Friday, March 10, 2006

o rapaz e a rua

Esforcei-me, sem o planear, por perder todos os comboios, todos os aviões, todos e barcos e todas as composições que comportam em si a própria essência da cinestesia, para não poder parar de andar.
Se cortei as unhas foi por ti, foi para não te arranhar. Foi para não te ferir. Foi para não te deixar marcas do encontro da tua pele com as minhas mãos.
Desapareci-me. Podia esmagar-te agora. Posso esmagar-te quando eu quiser. Não existes. Posso esmagar-te ontem à noite e à hora de te encontrar. Não tens nome, nem cara, nem cheiro, nem história, nem vontade exactos. Não tens presença, não existes. Não existes aqui. Existes apenas nas ruas que percorreres, e que escreverão a história do teu corpo, até ao dia em que me encontrares. Serão, a partir do nosso encontro, ruas passadas. Serão ruas passadas demais. Quando me encontrares as ruas serão as mesmas mas parecer-te-ão completamente novas. Parecer-te-ão ruas acabadas de fazer. É isso que sentirás, eu sei. Vou sentir o mesmo. Isto é apenas entre nós os dois, cada uma na sua ponta da rua.

Tenho vontade de abraçar pessoas desconhecidas na rua, de lhes dizer coisas doces ao ouvido. Tenho vontade de lhes dar notícias boas e realmente importantes. Tenho vontade de lhes dizer que estou aqui e que as vou salvar. Tenho vontade de as ouvir. Preciso de ouvir. Preciso de ouvir coisas que não sei que existem. Preciso de rir e de chorar com as pessoas desconhecidas na rua. Preciso de ser pasmado pela sua verdade e pela ideia que fazem da mesma. Preciso do espanto. Preciso de tocar em rugas profundas e em lábios que não têm por que, ou quem, se abrir. Não me comovo, vejo. Vejo como espero ser visto.
Vou pelas ruas e finjo que sou feliz. Canto, euforicamente. Faço isso pelas ruas, por quem anda nelas e por mim. Faço isso porque quero que alguém diga ao chegar a casa, ou ao jantar, ou enquanto faz amor: Olha, hoje vi um rapaz feliz na rua.
Esse rapaz sou eu. E o meu segredo jaz comigo. Invento felicidades para me inventar feliz nas ruas.
Eu, que invento, recolho-te por aí. És milhares de pessoas, és toda a gente que anda na rua à uma da tarde, és toda a gente que come ao balcão de um qualquer snack bar, és quem vende e és quem compra, és um casal crianças ricas à saída do colégio, és uma excursão de turistas japoneses, de turistas espanhóis, italianos, suecos, dinamarqueses. És quem escolhe as canções nas estações de rádio, és quem arranja os semáforos, és quem corta o gás, és quem cola os cartazes, és quem tem acidentes, és quem anda.
Não és mais do que o passeio do meu olhar.
Caí numa rua e vi-me cair. Não me vi levantar. Estou aqui, caído, como tu vês, feliz. Não tiro os olhos do sol. Estou feliz por ter caído. Estou cego. Cego e feliz. Estou mesmo feliz. E tu? Tu, que és esta cruzada de pés me esmaga os membros, o crânio, a boca e pescoço, nada fizeste.
Quando ponho o pé na rua adormeço, para te sonhar. Vens, e és, aos bocadinhos/farpas/estilhaços nas mãos vazias de quem passa. Roubo-te das mãos dos desconhecidos e eles não dão por nada. Sabes porquê? Porque te roubo devagarinho, com jeito, perícia e silêncio. Porque estou a dormir e a sonhar enquanto ouço canções para te ensinar um dia. Durmo e sonho na rua a cantar.
Olha, hoje não vi mas senti nascer e morrer um rapaz feliz na rua.


a beleza e a arte estão nas ruas e eu apenas ando a sonhar

Tuesday, March 07, 2006

piropo

isto aconteceu, mais ou menos, há um ano e meio. eu estava a sair de um certo sítio com uma certa pessoa. era madrugada, íamos para casa. íamos para casa dessa pessoa, nessa altura eu andava a ir frequentemente para casa dessa pessoa. na rua, a caminho do carro, em frente à porta desse certo sítio, uma outra pessoa, que vinha com um grupo de pessoas, mete conversa com a pessoa com que eu ia para casa.
o diálogo foi o seguinte:

a outra pessoa que vinha com um grupo de pessoas- olá.
a pessoa com que eu ia para casa- olá, tudo bem?
a outra pessoa que vinha com um grupo de pessoas- sim, tudo bem. vais para onde?
a pessoa com que eu ia para casa- já não vou a lado nenhum. vou pra casa.
a outra pessoa que vinha com um grupo de pessoas- pudera, com um homem desses também eu ia para casa. aliás, com um homem desses, eu nem saía de casa.
eu- (rindo-me) muito obrigado.

foi o piropo mais cómico que recebi. um piropo cómico de situação. lembrei-me disto ontem, não sei porquê, e voltei a rir-me.

Monday, March 06, 2006

aborto

oh god,
you drive and drive and well and on and on
across this city that is mine
and where i hope to turn you off and on.
i try and try to blink my eyes slow
to reach you there
in urban lust square
and youthful flow.

oh god.
the moment skips
beneath your breath
and your fresh perfect lips

blá blá blá

perdi a paciência para isto que estava a escrever. não é suficientemente bom para o efeito pretendido. desisto. aborto a escrita. oportunidades não faltarão, com toda a certeza, para atingir uma redacção mais justa e interessante para retratar isto que quero retratar.

Friday, March 03, 2006

a aliança

detenho-me, olho para eles continuada e insistentemente. ele retribui-me a atenção, ela nem dá pela minha presença. os meus amigos não lhes devotam a mínima curiosiade. pois, as minhas atenção e curiosidade esta noite são trífidas e dedicam-se a eles, ali a três mesas da nossa, à feliz disposição dos meus amigos e a esta dor no céu da boca, resultado evidente da intensidade da noite passada, que me impede de saborear devidamente esta espetada esplendorosamente suculenta de carne mal passada.
eu e eles, o casal, estamos, ainda que, no meio do mesmo desfile dos mesmos bifes, das mesmas sapateiras, das mesmas cervejas mistas e dos mesmos empregados revoltados com a vida, em partes distintas do mesmo mundo. mas eu, nem por isso, deixo de os querer observar.
ele já foi bonito, ainda tem qualquer coisa bonita, não a trouxe para aquela mesa mas transporta, na forma lenta como boceja e fecha as pálpebras, algo de belo. ela nunca foi bonita e tenho a certeza de que nunca o será. estou aqui há uma hora e ainda não os vi trocar uma única palavra. ela é feia de tão triste, ele belo de tão ausente.
ele olhou agora para mim, lentamente, como que a pedir socorro. eu engasguei-me. olhei para ela. ela rodou o anel insípido que tem no dedo anelar, provavelmente uma aliança, a aliança daquela união. rodou o anel e foi incapaz de olhar para ele. ele bebeu um gole de cerveja e olhou para o anel dela. ele não tem anel, deve tê-lo perdido de propósito.
mastigo com dificuldade. apetece-me uma cerveja mas não me atrevo, talvez mais tarde.
ele olha uma vez mais para mim e rápidamente para ela a seguir. percebo-o, ele não quer que ela descubra que está a trocar olhares comigo. não quer que ela descubra os seus pedidos lentos de socorro. não quer que ela descubra que tem estado este tempo todo a pedir-me que me levante e o leve para fora deste restaurante impessoal e que lhe conte coisas absurdas que o façam rir. não quer que ela perceba o que, pensa talvez ele, ela não pode perceber.
ela não tira os olhos do anel. ele não tira os olhos do infinito, nem de mim.
eu volto a concentrar-me na conversa que decorre na minha mesa e rio-me com os meus amigos. pelo canto do olho ainda vejo. vejo que ele precisa de rir fora daquela mesa e daquela aliança, daquela vida. vejo que ela precisa que ele lhe diga que a ama, precisa que ele lhe diga que tudo vai correr pelo melhor, que ele lhe diga que nada no mundo o vai fazer derivar.
deixo de conseguir olhar para eles, não por falta de vontade mas por falta de coragem. não tenho coragem para continuar a ser um espectador furtivo do arrastar inerte, silencioso e triste daquela união que de unido, cúmplice, fresco e apaixonado parece ter tão pouco. não tenho coragem para continuar a assistir à tristeza passiva dela e à ausência empedernida dele. não tenho coragem para ver aquele silêncio.
desejo que partam. desejo nunca os ter visto. tenho pena de os ter visto. deixo de os ver.
a minhas minhas atenção e curiosidade bifidicam-se. concentro-me na dor no céu da minha boca, enquanto vou degustanto a espetada, e luto com ela enquanto me tento destrair com as novidades e episódios hilariantes que os meus amigos vão contando.
a dor parece ir-se amenizando. a espetada acaba-se e eu e os meus amigos confirmamos o quão revoltado está com a vida o empregado que nos tem estado a atender. como somos pessoas civilizadas, e como não estamos para nos aborrecer, acabamos por relativizar a situação entre dois pares de gargalhdas.
a minha atenção unifica-se. um silêncio denso e lento sobrepõe-se aos risos que partilho com os meus amigos.
olha para a mesa deles, do casal, e vejo que já lá não estão. pois não, estão à minha frente. passam pela nossa mesa. mudos e lentos. passam por nós. ela olha para o chão, ele põe-lhe automática e instintivamente o braço por cima do ombro e olha para mim. sorri e, uma última vez, olha para mim. eu fecho os olhos lentamente e retribuo-lho o sorriso. sem me engasgar, retribuo o sorriso mas não o olhar.
abro os olhos e murmuro aos meus amigos (que não me ouvem porque se estão a rir deliciosamente): amo-vos.

Wednesday, March 01, 2006

my favourite things

"my favourite things" from the musical movie "the sound of music"
Raindrops on roses and whiskers on kittens
Bright copper kettles and warm woollen mittens
Brown paper packages tied up with strings,
These are a few of my favorite things.

Cream coloured ponies and crisp apple strudel,
Door bells and sleigh bells and schnitzel with noodles
Wild geese that fly with the moon on their wings,
These are a few of my favorite things.

Girls in white dresses and blue satin sashes,
Snow-flakes that stay on my nose and eye-lashes,
Silver white winters that melt into springs,
These are a few of my favorite things,

When the dog bites,
When the bee stings,
When I'm feeling sad,
I simply remember my favorite things,
And then I don't feel, so bad.

há umas duas semanas que passo a vida a cantarolar isto. sobretudo a parte dos "brown paper packages tied up with strings" (que são, na verdade, coisas que adoro). fui à procura da letra no google e eis que me deparo com um link para um sing along. fiquei tão contente. agora já posso fazer karaoke disto. já fiz. mais um itém a acrescentar às minhas coisas favorita.

recomendo:
http://www.geocities.com/EnchantedForest/Cottage/3192/Myfavorite.html

Saturday, February 25, 2006

uma (boa?) ideia, um desejo, uma decisão

uma casa branca, toda branca. tudo é branco: os móveis, os utensílios, as roupas, tudo. tudo completamente branco. a casa nunca é limpa, nunca.
objectivo da casa onde tudo é branco: ir ganhando cores das vidas que nela habitam. o que numa outra casa se poderia considerar sujidade, na casa onde tudo é branco considera-se registo, história, vida.
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(o que eu espero que me aconteça um dia)
os seus olhares não se cruzaram, embateram. embateram estrondosa e violentamente.
cada um sentiu dentro de si o furioso impacto de uma colisão. ainda não trocaram uma única palavra, deixaram de saber falar, desaprenderam a própria língua. tudo isto porque renasceram. os seus olhares não se cruzaram, embateram, e eles voltaram a nascer na eternidade que durou esse momento.
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há palavras que nos entram directamente nas veias e nelas navegam enquanto o sangramento não sucede.
são embarcações vocabulares que escrevem no nosso sangue a história da nossa vida.
vou sangrar-me para te apagar de mim.

Wednesday, February 22, 2006


in finito

saudades e a ilusão do infinito

Sinto saudades do cheiro das carcaças com manteiga e do leite achocolatado com que me deleitava no recreio da escola primária. Sinto saudades do ardor da poeira nos meus joelhos, tão ensanguentados, após tantas quedas. Sinto saudades da dor,latejante no rosto e humilhante no ego, que sucedia a cada bofetada que a minha mãe me dava.
Sinto saudades de chorar por tudo e por nada. Sinto saudades das tardes no infantário; enquanto todas as outras crianças dormiam, eu permanecia acordado a concluir que não gostava muito da minha vida.
Sinto saudades da alegria com que eu comia sorvetes e vestia mangas curtas quando o calor menino de Maio chegava. Sinto saudades do meu nervosismo e geral azáfama que precediam todas as minhas festas de aniversário. Sinto saudades de ter medo do escuro. Sinto saudades das noites que eu passava sozinho, a chorar, pregado à janela da marquise, porque a asma não me deixava respirar e a vergonha me impedia de acordar os meus pais. Sinto saudades de ainda não saber andar de bicicleta. Sinto saudades de acreditar que nos filmes os actores morriam com as suas personagens e sinto saudades de achar que isso era lindo. Sinto saudades de acordar às cinco da manhã para acabar a exorbitância de trabalhos de casa a que o professor da 3ª e 4ª classes nos obrigava. Sinto saudades do pânico que tinha das velhas: as minhas vizinhas da frente, duas figuras dignas de um filme de terror, beatas que só falavam de espíritos e cuja mais velha delas escondeu o corpo da irmã, debaixo da cama, durante três semanas depois de a ter levado à morte por subnutrição porque pensava que o diabo se tinha alojado na perna da pobre coitada quando esta estava a convalescer de uma fractura. Sinto saudades das noites de santos populares: das fogueiras, das sardinhadas, dos balões de papel e do cheiro intenso da Marcela que cobria o chão das ruas de Olhão. Sinto saudades de saber de cor e salteado as letras das músicas concorrentes aos festivais da canção. Sinto saudades da crise de nervos
que sucedeu o meu primeiro cigarro, aos onze anos, e de como nessa noite, para meu tormento, na televisão exageraram na transmissão de anúncios anti-tabagistas.
Sinto saudades de ter uma fixação pelo penteado do John Travolta e de odiar todas as cabeleireiras por nenhuma o conseguir reproduzir em mim. Sinto saudades de receber presentes no Dia Mundial da Criança. Sinto saudades de andar sentado aos ombros do meu avô Francisco, um homem seco e alto, que tinha uma voz queimada de décadas de cigarros e também da minha avó Augusta que via muito mal e me chamava coirão. Morreram ambos sem que eu vertesse uma única lágrima. Sinto saudades das ofensas verbais e físicas que eu e meu irmão infligíamos um ao outro quando ficávamos sozinhos em casa. Sinto saudades do cheiro dos assados da minha mãe, nas manhãs de Domingo. Sinto saudades de pedir à minha avó Carminha para me cantar aquela canção, muito triste, da velhinha que era ceguinha e que acabava por ser atropelada.
Sinto saudades das férias grandes. Sinto saudades de concluir que faltavam dezassete anos para o Ano 2000, de me questionar se o mundo iria acabar
e de pensar que o futuro era uma coisa estranha.
Estamos em 2006, tenho vinte e nove anos e sinto saudades.
Sinto saudades de tudo me aconteceu até agora. Sobretudo na infância, precisamente por serem esses os acontecimentos mais distantes.
E estas saudades não acontecem porque eu me queira recuperar ou queira reviver
a minha história. Sinto-as porque me apercebo realmente que a verdadeira condição do devir, do crescimento e do conhecimento, está encerrada na forma como tudo se torna simultânea e exponencialmente irrecuperável e ilusóriamente infinito.
Tenho saudades porque descobri o verdadeiro valor e a verdadeira utilidade da memória.
Tenho saudades porque quando estiver velho me quero lembrar deste dia.

(comecei a escrever isto há uns cinco anos. hoje acabei. não sinto, hoje, o que acima está escrito. mas sinto saudades de sentir.)

Saturday, February 18, 2006

a água de arcimboldo


there must be a light

"There is a light that never goes out", The Smiths

Take me out tonight
Where there’s music and there’s people
And they’re young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please don’t drop me home
Because it’s not my home, it’s their
Home, and I’m welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldn’t ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one, da ...
Oh, I haven’t got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out


amo esta canção. tenho andado a ouvi-la insistentemente. adoro a letra, sinto-a. já a sinto há muito tempo, desde a adolescência. sempre senti tudo o que esta letra traduz. continuo a sentir. i'm eager for that driver that wont drop me home. sou dramático, eu sei. furioso e dramático, sim. mas eu gosto de ter de ser assim. quando vivo vivo mesmo. dramática e furiosamente, vivo. é assim que sei e quero viver. menos que isso não me interessa. condutores dramáticos e furiosos procuram-se.

um recado, um splinter, uma recomendação, um retrato, um desejo

deve dar gozo ouvir-te falar, de facto, deve dar um grande gozo. eu não o sei porque já não te ouço. não te ouço nem te vejo mas pressinto que deve dar um grande gozo ouvir-te falar. sei que o teria, ao gozo, se pudesse ouvir-te falar. a falar com propriedade. tu e a tua propriedade ao falar. deve dar-te um grande gozo toda essa tua propriedade. cheguei agora à conclusão que o tiveste primeiro, ao gozo, antes mesmo de te dignares a ter essa tão própria propriedade de falar. própria só para ti. a tua propriedade ao falar não é tua, nunca o foi. tentas tanto ser tão próprio na tua propriedade que te esqueces de ter propriedade em seres tu mesmo. tu mesmo, muito além da propriedade e da propriedade do discurso que tu julgas ser tão próprio. não te ouço na tua tão "própria" propriedade mas sei que dizes nada. dizes nada de jeito. mas dizes com jeito nada de jeito, é por isso que pareces tão próprio e com tanta propriedade no meio dessa tão evidente parecença com aquilo que pensas ter propriedade de ser. és coisa nenhuma. és o meu gozo e o teu discurso.
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sou antes ou depois da pele?
diz-me!
sou o contra-tacto, de facto, fel?
quis-me!
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fui ontem ver o espectáculo novo da lúcia sigalho ("sobreviver"). gostei muito. muito bonito, eficaz, poético, certo.
aconteceu-me uma coisa raríssima: enquanto estava a ver o espectáculo senti-me verdadeiramente surpreendido com o mesmo. com as direcções para onde este me levava. e a verdadeira surpresa ocorreu quando percebi que o mesmo (espectáculo/capacidade da lúcia enquanto criadora) me estava a proporcionar imagens e sensações que eu percebi que irei guardar comigo durante muito tempo. o espectáculo inscreve-se no futuro. no futuro de nós. é uma monstruosa capacidade essa. os meus parabéns à lúcia e a todos os que com ela estão a fazer aquele surpreendente espectáculo. e eu nem sou um incondicional sigalhista, de todo. mas quando há qualidade e superioridade tem de se situar as mesmas, de cabeça e mãos abertas.
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era uma vez um menino que sentia barcos a navegarem-lhe dentro do corpo. isso fazia dele um menino oceano.

era uma vez um rapaz que sentia bandos de gaivotas a voarem-lhe dentro da cabeça. isso fazia dele um rapaz quase tempestade.

era uma vez um homem que sentia gotas de suor a nascerem-lhe nas palmas das mãos. isso fazia dele um homem homem.
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quero rir-me para dentro da tua boca!

Monday, February 06, 2006


mapa

obrigado

querida susana:
obrigado por ontem. obrigado por teres elaborado e interpretado o meu mapa astral. obrigado por teres sabido dizer-me aquilo que eu sabia haver em mim mas que por ser o tal "vapor de banho turco" sempre me pareceu demasiado difuso, insondável e ziguezagueante. obrigado por me teres alertado e pacificado com a minha própria natureza, idiossincrasias, necessidades, carências. obrigado para me teres alertado que não me será benéfico continuar a exigir tanto dos outros e de mim mesmo. obrigado por me teres feito ver, clara e exteriormente, que há riqueza em mim, e força e material muito diverso que só tem de ser explorado e levado cada vez mais longe. obrigado por me teres mostrado o longe. obrigado por me teres mostrado que o longe está aqui perto e que não o devo temer. obrigado por me teres dito que sou do mundo; tenho sentido isso cada vez mais claramente mas tenho tido quase receio de o sentir. obrigado por me teres mostrado que não tenho de ter receio de partir; que sou do mundo. quero ir para o mundo; sabendo sempre que o mundo, ou a complexidade do mesmo, começa em mim. obrigado por me teres fomentado a vontade de ir, por me teres mostrado que essa possibilidade me está desenhada, que não a devo temer. sempre suspeitei que a minha vida seria esse constante ir e vir de acontecimentos, pessoas, lugares, situações. isso sempre me angustiou. nos últimos tempos tenho passado a perceber que tenho de aceitar isso e a daí retirar o melhor. porque pode haver algo de muito bom nesse constante renascimento. sempre me senti uma fénix. sempre dei por mim com cinzas nas mãos; sofri muito, muitas vezes, por isso. esqucei-me do humor, muitas vezes. ontem, nas tuas palavras, reencontrei o humor e certifiquei-me de que não tenho de ter medo de partir, nascer e morrer muitas vezes na mesma vida, ganhar e perder e expressar-me no mundo. ontem abriste-me a porta do mundo. deste-me a chave da certeza. obrigado, não tenho como te agradecer. ou melhor, tenho: as tuas palavras estarão sempre comigo no mundo. quero ir.
és, de facto uma, curadora. sorte a de quem te econtra e te tem como amiga. um beijo profundo na planta do pé.

Sunday, February 05, 2006

jorro

paralisar, pulsar, perpetuar, proporcionar, propulsar, pulsar, o ar.

palavras com p. uma palavra com a.
vou falar-te dela para te poder falar de mim. falo-te de dela e cito-me a mim. ela nasceu-me. mas ela ainda não vive. vive pouco. vai vivendo, dentro de mim e dentro de cinco páginas word dentro deste computador. tenho-me esquecido dela mas ela não se tem esquecido de mim. temos estado de costas voltadas um para o outro mas ela vai-se fazendo. vai-se nascendo, percebes?
cham-se Elisa e tem quarenta anos. tem um namorado de vinte cinco. o outro tem sessenta e a outra tem cinquenta. ela está muito triste. perturbada, percebes?

não, não te vou falar mais nela, percebes?
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quando sorria abria no rosto uma covinha,
rasgava o céu só de olhar para o mesmo e conduzia uma motinha.
desmaiavam as meninas à entrada da cozinha,
se fosse barbeiro em Sevilha deixava de ser erva daninha.
queria ser outra vez puro, queria pôr-se na linha,
jejuava aos domingos e feriados e nunca sabia ao que ia. mas vinha.

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"tenho fome não de pão
tenho sede não de vinho
tenho fome de um abraço
tenho sede de um beijinho"

"quando a tarde estiver triste
e estiver quase a chover
lembra-te que são meus olhos
a chorar por não te ver"

"gosto de ti porque gosto
gosto de ti porque sim
gosto de ti porque aposto
que também gostas de mim"

"i have a pen
my pen is blue
a have a friend
my friend is you"

"quando nos vêem juntos
começam logo a criticar
mas isso que me interessa?
o que me importa é te amar.
i love you é inglês
je t'aime é francês
mas para falar a verdade
amo-te em português."

um dia hei-de juntar todas estas pérolas num lindo espectáculo para os porcos.

Friday, February 03, 2006

:

queria comunicar. tinha as palavras escolhidas, dentro de si, seleccionou-as criteriosamente. fê-las surgir. sabia fazê-lo, sabia disso. tinha tudo preparado. mas, para espanto seu, não quis dizê-las. teimou em não precisar de as dizer. teimou em, tampouco, as escrever. queria que as palavras acontecessem dentro da cabeça do receptor. que acontecessem da mesma forma que tinham acontecido dentro de si mesmo. fechou as mãos. esqueceu-se das palavras por alguns dias e começou a procurar ouvir o que estava entre as palavras que ouvia. as palavras passaram a ser uma matéria abstracta, pouco útil ao entendimento e insolucionável. interessou-se pelo interstício entre as palavras. descobriu aí um território inteiramente habitado e desabrigado de bloqueios ao mesmo tempo. um território novo e simultaneamente ancião. entrou numa zona pura não consensualmente natural do mundo. abriu as mãos e escutou-as (às mãos; ja não às palavras). abriu todos os livros de par em par e deixou que as palavras voassem. viu-as sumirem-se em silêncio e em paz. sorriu, cortou a língua e a ponta dos dez dedos. foi para o meio da multidão e aí percebeu: o que se quer dizer está exactamente no espaço não etimológico que se cria enquanto se diz aquilo que se vai dizendo e que se julga querer realmente dizer.
não escreveu mas pensou:

assim se conheceu ele.

Tuesday, January 31, 2006

podia ter acontecido

Ela quis pintar as unhas e pediu-lhe que lhas pintasse com a boca. Ele aquiesceu. Colocou o pincel do frasco de verniz entre os lábios e apertou-o firmemente com os dentes. Baixou a cabeça, debruçando-se sobre o frasco, e mergulhou nele o pincel. Deu uma desajeitada risadinha e quase deixou que o mesmo lhe escorregasse da boca. Ela riu livremente. Ele voltou a concentrar-se. Levantou a cabeça, escorreram duas gotas do líquido para o interior do frasco. Ele sentiu dentro de si o impacto provocado por essas duas gotas na restante substância. Inspirou o vapor que se desprendeu do verniz escarlate e sentiu-se vivo, feliz. Fechou os olhos e assim se deteve um pequeno instante. Quando os voltou a abrir uma lágrima escorreu-lhe livremente pela face abaixo. Ela sorriu, sentiu-se pequena, querida. Ele segurou-lhe na mão direita, mergulhou nela o rosto e começou a deslizar suavemente o pincel sobre a unha do polegar.
Ela disse: Faz-me cócegas.
Ele disse: A mim também.
Não mais deixaram de se querer. Nem mesmo depois de longínquos.

Thursday, January 26, 2006

estreia

estreio hoje. o ensaio de ontem correu bem. tive boas reacções ao meu trabalho, por parte de alguns amigos que foram ver. estava tudo muito ansioso mas o ensaio de ontem motivou e descansou a equipa, penso eu. hoje será ainda melhor. tem de ser. consegui descansar. almoço muito simpático com selma e pico. tenho de ir para a culturgest.
merda para mim e todos os citrinos mecânicos.
na próxima semana não quero fazer a ponta de um corno.
quem me dera poder tirar umas férias algures. não posso. depois da laranja lá vou outra vez para as "férias forçadas" aka desemprego. a ver vamos. por ora penso no espectáculo e no seu bom funcionamento. cada a coisa a seu tempo. talvez vá visitar a mamã e ver o mar, durante a próxima semana. depois concentrar-me-ei na nova peça que estou a escrever. estou apaixonado por ela. é complicada e exigente. mas suspeito que pode vir a ser a melhor coisa que alguma vez escrevi. é poderosa. nem eu mesmo ainda sei o quão poderosa/complexa ela pode ser. tenho pensado mais nela do que escrito, nos últimos dias. assusta-me e atrai-me, fascina-me. espero estar à altura da mesma. "estar à altura" é uma private joke entre mim e a peça. a seu tempo se perceberá.
vou. culturgest com ele.
mais uma vez, merda!!!

Thursday, January 05, 2006

o que estou a fazer

sobre o espectáculo que estou a fazer

http://www.culturgest.pt/actual/laranja_mecanica.html

a frase que anda comigo

"under the spreading chestnut tree I sold you and you sold me"
by george orwell in, "1984"

desde que a conheço que esta frase anda sempre comigo. ainda não sei bem porquê mas desconfio que o "attachment" se deve a muito mais do que a simples/genial musicalidade da dita.

recebi uma menção honrosa num concurso literário (lisboa à letra)na área de poesia. o tema era lisboa. o trabalho que enviei a concurso chama-se "o quarto rimado de onan" e engloba uma série de poemas em rima que tenho vindo a escrever nos últimos anos; alguns deles estão neste diário. o trabalho vai ser publicado em 2006 pela c.m.l (responsável pelo concurso). não é mau receber a menção, até fiquei contente, sobretudo por publicar o texto (seja de que forma for) mas confesso que o que me dava muito jeito era ter recebido um prémio monetário. pobreza oblige, apenas isso. ao fim e ao cabo nunca se está inteiremente contente com o que se obtém, falo por mim.

estou muito cansado, não tenho um dia de inteiro descanso há mais de dois meses. mais uma vez, nunca se está inteiramente contente. mas antes o cansaço frenético do que o cansaço neurótico de tanto olhar para o tecto à espera que o telefone toque.

ainda não senti o ano novo. sou, agora, filho da contiguidade.