Wednesday, February 22, 2006

saudades e a ilusão do infinito

Sinto saudades do cheiro das carcaças com manteiga e do leite achocolatado com que me deleitava no recreio da escola primária. Sinto saudades do ardor da poeira nos meus joelhos, tão ensanguentados, após tantas quedas. Sinto saudades da dor,latejante no rosto e humilhante no ego, que sucedia a cada bofetada que a minha mãe me dava.
Sinto saudades de chorar por tudo e por nada. Sinto saudades das tardes no infantário; enquanto todas as outras crianças dormiam, eu permanecia acordado a concluir que não gostava muito da minha vida.
Sinto saudades da alegria com que eu comia sorvetes e vestia mangas curtas quando o calor menino de Maio chegava. Sinto saudades do meu nervosismo e geral azáfama que precediam todas as minhas festas de aniversário. Sinto saudades de ter medo do escuro. Sinto saudades das noites que eu passava sozinho, a chorar, pregado à janela da marquise, porque a asma não me deixava respirar e a vergonha me impedia de acordar os meus pais. Sinto saudades de ainda não saber andar de bicicleta. Sinto saudades de acreditar que nos filmes os actores morriam com as suas personagens e sinto saudades de achar que isso era lindo. Sinto saudades de acordar às cinco da manhã para acabar a exorbitância de trabalhos de casa a que o professor da 3ª e 4ª classes nos obrigava. Sinto saudades do pânico que tinha das velhas: as minhas vizinhas da frente, duas figuras dignas de um filme de terror, beatas que só falavam de espíritos e cuja mais velha delas escondeu o corpo da irmã, debaixo da cama, durante três semanas depois de a ter levado à morte por subnutrição porque pensava que o diabo se tinha alojado na perna da pobre coitada quando esta estava a convalescer de uma fractura. Sinto saudades das noites de santos populares: das fogueiras, das sardinhadas, dos balões de papel e do cheiro intenso da Marcela que cobria o chão das ruas de Olhão. Sinto saudades de saber de cor e salteado as letras das músicas concorrentes aos festivais da canção. Sinto saudades da crise de nervos
que sucedeu o meu primeiro cigarro, aos onze anos, e de como nessa noite, para meu tormento, na televisão exageraram na transmissão de anúncios anti-tabagistas.
Sinto saudades de ter uma fixação pelo penteado do John Travolta e de odiar todas as cabeleireiras por nenhuma o conseguir reproduzir em mim. Sinto saudades de receber presentes no Dia Mundial da Criança. Sinto saudades de andar sentado aos ombros do meu avô Francisco, um homem seco e alto, que tinha uma voz queimada de décadas de cigarros e também da minha avó Augusta que via muito mal e me chamava coirão. Morreram ambos sem que eu vertesse uma única lágrima. Sinto saudades das ofensas verbais e físicas que eu e meu irmão infligíamos um ao outro quando ficávamos sozinhos em casa. Sinto saudades do cheiro dos assados da minha mãe, nas manhãs de Domingo. Sinto saudades de pedir à minha avó Carminha para me cantar aquela canção, muito triste, da velhinha que era ceguinha e que acabava por ser atropelada.
Sinto saudades das férias grandes. Sinto saudades de concluir que faltavam dezassete anos para o Ano 2000, de me questionar se o mundo iria acabar
e de pensar que o futuro era uma coisa estranha.
Estamos em 2006, tenho vinte e nove anos e sinto saudades.
Sinto saudades de tudo me aconteceu até agora. Sobretudo na infância, precisamente por serem esses os acontecimentos mais distantes.
E estas saudades não acontecem porque eu me queira recuperar ou queira reviver
a minha história. Sinto-as porque me apercebo realmente que a verdadeira condição do devir, do crescimento e do conhecimento, está encerrada na forma como tudo se torna simultânea e exponencialmente irrecuperável e ilusóriamente infinito.
Tenho saudades porque descobri o verdadeiro valor e a verdadeira utilidade da memória.
Tenho saudades porque quando estiver velho me quero lembrar deste dia.

(comecei a escrever isto há uns cinco anos. hoje acabei. não sinto, hoje, o que acima está escrito. mas sinto saudades de sentir.)

Saturday, February 18, 2006

a água de arcimboldo


there must be a light

"There is a light that never goes out", The Smiths

Take me out tonight
Where there’s music and there’s people
And they’re young and alive
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one
Anymore

Take me out tonight
Because I want to see people and i
Want to see life
Driving in your car
Oh, please don’t drop me home
Because it’s not my home, it’s their
Home, and I’m welcome no more

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Take me out tonight
Take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
And in the darkened underpass
I thought oh god, my chance has come at last
(but then a strange fear gripped me and i
Just couldn’t ask)

Take me out tonight
Oh, take me anywhere, I don’t care
I don’t care, I don’t care
Driving in your car
I never never want to go home
Because I haven’t got one, da ...
Oh, I haven’t got one

And if a double-decker bus
Crashes into us
To die by your side
Is such a heavenly way to die
And if a ten-ton truck
Kills the both of us
To die by your side
Well, the pleasure - the privilege is mine

Oh, there is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out
There is a light and it never goes out


amo esta canção. tenho andado a ouvi-la insistentemente. adoro a letra, sinto-a. já a sinto há muito tempo, desde a adolescência. sempre senti tudo o que esta letra traduz. continuo a sentir. i'm eager for that driver that wont drop me home. sou dramático, eu sei. furioso e dramático, sim. mas eu gosto de ter de ser assim. quando vivo vivo mesmo. dramática e furiosamente, vivo. é assim que sei e quero viver. menos que isso não me interessa. condutores dramáticos e furiosos procuram-se.

um recado, um splinter, uma recomendação, um retrato, um desejo

deve dar gozo ouvir-te falar, de facto, deve dar um grande gozo. eu não o sei porque já não te ouço. não te ouço nem te vejo mas pressinto que deve dar um grande gozo ouvir-te falar. sei que o teria, ao gozo, se pudesse ouvir-te falar. a falar com propriedade. tu e a tua propriedade ao falar. deve dar-te um grande gozo toda essa tua propriedade. cheguei agora à conclusão que o tiveste primeiro, ao gozo, antes mesmo de te dignares a ter essa tão própria propriedade de falar. própria só para ti. a tua propriedade ao falar não é tua, nunca o foi. tentas tanto ser tão próprio na tua propriedade que te esqueces de ter propriedade em seres tu mesmo. tu mesmo, muito além da propriedade e da propriedade do discurso que tu julgas ser tão próprio. não te ouço na tua tão "própria" propriedade mas sei que dizes nada. dizes nada de jeito. mas dizes com jeito nada de jeito, é por isso que pareces tão próprio e com tanta propriedade no meio dessa tão evidente parecença com aquilo que pensas ter propriedade de ser. és coisa nenhuma. és o meu gozo e o teu discurso.
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sou antes ou depois da pele?
diz-me!
sou o contra-tacto, de facto, fel?
quis-me!
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fui ontem ver o espectáculo novo da lúcia sigalho ("sobreviver"). gostei muito. muito bonito, eficaz, poético, certo.
aconteceu-me uma coisa raríssima: enquanto estava a ver o espectáculo senti-me verdadeiramente surpreendido com o mesmo. com as direcções para onde este me levava. e a verdadeira surpresa ocorreu quando percebi que o mesmo (espectáculo/capacidade da lúcia enquanto criadora) me estava a proporcionar imagens e sensações que eu percebi que irei guardar comigo durante muito tempo. o espectáculo inscreve-se no futuro. no futuro de nós. é uma monstruosa capacidade essa. os meus parabéns à lúcia e a todos os que com ela estão a fazer aquele surpreendente espectáculo. e eu nem sou um incondicional sigalhista, de todo. mas quando há qualidade e superioridade tem de se situar as mesmas, de cabeça e mãos abertas.
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era uma vez um menino que sentia barcos a navegarem-lhe dentro do corpo. isso fazia dele um menino oceano.

era uma vez um rapaz que sentia bandos de gaivotas a voarem-lhe dentro da cabeça. isso fazia dele um rapaz quase tempestade.

era uma vez um homem que sentia gotas de suor a nascerem-lhe nas palmas das mãos. isso fazia dele um homem homem.
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quero rir-me para dentro da tua boca!

Monday, February 06, 2006


mapa

obrigado

querida susana:
obrigado por ontem. obrigado por teres elaborado e interpretado o meu mapa astral. obrigado por teres sabido dizer-me aquilo que eu sabia haver em mim mas que por ser o tal "vapor de banho turco" sempre me pareceu demasiado difuso, insondável e ziguezagueante. obrigado por me teres alertado e pacificado com a minha própria natureza, idiossincrasias, necessidades, carências. obrigado para me teres alertado que não me será benéfico continuar a exigir tanto dos outros e de mim mesmo. obrigado por me teres feito ver, clara e exteriormente, que há riqueza em mim, e força e material muito diverso que só tem de ser explorado e levado cada vez mais longe. obrigado por me teres mostrado o longe. obrigado por me teres mostrado que o longe está aqui perto e que não o devo temer. obrigado por me teres dito que sou do mundo; tenho sentido isso cada vez mais claramente mas tenho tido quase receio de o sentir. obrigado por me teres mostrado que não tenho de ter receio de partir; que sou do mundo. quero ir para o mundo; sabendo sempre que o mundo, ou a complexidade do mesmo, começa em mim. obrigado por me teres fomentado a vontade de ir, por me teres mostrado que essa possibilidade me está desenhada, que não a devo temer. sempre suspeitei que a minha vida seria esse constante ir e vir de acontecimentos, pessoas, lugares, situações. isso sempre me angustiou. nos últimos tempos tenho passado a perceber que tenho de aceitar isso e a daí retirar o melhor. porque pode haver algo de muito bom nesse constante renascimento. sempre me senti uma fénix. sempre dei por mim com cinzas nas mãos; sofri muito, muitas vezes, por isso. esqucei-me do humor, muitas vezes. ontem, nas tuas palavras, reencontrei o humor e certifiquei-me de que não tenho de ter medo de partir, nascer e morrer muitas vezes na mesma vida, ganhar e perder e expressar-me no mundo. ontem abriste-me a porta do mundo. deste-me a chave da certeza. obrigado, não tenho como te agradecer. ou melhor, tenho: as tuas palavras estarão sempre comigo no mundo. quero ir.
és, de facto uma, curadora. sorte a de quem te econtra e te tem como amiga. um beijo profundo na planta do pé.

Sunday, February 05, 2006

jorro

paralisar, pulsar, perpetuar, proporcionar, propulsar, pulsar, o ar.

palavras com p. uma palavra com a.
vou falar-te dela para te poder falar de mim. falo-te de dela e cito-me a mim. ela nasceu-me. mas ela ainda não vive. vive pouco. vai vivendo, dentro de mim e dentro de cinco páginas word dentro deste computador. tenho-me esquecido dela mas ela não se tem esquecido de mim. temos estado de costas voltadas um para o outro mas ela vai-se fazendo. vai-se nascendo, percebes?
cham-se Elisa e tem quarenta anos. tem um namorado de vinte cinco. o outro tem sessenta e a outra tem cinquenta. ela está muito triste. perturbada, percebes?

não, não te vou falar mais nela, percebes?
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quando sorria abria no rosto uma covinha,
rasgava o céu só de olhar para o mesmo e conduzia uma motinha.
desmaiavam as meninas à entrada da cozinha,
se fosse barbeiro em Sevilha deixava de ser erva daninha.
queria ser outra vez puro, queria pôr-se na linha,
jejuava aos domingos e feriados e nunca sabia ao que ia. mas vinha.

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"tenho fome não de pão
tenho sede não de vinho
tenho fome de um abraço
tenho sede de um beijinho"

"quando a tarde estiver triste
e estiver quase a chover
lembra-te que são meus olhos
a chorar por não te ver"

"gosto de ti porque gosto
gosto de ti porque sim
gosto de ti porque aposto
que também gostas de mim"

"i have a pen
my pen is blue
a have a friend
my friend is you"

"quando nos vêem juntos
começam logo a criticar
mas isso que me interessa?
o que me importa é te amar.
i love you é inglês
je t'aime é francês
mas para falar a verdade
amo-te em português."

um dia hei-de juntar todas estas pérolas num lindo espectáculo para os porcos.

Friday, February 03, 2006

:

queria comunicar. tinha as palavras escolhidas, dentro de si, seleccionou-as criteriosamente. fê-las surgir. sabia fazê-lo, sabia disso. tinha tudo preparado. mas, para espanto seu, não quis dizê-las. teimou em não precisar de as dizer. teimou em, tampouco, as escrever. queria que as palavras acontecessem dentro da cabeça do receptor. que acontecessem da mesma forma que tinham acontecido dentro de si mesmo. fechou as mãos. esqueceu-se das palavras por alguns dias e começou a procurar ouvir o que estava entre as palavras que ouvia. as palavras passaram a ser uma matéria abstracta, pouco útil ao entendimento e insolucionável. interessou-se pelo interstício entre as palavras. descobriu aí um território inteiramente habitado e desabrigado de bloqueios ao mesmo tempo. um território novo e simultaneamente ancião. entrou numa zona pura não consensualmente natural do mundo. abriu as mãos e escutou-as (às mãos; ja não às palavras). abriu todos os livros de par em par e deixou que as palavras voassem. viu-as sumirem-se em silêncio e em paz. sorriu, cortou a língua e a ponta dos dez dedos. foi para o meio da multidão e aí percebeu: o que se quer dizer está exactamente no espaço não etimológico que se cria enquanto se diz aquilo que se vai dizendo e que se julga querer realmente dizer.
não escreveu mas pensou:

assim se conheceu ele.

Tuesday, January 31, 2006

podia ter acontecido

Ela quis pintar as unhas e pediu-lhe que lhas pintasse com a boca. Ele aquiesceu. Colocou o pincel do frasco de verniz entre os lábios e apertou-o firmemente com os dentes. Baixou a cabeça, debruçando-se sobre o frasco, e mergulhou nele o pincel. Deu uma desajeitada risadinha e quase deixou que o mesmo lhe escorregasse da boca. Ela riu livremente. Ele voltou a concentrar-se. Levantou a cabeça, escorreram duas gotas do líquido para o interior do frasco. Ele sentiu dentro de si o impacto provocado por essas duas gotas na restante substância. Inspirou o vapor que se desprendeu do verniz escarlate e sentiu-se vivo, feliz. Fechou os olhos e assim se deteve um pequeno instante. Quando os voltou a abrir uma lágrima escorreu-lhe livremente pela face abaixo. Ela sorriu, sentiu-se pequena, querida. Ele segurou-lhe na mão direita, mergulhou nela o rosto e começou a deslizar suavemente o pincel sobre a unha do polegar.
Ela disse: Faz-me cócegas.
Ele disse: A mim também.
Não mais deixaram de se querer. Nem mesmo depois de longínquos.

Thursday, January 26, 2006

estreia

estreio hoje. o ensaio de ontem correu bem. tive boas reacções ao meu trabalho, por parte de alguns amigos que foram ver. estava tudo muito ansioso mas o ensaio de ontem motivou e descansou a equipa, penso eu. hoje será ainda melhor. tem de ser. consegui descansar. almoço muito simpático com selma e pico. tenho de ir para a culturgest.
merda para mim e todos os citrinos mecânicos.
na próxima semana não quero fazer a ponta de um corno.
quem me dera poder tirar umas férias algures. não posso. depois da laranja lá vou outra vez para as "férias forçadas" aka desemprego. a ver vamos. por ora penso no espectáculo e no seu bom funcionamento. cada a coisa a seu tempo. talvez vá visitar a mamã e ver o mar, durante a próxima semana. depois concentrar-me-ei na nova peça que estou a escrever. estou apaixonado por ela. é complicada e exigente. mas suspeito que pode vir a ser a melhor coisa que alguma vez escrevi. é poderosa. nem eu mesmo ainda sei o quão poderosa/complexa ela pode ser. tenho pensado mais nela do que escrito, nos últimos dias. assusta-me e atrai-me, fascina-me. espero estar à altura da mesma. "estar à altura" é uma private joke entre mim e a peça. a seu tempo se perceberá.
vou. culturgest com ele.
mais uma vez, merda!!!

Thursday, January 05, 2006

o que estou a fazer

sobre o espectáculo que estou a fazer

http://www.culturgest.pt/actual/laranja_mecanica.html

a frase que anda comigo

"under the spreading chestnut tree I sold you and you sold me"
by george orwell in, "1984"

desde que a conheço que esta frase anda sempre comigo. ainda não sei bem porquê mas desconfio que o "attachment" se deve a muito mais do que a simples/genial musicalidade da dita.

recebi uma menção honrosa num concurso literário (lisboa à letra)na área de poesia. o tema era lisboa. o trabalho que enviei a concurso chama-se "o quarto rimado de onan" e engloba uma série de poemas em rima que tenho vindo a escrever nos últimos anos; alguns deles estão neste diário. o trabalho vai ser publicado em 2006 pela c.m.l (responsável pelo concurso). não é mau receber a menção, até fiquei contente, sobretudo por publicar o texto (seja de que forma for) mas confesso que o que me dava muito jeito era ter recebido um prémio monetário. pobreza oblige, apenas isso. ao fim e ao cabo nunca se está inteiremente contente com o que se obtém, falo por mim.

estou muito cansado, não tenho um dia de inteiro descanso há mais de dois meses. mais uma vez, nunca se está inteiramente contente. mas antes o cansaço frenético do que o cansaço neurótico de tanto olhar para o tecto à espera que o telefone toque.

ainda não senti o ano novo. sou, agora, filho da contiguidade.

Thursday, December 29, 2005

sobre a chegada a uma futura viagem

“Any opera freak will tell you that the combination of life-threatening illness and infatuation is an inflammatory one. More so, if the attachment is less than a week old and neither of the attached has yet allowed their halos to slip. There are few sensations more gratifying than being indispensable, and few creatures who provoke indispensability more than a complete and incontinent invalid. The patient, too, is gratified, if the attention he receives is faultless, since he will undergo an experience he has not known since infancy, an he is bound to mistake his fevered gratitude and his nurse’s overwhelming solicitude for the symptoms of a love of mythical proportions. At the onset of any entanglement the boundaries are tenuous, formed by pleasure and attraction. The infliction of something nasty on one of the protagonists serves as a short cut to more mature parameters, of duty and suffering and self-denial and the tolerance of nauseating smells, and all the other proofs of durable affection. Mistaking a dramatic illness for the worst that can happen, the lovers conclude that their relationship has been tried and tested, and they emerge with an idealistic notion of their own fortitude.”

in, “Lovely” de Frank Ronan

Gostava que te sentasses aqui agora e que me segurasses a mão esquerda com fervor e calma. Se aqui estivesses eu poderia até fingir estar doente, se tu assim o quisesses. Podíamos desenhar as nossas silhuetas nas paredes do meu quarto, auxiliados por aquele marcador castanho e pela luz deste candeeiro de mesa-de-cabeceira que comprei em Sevilha. Podíamos cortar em pedaços alguma da minha roupa e também simular uma discussão para arreliar os vizinhos. Podíamos dançar ao som de música pimba aos berros, podíamos cuspir para dentro da boca um do outro, podíamos beber vinho tinto e ficar indispostos. Podíamos cortar quadradinhos de papel branco e fingir serem selos muito valiosos que ofertaríamos um ao outro como provas eternas de amizade ou até de amor. Podíamos fingir que éramos miúdos e que estávamos aqui para fazer a enxurrada de exercícios de matemática que a professora nos tinha destinado para as férias de Natal. Eu podia ensinar-te a fumar, se tu não soubesses. Podia cortar-te o cabelo às três pancadas, podia mostrar-te, no Grande Atlas Mundial, que me acompanha desde a infância, todos os países que eu gostaria de visitar um dia.
Podia ouvir-te a dormir. Gosto muito de ouvir as pessoas a dormir. Sobretudo gosto de ouvir a dormir as pessoas que ainda não conheço, e talvez nunca venha realmente a conhecer, mas que a fúria dos corpos e a fome de presença a elas me juntou num colchão. Desde que passei a gostar de conhecer pessoas que comecei a ficar atento a uma série de coisas que até então me eram incógnitas.
Apesar de tudo, eu rio-me muito sozinho. De mim e comigo, dos e com os outros, de e com esta coisa que se chama existir, passo muito tempo a rir. Mesmo quando a dor é agonizante, desesperante, acutilante, enervante, constante, há sempre um lado de mim que se ri a bandeiras despregadas. Podes considerar-me doente, não me importo.
Quando tiver coragem hei-de entrar com uma pistola dentro de um carro de uma pessoa desconhecida. Hei-de encostar-lhe a pistola a uma das têmporas e hei-de dizer-lhe: “Leva-me para longe daqui, põe a tocar a tua canção preferida e conta-me tudo o que escondes de toda a gente. Mostra-me quem realmente és. Estou aqui para te ouvir. Considera-te sob sequestro e que o teu resgate serão todos os teus segredos.”
Então vai começar a grande história da minha vida. Eu e essa pessoa vamos apaixonar-nos loucamente, vamos ter a possibilidade de mostrar um ao outro, sem pressa ou hesitação, quem realmente somos, o que procuramos, o que nos move e comove. Essa será a minha grande viagem; a concentração absoluta e cristalizadora das coisas que mais gosto da fazer na vida: andar de carro, ouvir música, ouvir, falar, olhar nos olhos, take care, fazer amor. Vamos correr o mundo inteiro dentro de uma carro. E quando atingirmos o fim do mundo vamos chorar, em silêncio, e despedirmo-nos para nunca mais nos voltarmos a ver. A pessoa desconhecida há-de fazer o que lhe aprouver, depois da despedida, e eu irei tirar a carta de condução. A pistola, no entanto, será enterrada no fim do mundo, vazia, sem uma única bala, como sempre esteve desde o início da viagem.
Estou a rir, agora.

Thursday, December 22, 2005

é quase natal

é quase natal, bahhh.
não posso fumar nem comer coisas muito sólidas; o dente mau foi finalmente com os porcos. foi ontem. tenho andado a blédina. gosto muito de blédina, nem me importo. blédina de maçã e também de maçã com morango e banana. ainda estou a tomar uma data de comprimidos.

natal: ir para o algarve no dia 24 e chegar mesmo quase à hora do jantar de natal. voltar no dia 25 para ter ensaios no dia 26 de manhã. vale a pena isto tudo? por mim não, mas é para não deixar a família triste. detesto o natal.

estou muito cansado mas estou feliz.

não tenho muito mais tempo para escrever. estou com fome, vou comer o terceiro blédina do dia. que seca, este ano nem vou poder esticar-me muito na gula (parte mais interessante do natal): em primeiro lugar, por causa da extracção recente do dente mau e, em segundo lugar, tenho de perder uns seis quilos até à estreia da laranja. já engordei desde o início dos ensaios; muita comida de restaurante de bairro e muito pouco tempo para me dedicar a ter uma dieta mais equilibrada. agora tenho de atinar. diga-se de passagem, já não posso ver batatas fritas, bifes, arroz e demais "iguarias" à frente. bacalhau, eu quero é bacalhau.

vou começar o ano a trabalhar, isso é que vai ser. espero que seja um bom augúrio e que me vaticine, assim, o novo ano com muito e rentável trabalho.

aos caros leitores que me têm na lista telefónica:

meus querid@s,

escusam de me enviar sms's a desejar bom natal e ano novo e etc. eu não aprecio o gesto, devo admitir. para já, são todas massificadas, muitas repetidas e em nada personalizadas e, por outro lado, deixam-me sempre com algum remorso por não responder. recuso-me a responder, lamento. tenho mais que fazer e prefiro gastar dinheiro com outro tipo de mensagem. lamento mas esse tipo de solidariedade, que apenas favorece as operadoras telefónicas, muito pouco me apraz. por isso, poupem os cêntimos das sms que me seriam destinadas e enviem uma a alguém com uma mensagem realmente sentida, personalizada e reconfortante. declarem-se.

cheers, comam muito, amem-se e ofereçam-se uns aos outros.

orange season 4

orange season 2

orange season 3

orange season 1

Tuesday, December 06, 2005

like it or not

no meio dos inúmeros afazeres, ensaios entre a margem sul e lisboa, empinar resmas de texto dos dois espectáculos que estou a fazer. já um pouco farto de tanto ouvir, durante o sono a "ode to joy", consegui mergulhar mais profundamente no último disco da madonna. estou apaixonado pela última canção. adoro o poema.

"Like It Or Not"

You can call me a sinner
You can call me a saint
Celebrate me for who I am
Dislike me for what I ain't

Put me up on a pedestal
Or drag me down in the dirt
Sticks and stones will break my bones
But your words will never heard

I'll be the garden
You be the snake
All of my fruit is yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus]
This is who I am
You can
Like it or not
You can
Love me or leave me
Cus I'm never gonna stop
No no

Cleopatra had her way
Matahari too
Whether they were good or bad
Is strictly up to you

Life is a paradox and it doesn't make much sense
Can't have the Femme without the Fatale
Please don't take offense

Don't let the fruit rot under the vine
Fill up your cup and let's drink the wine
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus X2]

no no you know [repeat]

I'll be garden
You'll be the snake
All of my fruit are yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because

[Chorus]

no no you know [repeat]


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está um dia lindo, hoje. pausa entre dois ensaios e consigo matar saudades de mim, através do meu diário.

sinto que saturno se foi definitivamente embora. que alívio. ando pelas ruas a cantar. as pessoas olham mais para mim, eu olho mais para as pessoas. o mundo está aberto. no entanto lisboa está na mesma. vou ensaiar. vou apanhar o 28 e ver carteiristas em acção. mergulhar em alfama. o casão militar, o sítio onde ensaiamos a Laranja, apesar de inóspito é lindo. é um sítio também do cinema. quando lá estou, no pátio entre as laranjeiras, apetece-me filmar. curioso isto, um sítio inóspito com laranjeiras onde vai nascendo a nossa "Laranja Mecânica". a vida ainda tem poesia.

Monday, December 05, 2005

o tempo que corre

tempo, tempo a rigor, rigor do tempo, corrida contra o tempo, em contratempo.
felizmente é bom este parco dominar do tempo. é tempo do trabalho, é bem empregue. faz-me bem. hoje consegui estar em sintonia com o resto do mundo. consegui usufruir de um feriado. foi bom ter tido um dia livre quando toda a gente também o teve. não tenho tido tempo livre. tenho trabalhado muito, que nem um mouro (nunca percebi muito esta ideia de que os mouros trabalham muito). estou totalmente absorvido pelo espectáculo que estou a fazer. está a dar-me um gozo tremendo. está a ser muito cansativo mas está a compensar. a absorção deve-se também ao facto de estar a acumular duas funções, trabalho como actor e simultaneamente como assistente de encenação do Manuel W..

não tenho lido, é isso que mais me tem custado. mas não tenho conseguido. chego a casa exausto depois dos ensaios, por volta da uma da manhã, e normalmente tenho sempre trabalho para fazer ainda: actualizar o plano de trabalho, ver um dos filmes da bastante rica lista que o Manuel está a utilizar como forma de pesquisa, pensar um bocado na forma como devo gerir a minha personagem, etc.

também tenho ouvido muito pouca música, à excepção das sinfonias de Beethoven. apesar de ainda ter de as ouvir mais uns quantos milhares de vezes. são matéria sacramental do espectáculo, é sobre elas que a componente musical da peça assenta, temos de cantar muitas partes ou variações que o Burgess fez das mesmas. acho que vou passar a dormir a ouvir a 5ª, a 6ª, a 7ª, a 9ª e a Pastoral em loop. a hipnoaprendizagem comigo resulta; quando era puto gravava algumas matérias para os testes e depois ouvia as cassetes enquanto dormia. resultava.

tenho fumado imenso, em excesso. passo os ensaios a fumar, ainda por cima tive a feliz ideia de estar quase sempre a fumar em cena. ontem foi o descalabro porque repetimos as minhas cenas muitas vezes e acabei o ensaio completamente intoxicado. o problema é que fora de cena também fumo que nem uma besta. devo estar a deixar-me absorver demasiado pela personagem. era só o que me faltava agora, ao fim de todo este tempo, passar a ser um praticante do “método”. não, jamais, estou demasiado consciente da impostura imanente ao teatro para que isso me ocorra.

o maldito dente problemático não me tem dado tréguas. a dor tem sido constante mas a culpa é minha. devia ter aproveitado algum do tempo livre que tive para ir ao dentista. agora vai ser difícil. vou ter de aproveitar para tratar do impertinente dente quando tiver férias entre o natal e a passagem de ano.

este ano o problema do reveillon (que é sempre um problema) está resolvido. vou estar a trabalhar, tenho um outro espectáculo marcado para essa noite. no casino da figueira da foz. agora sim, tornei-me o verdadeiro artista de variedades. já posso ir para Las Vegas. o cachet também é muito agradável. estou agora a pensar que a ida ao dentista vai ser complicada porque enquanto estiver de férias da Laranja vou estar a ensaiar esse espectáculo de reveillon. tenho de organizar isto tudo muito bem. o tempo, o magano do tempo. passei meses a olhar para o tecto sem saber o que fazer com o excesso de tempo livre e agora surge tudo ao mesmo tempo. mas esta situação é de longe muito mais agradável. quem me dera estar sempre com este problema da falta de tempo. falta de tempo é sinónimo de uma outra coisa: fluência de dinheiro. e isso é muito reconfortante. se bem que, a razoável entrada de dinheiro que vou ter nos próximos tempos já está, em grande parte, destinada a liquidar as dívidas que tive de contrair ao longo deste medonho ano de 2005. felizmente está a acabar. e felizmente está a acabar de melhor forma possível: com muito e bom trabalho. viva o trabalho, viva a falta de tempo.

recebi uma outra proposta para o princípio de 2006 mas tenho de pensar muito bem nela. é um bocado/muito radical. implica mudança temporária de continente. para já não tomo qualquer decisão, esperarei pela definição exacta da proposta. o desafio é muito grande. veremos no que isto dá.

quatro da manhã, fuck, o tempo corre. tenho de ir dormir, quero acordar cedo e ir para o escritório, ainda de manhã, adiantar coisas da promoção e postar isto que estou a escrever no diário. que falta me tens feito, meu Querido Diário.