Lá vou ter de passear. Vou a pé até ao Adamastor. Não tenho dinheiro para andar de táxi. Ao ponto a que cheguei!
Lá vou eu para a freakalhada do Adamastor. Eu e a Ute, por essas ruas de Lisboa em brasa. A ver e a ser visto. Alivia-me, mesmo com este calor infernal, alivia-me. Além disso, habituado ao inferno já eu estou.

Tuesday, August 02, 2005

limbo again

algarve:

introspecções variadas. revisões variadas. descansos variados. dúvidas variadas. pensar em tudo e pensar em nada. querer tudo e querer nada. outra vez no limbo. limbo entre o que quero e o que sei que não quero. limbo entre o que tortura e dá prazer. limbo entre o presente e o passado. limbo entre o futuro e a ideia do que deve ser o futuro. limbo entre o sabor do amor e o sabor que deixou o amor. limbo entre o que é e o que há-de ser. estou dentro de uma cápsula que eu mesmo criei. não consigo parir-me.

pode dizer-se que estou muito confuso. deveras confuso. "ai, ai, acima, abaixo, puxa e vai."
estou tão parvo que nem eu próprio, um grande senhor da parvoíce, consigo reconhecer o grau da mesma.

"que sera, sera. whatever will be, will be. the future is not ours to see. que sera, sera!"

a merda é que the future is nothing but ours to see. o que é uma grande responsabilidade.

gostava de conseguir desenhar os meus sentimentos; para os perceber melhor.

quem me dera estar na gronelândia.

Wednesday, July 27, 2005

Rescaldo

E DEPOIS DO ADEUS

"Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós"

Letra de José Niza para música de Paulo de Carvalho.
Esta canção serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974

Esta canção não me tem saído da cabeça. Porque será?

Tuesday, July 26, 2005

parar o amor

"i'm so sad, like a good book. i can't put this day back, a sorta fairytale with you".

disse-te que a tristeza era tão profunda que me tornava incapaz de chorar, momentos depois chorei. chorei como não chorava há muito tempo. passei a noite a chorar, a exorcizar, a protestar contra tudo isto. sinto revolta e frustração e uma dor profunda por tudo isto ter de acontecer. é terrivelmente injusto: ter de parar o amor quando ainda há o amor. e agora? o que fica? o que vai ser? o que é que se faz com isto, com este sentimento que mora cá e que parece que assim vai permanecer para sempre? tenho tantas questões. foi estranha e bela a despedida: tratámo-nos como sempre. até te espalhei creme nas costas. parecia que estávamos ali para contnuar, quando estávamos a firmar a nossa separação. beijámo-nos várias vezes como se estivéssemos a negar esse adeus, como se estivessemos ali para continuar a ser um do outro. despedimo-nos com beijos como se o dia de amanhã fosse nosso como todos os outros dias até agora. fui à janela, como quase sempre, ver-te entrar no carro e despedir-me de ti. isso é que me dói e revolta mais, dissemos adeus mais ainda me sinto teu. e ainda te sinto meu.
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que fomos tão estranhamente feitos um para o outro?
porque eu sinto que de uma forma muito profunda, e para nós até imperceptível, estamos, agora pelo menos, feitos um para o outro.
porque é que não temos forças para ficar?
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que não somos mais profundos nas acções e as pomos em ligação directa com o sentimento?
falas de entendimento, do nosso entendimento. eu chamo-lhe profundidade. no fundo, no fundo é a profundidade do entendimento.
porque é que isso não basta para nos manter ligados?
quero e não quero pensar nisto. tenho de pensar nisto, não consigo evitar sentir isto.
como te disse várias vezes, olho para ti e derreto-me.
e agora?
acho que o grande problema é que levámos tudo tão a sério que nos esquecemos de rir com o nosso amor.
é muito estranho: ter de parar o amor quando ainda há o amor.
amo-te, tu sabes disso, e hei-de fazer tudo o que estiver ao meu alcançe para voltar a rir contigo. seja de que forma for. porque apesar de tudo, mesmo parado, há aqui amor.

Sunday, July 24, 2005

pontadas

eu sei que "roma e pavia não se fizeram num dia" mas "o que tem de ser tem muita força". até porque "há mais marés que marinheiros" e eu descobri que não consigo estar numa de "grão a grão enche a galinha o papo".

acordei com umas dores fortíssimas no lado direito da cabeça. persistem. são uma espécie de pontadas, vão e voltam. parece que algo está prestes a rebentar aqui dentro. um género de alta tensão que parece estar acumulada. got to see the doctor.

dia mau hoje. acordar de rompante com dores, receber notícias más. energia estranha.

tenho até ao fim deste mês para recuperar a minha serenidade. as decisões estão a ser tomadas. falta o resto.

estou apaixonado por uma canção dos coldplay, ouvi-a ontem em loop uma 60 vezes. é linda e retrata qualquer coisa que quero sentir.

"swallowed in the sea"

You cut me down a tree and brought it back to me
and that’s what made me see where I was going wrong
You put me on a shelf and kept me for yourself
I can only blame myself, you can only blame me
and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
and I could write it down or spread it all around
Get lost and then get found or swallowed in the sea

You put me on a line and hung me out to dry
Darling that’s when I decided to go to see you
You cut me down to size and opened up my eyes
Made me realize what I could not see

and I could write a book, the one they'll say that shook the world
and then it took, it took it back from me
and I could write it down and spread it all around
Get lost and then get found and you'll come back to me
Not swallowed in the sea

Oohhhhh Ahhhhhh

and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
The streets you’re walking on, a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Oh what good is it to live with nothing left to give
Forget but not forgive, not loving all you see
Oh the streets you’re walking on a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Not swallowed in the sea

You belong with me, not swallowed in the sea
Yeah you belong with me

Not swallowed in the sea


respiro debaixo de água mas sei que hei-de voltar à tona.

Wednesday, July 20, 2005

às moscas

eu: sabes quando a televisão não está sintonizada em canal algum e o que vês são apenas míriades de pontos pretos e brancos?

alguém: sim, quando está com moscas.

eu: sim, a isso chama-se estática. é assim que eu me sinto.

alguém: sentes-te estático?

eu: não, sinto-me às moscas.


ESTÁTICA:A estática é a parte da física que estuda sistemas sob acção de forças que se equilibram. De acordo com a segunda lei de Newton, a aceleração destes sistemas é nula. De acordo com a primeira lei de Newton, todas as partes de um sistema em equilíbrio também estão em equilíbrio. Este facto permite determinar as forças internas de um corpo a partir do valor das forças externas.
in, Wikipedia
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"eu não dava a vida pela minha vida"
Otavio Paz
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só me apetece viver dentro dos livros; a vida tornou-se demasiado irreal para que me permita manter-me preso a ela. sou um espectador incompetente de mim mesmo. preciso de dinheiro e de umas férias de mim. hoje sou portador de uma sensação completamente nova. tão nova que ainda se mostra inadjectivável. posso, no entanto, adiantar que é uma mistura de sentimento de impotência, frustração, revolta, pânico, solidão, raiva, tédio profundo, alienação, decepção, falta de eco, carência, necessidade de evasão e de sustentabilidade. em suma, tou com uns cornos do tamanho da ponte vasco da gama. vou seguir a dica dos meus cornos e vou para o algarve. quero a minha mãe. quem me dera poder chorar no colo dela.

sinto saudades de quando tu, mais do que uma simples palavra, era um sítio onde eu podia adormecer.

quem me dera voltar a ser um suicida em potência. nesses tempos a morte era sempre um consolo que eu ia adiando dia após dia. perdi a vontade de morrer mas também não ando a gostar muito desta vida; gostava de passar já para a próxima.

meu deus, o que a falta de dinheiro faz às pessoas!

apesar de tudo isto estou seguro de uma coisa: amo-te.

quem me dera não estar a passar por uma fase tão complicada para te poder amar de uma forma melhor. por agora é a forma que tenho.

amo-te, mesmo.

Saturday, July 16, 2005

cornos p'ra mim

recuperei o meu livro "finis praxis", ainda estava no pc da rosa. já o descobri há uns dias. refiro-o agora porque estive, durante a madrugada passada, a rever e a retocar o mesmo. foi estranho, os regressos são-me sempre estranhos. o que se torna particularmente estranho neste mergulho é que nesse livro eu sou capaz de fazer um flashback dos meus últimos dez anos de vida. detenho-me em alguns poemas e tento redefinir os espaços, as situações, os sentimentos, as pessoas que estiveram na origem dos mesmos. sobretudo as pessoas, ou as ligações às mesmas. a grande virtude da redacção da poesia é que esta nos perpetua as ligagões. não é fácil aceitar/integrar isto. mas faz parte do processo. hoje em dia já aceito este facto com uma maior tranquilidade. a poesia é o supra-sumo da virtualidade. não no aqui e no agora (principal característica do conceito contemporâneo do virtual) mas no aqui e no depois. a poesia é um compromisso absoluto com o futuro.

a poesia é-me e ser-me-à sempre enquanto me é.

o pior dos mergulhos, o que faço agora e que nada tem de poético, é que não consigo parar de cometer os mesmo erros.

estou ultra fodido comigo.

cornos p'ra mim.

"i only hurt the ones i love. erotic, erotic, put your hands all over my body."

Friday, July 08, 2005

dor de garganta

faço 29 anos amanhã.

estou no algarve (na minha terra natal). é suposto ir para lisboa amanhã. metade dos meus amigos está em lisboa e a outra metade está cá. não apetece ficar mas apetece-me muito menos voltar para lisboa. apetece-me estar em lugar nenhum. apetece-me estar num anti lugar.

estou triste, confuso. dói-me a garganta. estou com uma inflamação há cerca de uma semana. toneladas de jabasulide e de mebocaína e nada acontece. não melhoro.

além de todas as outras coisas que me levam a questionar a validade da relação que tenho. estou triste. triste comigo e triste contigo.

odeio telemóveis.

odeio esta sensação de que para bem de mim o melhor é baixar as espectativas. odeio sentir estas coisas. odeio o atrito e o desconhecimento.

quero as minhas lentes de contacto de volta.

quero saber para onde quero ir.

quero a sanidade da minha garganta.

e quero a verdade nua e crua.

quero sentir-te.

Friday, July 01, 2005

lentes de contacto 2

perdi uma lente de contacto.

a culpa é da lena. dormi em casa dela e não tinha o estojo das lentes.

coloquei as lentes, cuidadosamente, dentro de duas chávenas de café com soro fisiológico (eu sei que não devia; o senhor da multiopticas disse-me para nunca o fazer).

a grande querida lena, em fúria etílica, decidiu averiguar o que estava dentro das chávenas, em cima do móvel do corredor, e como é uma rapariga muito delicada fez uma das lentes voar para algures e desaparecer para sempre.

agora estou no estúdio de dobragens, a fazer uma pausa e a descansar da sauna que é a cabine de gravação e sinto-me muito tonto da ressaca e por ter apenas uma lente posta.

vou voltar a dobrar bonecos e a fazer sauna. tou ceguinho de um olho mas tonificado pelo trabalho.

ai, ai, que louco este estar contemporâneo.

Thursday, June 30, 2005

hoje

no net at home.
tenho muitas saudades do meu diário. nem sei o que nele hei-de escrever. instalou-se aquele desconforto tímido que me é característico aquando das ausências.
estou no escritório do alexandre, o meu agente, mas ele não está cá. felizmente tenho pessoas que são boas e generosas comigo. o alexandre tem sido uma delas. um bom coração.

os amigos são um grande suporte. sempre. amo os meus amigos profundamente, essencialmente e insistentemente.

sinto que tenho a sorte de ter como amigos as pessoas mais sensíveis, inteligentes, brilhantes e complicadas que tenho conhecido. somos assim: uns dos outros no certo e no errado. somos uns dos outros e todos das falhas. cada vez tenho um maior respeito pelas falhas.

ando pouco amigo de mim mesmo. tenho estado pouco comigo. rodeio-me. raramente estou no meu "pequeno mundo de ficção interior". fico à porta do mesmo e não entro. acho que tenho medo de ter perdido a capacidade de me ficcionar. é por isso que não ando ligado ao meu "mundinho". estou em ligação permanente e ansiosa com o exterior. sinto que ao estar recolhido em mim estou sempre na eminência de perder alguma coisa que o exterior me possa fornecer e que me possa ser preciosa. é uma ilusão. crio esta ilusão para não entrar em mim. talvez porque eu próprio saiba que tenho vindo a perder a capacidade de criar ilusões para mim mesmo.

há uns tempos atrás percebi uma coisa:

na minha vida tudo é ao lado. não estou longe de estar lá; não estou perto de lá. estou ao lado de lá. ando à volta de mim.

faço 29 anos daqui a 10 dias. queria fazer já 30 anos. o astrólogo, no início de 2004, disse-me que aos 30 anos a minha vida vai mudar radicalmente e que vou finalmente entrar na assertividade e ascendência. disse-me que vou passar também, nessa altura, por uma revolução libidinosa. quero fazer uma elipse, avançar no tempo e deixar os 20 já. fingir que já vou fazer 30 não me agrada. mas também não quero um ano de limbo. tenho 10 dias para decidir quem vou ser durante este último ano desta atormentada década.

acho que me vou isolar e obrigar-me a entrar no meu "mundinho".

quem me dera ter dinheiro. apetecia-me muito fazer este regresso ao "meu pequeno mundo de ficção interior" em marrakesh. tenho muitas saudades de marrakesh. a cidade bela onde me senti melhor em toda a minha vida. marrakesh a cidade vermelha. marrakesh a cidade erótica. prometo que é lá que vou fazer 30 anos. nem que o camelo tussa.

Wednesday, June 22, 2005

a future refrain for a future song

BEING IS JUST BEING

SEING IS JUST SEING

FEELING IS JUST FEELING

I KEEP WAITING FOR YOUR WILLING

auto slogans e uma citação

I NEED PERMANENT EYE CONTACT.

I NEED TO FEEL THAT SOMEONE IS BREATHING ME.

I NEED TO FEEL REAL FEELINGS.

I AM SICK AND TIRED OF VIRTUALITY.

ALTHOUGH I'M ADDICTED TO SOUL-TO-SOUL CRASH I REALLY LOVE THE TASTE OF THE HUMAN FLESH.

"dois braços à minha espera. é uma casa portuguesa concerteza. é concerteza uma casa portuguesa."

Tuesday, June 21, 2005

lentes de contacto

demorei a adormecer. apesar de desconcentrado, masturbei-me entretanto para me acalmar. seriam umas seis e meia. o coração batia estupidamente. má cocaína a mais. de vez em quando faz bem; mesmo sendo má. ao contrário do sexo. não corroboro a expressão "mesmo quando é mau é bom". quer dizer... não sei se corroboro ou não... não, não corroboro.


reflexão adjacente à taquicardia:

acalma-te e sorri: a desilusão nada mais é do que o contrário da ilusão.

começo a sentir a saída de saturno da minha vida. só não estou mais leve porque este calor me está a sufocar. odeio transpirar... a não ser quando fodo.

vou à multiopticas buscar as minhas primeiras lentes de contacto. preciso de lentes e preciso de contacto.

ando ceguinho e descontactado mas não vai ser por muito mais tempo. sinto que uma mudança se aproxima. estou curioso. venha ela já; tenho lentes e já desmontei a desilusão (no geral).

Thursday, June 09, 2005

bored

estou no ipj da avenida da liberdade. continuo sem net em casa.
estou a procurar programas que facilitem a procura de trabalho no estrangeiro. cada vez essa ideia me parece menos uma ideia e mais uma eventual realidade. estou farto de lisboa. para ser muito fraanco, eu sinto muito pouco que ainda aqui estou. sinto que estou noutro lado qualquer. estou num local entre o aqui e o outro local onde quero estar.

hoje sinto que estou entre a vida e a morte. num limbo. estive contente, estive triste, estive acelerado, estive lento. agora estou neste estado entre a morte e a vida.

estou aborrecido. pouca coisa me suscita empolgamento. tudo se mostra morno, mole, lento, sem rapidez, sem rasgo, sem fogo, sem loucura. a loucura, a surpresa e a velocidade criadora parecem ter abandonado a minha vida.

estou mesmo muito aborrecido com isto tudo.

vou arranjar um trabalho de merda apenas para juntar uns trocos para no fim do ano dar o grito do ipiranga.

vou para londres. chove, frio, pouca luz e mais o cacete. who cares? i do not. i want rush and fire. i feel the fire in me. no rain can stop my fire from burning.

Wednesday, June 01, 2005

estou privado

não tenho internet em casa. não sei durante quanto tempo esta situação se vai manter. o que mais me perturba é não poder aceder ao meu diário sempre que me dá na real gana.
não me apetece estar em casa. quero movida. este calor sugere movimento.
ao mesmo tempo lisboa está a entediar-me tremendamente.
estou no limbo entre rush e tédio.
supresas precisam-se!
apetece-me mesmo emigrar.


a selma e a cat estão a reclamar porque estou agarrado ao computador da julieta e não estou a interagir. adeus querido diário, até um destes dias.
miss you.

Tuesday, May 24, 2005


matéria 3 (foto de Onan)

matéria 2 (foto de Onan)