Sunday, May 14, 2006

uma conclusão

se o mundo é isto: um mar revolto de vontades arbitrárias.
eu sou: uma jangada insolente (mas nunca muda)!

nada

nada, quero nada de ti.
já alguém te pediu algo tão concreto?
quando fores grande vais lembrar-te de mim!
e vais saber o que é o aqui e o agora.
vais viver!

Saturday, May 13, 2006

medula parties vs coração e o nome

não retenho os nomes, retenho as vozes.
estico os cheiros, ficam-me nas mãos; este ficou, nos dedos (falanginhas e falangetas) da mão direita.
mão direita, lado direito: onde não está o coração.
não retenho os nomes; retenho a espessura dos cabelos e as cores dos dentes (o grau ou ausência de brancura).
processo os timbres das vozes, alojam-se nos meus pavilhões auriculares, mas jamais os arrumo cronologicamente; ecoam conforme lhes apraz.
eu só ouço, com paixão e atenção, as canções que me fazem cócegas na gelatina dos ossos (medula party).
não retenho os nomes, retenho palavras ao acaso e diferentes formas de as pronunciar.
selecciono frases chave para me trazerem, onanistamente ou não, à memória decalques de rostos que me cativaram na escuridão de um qualquer antro.
não retenho os nomes, retenho a forma de acordar, retenho a forma de um abraço, retenho (na lista preguiçosa do telefone) números de telefone, retenho o recolher ritual da roupa para a voltar a instalar no corpo (quase sempre o silêncio, retenho-o também com perícia), retenho o fechar da porta, retenho o dizer adeus (com o lado direito da boca, onde não está o coração).
não retenho os nomes porque sou hieroglífico (nos tempos que correm, bidimensional); vivo a torto e a direito no mundo. apenas sou esquerdino antes de adormecer, quando sinto com a mão esquerda o bater do coração e recito, com o lado esquerdo da boca, a beleza do teu nome.


Wednesday, May 10, 2006

quem és tu?

quase à minha frente, a uma confortável distância.
não fui capaz de tirar os óculos, creio que corei.
olhares cruzados no vidro.
tentei não olhar demais, para não gastar e porque estava em doce choque.
um rosto assim, tão desconhecido e, deliciosamente, tão familiar.
uns olhos que não eram apenas uns olhos. uns olhos que eram os portões de um olhar onde eu consegui viajar milhares de quilómetros.
uma boca assim, tão pronta ao beijo e ao mimo, que denuncia perfeitamente o tardio e arrastado vício da chucha.
maior do que eu, talvez com mais idade.
um embate, de vermelho com vermelho; os dois de vermelho.
tinha um fio de couro com um amuleto quase invisível ao pescoço.
invento um desejo para aquele amuleto.
saiu no marquês, eu continuei imóvel a tentar inventar-lhe também um aroma.
acabei de me apaixonar no metro.
quem és tu?

Sunday, May 07, 2006

esboços inúteis e os anti-neurais

deixou-se andar à deriva, à tona, ao sabor da corrente, porque reaprendeu, nesse fim de tarde, a fazer do mar uma estância de brincar. lembrou-se de quando era criança, as tardes de agosto: nadar e cantar, cantar a nadar, nadar e cantar para tentar falar com Deus. recuperou o método de outrora mas agora Deus não estava presente, no céu que namorava o mar e muito menos dentro de si mesmo.
deixou-se andar, à deriva, tão dormente, e esperou que a noite chegasse. o mar tornou-se uma estância de brincar às escuras.
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hey, hey,
drop your mask now or soon
i'm not your conscience or your devil
but the world is not a ball room

hey, hey,
i'm awake for more than a week
i dream everywhere cose i can
but giving birth can make us sick

hey, hey,
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hoje estou impróprio para consumo. duas noites longas seguidas deixam a pessoa neste estado:neura.

tenho ouvido incessantemente a minha canção nova. gosto mesmo muito, acho que tem bastante potencial. acho que os làtigo (projecto de música electrónica que eu e o nuno formámos) tem mesmo pernas para andar. o fairyboy também gosta muito da canção, confessou-me estar viciado.

felizmente tenho tinho dois bons anti-neurais: meat to the beat (a nossa nova canção) e o perdurar do embevecimento obtido com o maravilhoso espectáculo do tom zé, na culturgest. genial. aquele homem é, de facto, muito inteligente. o espectáculo, que não é um concerto, como diz o próprio, é uma "sessão de paradoxos". um verdadeiro encontro com o sublime. eu já adorava as canções dele mas vê-lo a interpretá-las e a explicar a origem das mesmas é um privilégio. belo, de heráclito a ezra pound, estimulante e belo. simples e belo.

http://www.tomze.com.br/

Thursday, May 04, 2006

will fades will

you and i,
can't you see?
the perfect set
when you play the rocket
i can always be the jet

you and i,
can't you see?
together in a mutual smile
when i think loud
you stay silent for a while

you and me,
can't you see?
can make these days the best
reaching, teaching,
is this passion or a test?

you and me
can't you see?
could go left or could turn right
my world blooms
when he drink and talk all night

let's walk on this water
this bridge is under construction still
but i count all the minutes
'till your will fades in my will


Tuesday, May 02, 2006

citação sentida

henrique maximiliano dixit:
"deve haver algures o que quer que seja de mais perfeito do que nós próprios, um bem cuja presença nos confunde e cuja ausência nos é insuportável."
in, "a obra ao negro" de marguerite yourcenar

há mais de dez anos que ando com este livro para trás e para a frente e a sua leitura sempre se me tornou difícil, odisseica, impossível. presentemente, mergulho ávida e deliciosamente nos percursos de maximiliano e desse hermético zenão. vicissitudes da idade: a cabeça abre-se, para o pior e para o melhor. aqui está a prova do melhor. recomendo, faz-nos bem.

Monday, April 24, 2006

gus van sant

cada vez gosto mais dos filmes do gus van sant. revi o "elephant" ontem, com o miguel. é brilhante, de facto. ele não filma apenas, ele dança sobre o tempo. o sentido obtuso demonstra-se, na expressão daquele movimento, daquela coreografia, a essência última, e pura, do que é a capacidade/verdade fílmica.
tenho de rever o "gerry".
a cabeça que aquele homem deve ter!

Sunday, April 23, 2006


photo by fairyboy

a portrait song for thee

a poem that, in a few hours, can become a song.
to fairychild (from portugal to iceland).
"it's in the water baby"

a portrait song for thee

with my L issue
in my english spelling
i can make it last in lusty leisure

with this night addiction
and my weak self-caring,
it all stays still with some sort of pleasure

well i am tonight:
a jolly drunkie,
low-fi poet,
supa troopa,
arsonist

i was before:
the horny heart,
the regret sucker
all paradoxal
arty bitch

with my L issue
in my english spelling
i can always reach you; reykjavik

with these poor conditions
and my grammar melting
springs arrival always makes me sick

well i was:
the perfect lover,
head traveller,
lazy brain
in constant twist

half of me is:
huge and tiny,
neurotic schedule,
cursed genius,
onanist

these are, sometimes, words to feel an see
congratulate us
i made my portrait song for thee

i'd like to cross that bridge, i'd like to ride your bike,
napchild,
always catch your fairy golden strike



Saturday, April 15, 2006

3 anti-heróis

é durante aquele espaço de tempo que precede, ou intercala, o sono (deve ter um nome técnico, científico, mas eu não sei) que eu invento os meus anti-heróis.

O primeiro (inventei-a há alguns meses), é a Travequinja, o segundo é a Mikado Girl e o terceiro é a Pocket Demon.

mas agora não posso falar sobre isso, falo depois, agora chegou a caty. estamos na conversa. e depois tenho de ir comprar vinho e ir para casa do miguel para o jantar com o paul auster. não resisti a escarrapachar isto aqui. JANTAR COM O PAUL AUSTER.

Monday, April 10, 2006

para sentir no futuro

fingi que acordei para me lembrar o quão contrário o teu beijo era a espremer limões.

Thursday, April 06, 2006

um desejo forte

muèstrame tu lengua!

Monday, April 03, 2006

segunda-feira

nada como começar a semana cedo e a dar uma auto-insufladela no ego. depois de ler a redacção anterior:

vou fazer carpaccio do meu coração para alimentar putas e ricos.

fuck, sou mesmo um génio. só esta frase, num mundo mais dinâmico e interessante, noutro tempo e, definitivamente, noutro espaço, dar-me-ia direito a uma bolsa vitalícia de criação livre e onanista.

Tuesday, March 28, 2006

o acto da primavera

queres vir comigo?
vou pintar as unhas a animais ferozes!
vou guilhotinar a minha cabeça na boca de um crocodilo!
vou encantar uma legião de serpentes!
vou provocar choques em cadeia numa estrada nacional!
vou banquetear-me com os abutres!
vou rir-me com as hienas num talk show semanal!
vou discursar para as paramécias!
vou dormir com os inimigos!
vou fazer carpaccio do meu coração para alimentar putas e ricos!
queres vir comigo?
vou fazer nada, vou derreter o interior da cabeça perante o sol que não aquece nem vale a pena!
queres vir comigo?
vou espirrar, tenho alergia a portugal!



Friday, March 17, 2006

long thursday

(estou há vários anos para concretizar isto que há-de ser uma canção que hei-de cantar. hoje senti, mais ou menos, isto, a letra que trauteio para mim mesmo de uma canção que ainda não tem melodia mas que hei-de vir a cantar. isto nada tem de passional, nada.)

should i? tell me, should i? ah, ah, ah.
just like me, as far as i can see, you're just like me.

money and sperm make the world turn
money and sperm made my house burn

money and sperm make the world turn
money and sperm made me want to learn.

money and sperm made to happen this storm.
money and sperm made my heart warm.

it's me and the fucker,
oh, it's me and the fucker

it's me and this sucker
oh, it's me as a sucker.

divertes-me, não mais do que isso, não sabes nada do que escrevo. falas demais eu ouço, gosto de ouvir e tu és mais um acidente. ganhei mais um amigo, sei que sim, divertes-me. vim-me embora sem te agradecer, não foi por mal. obrigado por hoje, diverti-me. divertiste-me porque eu gosto de ouvir. nada disto tem a ver com dinheiro mas todas as nossas conversas (e acções) vão dar ao dinheiro. as surpresas do mundo, fazem-me rir (e a ti também), as surpresas do mundo. rir, rir.

não te disse, nem to direi, desmontaste-me a cama. montei-a a rir, hoje à tarde, antes de irmos rir mais uma vez. divertes-me, não mais do que isso e eu preciso de rir para além de mim. obrigado, pelo dinheiro que gastaste para nos fazer rir. quem diria que te havia de conhecer? o mundo é pequeno e o riso é tão fundamental. nada disto é passional.

Thursday, March 16, 2006

as canções

as canções, ah as canções, colecciono-as. as canções fazem tanto parte de mim como eu me pertenço a mim mesmo. uso-as, abuso-as (pois, sempre as canções como referência), sinto-as. servem para tudo, as canções. há alturas e situações da minha vida em que não me apetece expressar-me por mim mesmo: apetece-me, nessas alturas e situações, instalar canções. apetece-me ser uma juke box andante, creio que o sou. em quase tudo o que me acontece há sempre uma canção que se instala como se fosse uma tela sobre a qual a minha vida se pinta. vivo audiovisualmente, em sons e em imagens, vivo em videoclip.
receito e recito canções a mim mesmo, aos amigos, amantes e desconhecidos. estou sempre a trautear. quando descubro uma nova canção que me fascina apetece-me instalar a mesma no mundo. gostava que todo o mundo estivesse dentro dos meus headphones. está, às vezes está, eu sinto, eu sei que o consigo. apetece-me fazer espectáculos em que não se fala, só se canta, ou só se faz acontecer sobre as canções. deve ser por isso que gosto tanto de espectáculos de travesti, por est@s trabalham sobre as canções. as canções são trágicas, são cómicas, são tragicómicas, infinitamente finitas. são minhas, as canções, passam a ser-me e passam a ser tudo o quero e posso dizer: adequamo-nos. (hei-de voltar a este assunto mais tarde, há muito e mais, profundamente, por dizer/escrever).
segue-se a letra da canção em que estão neste momento três pessoas viciadas, eu sou uma delas. fui a última pessoa a conhecer a mesma mas sou o mais viciado. sou excessivo, eu sei e gosto.
"It Can't Come Quickly Enough" by Scissor Sisters
Sailling through the tunnels
In the morning by yourself
There's a very special feeling
True sensation all is well
If you stand and reach your arms out wide
Close your eyes and try to fly
It's an underground illusion
Tricking you from side to side
We knew all the answers
And we shouted them like anthems
Anxious and suspicious
That God knew how much we cheated
It can't come quickly enough
And now you've spent your life
Waiting for this moment
And when you finally saw it come
It passed you by and left you so defeated
Skyscrapers rise between us
Keeping me from finding you
If the concrete architecture
Dissapeared there'd be so few
Of us left to navigate and
Defend ourselves from the tide
It's an underground illusion
Tricking you from side to side
There's no indication of
What we were meant to be
Sucking up to strangers
Throwing wishes to the sea
It can't come quickly enough
And now you've spent your life
Waiting for this moment
And when you finally saw it come
It passed you by and
Left you so defeated
(quando a ouço, e ouço-a muitas vezes, apetece-me sorrir, beijar, viajar, embater, chorar e foder. tudo ao mesmo tempo, apetece-me tudo ao mesmo tempo, GANDA canção.

Saturday, March 11, 2006


e mai nada. mai nada. nada.

antes de dormir, fizeram-me bem

e onan diz, de si para si mesmo, como se dois demónios houvesse:
não te desejo mais do que todas as vezes ou todas as carícias do mundo. sei que as tens, precisas-te tu. não te preciso, imaculado, sei que não vens, precisas-te tu. estou a morrer de fome, entrecortado, sei que não tens, nasce-te tu. sou entrefeito, exasperado, sei que não vês, faz-te tu. sou de vidro, fosco e quebrado, estilhaçado, martela-me tu. morro e remorro, em mim sepultado, nascido e nado, em ti e em tu.
há-de haver um dia em que tudo te parecerá fosco, imóvel, irretornável, findo. nesse dia o espelho será o teu único interlocutor, vais rir-te, eu também me ri, e vais sentir-te detentor do princípio da criação. vais devorar tudo o que existe na cozinha, como se o mundo fosse acabar agora e como se a tua fome fosse um vendaval de vontade e de finito. finitei-me aqui, em ti.
e eis que onan é interrompido
elas fizeram-me bem, as adolescentes na cozinha, a madalena e amiga, fizeram-me bem. fizeram-me relatos da sua juventude. falaram-me de curtes e de rapazes da portela. e de problemas do enlace, do alto dos seu 17 anos, dos desencontros na discoteca, fizeram-me bem. estou tão próximo, fizeram-me bem, queremos o mesmo, fizeram-me bem. vamos dormir, fizeram-me bem.
afinal as miúdas tinham dois cigarros, fizeram-me bem.
tenho de ir, fizeram-me bem.
estou mais do que vivo, fizeram-me bem.
ainda não morri, reaprendo o riso, fizeram-me bem.
é uma dádiva, isto de ter cabeça, faço-me bem.
tu não me matas, nasço-me contigo, far-me-ei bem.
NÃO, EU AINDA NÃO MORRI. VIVO-ME, VOLÁTIL, BEM.

Friday, March 10, 2006