Tuesday, October 11, 2005

i don't wanna grow up

a verdadeira razão porque eu não desisto da ideia do amor é porque acredito que este é a verdadeira máquina de brincar.

I DON'T WANNA GROW UP

(tom Waits/k. Brennan)
When I'm Lyin' In My Bed At Night
I Don't Wanna Grow Up
Nothin' Ever Seems To Turn Out Right
I Don't Wanna Grow Up
How Do You Move In A World Of Fog
That's Always Changing Things
Makes Me Wish That I Could Be A Dog
When I See The Price That You Pay
I Don't Wanna Grow Up
I Don't Ever Wanna Be That Way
I Don't Wanna Grow Up

Seems Like Folks Turn Into Things
That They'd Never Want
The Only Thing To Live For
Is Today...
I'm Gonna Put A Hole In My Tv Set
I Don't Wanna Grow Up
Open Up The Medicine Chest
And I Don't Wanna Grow Up
I Don't Wanna Have To Shout It Out
I Don't Want My Hair To Fall Out
I Don't Wanna Be Filled With Doubt
I Don't Wanna Be A Good Boy Scout
I Don't Wanna Have To Learn To Count
I Don't Wanna Have The Biggest Amount
I Don't Wanna Grow Up

Well When I See My Parents Fight
I Don't Wanna Grow Up
They All Go Out And Drinking All Night
And I Don't Wanna Grow Up
I'd Rather Stay Here In My Room
Nothin' Out There But Sad And Gloom
I Don't Wanna Live In A Big Old Tomb
On Grand Street

When I See The 5 O'clock News
I Don't Wanna Grow Up
Comb Their Hair And Shine Their Shoes
I Don't Wanna Grow Up
Stay Around In My Old Hometown
I Don't Wanna Put No Money Down
I Don't Wanna Get Me A Big Old Loan
Work Them Fingers To The Bone
I Don't Wanna Float A Broom
Fall In Love And Get Married Then Boom
How The Hell Did I Get Here So Soon
I Don't Wanna Grow Up

GOSTO DO AMOR PORQUE AMO A IDEIA DA CO-ARQUITECTURA DA CARNE E DO DISCURSO

estações

nunca parti, fiquei.
já há algum tempo que deixei de apreciar com exactidão qualquer uma das estações do ano. durante muito tempo detestei o verão e deliciei-me com o inverno. o verão deixava-me confuso, mentalmente irrequeito e perdido, atormentava-me. o calor empurrava-me para um território próximo da morte, cerebral mas, a seu modo, letal. o inverno embalava-me, amparava-me, aconchegava, transportava-me, em consolo e recolhimento, para uma zona aprazível de mim mesmo. depois houve o sabor da morte. não da minha morte mas da morte do outro. quando o outro morreu senti-me bem na primavera e consequentemente no verão. vivi essas duas estações, pela primeira vez em largo tempo, com fervor e histeria. foi um falso e veloz viver esse que ocorreu depois da morte.
quando caí em mim os invernos haviam passado a ser velozes e os verões fogueiras hipercinéticas de insanidade. tudo passou a ser excessivamente veloz: o verão e o inverno antípodas no frenesim, a primavera e o outono caminhos frenéticos para os mesmos.
agora que sou conceptualmente o renascimento da minha própria experiência gosto das incoveniências das estações. gosto dos interstícios imprudentes que ocorrem nas mesmas. namoro com a deliciosa forma como estas se provocam. comove-me a chuva birrenta e fria num dia de agosto e choro de calor numa tarde soalheira de janeiro.

uma das melhores recordações que trago da infância é a da extrema felicidade experimentada ao vestir mangas curtas pela primeira vez no ano.

hoje fiquei feliz com a chuva. fiquei feliz porque me pareceu que esta vinha fora de tempo. a chuva hoje foi impertinente, como as minhas vontades, veio talvez para ficar. veio quando eu menos esperava.

Friday, October 07, 2005

jdfvfvs

ksjdd fdfrfnf fdkffjff gkrfocx ddd ffffg, ggdddid xs dddf fffffffss ss sikvv ofefjndf
kddmdfnadgg dd ssodsndd.
djdfiuvgn tffifff ddssawaa...
ssjrfjiwvwrf ffafsd dssodd saqaadddcd, ssdfffkfffrf fdff f, ssdddd fffdFA!

(apetece-me muito escrever mas não tenho o que dizer. calo-me. hoje estou muito irritado, nem sei bem com o quê. vou fazer a barba e fitar-me, demorada e lascivamente, ao espelho. gosto de me engatar!)

Tuesday, September 27, 2005

uma imagem

cala-te de uma vez, percebe-me de lés a lés.
canta-me baixinho e deixa-me dormir aos teus pés.

imagem aspirada de um qualquer futuro

convenci-me de que serei plenamente feliz quando estiver, deliciosamente, a morrer de saudades de Portugal.

ler

quero ler para ti. quero ver-te a ouvir-me ler-te as palavras dos outros. quero recitar-te, quero embalar-te até perderes os sentidos (ou a vontade de dormir). quero ler para ti, à hora do chá, à hora certa, à hora de nunca mais de dizer adeus. quero ler para ti, nas linhas da vida, nas linhas do eléctrico, nas linhas tortas onde Deus nunca escreveu. no corpo, vou inventar, por nós, uma estratégia aí: nas palmas das tuas mãos.

tenho pressa de inverno, aqui, no epicentro das minhas recordações; quando tudo era simples e imberbe, quando tudo era solar (mesmo em dias de chuva), quando tudo era hálito e aconchego e nós tão novos. tenho pressa de inverno aqui, na memória; o inverno sabia-me bem.

procuro a forma mais acertada de me (d)escrever, para me ler-te. vou ler-me para ti em contos imaturos, neste inverno que ainda nem sequer se deu a dar.
vou (d)escrever-me em contos: dentro de pequenos chocolates, dentro de limões, dentro de rebuçados espanhóis, dentro de beringelas, dentro dos xaropoes que ainda vais tomar e dentro das noites que ainda hão-de vir.

quero ler para ti, em russo, em japonês, em sueco, em zulu e em todas as línguas que desconheço para nos podermos rir a meio, no princípio e no fim. para (r)ir durante, quero ler para ti.

há-de haver um dia em que irás encontrar o teu retrato durante um livro.

Saturday, September 24, 2005

a arte e a guerra

"pessoa sensíveis fazem massagens, não arte"
Dr Veiga dixit

Sim, isto de aqui andar sabe a ferro e sabe a fogo; carne viva, sangue frio.
Estive/estou com um abcesso. Doeu muito. Foi assim o meu início de semana (domingo, segunda e terça). Quarta-feira: jabasulide faz nada, inchaço e dor congratulam-se por existir. A minha gengiva parece explodir. Eu a imaginar que os poucos euros que tinha lá teriam de ser dolorosamente entregues na farmácia. Dito e feito; seis da tarde, o cenário insuportabiliza-se e lá vou eu a caminho das urgências do S. José. É lá que vou, como qualquer proletário, sempre que a situação o exige. E posso asseverar que as ditas exigências têm surgido nas mais variadas e absurdas situações ao longo desta quase década de estadia na grande maçã lusa. Adiante, adiante, o que interessa é que o cenário foi piorando cada vez mais. Eu a pensar que o estomatologista espanhol que me assistiu nem me iria tocar e que me iria receitar um antibiótico manhoso qualquer e que me iria despachar em dez segundos para voltar à tão animada conversa que estava a ter ao telemóvel.
Engano redondo, quando dei por mim tinha um bisturi a cortar-me a gengiva e os dedos do espanhol a espremerem-me a purulenta protuberância. Ainda teve a lata de me perguntar se me estava a doer. Eu rugi e pisquei os olhos como que a dizer: "não, estou óptimo, continua lá com a tortura que eu cá me irei aguentando à bomboca". E aguentei-me de facto, porque apesar de ser um pleno praticante do verbo lamuriar, a verdade é que, no que à dor física diz respeito, sou bastante resistente. Quanto às dores metafísicas, aí o caso muda bastante de figura. Convenci-me de que sou uma pessoa sensível. E é para chegar a este ponto que me permiti relatar o episódio abcessal. (Para resumir: lá cuspi aquela porcaria toda, ele lá me passou a receita correspondente a uma farmácia inteira, lá deixei os euros todos na farmácia do Martim Moniz e agora tenho uma bela rotina medicamentosa que me obriga, todos os dias, a andar com dez quilos de comprimidos e elixires na mochila e a fazer combinaçãos variadas de químicos às mais absurdas horas. Iso tudo durará até à próxima quarta-feira, caso a infecção passe. Caso não passe lá terei de ir visitar o espanhol e o seu amigo bisturi).

A verdade é que a afirmação do meu caro Dr Veiga é totalmente certa. As pessoas sensíveis não devem fazer arte. Ou não se deve partir dessa premissa para se decidir enveredar pelo, já de si, bastante tortuoso caminho da arte. O artista tem de ser, acima de tudo, um guerreiro. O caminho da arte é o caminho do combate. O Dr Veiga, segundo percebi, descobriu isto aos catorze anos. Toda a sua vida, desde então, foi planeada com a tenacidade técnica de um guerreiro. Por isso ele é um artista. Ele faz a arte e não precisa dela para sobreviver. Fez-se o seu próprio mecenas. Optou por um caminho, o não sensível, que lhe permitiu ter a estabilidade e liberdade necessárias para poder criar sem tormento essencial. Eu, lerdo como sou, descobri isto aos vinte nove anos, com a ajuda do caro Dr Veiga (talvez sozinho também chegasse lá) e depois de ter os pés já muito exangues por ter enveredado pelo caminho do tormento. Creio que deve ter sido por uma questão de incultura. Se tivesse sido mais culto talvez tivesse percebido essa tão anímica relaçáo entre a arte e a guerra.

Pois, e agora?

Agora é tudo uma questão de congregação de elementos.
Tenho de reunir o que me resta e que é essencial para a guerra:
-fúria e ímpeto (detesto a palavra talento)
-domínio da expressão (sei que na maioria das propostas a que me permito o consigo ter)
-energia (é só uma questão de assertivo canalizar da mesma)
-contactos (aprofundar os que existem e perder esta porcaria deste pudor da auto-promoção)
-capacidade de trabalho (já por diversas vezes comprovei a mim mesmo que a tenho, é só uma questão de a passar a ter de forma permanente e para todo o tipo de tarefas).

Passar a ter o que não tenho e que é essencial para a guerra:
-disciplina
-persistência
-capacidade de congregação dos elementos que são essenciais para a guerra
-estrutura exterior que me permita atingir estabilidade para poder criar em liberdade
-táctica
-assertividade

Elementos exteriores à guerra e que têm de ser eliminados:
-dispersão
-auto-condescendência
-maus hábitos
-vínculo ao conceito de sensibilidade ou acertado ajuste do mesmo
-falta de concentração
-incapacidade de estabeler tarefas e devida calendarização das mesmas
-desistência
-falta ajuste ao presente
-fixação no passado e no futuro
-deixar de acreditar que me vai sair o euro milhões


As medidas estão teorizadas. A práctica urge. Serei o mesmo? A guerra e a arte o dirão. Não tenho grandes hipóteses. Até porque acho que daria um péssimo massagista; não gosto de tocar a maioria dos estranhos.

Tuesday, September 13, 2005

my mood

"I'm gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you
I'm gonna write words oh so sweet
They're gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I'll be glad I got 'em

I'm gonna smile and say: "I hope you're feeling better"
And close with love the way you do
I'm gonna sit (right) down and write myself a letter
(And make believe it came, though I know it's not the same)
And (I'll) make believe (that) it came from you"

a náusea parece estar a passar. os sonhos continuam estranhos. continuo a não conseguir ouvir música. mas tenho feito muita música, no entanto. a cabeça parece estar cheia de água. água revolta. tenho um tsunami na cabeça e um peso no coração.

i'm still here! (para o que der e vier)

sonho mau

não consigo ouvir música.
os sonhos são cada vez mais estranhos. ontem à noite sonhei que tinha tomado um veneno, para morrer. (um simulacro de um documentário que vi há uns tempos sobre um senhor francês que, na fase terminal de um tumor, decidiu cometer eutanásia). sonhei que estava a fazer o mesmo. ele teve uma morte rápida, indolor e serena; suave e bonita. morreu nos braços da mulher que amava. adormeceu nos braços dela e o coração parou de bater segundos depois. morreu embalado pelo amor dela.
ontem sonhei que tinha decidido fazer o mesmo. mas no meu sonho, eu não morria. o veneno, no meu sonho, era incapaz de me fazer adormecer. estava sozinho, depois de ter ingerido a solução, o efeito desejado não acontecia. não tinha uns braços onde pudesse adormecer para morrer serena e suavemente. instalou-se, isso sim, uma insuportável náusea. a náusea esteve comigo todo o dia. sinto que ainda não saí do sonho. e o pior de tudo... eu não morria porque não tinha uns braços onde morrer.

não consigo ouvir música. tenho um sonho mau sitiado na cabeça.
e ouvir música é para os sonhos bons. ouvir música é para me lembrar de ti.

a vida e os sonhos maus parecem ter feito um pacto estranho para me ausentar das melodias.

as melodias parecem ter feito um voto de silêncio para me fazer olhar para mim.

Thursday, September 08, 2005

fim de tarde aqui

Sempre adorei este trecho do discurso de Fedro no "O Banquete" desse grande querido Platão.

"Que entendo eu por amor? - Às acções desonestas liga-se a desonra, às boas acções liga-se o amor. Sem isto, nem a cidade, nem o indivíduo, podem fazer algo de grande ou de belo. Ouso afirmar, desta maneira, que se um homem ama e for surpreendido a cometer um delito vergonhoso, ou a suportar cobardemente um ultraje, sem que saiba defender-se, sofre menos ao ser repreendido pelo pai, por um parente, ou por qualquer outra pessoa, do que por aquele a quem ama. Verificamos, também, que um amado não ruboresce tanto como perante aquele que o ama, se por acaso é surpreendido em falta. Assim, se houvesse a possibilidade de formar uma cidade, ou um exército, composto somente por amantes e amados, obteríamos a constituição política ideal, pois teria por base o horror do vício e a emulação do bem e, se combatessem juntos, tais homens, apesar do seu reduzido número, poderiam vencer quase todo o mundo."

Faz-me sentido, esta coisa da bélica do amor. O grande problema acontece quando a guerra se instala dentro do nosso pequeno exército. Quase percebo, agora, o que é um tiro no escuro.

Tenho, de aqui e acolá, uma vontade dadaísta de presente.

Quando vi ao vivo "O Grande Masturbador", do Dali, chorei. De comoção e raiva, chorei. A comoção está explicada no próprio acto de chorar ao ter na frente uma obra que tem para mim muito significado. A raiva vem do facto de ter sido obrigado a partilhar esse mesma comoção com os outros espectadores do quadro. Construi com aquela imagem uma relação tão íntima e pessoal que quando vi o quadro rodeado de pessoas me senti invadido. Isto da partilha tem muito que se lhe diga. Esperei, meticulosamente, que todos saciassem o olhar e consegui ficar a sós, por largos instantes, com o quadro. Nessa altura chorei a sorrir. Quando me empenho, até acabo por conseguir o que quero.

Sunday, September 04, 2005

finis praxis (estilhaços)

(os seguintes poemas foram escritos em 1998 e fazem parte de um livro de poemas que intitulei de "finis praxis". há uns anos pensei ter perdido esse livro em virtude da grande incompatibilidade tida com uma certa disquete. felizmente recuperei, há pouco tempo, o livro no computador da rosa (my flat mate) visto ter sido no mesmo que se deu grande parte do processo de redacção e ela, santa alma, nunca o ter apagado. "finis praxis" não foi escrito por onan; o demónio, tal como existe no presente, ainda não havia nascido.)



estilhaço 1

fiquei sossegado
já não existia uma razão suficientemente forte
para que o meu corpo se pronunciasse.
não estava triste,
muito menos feliz,
estava intacto; sabia que era capaz de abrir os olhos.
a temperatura havia estagnado já por muitos meses.
na parede oposta à porta do quarto estava o roupeiro branco.
de noite fechava-lhe a porta para trancar o Senhor Silêncio.
nessa época só adormecia embalado pelo estrondo de lindos prédios a ruir.
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estilhaço 2

(para aquele que enlouqueceu antes de ter enlouquecido)

e nessas horas acesas
em que o silêncio não é mais do que uma palavra adormecida nos meus,
teus, nossos olhos.
nesse instante suspenso no fumo de um abraço
é a tua pele quem sussurra
e a minha boca pontua as frases que o teu corpo dita.
quando a cidade morre devagar somos um todo brilhante,
o teu cheiro e os meu olhos dissecam o tumulto da ruas e
inventam novas vidas para as células.
nessas horas acesas somos um universo rodopiante,
duas tranpirações herméticas numa nuvem rebelde.
dou-te o silêncio como dote.
dás-me a lua como excesso.
quando a cidade ressuscita:
tenho estrelas no ventre
e tu cantas com a voz do mar.
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estilhaço 3

querelle 1
o homem tem a pele azul e os testículos pesados,
de tanta ira.
o homem ainda não aprendeu a ser homem,
anda numa conturbada pesquisa.
o homem não é azul, é dourado
qual anjinho de talha.
o homem tem a boca espessa,
onde as palavras se perdem e definham.
o homem tem os mamilos rosados e duros,
pedra mármore-parte dentes molares.
o homem tem o amor bem escondido,
debaixo da língua.
o homem quer ser maldito,
como os heróis expressionistas.
o homem ainda não nasceu,
mata-se todos os dias com o mesmo sabre.
o homem navega,
nas suas próprias veias ao sabor da contracorrente.
o homem é uma visão aproximada do seu próprio sexo.
o sexo do homem é um barco:
deriva, naufraga e dorme no fundo calmo do mar.

a leitura da não escrita

às páginas que ainda não escrevi, rasguei-as. evitei o insondável confronto entre a sintaxe e a vida. cerrei os dentes; usei as mãos (pu-las à obra): estilhacei o discurso, incinerei a semântica, matei a pontuação, abortei a acentuação e vaporizei sujeitos e predicados por aí. abstive-nos da minha literacia.

aprendi a exercer o verbo na pior e mais inesperada das alturas. jamais suspeitei que o viesse a fazer. ainda agora, enquanto me penso, sou incapaz de crer que as minhas mãos possam rasgar.
rasgar páginas ainda não escritas é o pior dos meus crimes. é o mesmo que forçar-me a compreender o meu próprio coração para o poder fazer sangrar para além da sua morte.

começo a habituar-me a esta sensação de que estou constantemente a engolir torrentes de lava.

fome vulcânica: quando o cansaço me atinge de forma assertiva e feroz abro o trinco das pálpebras e a janela do quarto para deixar que os meus olhos, esses dois abutres azuis, se soltem para a incógnita da noite em busca de páginas ainda por rasgar antes da escrita.

violei-me sem dar por isso; escrevi-me depois.

esta noite não soltarei os olhos; amanhã irei acordar num oceano de tinta.

serei feliz no momento em que conseguir saborear de forma literal uma qualquer imagem.

a preguiça instalou-se nas pontas dos meus dedos e impede-me de redigir o manual de mim mesmo.

fiz-m ao contrário, perdi a praxis e este é o avesso de mim.

e o amor é uma lágrima que escorre de baixo para cima!

Wednesday, August 24, 2005

sobre a leitura do ser e do riso

É preciso ter-se coragem para se observar, no espelho, o próprio rosto no meio da mais sinistra tempestade. A coragem vem solene e bonificada. A coragem vem de dentro do que está dentro de nós. A coragem vem corajosa.

Saem-me dois barcos dos olhos. Dois barcos sem nome, sem uma forma exacta, sem tripulação. Aprendi a calar-me aqui, na boca da tempestade, quando me vi cercado pelas minas e armadilhas das minhas próprias lucubrações. Aprendi a engolir em seco aqui. Pasmado e bruto, aprendi a insolucionar. Não consigo decidir se me aprendi a escrever ou não. Sei que entrei num sítio qualquer. Um sítio quase indesconhecido, um sítio a situar. É como entrar numa casa pela primeira e vez e perceber de imediato que o cheiro da mesma será exactamente a memória mais precisa que iremos reservar-lhe ao partir. É como beijar uma boca desconhecida e ter a certeza de que já ali estivemos antes. Conseguir premunir o som dos próprios beijos; é disso que falo. Entrar em mim é isso, em parte. É como abrir uma janela fechada à chave com a ponta língua. É como ter o céu, e tudo o que ele representa, guardado no fundo dos bolsos e andar pelas ruas sem conseguir flutuar. É inventar ruas por cima das ruas. É isso, entrar em nós é navegar.

Fiz-te à semelhança de mim, das minhas lutas. Fiz-te caído antes mesmo de teres aprendido a ter pernas para andar. Fiz-te com as veias à mostra. Fiz-te uma língua gigante e inteira onde eu pudesse caminhar para morrer. Fiz-te oligomeu, sejas lá tu quem fores. Fiz-te aos bocados; nos intervalos do estar. Fiz-te ao longo do tempo em que aqui não estiveste. Fiz-te vir.

Não existes, és meu. Aqui dentro não se existe. Não sou diferente de alguém, sou igual a todos. Recuso-me a acreditar que exista algo exacto dentro de quem quer que seja. Todos temos o mundo esquiçado cá dentro; tácito e líquido, todos temos o mundo por abrir. Todos temos a abertura; ninguém tem o peso exacto do mundo. O peso do mundo faz-se por aí, nos dias, nos cruzamentos, nos beijos, nas palavras, nos uivos. O mundo acontece por si; enquanto não houver quem feche esta ideia severa e irrequieta de que existe uma entrada clara e precisa para o centro exacto do mundo. Enquanto não houver quem venha para as ruas gritar que o peso do mundo é um eterno livro por escrever. É preciso saber caber dentro das ideias. É preciso saber ler.

As palavras caem, antes da boca,
sedentas de perene,
as palavras caem por abrir.

As palavras caem, sem silêncio,
e eu sem roupa,
as palavras caem para eu não cair.

As palavras caem, sem acaso,
na ponta dos meu dedos,
as palavras caem para me rir.



Saí de onde estava. Não posso ficar aí para sempre, tenho de confessar-te. Falo contigo porque sei que precisas tanto de me ouvir como eu preciso que me ouças a falar. Isto não é uma mensagem; é um território. Isto é a fundação de um país que se recusa a nascer. Um país planeado e concebido pelas suas próprias fronteiras. Este é um país que se quer existente para que se lhe possa apresentar a sua própria limitação. Este é um país desejado pelo limítrofe. Este é um país pensado. Este é um país-ideia.

Há livros dentro muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. Há livros dentro carros onde entro e aprendo a deixar-me levar. Há livros dentro das canções que ouço e ensino a ouvir. Há livros dentro dos copos que partilho por aí. Há livros dentro dos olhos que se fixam nos meus. Há livros dentro das recordações que guardo do que já vivi. Há livros dentro das casas onde me recuso a entrar. Há livros dentro das bocas que me tentam dizer coisas imperceptíveis na minha própria língua. Há livros dentro das mãos que preferem fechar-se a ter de se abrir para me fazer sorrir. Há livros dentro das coxas que se roçam e que têm a ganga como permanente interlocutor. Há livros dentro das igrejas onde planeio ir mas onde nunca vou por estar a usar boné. Há livros dentro dos sapatos que observo, aos milhares, nos dias em que estou triste, por não ser capaz de levantar o olhar do chão. Há livros dentro das garrafas que estou sempre pronto a abrir para me esquecer para onde vou. Há livros dentro dos abraços que dou, com fervor e descanso, aos meus amigos. Há livros dentro das lancheiras das crianças que não vejo ir para a escola porque nunca vivo as manhãs com o mundo. Há livros dentro das conversas que tenho na minha cabeça mas que evito ter na realidade por preguiça e incompetência do realizar. Há livros dentro das minhas chaves de casa. Há livros dentro dos corações dos namorados que ainda tremem quando se encontram. Há livros dentro dos bolos que as senhoras bem intencionadas dão, nas pastelarias, às pedintes heroinómanas prestes a morrer. Há livros dentro das salas de estar das viúvas que têm na televisão e no cão a sua única companhia. Há livros dentro dos teatros onde quero vir a trabalhar até à exaustão. Há livros dentro dos bolsos dos estrangeiros que olham com serena curiosidade o luso-morno-mau-estar. Há livros dentro dos dentes que embatem, tímida e atabalhoadamente, aquando de um primeiro beijo. Há livros dentro dos ossos que se quebram quando o chão se torna um permanente e imperativo inimigo. Há livros dentro do sangue que se derrama para se dar à luz. Há livros dentro de muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. E eu casado com o caos que mora dentro da chuva das palavras; e eu cansado de não os poder ler.

Às vezes, para poder sossegar, imagino o momento em que, no futuro, me vou poder rir do dia em que estou. Já realizei, por diversas vezes, a proeza: RIR.

Thursday, August 18, 2005

hoje

"it's the first day of the rest of your life, it's the first day of the rest your life"
"the first day" Timo Maas Feature Brian Molko.

it all makes sense to me now.

"here comes the sun, and i say: Never go away"
"Rain" Madonna

i felt it.

amigos de sempre cá em casa. bom jantar (fui eu que fiz). A Kathy trouxe o laptop dela cá para casa e estamos com wireless alheio. de novo net cá em casa mesmo que seja de forma efémera e provisória. feels good. a lot of things seem to feel god now, again.

a leveza veio para ficar, assim o espero. o meu humor está de novo aqui. sinto-me leve, atento, quase radiante.

perspectivas de trabalho aconteceram hoje.

pareco voltar a saber o que quero e o que sinto. estou claro para comigo.

tenho de me dedicar afincadamente aos projectos literários que tenho na cabeça.

eu fui/sou o verão. a minha auto-estima está em alta. acredito em mim, nas minhas capacidades, encanto, faculdades e beleza.

estou aqui!

obrigado.

Friday, August 12, 2005

estilhacitos

sentei-me, olhei-o bem no fundo dos olhos e disparei a pergunta.
"quanto me vai custar, Sr. Doutor?"
duas mil palavras e a poupança definitiva dos seus medos e sonhos - respondeu.
então, vamos a isto,calce as luvas e arranque-me de uma vez por todas este coração - afirmei eu com grande convicção.
porquê? - perguntou o médico.
quero senti-lo a pulsar nas minhas próprias mãos -
respondi com prontidão.
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"spiderman is having me for dinner tonight."

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ipj para variar, net à borla. multitude de línguas e nacionalidades. gosto disto. gosto da pluralidade e de experimentar novas culturas. em todas as suas formas. está muito calor mas vou continuar em passeio. hoje estou leve e orgulhoso de mim. vou fumar um charro algures e entrar naquela igreja do Rossio. apetece-me estar um pouco com o Deus em quem não acredito. pelo sim, pelo não, vou fazer o Euromilhões.
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olho para trás, para a frente e para o sítio exacto onde estou. a fim e ao cabo, arrependo-me de pouca coisa. as coisas têm o valor e o tempo que têm. tudo tem um preço. tenho de aprender a pagar esse preço. sobretudo tenho de aprender a obter sempre troco... ficar a ganhar. estou quase contente. pela primeira vez em vários meses sinto-me quase leve; acho eu. de qualquer forma, apetece-me muito pouco pensar muito.
vou passear e tirar prazer do calor. esta tarde está a transmitir-me algo de sensual.

Monday, August 08, 2005

tabula rasa

vou ter de começar tudo do zero. estou a zeros, a todos os níveis da minha existência. sou o grande possuidor de coisa nenhuma. à excepção dos meus amigos e do seu amor e do meu (bom/mau)génio. vou ter de começar tudo de novo. vou ter de ser feroz. vou fechar as comportas da minha susceptibilidade. conceitos como: amor idílico, benevolência, entrega incondicional, fragilidade, admiração, comprometimento, suspensão passional, vulnerabilidade e boa vontade para com o alheio estarão por ora em stand by. luto pela sobrevivência.
era para ir para o algarve mas já não posso ir. vou ter de ficar cá e começar a minha vida do zero. tenho de ser implacável. tenho de recuperar o tempo e energias perdidos. tenho de ser o que quero ser. tenho de ser duro, meticuloso e feroz.

from now on i'll be the major bitch. é o único remédio. eu só quero ser o que quero vir a ser. tenho-me descuidado nesse processo. está na hora de mergulhar nele em definitvo. quero voltar a sentir o sabor da realização e da vitória. quero voltar a sentir-me ligado a mim. acabou o sono. é tempo de guerra.
perdi demasiado tempo a sonhar com o el dorado do amor e da paz. os tempos são de guerra e fúria.
quem bom, a minha fúria voltou. os obstáculos serão inimigos. os amigos serão os que souberem avaliar ao retardador. eu serei a luta em si mesma.
o meu mau génio está ávido de vida. e como é certo e sabido "estar vivo é o contrário de estar morto". e eu já ando morto há uns tempos.

Thursday, August 04, 2005

a viagem

calor insuportável. acho que pela primeira vez a cabine de gravação consegue ser mais fresca do que o exterior. vou ter de ir para a rua agora. sei que vai doer. este calor apavora-me. intensifica-me tudo. e tudo o que eu queria agora era desintificar-me.
não queria ter voltado para Lisboa mas o regresso até que foi agradável. os meus amigos proporcionaram-me um bom regresso. são maravilhosos.
não me apetece pensar. não me apetece confrontar-me com os meus issues mas não tenho outro remédio. tenho saudades de viajar. tenho de resolver tanta coisa e só me apetece estar em suspensão. quem me dera congelar o tempo por algum tempo.
não sei o que sinta!
apetecia-me andar a passear; a ver e a ser visto. mas este calor não me parece muito propício para um passeio demorado. não sei que faça. estou aborrecido. preciso de novas sensações. de novos desafios. de novos contactos. preciso desesperadamente de trabalhar desesperadamente. estou a enlouquecer. tenho demasiado tempo e muito pouco dinheiro. estou sempre a pensar nas mesmas coisas. estou sempre a adiar resoluções.
os passeios que dou são as viagens que me são permitidas.
ando km e km a pé, onde quer que esteja, com os headphones aos berros. viajo em mim e na música. agora estou viciado na Ute Lemper. Num disco chamado "Life is a Cabaret". Ando a viajar nele. Quem me dera que a vida fosse esse tal intenso e glamouroso Cabaret. A minha pelo menos anda muito longe disso ultimamente.
Vou para o Adamastor. A Katy ligou-me agora, está lá. Vou beber uma cervejoca, comer uma tosta mista e fumar uma de pólen com a Katy. Lá vou ter de passear. Vou a pé até ao Adamastor. Não tenho dinheiro para andar de táxi. Ao ponto a que cheguei!
Lá vou eu para a freakalhada do Adamastor. Eu e a Ute, por essas ruas de Lisboa em brasa. A ver e a ser visto. Alivia-me, mesmo com este calor infernal, alivia-me. Além disso, habituado ao inferno já eu estou.

Tuesday, August 02, 2005

limbo again

algarve:

introspecções variadas. revisões variadas. descansos variados. dúvidas variadas. pensar em tudo e pensar em nada. querer tudo e querer nada. outra vez no limbo. limbo entre o que quero e o que sei que não quero. limbo entre o que tortura e dá prazer. limbo entre o presente e o passado. limbo entre o futuro e a ideia do que deve ser o futuro. limbo entre o sabor do amor e o sabor que deixou o amor. limbo entre o que é e o que há-de ser. estou dentro de uma cápsula que eu mesmo criei. não consigo parir-me.

pode dizer-se que estou muito confuso. deveras confuso. "ai, ai, acima, abaixo, puxa e vai."
estou tão parvo que nem eu próprio, um grande senhor da parvoíce, consigo reconhecer o grau da mesma.

"que sera, sera. whatever will be, will be. the future is not ours to see. que sera, sera!"

a merda é que the future is nothing but ours to see. o que é uma grande responsabilidade.

gostava de conseguir desenhar os meus sentimentos; para os perceber melhor.

quem me dera estar na gronelândia.

Wednesday, July 27, 2005

Rescaldo

E DEPOIS DO ADEUS

"Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós"

Letra de José Niza para música de Paulo de Carvalho.
Esta canção serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974

Esta canção não me tem saído da cabeça. Porque será?

Tuesday, July 26, 2005

parar o amor

"i'm so sad, like a good book. i can't put this day back, a sorta fairytale with you".

disse-te que a tristeza era tão profunda que me tornava incapaz de chorar, momentos depois chorei. chorei como não chorava há muito tempo. passei a noite a chorar, a exorcizar, a protestar contra tudo isto. sinto revolta e frustração e uma dor profunda por tudo isto ter de acontecer. é terrivelmente injusto: ter de parar o amor quando ainda há o amor. e agora? o que fica? o que vai ser? o que é que se faz com isto, com este sentimento que mora cá e que parece que assim vai permanecer para sempre? tenho tantas questões. foi estranha e bela a despedida: tratámo-nos como sempre. até te espalhei creme nas costas. parecia que estávamos ali para contnuar, quando estávamos a firmar a nossa separação. beijámo-nos várias vezes como se estivéssemos a negar esse adeus, como se estivessemos ali para continuar a ser um do outro. despedimo-nos com beijos como se o dia de amanhã fosse nosso como todos os outros dias até agora. fui à janela, como quase sempre, ver-te entrar no carro e despedir-me de ti. isso é que me dói e revolta mais, dissemos adeus mais ainda me sinto teu. e ainda te sinto meu.
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que fomos tão estranhamente feitos um para o outro?
porque eu sinto que de uma forma muito profunda, e para nós até imperceptível, estamos, agora pelo menos, feitos um para o outro.
porque é que não temos forças para ficar?
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que não somos mais profundos nas acções e as pomos em ligação directa com o sentimento?
falas de entendimento, do nosso entendimento. eu chamo-lhe profundidade. no fundo, no fundo é a profundidade do entendimento.
porque é que isso não basta para nos manter ligados?
quero e não quero pensar nisto. tenho de pensar nisto, não consigo evitar sentir isto.
como te disse várias vezes, olho para ti e derreto-me.
e agora?
acho que o grande problema é que levámos tudo tão a sério que nos esquecemos de rir com o nosso amor.
é muito estranho: ter de parar o amor quando ainda há o amor.
amo-te, tu sabes disso, e hei-de fazer tudo o que estiver ao meu alcançe para voltar a rir contigo. seja de que forma for. porque apesar de tudo, mesmo parado, há aqui amor.

Sunday, July 24, 2005

pontadas

eu sei que "roma e pavia não se fizeram num dia" mas "o que tem de ser tem muita força". até porque "há mais marés que marinheiros" e eu descobri que não consigo estar numa de "grão a grão enche a galinha o papo".

acordei com umas dores fortíssimas no lado direito da cabeça. persistem. são uma espécie de pontadas, vão e voltam. parece que algo está prestes a rebentar aqui dentro. um género de alta tensão que parece estar acumulada. got to see the doctor.

dia mau hoje. acordar de rompante com dores, receber notícias más. energia estranha.

tenho até ao fim deste mês para recuperar a minha serenidade. as decisões estão a ser tomadas. falta o resto.

estou apaixonado por uma canção dos coldplay, ouvi-a ontem em loop uma 60 vezes. é linda e retrata qualquer coisa que quero sentir.

"swallowed in the sea"

You cut me down a tree and brought it back to me
and that’s what made me see where I was going wrong
You put me on a shelf and kept me for yourself
I can only blame myself, you can only blame me
and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
and I could write it down or spread it all around
Get lost and then get found or swallowed in the sea

You put me on a line and hung me out to dry
Darling that’s when I decided to go to see you
You cut me down to size and opened up my eyes
Made me realize what I could not see

and I could write a book, the one they'll say that shook the world
and then it took, it took it back from me
and I could write it down and spread it all around
Get lost and then get found and you'll come back to me
Not swallowed in the sea

Oohhhhh Ahhhhhh

and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
The streets you’re walking on, a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Oh what good is it to live with nothing left to give
Forget but not forgive, not loving all you see
Oh the streets you’re walking on a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Not swallowed in the sea

You belong with me, not swallowed in the sea
Yeah you belong with me

Not swallowed in the sea


respiro debaixo de água mas sei que hei-de voltar à tona.

Wednesday, July 20, 2005

às moscas

eu: sabes quando a televisão não está sintonizada em canal algum e o que vês são apenas míriades de pontos pretos e brancos?

alguém: sim, quando está com moscas.

eu: sim, a isso chama-se estática. é assim que eu me sinto.

alguém: sentes-te estático?

eu: não, sinto-me às moscas.


ESTÁTICA:A estática é a parte da física que estuda sistemas sob acção de forças que se equilibram. De acordo com a segunda lei de Newton, a aceleração destes sistemas é nula. De acordo com a primeira lei de Newton, todas as partes de um sistema em equilíbrio também estão em equilíbrio. Este facto permite determinar as forças internas de um corpo a partir do valor das forças externas.
in, Wikipedia
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"eu não dava a vida pela minha vida"
Otavio Paz
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só me apetece viver dentro dos livros; a vida tornou-se demasiado irreal para que me permita manter-me preso a ela. sou um espectador incompetente de mim mesmo. preciso de dinheiro e de umas férias de mim. hoje sou portador de uma sensação completamente nova. tão nova que ainda se mostra inadjectivável. posso, no entanto, adiantar que é uma mistura de sentimento de impotência, frustração, revolta, pânico, solidão, raiva, tédio profundo, alienação, decepção, falta de eco, carência, necessidade de evasão e de sustentabilidade. em suma, tou com uns cornos do tamanho da ponte vasco da gama. vou seguir a dica dos meus cornos e vou para o algarve. quero a minha mãe. quem me dera poder chorar no colo dela.

sinto saudades de quando tu, mais do que uma simples palavra, era um sítio onde eu podia adormecer.

quem me dera voltar a ser um suicida em potência. nesses tempos a morte era sempre um consolo que eu ia adiando dia após dia. perdi a vontade de morrer mas também não ando a gostar muito desta vida; gostava de passar já para a próxima.

meu deus, o que a falta de dinheiro faz às pessoas!

apesar de tudo isto estou seguro de uma coisa: amo-te.

quem me dera não estar a passar por uma fase tão complicada para te poder amar de uma forma melhor. por agora é a forma que tenho.

amo-te, mesmo.

Saturday, July 16, 2005

cornos p'ra mim

recuperei o meu livro "finis praxis", ainda estava no pc da rosa. já o descobri há uns dias. refiro-o agora porque estive, durante a madrugada passada, a rever e a retocar o mesmo. foi estranho, os regressos são-me sempre estranhos. o que se torna particularmente estranho neste mergulho é que nesse livro eu sou capaz de fazer um flashback dos meus últimos dez anos de vida. detenho-me em alguns poemas e tento redefinir os espaços, as situações, os sentimentos, as pessoas que estiveram na origem dos mesmos. sobretudo as pessoas, ou as ligações às mesmas. a grande virtude da redacção da poesia é que esta nos perpetua as ligagões. não é fácil aceitar/integrar isto. mas faz parte do processo. hoje em dia já aceito este facto com uma maior tranquilidade. a poesia é o supra-sumo da virtualidade. não no aqui e no agora (principal característica do conceito contemporâneo do virtual) mas no aqui e no depois. a poesia é um compromisso absoluto com o futuro.

a poesia é-me e ser-me-à sempre enquanto me é.

o pior dos mergulhos, o que faço agora e que nada tem de poético, é que não consigo parar de cometer os mesmo erros.

estou ultra fodido comigo.

cornos p'ra mim.

"i only hurt the ones i love. erotic, erotic, put your hands all over my body."

Friday, July 08, 2005

dor de garganta

faço 29 anos amanhã.

estou no algarve (na minha terra natal). é suposto ir para lisboa amanhã. metade dos meus amigos está em lisboa e a outra metade está cá. não apetece ficar mas apetece-me muito menos voltar para lisboa. apetece-me estar em lugar nenhum. apetece-me estar num anti lugar.

estou triste, confuso. dói-me a garganta. estou com uma inflamação há cerca de uma semana. toneladas de jabasulide e de mebocaína e nada acontece. não melhoro.

além de todas as outras coisas que me levam a questionar a validade da relação que tenho. estou triste. triste comigo e triste contigo.

odeio telemóveis.

odeio esta sensação de que para bem de mim o melhor é baixar as espectativas. odeio sentir estas coisas. odeio o atrito e o desconhecimento.

quero as minhas lentes de contacto de volta.

quero saber para onde quero ir.

quero a sanidade da minha garganta.

e quero a verdade nua e crua.

quero sentir-te.

Friday, July 01, 2005

lentes de contacto 2

perdi uma lente de contacto.

a culpa é da lena. dormi em casa dela e não tinha o estojo das lentes.

coloquei as lentes, cuidadosamente, dentro de duas chávenas de café com soro fisiológico (eu sei que não devia; o senhor da multiopticas disse-me para nunca o fazer).

a grande querida lena, em fúria etílica, decidiu averiguar o que estava dentro das chávenas, em cima do móvel do corredor, e como é uma rapariga muito delicada fez uma das lentes voar para algures e desaparecer para sempre.

agora estou no estúdio de dobragens, a fazer uma pausa e a descansar da sauna que é a cabine de gravação e sinto-me muito tonto da ressaca e por ter apenas uma lente posta.

vou voltar a dobrar bonecos e a fazer sauna. tou ceguinho de um olho mas tonificado pelo trabalho.

ai, ai, que louco este estar contemporâneo.

Thursday, June 30, 2005

hoje

no net at home.
tenho muitas saudades do meu diário. nem sei o que nele hei-de escrever. instalou-se aquele desconforto tímido que me é característico aquando das ausências.
estou no escritório do alexandre, o meu agente, mas ele não está cá. felizmente tenho pessoas que são boas e generosas comigo. o alexandre tem sido uma delas. um bom coração.

os amigos são um grande suporte. sempre. amo os meus amigos profundamente, essencialmente e insistentemente.

sinto que tenho a sorte de ter como amigos as pessoas mais sensíveis, inteligentes, brilhantes e complicadas que tenho conhecido. somos assim: uns dos outros no certo e no errado. somos uns dos outros e todos das falhas. cada vez tenho um maior respeito pelas falhas.

ando pouco amigo de mim mesmo. tenho estado pouco comigo. rodeio-me. raramente estou no meu "pequeno mundo de ficção interior". fico à porta do mesmo e não entro. acho que tenho medo de ter perdido a capacidade de me ficcionar. é por isso que não ando ligado ao meu "mundinho". estou em ligação permanente e ansiosa com o exterior. sinto que ao estar recolhido em mim estou sempre na eminência de perder alguma coisa que o exterior me possa fornecer e que me possa ser preciosa. é uma ilusão. crio esta ilusão para não entrar em mim. talvez porque eu próprio saiba que tenho vindo a perder a capacidade de criar ilusões para mim mesmo.

há uns tempos atrás percebi uma coisa:

na minha vida tudo é ao lado. não estou longe de estar lá; não estou perto de lá. estou ao lado de lá. ando à volta de mim.

faço 29 anos daqui a 10 dias. queria fazer já 30 anos. o astrólogo, no início de 2004, disse-me que aos 30 anos a minha vida vai mudar radicalmente e que vou finalmente entrar na assertividade e ascendência. disse-me que vou passar também, nessa altura, por uma revolução libidinosa. quero fazer uma elipse, avançar no tempo e deixar os 20 já. fingir que já vou fazer 30 não me agrada. mas também não quero um ano de limbo. tenho 10 dias para decidir quem vou ser durante este último ano desta atormentada década.

acho que me vou isolar e obrigar-me a entrar no meu "mundinho".

quem me dera ter dinheiro. apetecia-me muito fazer este regresso ao "meu pequeno mundo de ficção interior" em marrakesh. tenho muitas saudades de marrakesh. a cidade bela onde me senti melhor em toda a minha vida. marrakesh a cidade vermelha. marrakesh a cidade erótica. prometo que é lá que vou fazer 30 anos. nem que o camelo tussa.

Wednesday, June 22, 2005

a future refrain for a future song

BEING IS JUST BEING

SEING IS JUST SEING

FEELING IS JUST FEELING

I KEEP WAITING FOR YOUR WILLING

auto slogans e uma citação

I NEED PERMANENT EYE CONTACT.

I NEED TO FEEL THAT SOMEONE IS BREATHING ME.

I NEED TO FEEL REAL FEELINGS.

I AM SICK AND TIRED OF VIRTUALITY.

ALTHOUGH I'M ADDICTED TO SOUL-TO-SOUL CRASH I REALLY LOVE THE TASTE OF THE HUMAN FLESH.

"dois braços à minha espera. é uma casa portuguesa concerteza. é concerteza uma casa portuguesa."

Tuesday, June 21, 2005

lentes de contacto

demorei a adormecer. apesar de desconcentrado, masturbei-me entretanto para me acalmar. seriam umas seis e meia. o coração batia estupidamente. má cocaína a mais. de vez em quando faz bem; mesmo sendo má. ao contrário do sexo. não corroboro a expressão "mesmo quando é mau é bom". quer dizer... não sei se corroboro ou não... não, não corroboro.


reflexão adjacente à taquicardia:

acalma-te e sorri: a desilusão nada mais é do que o contrário da ilusão.

começo a sentir a saída de saturno da minha vida. só não estou mais leve porque este calor me está a sufocar. odeio transpirar... a não ser quando fodo.

vou à multiopticas buscar as minhas primeiras lentes de contacto. preciso de lentes e preciso de contacto.

ando ceguinho e descontactado mas não vai ser por muito mais tempo. sinto que uma mudança se aproxima. estou curioso. venha ela já; tenho lentes e já desmontei a desilusão (no geral).

Thursday, June 09, 2005

bored

estou no ipj da avenida da liberdade. continuo sem net em casa.
estou a procurar programas que facilitem a procura de trabalho no estrangeiro. cada vez essa ideia me parece menos uma ideia e mais uma eventual realidade. estou farto de lisboa. para ser muito fraanco, eu sinto muito pouco que ainda aqui estou. sinto que estou noutro lado qualquer. estou num local entre o aqui e o outro local onde quero estar.

hoje sinto que estou entre a vida e a morte. num limbo. estive contente, estive triste, estive acelerado, estive lento. agora estou neste estado entre a morte e a vida.

estou aborrecido. pouca coisa me suscita empolgamento. tudo se mostra morno, mole, lento, sem rapidez, sem rasgo, sem fogo, sem loucura. a loucura, a surpresa e a velocidade criadora parecem ter abandonado a minha vida.

estou mesmo muito aborrecido com isto tudo.

vou arranjar um trabalho de merda apenas para juntar uns trocos para no fim do ano dar o grito do ipiranga.

vou para londres. chove, frio, pouca luz e mais o cacete. who cares? i do not. i want rush and fire. i feel the fire in me. no rain can stop my fire from burning.

Wednesday, June 01, 2005

estou privado

não tenho internet em casa. não sei durante quanto tempo esta situação se vai manter. o que mais me perturba é não poder aceder ao meu diário sempre que me dá na real gana.
não me apetece estar em casa. quero movida. este calor sugere movimento.
ao mesmo tempo lisboa está a entediar-me tremendamente.
estou no limbo entre rush e tédio.
supresas precisam-se!
apetece-me mesmo emigrar.


a selma e a cat estão a reclamar porque estou agarrado ao computador da julieta e não estou a interagir. adeus querido diário, até um destes dias.
miss you.

Tuesday, May 24, 2005


matéria 3 (foto de Onan)

matéria 2 (foto de Onan)

matéria 1 (foto de Onan)

Monday, May 23, 2005


eu sou o rasto que o barco deixa na água ao partir. tu és o doce namoro entre a ponte e o rio.

Saturday, May 21, 2005

a tarde e o consolo

Mergulho, a sós, na tarde.
Fio da navalha: qual imberbe equilibrista, caminho sobre esta impertinente linha que separa, por um lado, o conforto e o consolo dados pelas entregas e, por outro, a teimosa ansiedade que me prende à impossibilidade de me entregar ao rumo natural das naturezas e dos acontecimentos.

Vou cortar esta linha.
Vou ser livre no corte.
Vou ser severo na cura.

Tenho por quem correr, tenho por quem querer, tenho por quem esperar. Tenho quem me ame e tenho quem amar. Todos os dias tenho o amor a acontecer-me. Tenho quem mo diga, quem mo demonstre, quem mo prove. Tenho em quem pensar quando tenho de pensar no que é bom e vale a pena lutar. Tenho por quem sorrir quando acordo e adormeço. Tenho quem desejar. Tenho quem observar com ternura e admiração. Tenho com quem debater e conversar. Tenho quem me ajude e tenho quem ajudar. Tenho quem me olhe com carinho. Tenho quem se alegre por me ter conhecido. Tenho tanta gente. Tenho um pouco de tudo em toda a gente. Tenho por quem querer ir mais longe para estar mais perto. Apenas não tenho a paz necessária para viver tudo isso em liberdade. Tenho um abismo de dúvidas que teima em não se fechar. Tenho-me a mim e ao tempo para fazer esse derradeiro fecho. Tenho tudo para me provar.

Tento serenar. Tento calar esta já rouca e senil máquina que trabalha a sós para que não se instale a falência definitiva nesta fábrica do medo que teima em existir dentro de mim. É inevitável a falência desta fábrica: o medo é um produto inútil. O medo é um produto que não quero voltar a comprar. O medo é um produto que não circula. O medo é um produto que impede o livre-trânsito das sensações.

Vou fechar, com as duas mãos, fábricas e abismos. Vou ser livre para amar em liberdade e em paz. Vou ser teimoso, metódico e artista.


Mergulho em Stig Dagerman. Leio “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Conheço este texto há cerca de dez anos. Sempre me identifiquei com ele. Foi a Mónica Bolas quem mo ofereceu. Perdi esse mesmo livro numa das inúmeras mudanças de casa que fiz nesta última década. No natal passado a Rosa ofereceu-mo. Ocorreu o reencontro. Vou levar este reencontro às suas últimas consequências e vou usar o texto no espectáculo a solo que estou a preparar.

Enquanto lia, em voz alta, o texto do Stig Dagerman, no sofá da sala, tinha a televisão ligada na RTP Memória. Estavam a transmitir um programa que o Carlos do Carmo gravou para a RTP em 1981. Parei e leitura e entreguei-me à bela voz do cantor. E eis que ela surgiu, uma das mais belas canções de sempre, “Estrela da Tarde”. Esta canção emociona-me profundamente, arrepia-me, dá-me vontade de chorar e amar ilimitadamente (sem medos e angústias). O poema do Ary dos Santos é soberbo, obra prima, de uma profundidade maior e a interpretação do Carlos do Carmo sempre foi arrepiante.

Encontrei o consolo hoje à tarde; enquanto pensava nas provas de amor que recebo todos os dias, enquanto lia Stig Dagerman e enquanto me emocionava a ver o Carlos do Carmo a interpretar um dos mais belos poemas de sempre.

Vou rir do medo, vou brincar comigo.

Estrela da Tarde
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia

E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram

Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"

José Carlos Ary dos Santos

(dedico este post ao meu amor. por tudo de bom que me tem dado nestes 3 meses. parabéns a nós hoje. faz hoje 3 meses que amanhecemos juntos pela primeira vez. um beijo profundo.)



Thursday, May 19, 2005

anti-prolegómenos da pura arte do estar (a base)

a liberdade é uma ferramenta e tem de ser usada com o máximo de leveza e visão.
o artista da pura arte do estar é um ser plural e multirealizado e a liberdade é o instrumento básico do seu trabalho.
a pura arte do estar é uma ciência do ser e tem como método a procura do olhar amante do mundo.
é fundamental que o artista da pura arte do estar perceba que é a liberdade que é a ferramenta, não o olhar amante do mundo. o olhar amante do mundo é apenas um mero sucedâneo da liberdade. o olhar amante do mundo é a consequência. o olhar amante do mundo é a quimera. o usofruto da ferramenta é a própria pura arte do estar em si. a pura arte do estar ocorre no pleno, sereno e descomplexado uso da liberdade.
o artista da pura arte do estar tem o universo como laboratório e a própria vida como suporte.
o artista da pura arte do estar tem como missão deixar que o mundo não perca a sua ironia idiossincrática. o artista da pura arte do estar é o antídoto para o lado envenenado do mundo. o tempo é a ligação que arde mas cura.

Monday, May 16, 2005

esclarecimento há muito adiado

o feitiço resultou; sei que o fizeste. o resultado deu-se sobretudo no prolongamento da minha ligação. não teriam sido precisos feitiços; eram mais preci(o)sas as palavras.
doeu-me mas não fui capaz de retroceder.
eu sabia pouco da derrota, tu sabias pouco de magia.
é só para que fiques a saber!

Sunday, May 15, 2005

self healing 2

gosto muito de viver. gosto muito de tudo o que me acontece. gosto muito de tudo o que me está a acontecer. na verdade, eu gosto muito de tudo. eu sou muito feliz. eu sou mais do que feliz: eu sou felicíssimo. a vida corre-me sempre muito bem. não tenho problemas. a minha vida é perfeita. a minha vida é linda.
sou muito rico. tenho dinheiro a dar com um pau. sempre fui rico. sempre vivi com muito dinheiro. por isso, eu não sei o que é passar por necessidades. nunca soube o que é não poder ter, não poder comprar, não poder ir. tenho dinheiro que chegue para duas vidas.
como sou muito altruísta, reparto tudo com todos. adoro dar e repartir. por isso todos os meus amigos também são ricos. todos os que me são queridos e próximos usufruem do meu dinheiro. deste modo, todos somos muito ricos. só faz sentido se assim for. o dinheiro não tem qualquer utilidade quando serve apenas para satisfazer a nós mesmos.
outra coisa que eu gosto muito na minha vida, e que a torna ainda mais perfeita, sou eu mesmo. eu sou perfeito. não tenho qualquer tipo de imperfeição. sou dotado de uma beleza exterior irrepreensível. eu próprio não me teria feito melhor. e interiormente sou magnânimo e genial. sou rico material e espiritualmente. todas as pessoas me adoram. sou amado profundamente por toda a gente. sou das pessoas mais inteligentes do mundo. sou das pessoas mais equilibradas que se pode encontrar. não sou uma pessoa resolvida consigo própria porque eu nunca tive nada para resolver comigo. sempre fui perfeito.
vivo por e para o amor. e o meu amor é tudo para mim. eu e o meu amor estamos juntos desde sempre. o nosso amor é perfeito. temos crescido juntos e havemos de ficar juntos para sempre. para toda a eternidade. eu e o meu amor somos tão perfeitos que estamos certos que estamos juntos desde o príncipio dos tempos. eu e o meu amor nunca discutimos, nunca nos magoámos, nunca divergimos. é sempre tudo muito orgânico e confortável entre nós. nunca há um equívoco. estamos sempre em sintonia, sempre. os silêncios são silêncios de ouro. não existe entre nós o silêncio desconfortável. temos plena confiança um no outro. sabemos ambos que qualquer um de nós seria incapaz de ser desonesto para com o outro. sabemos ambos que isso seria a morte do outro e como não queremos que o outro morra, porque assim também nós iríamos morrer (de amor), jamais colocamos a hipótese de agir de forma desleal. eu e o meu amor estamos sempre ávidos de ternura e de prazer. desejamo-nos profundamente e à distância. quando fazemos amor as estrelas movem-se no céu e interferimos com a força da gravidade. fazemos amor todos os dias; é por isso que a gravidade não é constante. eu e o meu amor choramos de felicidade ao termos orgasmos em simultâneo. eu e o meu amor somos tão diferentes que somos um só. eu e o meu amor estamos sempre a rir.
gosto muito de tudo o que faço. sou uma pessoa muito solicitada. mas trabalho por mero prazer. apesar disso, eu faço tudo muito bem e tenho todo o sucesso do mundo. eu sou da pessoas com mais mérito no mundo. sou constantemente galardoado. trabalho muito porque o trabalho é uma fonte constante de felicidade. tudo na minha vida é uma fonte constante de felicidade.
eu sou muito feliz. tenho-me a mim e adoro-me, tenho o meu dinheiro e adoro-o, tenho o meu trabalho e adoro-o, tenhos os meus ricos amigos e adoro-os, tenho o melhor amor do mundo e adoro-o. eu sou mesmo muito feliz. adoro viver e estou certo de que nunca hei-de morrer. eu sei que sou eterno e que hei-de ser feliz para todo o sempre. não percebo como é que há pessoas que não são felizes. não percebo porque é que as pessoas sofrem. não percebo a dor. não percebo a infelicidade.

este vou ser eu. ao fim e ao cabo sou actor.

Saturday, May 14, 2005

self healing

os culpados são sempre punidos, mais cedo ou mais tarde.
o que quer que seja que me fez chegar aqui: eu sei que não mereço.

virar tudo ao contrário para poder ver mais a direito.
há silêncios e silêncios: aprende a diferenciá-los.
acarinha-te: sabes que és do melhorzinho que por aí anda.
mas afinal onde é que anda a tua soberba?

daqui a uns tempos vou rir-me disto a bandeiras despregadas.
a bandeiras passadas. bandeiras passadas não apresentam nações.
eu sou uma nação do ver. eu vejo tudo. quero ver melhor.
quem vê por último vê melhor.
vou guardar isto no fundo da cabeça. sou muito melhor a rir.
sou muito melhor a rir em primeiro.
sou muito melhor a rir por último.

para quê? porquê? haja paciência. tenho mais que fazer.
não acho graça nenhuma a este jogo.

ainda tenho tudo para dar: o BEM!

Friday, May 13, 2005

citação sentida talvez mal

"É preciso tremer para crescer"
René Char

Thursday, May 12, 2005

milagre

É urgente a ocorrência de um milagre regenerador. Para me tirar daqui. Para me recolocar ali. Para me situar. Para me determinar. Para me desobscurecer. Para me libertar. Para me aliviar. Para me centrar.
Se houver algum Messias por aí: que se acuse. Os tempos já não são de lepra; são de velocidade. Preciso de um milagre veloz para me deixar ao ralenti. Quero viver aqui ao ralenti. Quero que o meu coração recupere o seu batimento normal.

Wednesday, May 11, 2005

para contrariar este dia

"IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE"
esta é a frase que fecha a magnífica canção "Street Spirit (fade out)" que os geniais Radiohead compuseram para o seu segundo e belo disco "The Bends".
esta frase não me tem saído da cabeça durante este dia de hoje. há uma carga de tristeza no ar. eu sinto-me triste, incerto, cansado de esperar que tudo melhore. vou cantar o "Street Spirit" para mim. Resta-me aguardar pelo regresso do sol.

"IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE"

Monday, May 09, 2005

parte-a-parte 3: resposta ao comentário/desafio de oRAnGe fUZZ

cópia de comentário/desafio de oRAnGe fUZZ:

oRAnGe fUZZ passou por aqui e decidiu lançar um desafio para o menino visionário se entreter... palavras chave: cor, emoção e movimento. objectivo: não querendo limitar a margem da tua arte, deixo o objectivo ao teu critério. beijos alaranjados

resposta/composição de Onan:

a resposta vem tarde mas julgo que não fora de tempo

cor:

deixei da ser criança quando percebi que tinha perdido a capacidade de sentir que ao ter nas mãos uma caixa de canetas de feltro da Molin teria o mundo à minha disposição.
emoção:
volto a sentir-me criança quando sinto o mundo como uma gigantesca caixa de canetas de feltro da Molin.
movimento:
fecha os olhos e deixa-me escrever nas tuas costas com a ponta dos meus dedos. vou escrever o que me der na real gana; tu vais lendo o que conseguires decifrar. o que interessa não são as palavras que escrevo mas sim a minha vontade de escrever contigo: o doce dançar da escrita na tua pele.

Friday, May 06, 2005

anti-prolegómenos da pura arte do estar (abertura)

vistas bem as coisas, a desrazão é um lado legível da razão que aparece com o mesmo ímpeto com que a última se dá a ler.
serão precisos muitos dias de penumbra para poder entrever a possibilidade de a eficácia do estar se instalar com segura/fiável perenidade.
aos rituais de escamoteamento chama-se passagens. às passagens chama-se processos de contextualização.
o avaliador mantém-se sitiado entre as duas leituras enquanto aguarda que a justa avaliação, através de actos/discursos, se torne inquestionável.
a luz é um fenómeno do movimento. a penumbra é um fenómeno que tem a desrazão como principal parturiente.

Thursday, May 05, 2005

dia bonito

que dia bonito!
linda tarde que se pôs!
vou vestir a minha camisa havaiana!
vou apanhar sol nas trombas!
vou andar por aí!
vou ver o rio!
vou ver pessoas!
vou andar por essas ruas a ouvir The Killers aos berros!
vou encontrar-me com Lisboa à tarde neste dia bonito!

Monday, May 02, 2005

45 prioridades

nova semana, coisas a fazer a partir de agora:
  1. deixar que o sol me entre dentro da cabeça
  2. deitar-me mais cedo
  3. acordar mais cedo
  4. LER
  5. deixar de gastar horas a estupidificar em frente ao computador
  6. deixar de pensar no que não devo
  7. dizer anda mais disparates
  8. ir ver mais vezes ver o rio
  9. telefonar à mamã
  10. atirar-me de cabeça à labtools
  11. pensar nos ensaios do Baile Demutante
  12. marcar reunião da Azul Ama Vermelho (tê-la efectivamente)
  13. telefonar ao Manuel Paulo
  14. começar a ter uma alimentação mais equilibrada
  15. beber litradas de água (tipo shot)
  16. beber menos (period)
  17. pensar no bom e no bonito
  18. cagar no mau e no insondável
  19. ouvir Jacques Brel, Dalida, Brigitte Bardot, Serge Gainsbourg e Marco Paulo
  20. fingir que vivo nos anos cinquenta
  21. não pensar no que não me acontece
  22. dar valor ao que me acontece
  23. ir ver pessoas à noite
  24. namorar ao ralenti
  25. voltar a pensar em projectos deixados a meio (ou apenas pensados)
  26. não deixar acumular lixo na varanda
  27. fumar menos charros
  28. fumar menos cigarros
  29. ir correr (sem ser a fugir)
  30. deixar de acumular pilhas de cd's em cima da secretária
  31. levar o computador ao médico dos computadores
  32. marcar dentista
  33. descobrir o número da clínica dos tais psicólogos
  34. cortar as unhas (mãos e pés) de três em três dias
  35. não fazer birras
  36. arrumar alguma roupa de inverno
  37. recuperar o Finis Praxis (sabe-se lá como)
  38. arranjar rendimentos (nem que seja a assaltar velhinhas no Jardim da Estrela)
  39. responder ao desafio que falta
  40. deixar de dar dentadas que aleijam
  41. estar para o que der e vier
  42. dançar a dois
  43. arrumar as prateleiras da esquerda
  44. tratar da porcaria do irs (irs sucks)
  45. estabelecer prioridades para 44 prioridades

Sunday, May 01, 2005

dor de dente

odeio domingos

se o tempo não fosse tão relativo, e pessoal,
eu poderia andar de planeta em planeta à procura da melhor face sol.

se eu soubesse mais do espaço e de astronomia
podia ver o mundo de fora e auscultar o efeito que isso em mim teria.

se eu soubesse naufragar
iria dormir sempre no fundo calmo do mar.

slogans para um produto que não se vende

  • fascina-me a tua matéria!
  • intriga-me a tua substância!
  • gosto de saber em que parte do globo estás!
  • se acordares avisa!
  • espera-me à porta da tua satisfação!
  • sorri, estás a ser amado!
  • diz-me porque estás aqui!
  • cada dia és melhor que ontem!
  • não te esqueças da minha sede!
  • faz-me sempre o que pensas!
  • canta-me na tua cabeça!
  • canto-te a toda gente!
  • se isto não fosse bom não eras!
  • faz-me chorar a rir, uma vez mais!
  • luta comigo!

um retrato do sempre

desde muito novos foram fazendo a sua vidinha,
ela lavava para fora,
ele bebia ginginha

iam sempre de mãos dadas à aldeia vizinha
ele vinha aos tombos p'ra casa,
ela deixava-o a dormir na cozinha

tinham os seus arrufos e guerras; até berros havia
ela levantava as saias,
ele fumava e sorria

faziam tudo em conjunto com alegria
ele saía da cama,
ela ligava a telefonia

olharam-se sempre nos olhos durante de setenta anos
ela chamava-lhe morcão,
ele Maria dos Panos

ainda se beijavam nas bocas onde já quase não sobravam dentes
faziam amor às escuras e nunca estavam dormentes

deitaram-se cedo uma noite e enlaçaram as mãos trementes
nunca mais acordaram; morrerram juntos e contentes

lilac wine

"i lost myself on a cool damp night
gave mself in that misty light
was hypnotized by a strange delight
under a lilac tree

i made wine from the lilac tree
put my heart in its recipe
it makes me see what i want to see...
and be what i want to be

when i think more than i want to think
do things i never should do
i drink much more that i ought to drink
because it brings me back you...

lilac wine is sweet and heady, like my love
lilac wine, i feel unsteady, like my love
listen to me... I cannot see clearly
isn't that he coming to me nearly here?

lilac wine is sweet and heady, where's my love?
lilac wine, i feel unsteady, where's my love?

listen to me, why is everything so hazy?
isn't that he, or am i just going crazy, dear?

lilac wine, i feel unready for my love..."

um belo poema belamente intepretado por essa bela, a seu modo, Nina Simone

cocktail party

uma congregação mediana de criaturas em estado de permanente liquidez:

às segundas servem-se cabeças de pessoas normais em bandejas de prata e
procede-se à leitura das actas dos encontros anteriores.

às terças ri-se, caçam-se borboletas com jactos de esperma e
lêem-se cartas recusadas por antigos e eternos amores.

às quartas fala-se do futuro com saudade e
mata-se quem não vier por bem.

às quintas olha-se alguém bem fundo nos olhos e
gasta-se em carne humana o último vintém.

às sextas toca-se à porta do inimigo e
corre-se para dentro da escuridão.

aos sábados e aos domingos está-se com febre e
dá-se o que se pode ao mundo em cima do colchão.

Friday, April 29, 2005

quem me dera ser acéfalo!

Thursday, April 28, 2005

aufhebung

hoje acordei Hegeliano.
e digo, de mim para mim:
aufhebung now!!! (no interior da cabeça)

sintídoto

"quem não tem cão caça com gato!"

antídoto

"quem tem medo compra um cão!"

Wednesday, April 27, 2005

o medo

o medo de ficar. o medo de não perceber. o medo de falhar. o medo de ganhar e o medo de perder. o medo de pensar. o medo de dizer. o medo de perguntar e o medo de responder. o medo de voltar. o medo de voltar a sofrer. o medo de alucinar e o medo de o inferno prever. o medo de não ultrapassar. o medo de enlouquecer. o medo de confiar e o medo de me dar a conhecer. o medo de confirmar. o medo de querer saber. o medo de me entregar. o medo de voltar a nascer. o medo de castigar. o medo de não ver. o medo de criticar. o medo de me envolver. o medo de querer clarificar. o medo de tremer. o medo de chorar. o medo de morrer. o medo de não te poupar. o medo de não ter perceber. o medo de mal te julgar. o medo de não te compreender. o medo de te injustiçar. o medo de teres um mau ser. o medo de não me conseguir ocultar. o medo de em má hora te surpreender. o medo de querer tudo aniquilar. o medo de tudo fazer crescer. o medo de me enganar. o medo de não te conseguir ver. o medo de te obrigar. o medo de deixar de te ter. o medo do fugir constante do teu olhar. o medo do que pareces não ser capaz de dizer. o medo de te ultrapassar. o medo de te aborrecer. o medo de me saturar. o medo de seres a morte sem que eu a possa ver. o medo de te cansar. o medo de te fazer estremecer. o medo de não te conseguir suportar. o medo de te deixar esmorecer. o medo de parar. o medo de fugir a correr. o medo do que pode não ser salutar. o medo do lado de ti que me não dás a conhecer. o medo de não me conseguir calar. o medo do que há para saber. o medo do silêncio que parece cortar. o medo da ilusão que pode haver. o medo de estar a inventar. o medo de estar a subverter. o medo da história que tens para contar. o medo da tua pele quando não a posso morder. o medo da tua cabeça a funcionar. o medo da minha cabeça a conceber. o medo do fim da verdade que quero sempre reservar. o medo da mentira que pode haver. o medo de regressar. o medo de não ser capaz de adormecer. o medo do que o futuro possa vir a reservar. o medo da trama que ainda se pode escrever. o medo de ir e não querer voltar. o medo de perceber que nada me pode deter. o medo de quem possas vir a encontrar. o medo do que possas estar a esconder. o medo de estar. o medo de quem te fez doer. o medo de não te conseguir encontrar. o medo de te estar enaltecer. o medo de me estar a enfatizar. o medo de, amanhã, olhar para ti e não gostar do que vou ver. o medo de não me importar. o medo de me prender. o medo de deixar de gostar. o medo eterno de perder. o medo de me amarrar. o medo de querer viver. o medo de acordar. o medo de deixar de viver. o medo de baralhar. o medo de entontecer. o medo de me descontrolar. o medo de me estar sempre a conter. o medo de me encantar. o medo de envaidecer. o medo de mergulhar. o medo de não estar a ver o que devo ver. o medo de amar. o medo de deitar tudo a perder. o medo de respirar. o medo do anoitecer. o medo de acordar. o medo de nunca conseguir esquecer.

periodic table

Sunday, April 24, 2005

esboço retomado de Amena (work in progress 2)

Mais do que distinta, Amena, tornara-se atenta e imune à sua própria tentacularidade. Dentro de si não existia uma clara e precisa conclusão acerca do que parecia ser certo ou errado. Amena ia. Amena seguia os seus próprios instintos como se estes de carícias se tratassem. Havia perdido o contacto com o próprio tacto e essa mesma perda passara a tornar-se o refúgio que, além de muito desejado, se mostrara inevitável.
No preciso momento em que deu à luz decidiu deixar de ouvir para sempre. A excepção, firmemente firmada dentro de si, abriu-se apenas para o pequeno ser que as suas entranhas haviam acabado de jorrar. O pequeno ser chorou e Amena chorou com ele. A partir desse instante todo o mundo se tornou um massa inaudível para ela. Decidiu: "a partir de hoje só a ti ouvirei".
contexto:
Inventei a Amena há cerca de dez anos. Esbocei-a em apenas uma página num livro em branco que alguém me ofereceu porque achava que eu iria ser escritor. Escrevi muitas coisas nesse livro em branco e depois, em manifestação lírico-imberbe, queimei-as. Creio que não queimei o primeiro esboço de Amena. Mas não sei onde pára a ruína desse livro em branco. Anyway; a Amena nasceu de uma imagem que me surgiu do nada aos dezoito anos: uma jovem mulher a afastar-se, num descampado, de uma tenda de circo em chamas. A mulher leva nos braços um recém nascido. Ouvem-se cães a ladrar. A mulher chora em silêncio enquanto caminha. A mulher chama-se Amena. A mulher chama-se Amena porque está aliviada.
Hoje a Amena voltou e eu voltei para ela.
Bem-vinda sejas, Amena!

Saturday, April 23, 2005

eager

it took me half a second to cut my head off
will take me a lot longer to feel clean
although this body stabs itself
deep inside i'm a libertine

i had to face that our love was dead, when
i found your childish secrets on that shelf
i always felt you were a cheating coward
i hate you as much as i love myself

i hate you as much as i love myself

i beg for silence
i need to rest
i slept with everyone that crossed my way
some of them tryed to give me comfort
but none of them made me feel okay

so give me time and give me space
i'm really eager to find my place
among the human race
among the human race

well, i'm writing a diary
you'll read it some day
you'll see paranoia in my dna

a diary for you to read some day
i'm a libertine
blame my dna

so give me time and give me space
i'm really eager to find my place
among the human race
among the human race

(letra de Onan para canção homónima da sua banda; NUDE)

Wednesday, April 20, 2005

tinha um cravo no meu balcão

"Tinha um cravo no meu balcão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- Mãe, dou-lho ou não?


Sentada, bordava um lenço de mão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- Mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
Só não dei o coração;
Mas se o rapaz mo pedir
- Mãe, dou-lho ou não?"

Eugénio de Andrade

Hoje estava a lavar os dentes e lembrei-me deste poema. Conheço este poema há tantos anos que nem consigo saber há quantos. Surgiu-me este poema do nada, hoje a lavar os dentes, e, pela primeira vez, sinto que o senti verdadeiramente. Até agora, este poema, era apenas um texto que havia sido usado num espectáculo que fiz na minha adolescência. Era apenas uma memória dos tempos da escola secundária e do clube de teatro. Era uma memória dos tempos em que as palavras ainda não estavam suficientemente abertas. No dito espectáculo este poema era interpretado como uma cantilena. Lavei os dentes e revivi essa mesma cantilena. Hoje lavei os dentes e matei a cantilena; senti o poema aqui.

Tuesday, April 19, 2005

mercado negro das palavras

vem, com toda a tua subtileza e pés de algodão, procurar-me. vem, para que me possas listar. sou eu, o mesmo, quem encontrarás. o mesmo de sempre, perdido entre armaduras assimétricas enferrujadas e sinais mal formados do amanhã, rendido e vendido em saldos num mercado qualquer.
vais encontrar-me ainda acordado, sujo e sem pele na ponta dos dedos, no mercado negro das palavras que és incapaz de dizer. eu sou o comprador compulsivo, o abutre, o somítico previdente, que percorre uma a uma todas as línguas à procura da palavra última. sou quem compra as palavras acabadas de pensar. sou eu o coleccionador destemido/infantil que não consegue acabar o seu próprio jogo. vais encontrar-me cinzento e mudo no mercado negro das palavras.
já estive algures. já fui longe para poder chegar até aqui. já vi morrer muitas musas e muitos poetas. já bebi muita tinta. já cortei muitas vezes as pontas dos dedos, à força de tanto dormir com papel.
conheço-te bem: és metatangencial. és palavras que ainda não comprei, palavras ainda não pensadas. és o antes das palavras.
conheço-te mal: não te posso comprar. não estás à venda. não proferes.
conheço-te como posso: na pontuação. no fim das frases. nos gritos que não concebes. na voz que evitas ter. na preguiça do dizer. no olho clínico onde vives: no mercado negro do olhar.
vem e procura-me, agora, nas palavras que ainda não te foram apresentadas. vem listar-me no abismo último da sintaxe. vem surpreender-me no acto da compra. vem observar-me nesta busca. vem mirar-me nesse ritual onde me vendem ao calhas palavras que espero serem de ti. vem ouvir-me na compra da tua própria voz.
vem destruir-me tudo isto, em silêncio e em fúria, para que me possas calar.

Saturday, April 16, 2005

statement

STATEMENT

The World Is Cursed By Three Major Plagues:

  • First Plague

The World Is Cursed By A Plague Called IDENTITY

  • Second Plague

The World Is Cursed By A Plague Called GOD

  • Third Plague

The World Is Cursed By A Plague Called LOVE

(the word PLAGUE can also be understood as a synonym of the word LIE. in fact, if you replace the word PLAGUE for the word LIE the meaning of this statement will remain exactly the same)