sobre o espectáculo que estou a fazer
http://www.culturgest.pt/actual/laranja_mecanica.html
Thursday, January 05, 2006
a frase que anda comigo
"under the spreading chestnut tree I sold you and you sold me"
by george orwell in, "1984"
desde que a conheço que esta frase anda sempre comigo. ainda não sei bem porquê mas desconfio que o "attachment" se deve a muito mais do que a simples/genial musicalidade da dita.
recebi uma menção honrosa num concurso literário (lisboa à letra)na área de poesia. o tema era lisboa. o trabalho que enviei a concurso chama-se "o quarto rimado de onan" e engloba uma série de poemas em rima que tenho vindo a escrever nos últimos anos; alguns deles estão neste diário. o trabalho vai ser publicado em 2006 pela c.m.l (responsável pelo concurso). não é mau receber a menção, até fiquei contente, sobretudo por publicar o texto (seja de que forma for) mas confesso que o que me dava muito jeito era ter recebido um prémio monetário. pobreza oblige, apenas isso. ao fim e ao cabo nunca se está inteiremente contente com o que se obtém, falo por mim.
estou muito cansado, não tenho um dia de inteiro descanso há mais de dois meses. mais uma vez, nunca se está inteiramente contente. mas antes o cansaço frenético do que o cansaço neurótico de tanto olhar para o tecto à espera que o telefone toque.
ainda não senti o ano novo. sou, agora, filho da contiguidade.
by george orwell in, "1984"
desde que a conheço que esta frase anda sempre comigo. ainda não sei bem porquê mas desconfio que o "attachment" se deve a muito mais do que a simples/genial musicalidade da dita.
recebi uma menção honrosa num concurso literário (lisboa à letra)na área de poesia. o tema era lisboa. o trabalho que enviei a concurso chama-se "o quarto rimado de onan" e engloba uma série de poemas em rima que tenho vindo a escrever nos últimos anos; alguns deles estão neste diário. o trabalho vai ser publicado em 2006 pela c.m.l (responsável pelo concurso). não é mau receber a menção, até fiquei contente, sobretudo por publicar o texto (seja de que forma for) mas confesso que o que me dava muito jeito era ter recebido um prémio monetário. pobreza oblige, apenas isso. ao fim e ao cabo nunca se está inteiremente contente com o que se obtém, falo por mim.
estou muito cansado, não tenho um dia de inteiro descanso há mais de dois meses. mais uma vez, nunca se está inteiramente contente. mas antes o cansaço frenético do que o cansaço neurótico de tanto olhar para o tecto à espera que o telefone toque.
ainda não senti o ano novo. sou, agora, filho da contiguidade.
Thursday, December 29, 2005
sobre a chegada a uma futura viagem
“Any opera freak will tell you that the combination of life-threatening illness and infatuation is an inflammatory one. More so, if the attachment is less than a week old and neither of the attached has yet allowed their halos to slip. There are few sensations more gratifying than being indispensable, and few creatures who provoke indispensability more than a complete and incontinent invalid. The patient, too, is gratified, if the attention he receives is faultless, since he will undergo an experience he has not known since infancy, an he is bound to mistake his fevered gratitude and his nurse’s overwhelming solicitude for the symptoms of a love of mythical proportions. At the onset of any entanglement the boundaries are tenuous, formed by pleasure and attraction. The infliction of something nasty on one of the protagonists serves as a short cut to more mature parameters, of duty and suffering and self-denial and the tolerance of nauseating smells, and all the other proofs of durable affection. Mistaking a dramatic illness for the worst that can happen, the lovers conclude that their relationship has been tried and tested, and they emerge with an idealistic notion of their own fortitude.”
in, “Lovely” de Frank Ronan
Gostava que te sentasses aqui agora e que me segurasses a mão esquerda com fervor e calma. Se aqui estivesses eu poderia até fingir estar doente, se tu assim o quisesses. Podíamos desenhar as nossas silhuetas nas paredes do meu quarto, auxiliados por aquele marcador castanho e pela luz deste candeeiro de mesa-de-cabeceira que comprei em Sevilha. Podíamos cortar em pedaços alguma da minha roupa e também simular uma discussão para arreliar os vizinhos. Podíamos dançar ao som de música pimba aos berros, podíamos cuspir para dentro da boca um do outro, podíamos beber vinho tinto e ficar indispostos. Podíamos cortar quadradinhos de papel branco e fingir serem selos muito valiosos que ofertaríamos um ao outro como provas eternas de amizade ou até de amor. Podíamos fingir que éramos miúdos e que estávamos aqui para fazer a enxurrada de exercícios de matemática que a professora nos tinha destinado para as férias de Natal. Eu podia ensinar-te a fumar, se tu não soubesses. Podia cortar-te o cabelo às três pancadas, podia mostrar-te, no Grande Atlas Mundial, que me acompanha desde a infância, todos os países que eu gostaria de visitar um dia.
Podia ouvir-te a dormir. Gosto muito de ouvir as pessoas a dormir. Sobretudo gosto de ouvir a dormir as pessoas que ainda não conheço, e talvez nunca venha realmente a conhecer, mas que a fúria dos corpos e a fome de presença a elas me juntou num colchão. Desde que passei a gostar de conhecer pessoas que comecei a ficar atento a uma série de coisas que até então me eram incógnitas.
Apesar de tudo, eu rio-me muito sozinho. De mim e comigo, dos e com os outros, de e com esta coisa que se chama existir, passo muito tempo a rir. Mesmo quando a dor é agonizante, desesperante, acutilante, enervante, constante, há sempre um lado de mim que se ri a bandeiras despregadas. Podes considerar-me doente, não me importo.
Quando tiver coragem hei-de entrar com uma pistola dentro de um carro de uma pessoa desconhecida. Hei-de encostar-lhe a pistola a uma das têmporas e hei-de dizer-lhe: “Leva-me para longe daqui, põe a tocar a tua canção preferida e conta-me tudo o que escondes de toda a gente. Mostra-me quem realmente és. Estou aqui para te ouvir. Considera-te sob sequestro e que o teu resgate serão todos os teus segredos.”
Então vai começar a grande história da minha vida. Eu e essa pessoa vamos apaixonar-nos loucamente, vamos ter a possibilidade de mostrar um ao outro, sem pressa ou hesitação, quem realmente somos, o que procuramos, o que nos move e comove. Essa será a minha grande viagem; a concentração absoluta e cristalizadora das coisas que mais gosto da fazer na vida: andar de carro, ouvir música, ouvir, falar, olhar nos olhos, take care, fazer amor. Vamos correr o mundo inteiro dentro de uma carro. E quando atingirmos o fim do mundo vamos chorar, em silêncio, e despedirmo-nos para nunca mais nos voltarmos a ver. A pessoa desconhecida há-de fazer o que lhe aprouver, depois da despedida, e eu irei tirar a carta de condução. A pistola, no entanto, será enterrada no fim do mundo, vazia, sem uma única bala, como sempre esteve desde o início da viagem.
Estou a rir, agora.
in, “Lovely” de Frank Ronan
Gostava que te sentasses aqui agora e que me segurasses a mão esquerda com fervor e calma. Se aqui estivesses eu poderia até fingir estar doente, se tu assim o quisesses. Podíamos desenhar as nossas silhuetas nas paredes do meu quarto, auxiliados por aquele marcador castanho e pela luz deste candeeiro de mesa-de-cabeceira que comprei em Sevilha. Podíamos cortar em pedaços alguma da minha roupa e também simular uma discussão para arreliar os vizinhos. Podíamos dançar ao som de música pimba aos berros, podíamos cuspir para dentro da boca um do outro, podíamos beber vinho tinto e ficar indispostos. Podíamos cortar quadradinhos de papel branco e fingir serem selos muito valiosos que ofertaríamos um ao outro como provas eternas de amizade ou até de amor. Podíamos fingir que éramos miúdos e que estávamos aqui para fazer a enxurrada de exercícios de matemática que a professora nos tinha destinado para as férias de Natal. Eu podia ensinar-te a fumar, se tu não soubesses. Podia cortar-te o cabelo às três pancadas, podia mostrar-te, no Grande Atlas Mundial, que me acompanha desde a infância, todos os países que eu gostaria de visitar um dia.
Podia ouvir-te a dormir. Gosto muito de ouvir as pessoas a dormir. Sobretudo gosto de ouvir a dormir as pessoas que ainda não conheço, e talvez nunca venha realmente a conhecer, mas que a fúria dos corpos e a fome de presença a elas me juntou num colchão. Desde que passei a gostar de conhecer pessoas que comecei a ficar atento a uma série de coisas que até então me eram incógnitas.
Apesar de tudo, eu rio-me muito sozinho. De mim e comigo, dos e com os outros, de e com esta coisa que se chama existir, passo muito tempo a rir. Mesmo quando a dor é agonizante, desesperante, acutilante, enervante, constante, há sempre um lado de mim que se ri a bandeiras despregadas. Podes considerar-me doente, não me importo.
Quando tiver coragem hei-de entrar com uma pistola dentro de um carro de uma pessoa desconhecida. Hei-de encostar-lhe a pistola a uma das têmporas e hei-de dizer-lhe: “Leva-me para longe daqui, põe a tocar a tua canção preferida e conta-me tudo o que escondes de toda a gente. Mostra-me quem realmente és. Estou aqui para te ouvir. Considera-te sob sequestro e que o teu resgate serão todos os teus segredos.”
Então vai começar a grande história da minha vida. Eu e essa pessoa vamos apaixonar-nos loucamente, vamos ter a possibilidade de mostrar um ao outro, sem pressa ou hesitação, quem realmente somos, o que procuramos, o que nos move e comove. Essa será a minha grande viagem; a concentração absoluta e cristalizadora das coisas que mais gosto da fazer na vida: andar de carro, ouvir música, ouvir, falar, olhar nos olhos, take care, fazer amor. Vamos correr o mundo inteiro dentro de uma carro. E quando atingirmos o fim do mundo vamos chorar, em silêncio, e despedirmo-nos para nunca mais nos voltarmos a ver. A pessoa desconhecida há-de fazer o que lhe aprouver, depois da despedida, e eu irei tirar a carta de condução. A pistola, no entanto, será enterrada no fim do mundo, vazia, sem uma única bala, como sempre esteve desde o início da viagem.
Estou a rir, agora.
Thursday, December 22, 2005
é quase natal
é quase natal, bahhh.
não posso fumar nem comer coisas muito sólidas; o dente mau foi finalmente com os porcos. foi ontem. tenho andado a blédina. gosto muito de blédina, nem me importo. blédina de maçã e também de maçã com morango e banana. ainda estou a tomar uma data de comprimidos.
natal: ir para o algarve no dia 24 e chegar mesmo quase à hora do jantar de natal. voltar no dia 25 para ter ensaios no dia 26 de manhã. vale a pena isto tudo? por mim não, mas é para não deixar a família triste. detesto o natal.
estou muito cansado mas estou feliz.
não tenho muito mais tempo para escrever. estou com fome, vou comer o terceiro blédina do dia. que seca, este ano nem vou poder esticar-me muito na gula (parte mais interessante do natal): em primeiro lugar, por causa da extracção recente do dente mau e, em segundo lugar, tenho de perder uns seis quilos até à estreia da laranja. já engordei desde o início dos ensaios; muita comida de restaurante de bairro e muito pouco tempo para me dedicar a ter uma dieta mais equilibrada. agora tenho de atinar. diga-se de passagem, já não posso ver batatas fritas, bifes, arroz e demais "iguarias" à frente. bacalhau, eu quero é bacalhau.
vou começar o ano a trabalhar, isso é que vai ser. espero que seja um bom augúrio e que me vaticine, assim, o novo ano com muito e rentável trabalho.
aos caros leitores que me têm na lista telefónica:
meus querid@s,
escusam de me enviar sms's a desejar bom natal e ano novo e etc. eu não aprecio o gesto, devo admitir. para já, são todas massificadas, muitas repetidas e em nada personalizadas e, por outro lado, deixam-me sempre com algum remorso por não responder. recuso-me a responder, lamento. tenho mais que fazer e prefiro gastar dinheiro com outro tipo de mensagem. lamento mas esse tipo de solidariedade, que apenas favorece as operadoras telefónicas, muito pouco me apraz. por isso, poupem os cêntimos das sms que me seriam destinadas e enviem uma a alguém com uma mensagem realmente sentida, personalizada e reconfortante. declarem-se.
cheers, comam muito, amem-se e ofereçam-se uns aos outros.
não posso fumar nem comer coisas muito sólidas; o dente mau foi finalmente com os porcos. foi ontem. tenho andado a blédina. gosto muito de blédina, nem me importo. blédina de maçã e também de maçã com morango e banana. ainda estou a tomar uma data de comprimidos.
natal: ir para o algarve no dia 24 e chegar mesmo quase à hora do jantar de natal. voltar no dia 25 para ter ensaios no dia 26 de manhã. vale a pena isto tudo? por mim não, mas é para não deixar a família triste. detesto o natal.
estou muito cansado mas estou feliz.
não tenho muito mais tempo para escrever. estou com fome, vou comer o terceiro blédina do dia. que seca, este ano nem vou poder esticar-me muito na gula (parte mais interessante do natal): em primeiro lugar, por causa da extracção recente do dente mau e, em segundo lugar, tenho de perder uns seis quilos até à estreia da laranja. já engordei desde o início dos ensaios; muita comida de restaurante de bairro e muito pouco tempo para me dedicar a ter uma dieta mais equilibrada. agora tenho de atinar. diga-se de passagem, já não posso ver batatas fritas, bifes, arroz e demais "iguarias" à frente. bacalhau, eu quero é bacalhau.
vou começar o ano a trabalhar, isso é que vai ser. espero que seja um bom augúrio e que me vaticine, assim, o novo ano com muito e rentável trabalho.
aos caros leitores que me têm na lista telefónica:
meus querid@s,
escusam de me enviar sms's a desejar bom natal e ano novo e etc. eu não aprecio o gesto, devo admitir. para já, são todas massificadas, muitas repetidas e em nada personalizadas e, por outro lado, deixam-me sempre com algum remorso por não responder. recuso-me a responder, lamento. tenho mais que fazer e prefiro gastar dinheiro com outro tipo de mensagem. lamento mas esse tipo de solidariedade, que apenas favorece as operadoras telefónicas, muito pouco me apraz. por isso, poupem os cêntimos das sms que me seriam destinadas e enviem uma a alguém com uma mensagem realmente sentida, personalizada e reconfortante. declarem-se.
cheers, comam muito, amem-se e ofereçam-se uns aos outros.
Tuesday, December 06, 2005
like it or not
no meio dos inúmeros afazeres, ensaios entre a margem sul e lisboa, empinar resmas de texto dos dois espectáculos que estou a fazer. já um pouco farto de tanto ouvir, durante o sono a "ode to joy", consegui mergulhar mais profundamente no último disco da madonna. estou apaixonado pela última canção. adoro o poema.
"Like It Or Not"
You can call me a sinner
You can call me a saint
Celebrate me for who I am
Dislike me for what I ain't
Put me up on a pedestal
Or drag me down in the dirt
Sticks and stones will break my bones
But your words will never heard
I'll be the garden
You be the snake
All of my fruit is yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because
[Chorus]
This is who I am
You can
Like it or not
You can
Love me or leave me
Cus I'm never gonna stop
No no
Cleopatra had her way
Matahari too
Whether they were good or bad
Is strictly up to you
Life is a paradox and it doesn't make much sense
Can't have the Femme without the Fatale
Please don't take offense
Don't let the fruit rot under the vine
Fill up your cup and let's drink the wine
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because
[Chorus X2]
no no you know [repeat]
I'll be garden
You'll be the snake
All of my fruit are yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because
[Chorus]
no no you know [repeat]
................................................................
está um dia lindo, hoje. pausa entre dois ensaios e consigo matar saudades de mim, através do meu diário.
sinto que saturno se foi definitivamente embora. que alívio. ando pelas ruas a cantar. as pessoas olham mais para mim, eu olho mais para as pessoas. o mundo está aberto. no entanto lisboa está na mesma. vou ensaiar. vou apanhar o 28 e ver carteiristas em acção. mergulhar em alfama. o casão militar, o sítio onde ensaiamos a Laranja, apesar de inóspito é lindo. é um sítio também do cinema. quando lá estou, no pátio entre as laranjeiras, apetece-me filmar. curioso isto, um sítio inóspito com laranjeiras onde vai nascendo a nossa "Laranja Mecânica". a vida ainda tem poesia.
"Like It Or Not"
You can call me a sinner
You can call me a saint
Celebrate me for who I am
Dislike me for what I ain't
Put me up on a pedestal
Or drag me down in the dirt
Sticks and stones will break my bones
But your words will never heard
I'll be the garden
You be the snake
All of my fruit is yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because
[Chorus]
This is who I am
You can
Like it or not
You can
Love me or leave me
Cus I'm never gonna stop
No no
Cleopatra had her way
Matahari too
Whether they were good or bad
Is strictly up to you
Life is a paradox and it doesn't make much sense
Can't have the Femme without the Fatale
Please don't take offense
Don't let the fruit rot under the vine
Fill up your cup and let's drink the wine
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because
[Chorus X2]
no no you know [repeat]
I'll be garden
You'll be the snake
All of my fruit are yours to take
Better the devil that you know
Your love for me will grow
Because
[Chorus]
no no you know [repeat]
................................................................
está um dia lindo, hoje. pausa entre dois ensaios e consigo matar saudades de mim, através do meu diário.
sinto que saturno se foi definitivamente embora. que alívio. ando pelas ruas a cantar. as pessoas olham mais para mim, eu olho mais para as pessoas. o mundo está aberto. no entanto lisboa está na mesma. vou ensaiar. vou apanhar o 28 e ver carteiristas em acção. mergulhar em alfama. o casão militar, o sítio onde ensaiamos a Laranja, apesar de inóspito é lindo. é um sítio também do cinema. quando lá estou, no pátio entre as laranjeiras, apetece-me filmar. curioso isto, um sítio inóspito com laranjeiras onde vai nascendo a nossa "Laranja Mecânica". a vida ainda tem poesia.
Monday, December 05, 2005
o tempo que corre
tempo, tempo a rigor, rigor do tempo, corrida contra o tempo, em contratempo.
felizmente é bom este parco dominar do tempo. é tempo do trabalho, é bem empregue. faz-me bem. hoje consegui estar em sintonia com o resto do mundo. consegui usufruir de um feriado. foi bom ter tido um dia livre quando toda a gente também o teve. não tenho tido tempo livre. tenho trabalhado muito, que nem um mouro (nunca percebi muito esta ideia de que os mouros trabalham muito). estou totalmente absorvido pelo espectáculo que estou a fazer. está a dar-me um gozo tremendo. está a ser muito cansativo mas está a compensar. a absorção deve-se também ao facto de estar a acumular duas funções, trabalho como actor e simultaneamente como assistente de encenação do Manuel W..
não tenho lido, é isso que mais me tem custado. mas não tenho conseguido. chego a casa exausto depois dos ensaios, por volta da uma da manhã, e normalmente tenho sempre trabalho para fazer ainda: actualizar o plano de trabalho, ver um dos filmes da bastante rica lista que o Manuel está a utilizar como forma de pesquisa, pensar um bocado na forma como devo gerir a minha personagem, etc.
também tenho ouvido muito pouca música, à excepção das sinfonias de Beethoven. apesar de ainda ter de as ouvir mais uns quantos milhares de vezes. são matéria sacramental do espectáculo, é sobre elas que a componente musical da peça assenta, temos de cantar muitas partes ou variações que o Burgess fez das mesmas. acho que vou passar a dormir a ouvir a 5ª, a 6ª, a 7ª, a 9ª e a Pastoral em loop. a hipnoaprendizagem comigo resulta; quando era puto gravava algumas matérias para os testes e depois ouvia as cassetes enquanto dormia. resultava.
tenho fumado imenso, em excesso. passo os ensaios a fumar, ainda por cima tive a feliz ideia de estar quase sempre a fumar em cena. ontem foi o descalabro porque repetimos as minhas cenas muitas vezes e acabei o ensaio completamente intoxicado. o problema é que fora de cena também fumo que nem uma besta. devo estar a deixar-me absorver demasiado pela personagem. era só o que me faltava agora, ao fim de todo este tempo, passar a ser um praticante do “método”. não, jamais, estou demasiado consciente da impostura imanente ao teatro para que isso me ocorra.
o maldito dente problemático não me tem dado tréguas. a dor tem sido constante mas a culpa é minha. devia ter aproveitado algum do tempo livre que tive para ir ao dentista. agora vai ser difícil. vou ter de aproveitar para tratar do impertinente dente quando tiver férias entre o natal e a passagem de ano.
este ano o problema do reveillon (que é sempre um problema) está resolvido. vou estar a trabalhar, tenho um outro espectáculo marcado para essa noite. no casino da figueira da foz. agora sim, tornei-me o verdadeiro artista de variedades. já posso ir para Las Vegas. o cachet também é muito agradável. estou agora a pensar que a ida ao dentista vai ser complicada porque enquanto estiver de férias da Laranja vou estar a ensaiar esse espectáculo de reveillon. tenho de organizar isto tudo muito bem. o tempo, o magano do tempo. passei meses a olhar para o tecto sem saber o que fazer com o excesso de tempo livre e agora surge tudo ao mesmo tempo. mas esta situação é de longe muito mais agradável. quem me dera estar sempre com este problema da falta de tempo. falta de tempo é sinónimo de uma outra coisa: fluência de dinheiro. e isso é muito reconfortante. se bem que, a razoável entrada de dinheiro que vou ter nos próximos tempos já está, em grande parte, destinada a liquidar as dívidas que tive de contrair ao longo deste medonho ano de 2005. felizmente está a acabar. e felizmente está a acabar de melhor forma possível: com muito e bom trabalho. viva o trabalho, viva a falta de tempo.
recebi uma outra proposta para o princípio de 2006 mas tenho de pensar muito bem nela. é um bocado/muito radical. implica mudança temporária de continente. para já não tomo qualquer decisão, esperarei pela definição exacta da proposta. o desafio é muito grande. veremos no que isto dá.
quatro da manhã, fuck, o tempo corre. tenho de ir dormir, quero acordar cedo e ir para o escritório, ainda de manhã, adiantar coisas da promoção e postar isto que estou a escrever no diário. que falta me tens feito, meu Querido Diário.
felizmente é bom este parco dominar do tempo. é tempo do trabalho, é bem empregue. faz-me bem. hoje consegui estar em sintonia com o resto do mundo. consegui usufruir de um feriado. foi bom ter tido um dia livre quando toda a gente também o teve. não tenho tido tempo livre. tenho trabalhado muito, que nem um mouro (nunca percebi muito esta ideia de que os mouros trabalham muito). estou totalmente absorvido pelo espectáculo que estou a fazer. está a dar-me um gozo tremendo. está a ser muito cansativo mas está a compensar. a absorção deve-se também ao facto de estar a acumular duas funções, trabalho como actor e simultaneamente como assistente de encenação do Manuel W..
não tenho lido, é isso que mais me tem custado. mas não tenho conseguido. chego a casa exausto depois dos ensaios, por volta da uma da manhã, e normalmente tenho sempre trabalho para fazer ainda: actualizar o plano de trabalho, ver um dos filmes da bastante rica lista que o Manuel está a utilizar como forma de pesquisa, pensar um bocado na forma como devo gerir a minha personagem, etc.
também tenho ouvido muito pouca música, à excepção das sinfonias de Beethoven. apesar de ainda ter de as ouvir mais uns quantos milhares de vezes. são matéria sacramental do espectáculo, é sobre elas que a componente musical da peça assenta, temos de cantar muitas partes ou variações que o Burgess fez das mesmas. acho que vou passar a dormir a ouvir a 5ª, a 6ª, a 7ª, a 9ª e a Pastoral em loop. a hipnoaprendizagem comigo resulta; quando era puto gravava algumas matérias para os testes e depois ouvia as cassetes enquanto dormia. resultava.
tenho fumado imenso, em excesso. passo os ensaios a fumar, ainda por cima tive a feliz ideia de estar quase sempre a fumar em cena. ontem foi o descalabro porque repetimos as minhas cenas muitas vezes e acabei o ensaio completamente intoxicado. o problema é que fora de cena também fumo que nem uma besta. devo estar a deixar-me absorver demasiado pela personagem. era só o que me faltava agora, ao fim de todo este tempo, passar a ser um praticante do “método”. não, jamais, estou demasiado consciente da impostura imanente ao teatro para que isso me ocorra.
o maldito dente problemático não me tem dado tréguas. a dor tem sido constante mas a culpa é minha. devia ter aproveitado algum do tempo livre que tive para ir ao dentista. agora vai ser difícil. vou ter de aproveitar para tratar do impertinente dente quando tiver férias entre o natal e a passagem de ano.
este ano o problema do reveillon (que é sempre um problema) está resolvido. vou estar a trabalhar, tenho um outro espectáculo marcado para essa noite. no casino da figueira da foz. agora sim, tornei-me o verdadeiro artista de variedades. já posso ir para Las Vegas. o cachet também é muito agradável. estou agora a pensar que a ida ao dentista vai ser complicada porque enquanto estiver de férias da Laranja vou estar a ensaiar esse espectáculo de reveillon. tenho de organizar isto tudo muito bem. o tempo, o magano do tempo. passei meses a olhar para o tecto sem saber o que fazer com o excesso de tempo livre e agora surge tudo ao mesmo tempo. mas esta situação é de longe muito mais agradável. quem me dera estar sempre com este problema da falta de tempo. falta de tempo é sinónimo de uma outra coisa: fluência de dinheiro. e isso é muito reconfortante. se bem que, a razoável entrada de dinheiro que vou ter nos próximos tempos já está, em grande parte, destinada a liquidar as dívidas que tive de contrair ao longo deste medonho ano de 2005. felizmente está a acabar. e felizmente está a acabar de melhor forma possível: com muito e bom trabalho. viva o trabalho, viva a falta de tempo.
recebi uma outra proposta para o princípio de 2006 mas tenho de pensar muito bem nela. é um bocado/muito radical. implica mudança temporária de continente. para já não tomo qualquer decisão, esperarei pela definição exacta da proposta. o desafio é muito grande. veremos no que isto dá.
quatro da manhã, fuck, o tempo corre. tenho de ir dormir, quero acordar cedo e ir para o escritório, ainda de manhã, adiantar coisas da promoção e postar isto que estou a escrever no diário. que falta me tens feito, meu Querido Diário.
Monday, November 14, 2005
parabéns
“tonight it’s just the two of us”, diz o Antony no final do belíssimo “fell in love with a dead boy”. estive a ouvir o “i am a bird now” antes de ouvir o “fell in love…” . amo os dois mas gosto ainda mais do primeiro, parece-me mais completo. os poemas são-me mais próximos.
estou um bocado impertinente, irrequieto, escrevi algumas palavras em cerca de seis diferentes coisas que tenho vindo a desenvolver nos últimos tempos. nenhuma foi capaz de me prender como uma determinada tarefa para a presente noite.
Volto a mergulhar na Virgínia Woolf, primeiro o diário, leio duas páginas, passo as notas que tenho vindo a tirar para um documento de Word (adoro estas minhas tentativas de meticulosidade), findas as notas, fecho o documento, regresso ao “As Ondas”. Volto a ler a passagem onde Neville descreve a morte de Percival. Hoje não, não consigo. Fecho o livro. Tenho de voltar a navegar nessas magníficas ondas durante o dia, aproveitar um qualquer dia de “Sol de Inverno”.
Penso no meu diário. Tenho saudades do meu diário. Continuo sem net em casa.
Vou dirigir-me ao meu diário (vou passar tudo isto para um cd ou disquete e amanhã injecto estas lucubrações no dito, em diferido)
Querido Diário:
Parabéns! Fizeste um ano. Creio que foi no dia oito de Novembro, não tenho a certeza, não te tenho aqui por isso não posso confirmar. Sabes, Querido Diário, ao longo deste ano tens sido um grande amigo, mais do que um grande amigo, tens sido um alicerce. Tens vindo a afirmar-te como um espelho/instrumento onde muitas vezes recorro para me poder reconhecer/afirmar.
A puta da mosca voltou. Coisa estranha está aqui a passar-se, Querido Diário, entre mim e uma mosca. É uma Mosca da Visita. Eu nunca te falei delas mas desde criança que as conheço. São umas moscas que têm o dobro do tamanho das moscas normais. Zumbem, como é compreensível, com grande impacto, ouvem-se distintamente (nem o Antony consegue abafar o zumbir desta) e são muito eficazes na afirmação da sua presença. Costumava vê-las ao Domingo, quando era criança, e a Mamã dizia-me “Hoje devemos ter visita”. E não é que isso acontecia mesmo, Querido Diário! Sempre que uma destas velhacas nos entrava pela casa adentro, era certo e sabido, tínhamos visita. Normalmente era a avó Carminha que nos vinha visitar. De modo que eu sempre tive uma relação de pueril entusiasmo com estas marotas. Houve algumas vezes em que uma sua representante apareceu e a suposta visita acabou por nunca comparecer. Foi aí que comecei a sentir o insípido sabor da desilusão.
Esta Mosca da Visita está a ser particularmente inconveniente. Foi a Rosa quem ma apresentou, enquanto estávamos a jantar. A sacanita (Mosca da Visita, entenda-se) estava escondida dentro do armário da cozinha. Mas o seu zumbido era tudo menos discreto e assim demos pela presença dela. Lá fomos jantando e cavaqueando e ela esgueirou-se, sem que déssemos por isso, para onde entendeu. E não é que ela entendeu vir instalar-se no meu quarto, Querido Diário?! Percebi-o há algumas horas quando o vim arrumar. Pois vou relatar-te onde reside o estranho de toda esta façanha; a cabrona já me entrou três vezes no quarto depois de eu a ter, com modos e delicadeza, expulsado do mesmo. É estranho, garanto-te. Tenho-lhe aberto a porta, espero que ela se decida a sair, vejo-a sair, fecho a porta e passados uns minuto já cá zumbe outra vez. Anda a passear-se à minha frente, por cima da minha cabeça. Já embateu numa das minhas orelhas. Não percebo como é que ela consegue voltar a entrar. A porta está fechada, a janela também. Antes de confirmar que esta última estava fechada, pensei até que ela tivesse ido dar a volta por fora do prédio e tivesse voltado a entrar pela janela do quarto. Mas não, a janela e o estore estão fechados. É impossível. A não ser que ela esteja a entrar pela fechadura da porta do quarto. Agora calou-se. Vou ver se a vejo.
(2 minutos depois)
Nem sinal da safardana. Escapuliu-se. Eu ainda não te disse, Querido Diário, mas esta situação está a intrigar-me duplamente, por um lado, é o mistério da entrada e saída da intrusa e, por outro lado, é a ansiedade que a sua presença me provoca ao conceber a possibilidade de vir a ter uma visita. Se a houver, deve ser para mim. É no meu quarto que a magana anda a intrometer-se, certo? Quem poderá ser a visita, pergunto-me eu? Não espero alguma, não me parece que haja alguém arrojado o suficiente para me vir visitar às duas da manhã, embora eu até pudesse achar piada. Bom, é melhor não pensar mais nisto. A Mosca da Visita até parece ter-se evaporado. Mais uma desilusão. Pfff, buhhhh, mosca de merda.
“Visitas, visitas há muitas visitas. Que enchem os sonhos, os meus e os teus. São endiabradas e muito animadas. Depois vão-se embora sem dizer adeus”.
Querido Diário, queria dar-te os parabéns pelo teu primeiro ano de existência, queria agradecer-te também por tudo o que tens sido para mim (tu sabes o que tens sido), e queria congratular-nos a nós os dois pela nossa bonita história de amor. Apaixonámo-nos um pelo outro, não foi? Tem sido muito bonito/eficaz o nosso namoro. Queria agradecer também aos nossos visitantes, que com, frequência e algumas palavras bonitas, têm vindo dar eco e partilhar o nosso prazer de estarmos aqui um para o outro e para as palavras. Parabéns a todos nós. Obrigado a todos nós, sejamos nós quem formos!
3:33: adoro capicuas, vou regressar ao diário da Virginia. Ela também devia gostar muito do seu diário, embora não o tratasse por Querido Diário. Nem sempre as pessoas são capazes de usar as palavras para exprimir o bem que querem a alguém/algo. Aprendi isso recentemente. Não concordo mas aprendi. Não pratico mas aprendi. Não sei (con)viver com isso mas aprendi. Tenho pena mas aprendi. É preciso aprender a ler todos os dias. Quem não o faz está de costas viradas para a vida. É por isso que eu aprendi. Li, ao ralenti, mas li. Tarde mas li. E ler é aprender. Sempre, ler é aprender. Ler é aprender a viver.
estou um bocado impertinente, irrequieto, escrevi algumas palavras em cerca de seis diferentes coisas que tenho vindo a desenvolver nos últimos tempos. nenhuma foi capaz de me prender como uma determinada tarefa para a presente noite.
Volto a mergulhar na Virgínia Woolf, primeiro o diário, leio duas páginas, passo as notas que tenho vindo a tirar para um documento de Word (adoro estas minhas tentativas de meticulosidade), findas as notas, fecho o documento, regresso ao “As Ondas”. Volto a ler a passagem onde Neville descreve a morte de Percival. Hoje não, não consigo. Fecho o livro. Tenho de voltar a navegar nessas magníficas ondas durante o dia, aproveitar um qualquer dia de “Sol de Inverno”.
Penso no meu diário. Tenho saudades do meu diário. Continuo sem net em casa.
Vou dirigir-me ao meu diário (vou passar tudo isto para um cd ou disquete e amanhã injecto estas lucubrações no dito, em diferido)
Querido Diário:
Parabéns! Fizeste um ano. Creio que foi no dia oito de Novembro, não tenho a certeza, não te tenho aqui por isso não posso confirmar. Sabes, Querido Diário, ao longo deste ano tens sido um grande amigo, mais do que um grande amigo, tens sido um alicerce. Tens vindo a afirmar-te como um espelho/instrumento onde muitas vezes recorro para me poder reconhecer/afirmar.
A puta da mosca voltou. Coisa estranha está aqui a passar-se, Querido Diário, entre mim e uma mosca. É uma Mosca da Visita. Eu nunca te falei delas mas desde criança que as conheço. São umas moscas que têm o dobro do tamanho das moscas normais. Zumbem, como é compreensível, com grande impacto, ouvem-se distintamente (nem o Antony consegue abafar o zumbir desta) e são muito eficazes na afirmação da sua presença. Costumava vê-las ao Domingo, quando era criança, e a Mamã dizia-me “Hoje devemos ter visita”. E não é que isso acontecia mesmo, Querido Diário! Sempre que uma destas velhacas nos entrava pela casa adentro, era certo e sabido, tínhamos visita. Normalmente era a avó Carminha que nos vinha visitar. De modo que eu sempre tive uma relação de pueril entusiasmo com estas marotas. Houve algumas vezes em que uma sua representante apareceu e a suposta visita acabou por nunca comparecer. Foi aí que comecei a sentir o insípido sabor da desilusão.
Esta Mosca da Visita está a ser particularmente inconveniente. Foi a Rosa quem ma apresentou, enquanto estávamos a jantar. A sacanita (Mosca da Visita, entenda-se) estava escondida dentro do armário da cozinha. Mas o seu zumbido era tudo menos discreto e assim demos pela presença dela. Lá fomos jantando e cavaqueando e ela esgueirou-se, sem que déssemos por isso, para onde entendeu. E não é que ela entendeu vir instalar-se no meu quarto, Querido Diário?! Percebi-o há algumas horas quando o vim arrumar. Pois vou relatar-te onde reside o estranho de toda esta façanha; a cabrona já me entrou três vezes no quarto depois de eu a ter, com modos e delicadeza, expulsado do mesmo. É estranho, garanto-te. Tenho-lhe aberto a porta, espero que ela se decida a sair, vejo-a sair, fecho a porta e passados uns minuto já cá zumbe outra vez. Anda a passear-se à minha frente, por cima da minha cabeça. Já embateu numa das minhas orelhas. Não percebo como é que ela consegue voltar a entrar. A porta está fechada, a janela também. Antes de confirmar que esta última estava fechada, pensei até que ela tivesse ido dar a volta por fora do prédio e tivesse voltado a entrar pela janela do quarto. Mas não, a janela e o estore estão fechados. É impossível. A não ser que ela esteja a entrar pela fechadura da porta do quarto. Agora calou-se. Vou ver se a vejo.
(2 minutos depois)
Nem sinal da safardana. Escapuliu-se. Eu ainda não te disse, Querido Diário, mas esta situação está a intrigar-me duplamente, por um lado, é o mistério da entrada e saída da intrusa e, por outro lado, é a ansiedade que a sua presença me provoca ao conceber a possibilidade de vir a ter uma visita. Se a houver, deve ser para mim. É no meu quarto que a magana anda a intrometer-se, certo? Quem poderá ser a visita, pergunto-me eu? Não espero alguma, não me parece que haja alguém arrojado o suficiente para me vir visitar às duas da manhã, embora eu até pudesse achar piada. Bom, é melhor não pensar mais nisto. A Mosca da Visita até parece ter-se evaporado. Mais uma desilusão. Pfff, buhhhh, mosca de merda.
“Visitas, visitas há muitas visitas. Que enchem os sonhos, os meus e os teus. São endiabradas e muito animadas. Depois vão-se embora sem dizer adeus”.
Querido Diário, queria dar-te os parabéns pelo teu primeiro ano de existência, queria agradecer-te também por tudo o que tens sido para mim (tu sabes o que tens sido), e queria congratular-nos a nós os dois pela nossa bonita história de amor. Apaixonámo-nos um pelo outro, não foi? Tem sido muito bonito/eficaz o nosso namoro. Queria agradecer também aos nossos visitantes, que com, frequência e algumas palavras bonitas, têm vindo dar eco e partilhar o nosso prazer de estarmos aqui um para o outro e para as palavras. Parabéns a todos nós. Obrigado a todos nós, sejamos nós quem formos!
3:33: adoro capicuas, vou regressar ao diário da Virginia. Ela também devia gostar muito do seu diário, embora não o tratasse por Querido Diário. Nem sempre as pessoas são capazes de usar as palavras para exprimir o bem que querem a alguém/algo. Aprendi isso recentemente. Não concordo mas aprendi. Não pratico mas aprendi. Não sei (con)viver com isso mas aprendi. Tenho pena mas aprendi. É preciso aprender a ler todos os dias. Quem não o faz está de costas viradas para a vida. É por isso que eu aprendi. Li, ao ralenti, mas li. Tarde mas li. E ler é aprender. Sempre, ler é aprender. Ler é aprender a viver.
Sunday, November 06, 2005
in vino veritas
domingo bom, acesso ao meu diário em casa do miguel (meu querido diário, meu querido miguel), feira de vinhos na antiga fil, bons vinhos, bons queijos, boa coisa esta de ter língua, língua acesa, adoro a palavra língua, adoro ter língua, adoro adorar. não estou exactamente feliz mas estou bem. estou em conformidade (como hoje disse à isabel e ao rogério quase no fim das múltiplas provas na dita ex fil), estou bem. não me canso disto porque gosto de aqui andar. diverte-me. percebi há pouco: não desisto (morte provocada) porque estou muito entusiasmado com a minha cabeça, surpreende-me, quero usufruir de tudo o que esta ainda tem para me dar. todos os dias me surpreendo com a minha cabeça. é um previlégio viver na mesma. modéstias à parte. tenho a cabeça às portas da poesia: é uma grande felicidade/responsabilidade. posso ter muito pouco mas tenho a minha sensibilidade/imaginação. seria um crime subaproveitar isso. a minha cabeça ainda está a meio. sei que ainda há muito por navegar. gosto disto: desafiar o tempo, beijar bocas pela primeira vez, sentir os meus próprios sentidos, pensar onde ninguém mais pensa (é verdade, eu sei que sim), cantar, procurar o amor, o embate dos corpos que não se conhecem mas que se ligam como se o tempo não existisse, gosto de improvissar sentimentos, conhecimentos e situações. ser desregrado, não é mal de todo. aprender a rir é abrir todo o tipo de fronteiras. eu sou o meu próprio livre comércio. sou capaz de perodar toda a gente. já sou capaz de conceber a possibilidade de me perdoar. desculpo-me menos. música. "i'm hung up". viva. viva. viva: a Herdade Esporão, a carne alentejana, o Pêra Manca, a Barca Velha, o molho Pesto (sei fazer mas nunca fiz), o Chutney de Manga, a Sandeman, o Porto de 40 Anos, a Simara Patrícia, os Abelhudos, os Mexilhões, os Gandulos, o "redículo", os direitos autorais, as palhaçadas todas. adoro ser palhaço. adoro os palhaços que me acompanham. Viva a Madonna. "time gos by so slowly for those who wait". viva o viva. viva viver. hoje sou este. amo a dialéctica. (nem vou reler o que escrevi para corrigir as eventuais gralhas, estou-me a cagar. hoje ESTOU-mE A CAGAR. QUE SE FODA, QUE SE FODA. QUERO É DANÇAR. EU QUERO É DANÇAR!)
Wednesday, November 02, 2005
ontologia 1
não fujo, corro;
boca desperta, mãos mais ou menos competentes, pés mais ou menos assentes, na bífida linha do tempo.
não fujo, corro;
estou aqui. aqui por mim, enquanto a minha cabeça não se extinguir e equanto houver quem queira ver-me partir e chegar dos meus périplos pelas orgias das palavras.
não fujo, corro;
vicioso e furioso, sou assim, o lascivo e cinético praticante da minha própria heterodoxia.
não fujo, corro;
rasgo o interstício entre a luz e a escuridão para poder acordar nuns braços que cheirem a carne acabada de queimar pelo suor que nasce a dois.
não fujo, corro;
procuro notícias de mim, penso-me durante, escrevo-me depois, morro-me ontem.
não fujo, corro;
nasço-me em cada passo que dou, endureço-me na constância da passada, trabalho-me na corrida: a minha obra é uma ejaculação pensada da vida.
boca desperta, mãos mais ou menos competentes, pés mais ou menos assentes, na bífida linha do tempo.
não fujo, corro;
estou aqui. aqui por mim, enquanto a minha cabeça não se extinguir e equanto houver quem queira ver-me partir e chegar dos meus périplos pelas orgias das palavras.
não fujo, corro;
vicioso e furioso, sou assim, o lascivo e cinético praticante da minha própria heterodoxia.
não fujo, corro;
rasgo o interstício entre a luz e a escuridão para poder acordar nuns braços que cheirem a carne acabada de queimar pelo suor que nasce a dois.
não fujo, corro;
procuro notícias de mim, penso-me durante, escrevo-me depois, morro-me ontem.
não fujo, corro;
nasço-me em cada passo que dou, endureço-me na constância da passada, trabalho-me na corrida: a minha obra é uma ejaculação pensada da vida.
Sunday, October 30, 2005
vícios
o meu grande vício é a humano-degustação.
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Tuesday, October 25, 2005
excertos da uma das minhas novas paixões
"não somos simples, como os nossos amigos gostariam que fôssemos para irmos ao encontro da necessidade que têm de nós. e, no entanto, o amor é simples."
"é tão estranho ser-se reduzido por alguém a uma única pessoa."
"As Ondas", de Virginia Woolf
Féfé: o livro é teu. é um daqueles que trouxe na passagem por tua casa. agora tenho de te comprar um novo porque este exemplar, à força de tanto ser amado, está todo sublinhado a caneta e com nódoas do intenso folhear. obrigado.
"é tão estranho ser-se reduzido por alguém a uma única pessoa."
"As Ondas", de Virginia Woolf
Féfé: o livro é teu. é um daqueles que trouxe na passagem por tua casa. agora tenho de te comprar um novo porque este exemplar, à força de tanto ser amado, está todo sublinhado a caneta e com nódoas do intenso folhear. obrigado.
Thursday, October 20, 2005
a entrevista onanista
o perguntador virtual: O que estás a fazer?
onan: A mastigar um "Mars Delight", a ouvir o "Black or Blue" dos Suede e a responder-te.
o perguntador virtual: Em que é que estás a pensar neste momento?
onan: Estou a pensar em responder-te. É para isso que aqui estamos, certo?
o perguntador virtual: Quem faz as perguntas sou eu. Estás a pensar em alguém?
onan: Não exactamente. Bem, talvez esteja a pensar numa pessoa que ainda não conheço efectivamente. Mas como ainda não conheço essa pessoa não me permito pensar muito sobre ela.
o perguntador virtual: Como te sentes hoje?
onan: Sinto-me entusiasmado, algo cansado, apreensivo, um pouco ansioso mas leve.
o perguntador virtual: Sentes-te apreensivo e leve ao mesmo tempo?
onan: Sim. Não me parece que a apreensão e a leveza sejam estados antagónicos e incompatíveis. Mesmo que o fossem, em mim seria possível a sua "pacífica" convivência. Sou antagónico por natureza e militância.
o perguntador virtual: Por militância? Defendes isso?
onan: De certa forma sim. Foi algo que tive de aprender a aceitar em mim e a tirar daí o devido proveito. Por vezes é muito útil esse antagonismo de estados interiores. Provoca-me o ímpeto da criação. Ajuda-me a pensar mais longe. Ajuda-me a surpreender-me.
o perguntador virtual: É muito importante para ti a surpresa? Precisas de te surpreender?
onan: Sim, muito. Mesmo quando me surpreendo negativamente. A surpresa, quanto a mim, está ligada à cinestesia. Eu preciso de me sentir em contínuo movimento. E é isso que também me liga às pessoas. Para me manter ligado a alguém, tenho de sentir no outro essa mesma ligação cinética. Cinética entre ambos e também de cada uma das partes consigo mesma. Sou incapaz de me manter ligado a uma pessoa que não se surpreenda a si mesma. Não consigo estabelecer contacto com pessoas que (se) pararam.
o perguntador virtual: Tens, então, uma fixação pela velocidade?
onan: Acabo por ter. Mas isso não é o mais importante, ou seja, esse não é o todo, é uma parte. Gosto da velocidade no sentido em que esta é uma fracção do movimento. Tento a todo o custo não confundir velocidade com o movimento em si. É um trabalho que tenho vindo a fazer comigo. O movimento não é apenas velocidade, é muito mais do que isso.
o perguntador virtual: Então, não vives a máxima do "live fast and die yong"?
onan: (risos) Depende das alturas. Há alturas em que vivo, há outras em que vivo quase o oposto. Sabes, durante muito tempo eu acreditei piamente que iria morrer muito jovem. Segundo as minhas previsões, nunca teria passado dos vinte cinco anos. Não no sentido de viver uma vida muito veloz e intensa que me levasse a uma inevitável e prematura morte. Eu acreditava de facto que irira morrer muito novo. Pelos visto não aconteceu. No início de 2004 fui a um astrólogo e ele disse-me que eu iria ter uma vida muito longa. Segundo ele, ainda teria pela frente mais de sessenta anos de vida. Eu rebentei a rir e disse-lhe que sempre tivera o pressentimento que iria morrer muito novo. Segundo esse pressentimento até já deveria estar morto. Aí foi ele quem se riu, disse-me "Todas as pessoas que têm uma vida muito longa definida na sua carta astral sentem isso". Não sei se irei de facto viver mais sessenta e tal anos mas, na verdade, a sensação que tinha anteriormente desapareceu. Provavelmente acabei por acreditar mais no astrólogo do que eu mesmo pretendia. Em todo o caso, ele disse-me que iria ter uma vida repleta de sucesso profissional e realização pessoal. Falou mesmo em "fame and fortune". Cá estarei para ver. Espero que ele não se engane. Até agora não tenho visto muita concretização da previsão por ele adiantada. Em todo o caso, ele disse que seria a partir dos trinta. Curiosamente, a partir dessa altura fiquei com uma enorme vontade de entrar na terceira década de existência. E de qualquer forma, seria muito útil ter uma vida, já que supostamente longa, repleta de realização. Caso contrário seria muito aborrecido e cruel. Acho que se assim fosse preferiria gastar logo os cartuchos todos e morrer novo.
o perguntador virtual: E tens gasto muitos cartuchos?
onan: (risos) Tenho gastos alguns, tenho de admiti-lo.
o perguntador virtual: E como é que imaginas que vais viver a tua entrada na "terceira década de existência"?
onan: Desde que fui ao astrólogo deixei de fazer previsões. Ele é que é pago para as fazer. Tenho consultá-lo no princípio do próximo ano. Mas gostava muito de fazer trinta anos em plena Djemaa el-Fna, rodeado das pessoas que amo. Seria algo de muito forte, certamente. E uma óptima forma de entrar na dita terceira década.
o perguntador virtual: E quais são as coisas mais gostarias que te acontecessem ne terceira década?
onan: Na primeira metade gostaria de emigrar. Gostaria de voltar a estudar mas fora de Portugal. Na segunda metade gostaria de ter um filho, de preferência fora de Portugal. Não quero dar a um futuro ser a fatalidade de nascer português, hoje em dia não faz sentido. (risos)
o perguntador virtual: O que é que te leva a querer ter um filho? Tens assim tanta necessidade de te perpetuares?
onan: Tem muito pouco de Batailliano essa minha vontade, no sentido de combater a descontinuidade inerente a qualquer humano. Essa vontade tem a ver com o amor. Está ligada à grande necessidade de passar pela experiência da vida e usufruir de um tipo de amor que, quanto a mim, é superior e incomparável. O amor por um filho; adivinho-o como sendo a forma de amor mais completa. E eu não quero morrer sem viver esse grande amor. Sabes, o maior momento que felicidade que experimentei em toda a minha vida foi num sonho. Houve um dia, há uns anos atrás, não sei precisar quantos, em que acordei a chorar copiosamente. Estava a sonhar que tinha um recém-nascido nos braços e que era meu filho. Nunca fui tão feliz como nesse momento vivido num sonho. Senti todas essas coisas que acabo de defender. Vivi a monumentalidade desse amor, puro, interior, ancestral, infinitamente humano. Percebi que teria de viver esse momento. Sei que serei incompleto se não conseguir realizar, no sentido literal, esse sonho. Tenho é de me amar de uma forma mais assertiva antes de me lançar nessa jornada. E claro, encontrar a parturiente adequada: mãe.
Fim da 1ªa Parte. A ser retomada, quando perguntador e perguntado a isso se dispuserem.
onan: A mastigar um "Mars Delight", a ouvir o "Black or Blue" dos Suede e a responder-te.
o perguntador virtual: Em que é que estás a pensar neste momento?
onan: Estou a pensar em responder-te. É para isso que aqui estamos, certo?
o perguntador virtual: Quem faz as perguntas sou eu. Estás a pensar em alguém?
onan: Não exactamente. Bem, talvez esteja a pensar numa pessoa que ainda não conheço efectivamente. Mas como ainda não conheço essa pessoa não me permito pensar muito sobre ela.
o perguntador virtual: Como te sentes hoje?
onan: Sinto-me entusiasmado, algo cansado, apreensivo, um pouco ansioso mas leve.
o perguntador virtual: Sentes-te apreensivo e leve ao mesmo tempo?
onan: Sim. Não me parece que a apreensão e a leveza sejam estados antagónicos e incompatíveis. Mesmo que o fossem, em mim seria possível a sua "pacífica" convivência. Sou antagónico por natureza e militância.
o perguntador virtual: Por militância? Defendes isso?
onan: De certa forma sim. Foi algo que tive de aprender a aceitar em mim e a tirar daí o devido proveito. Por vezes é muito útil esse antagonismo de estados interiores. Provoca-me o ímpeto da criação. Ajuda-me a pensar mais longe. Ajuda-me a surpreender-me.
o perguntador virtual: É muito importante para ti a surpresa? Precisas de te surpreender?
onan: Sim, muito. Mesmo quando me surpreendo negativamente. A surpresa, quanto a mim, está ligada à cinestesia. Eu preciso de me sentir em contínuo movimento. E é isso que também me liga às pessoas. Para me manter ligado a alguém, tenho de sentir no outro essa mesma ligação cinética. Cinética entre ambos e também de cada uma das partes consigo mesma. Sou incapaz de me manter ligado a uma pessoa que não se surpreenda a si mesma. Não consigo estabelecer contacto com pessoas que (se) pararam.
o perguntador virtual: Tens, então, uma fixação pela velocidade?
onan: Acabo por ter. Mas isso não é o mais importante, ou seja, esse não é o todo, é uma parte. Gosto da velocidade no sentido em que esta é uma fracção do movimento. Tento a todo o custo não confundir velocidade com o movimento em si. É um trabalho que tenho vindo a fazer comigo. O movimento não é apenas velocidade, é muito mais do que isso.
o perguntador virtual: Então, não vives a máxima do "live fast and die yong"?
onan: (risos) Depende das alturas. Há alturas em que vivo, há outras em que vivo quase o oposto. Sabes, durante muito tempo eu acreditei piamente que iria morrer muito jovem. Segundo as minhas previsões, nunca teria passado dos vinte cinco anos. Não no sentido de viver uma vida muito veloz e intensa que me levasse a uma inevitável e prematura morte. Eu acreditava de facto que irira morrer muito novo. Pelos visto não aconteceu. No início de 2004 fui a um astrólogo e ele disse-me que eu iria ter uma vida muito longa. Segundo ele, ainda teria pela frente mais de sessenta anos de vida. Eu rebentei a rir e disse-lhe que sempre tivera o pressentimento que iria morrer muito novo. Segundo esse pressentimento até já deveria estar morto. Aí foi ele quem se riu, disse-me "Todas as pessoas que têm uma vida muito longa definida na sua carta astral sentem isso". Não sei se irei de facto viver mais sessenta e tal anos mas, na verdade, a sensação que tinha anteriormente desapareceu. Provavelmente acabei por acreditar mais no astrólogo do que eu mesmo pretendia. Em todo o caso, ele disse-me que iria ter uma vida repleta de sucesso profissional e realização pessoal. Falou mesmo em "fame and fortune". Cá estarei para ver. Espero que ele não se engane. Até agora não tenho visto muita concretização da previsão por ele adiantada. Em todo o caso, ele disse que seria a partir dos trinta. Curiosamente, a partir dessa altura fiquei com uma enorme vontade de entrar na terceira década de existência. E de qualquer forma, seria muito útil ter uma vida, já que supostamente longa, repleta de realização. Caso contrário seria muito aborrecido e cruel. Acho que se assim fosse preferiria gastar logo os cartuchos todos e morrer novo.
o perguntador virtual: E tens gasto muitos cartuchos?
onan: (risos) Tenho gastos alguns, tenho de admiti-lo.
o perguntador virtual: E como é que imaginas que vais viver a tua entrada na "terceira década de existência"?
onan: Desde que fui ao astrólogo deixei de fazer previsões. Ele é que é pago para as fazer. Tenho consultá-lo no princípio do próximo ano. Mas gostava muito de fazer trinta anos em plena Djemaa el-Fna, rodeado das pessoas que amo. Seria algo de muito forte, certamente. E uma óptima forma de entrar na dita terceira década.
o perguntador virtual: E quais são as coisas mais gostarias que te acontecessem ne terceira década?
onan: Na primeira metade gostaria de emigrar. Gostaria de voltar a estudar mas fora de Portugal. Na segunda metade gostaria de ter um filho, de preferência fora de Portugal. Não quero dar a um futuro ser a fatalidade de nascer português, hoje em dia não faz sentido. (risos)
o perguntador virtual: O que é que te leva a querer ter um filho? Tens assim tanta necessidade de te perpetuares?
onan: Tem muito pouco de Batailliano essa minha vontade, no sentido de combater a descontinuidade inerente a qualquer humano. Essa vontade tem a ver com o amor. Está ligada à grande necessidade de passar pela experiência da vida e usufruir de um tipo de amor que, quanto a mim, é superior e incomparável. O amor por um filho; adivinho-o como sendo a forma de amor mais completa. E eu não quero morrer sem viver esse grande amor. Sabes, o maior momento que felicidade que experimentei em toda a minha vida foi num sonho. Houve um dia, há uns anos atrás, não sei precisar quantos, em que acordei a chorar copiosamente. Estava a sonhar que tinha um recém-nascido nos braços e que era meu filho. Nunca fui tão feliz como nesse momento vivido num sonho. Senti todas essas coisas que acabo de defender. Vivi a monumentalidade desse amor, puro, interior, ancestral, infinitamente humano. Percebi que teria de viver esse momento. Sei que serei incompleto se não conseguir realizar, no sentido literal, esse sonho. Tenho é de me amar de uma forma mais assertiva antes de me lançar nessa jornada. E claro, encontrar a parturiente adequada: mãe.
Fim da 1ªa Parte. A ser retomada, quando perguntador e perguntado a isso se dispuserem.
Tuesday, October 18, 2005
retrato falhado de um espectáculo
Ela com a voz dela:
Eis que aqui me tens, toda tua, eu, eu a tua, toda aqui, para ti, para sempre. Eu à tua frente. Eu atrás de ti, eu por trás de ti. Eu a tua. Eu que cheiro a mim, a tua. Eu, aquela que se parece comigo, a tua. Eu, a mesma. A mesma que sempre fui. Eu, eu aqui e agora. A tua, sempre tua, eu. Sempre. (pausa de dois segundos)
Esta é a minha voz. A tua, a tua voz. A tua com a própria voz, a voz dela, da tua. A tua e a sua voz. Estas são as minhas palavras, este é o meu discurso. O meu. O meu da tua. O meu discurso para ti. Para ti, o teu. O teu, tu, da tua.
Este é o meu tempo, o meu, da tua. Este é o tempo prometido. Prometido por ti à tua. A tua tomou o teu tempo para a tua, eu. Eu a tua para sempre. A tua para sempre no tempo dela, com a sua própria voz, no seu próprio corpo no tempo, teu, para a tua.
Não quero que fales nem que te cales. Não te mexas e não te exales. Aproveita este tempo como se o mesmo fosse uma dádiva. Aproveita-o como se fosse o tempo que te restasse para cumprir uma hercúlea tarefa. Não penses. Ouve. Ouve a minha voz e recorda-te. Recorda-te de mim, da tua.
Chorei como uma recém nascida quando te vieste dentro de mim pela segunda vez. Chorei como se tivesse acabado de entrar no mundo. Chorei e vim-me. Tu não proferiste uma única palavra. Não esperava que o fizesses. Esperava que fizesses o que fizeste. Apagaste a luz e ouviste-me chorar até adormeceres. Chorei durante quatro horas seguidas. Amanheceu entretanto. Lembro-me de ter amanhecido. Lembro-me ter olhado para o relógio e ter pensado: “são sete e doze, acabo de fazer vinte e seis anos”.
Quem me dera morrer, pensei. Quem me dera ser a mesma que sempre pensei estar a vir a ser. Quem me dera ser a mesma que eu planeei para mim. Quem me dera ser a mesma que nunca te conheci. A mesma que encontraste em silêncio no fim da manhã de Outono da tua juventude. Quem me dera ser a mesma que quero ser. Quem me dera morrer para não ter de falar, sentir, vir-me e chorar por esta. Quem me dera morrer para nunca passar por esta. Quem me dera morrer para não ter de ser. Quem me dera morrer para parar de crescer e de ser.
Nunca te quis ver mais ou menos feliz. Nunca te quis ver diferente daquilo que sempre foste. Nunca te quis ver para além do que tinhas a mostrar-me. Nunca te quis ver doente ou são, sujo ou impoluto, pobre ou abastado. Nunca. Nunca te quis ver para além daquele que me dizia:
Ele com a voz nenhuma:
Quando eu morrer não chores, bebe mais um copo e enfia-te na cama com o primeiro que te aparecer à frente. Não percas tempo comigo, depois de morto, não valho muito, serei apenas mais um entre os muitos que te invadiram a boca.
Muda de cidade, quando eu morrer, ou de país. Talvez seja melhor ires para o outro lado do mundo, é lá que não existo. Quando eu morrer não te sentes no escuro. Abre os olhos, fareja dinheiro e torna-te naquilo que queres vir a ser. Fá-lo por mim. Fá-lo por nós. Ao fim e ao cabo foi para isso que decidimos viver de olhos postos um no outro.
Ela com a voz do mundo:
Esquecemo-nos que o amor se faz com as nossas próprias mãos.
Ele com a voz do fim do mundo:
Não, foram as nossas mãos que se esqueceram de se procurar a si mesmas.
este texto é a abertura de "Retractos Falhados do Amor", um espectáculo que talvez nunca passe de um documento word contido na pasta que diz teatro, por sua vez, contida na pasta que diz os meus documentos, todos eles pacificamente contidos num objecto que é o meu computador. a ser feito, este espectáculo é tudo menos pacífico. não foi escrito em paz.
Eis que aqui me tens, toda tua, eu, eu a tua, toda aqui, para ti, para sempre. Eu à tua frente. Eu atrás de ti, eu por trás de ti. Eu a tua. Eu que cheiro a mim, a tua. Eu, aquela que se parece comigo, a tua. Eu, a mesma. A mesma que sempre fui. Eu, eu aqui e agora. A tua, sempre tua, eu. Sempre. (pausa de dois segundos)
Esta é a minha voz. A tua, a tua voz. A tua com a própria voz, a voz dela, da tua. A tua e a sua voz. Estas são as minhas palavras, este é o meu discurso. O meu. O meu da tua. O meu discurso para ti. Para ti, o teu. O teu, tu, da tua.
Este é o meu tempo, o meu, da tua. Este é o tempo prometido. Prometido por ti à tua. A tua tomou o teu tempo para a tua, eu. Eu a tua para sempre. A tua para sempre no tempo dela, com a sua própria voz, no seu próprio corpo no tempo, teu, para a tua.
Não quero que fales nem que te cales. Não te mexas e não te exales. Aproveita este tempo como se o mesmo fosse uma dádiva. Aproveita-o como se fosse o tempo que te restasse para cumprir uma hercúlea tarefa. Não penses. Ouve. Ouve a minha voz e recorda-te. Recorda-te de mim, da tua.
Chorei como uma recém nascida quando te vieste dentro de mim pela segunda vez. Chorei como se tivesse acabado de entrar no mundo. Chorei e vim-me. Tu não proferiste uma única palavra. Não esperava que o fizesses. Esperava que fizesses o que fizeste. Apagaste a luz e ouviste-me chorar até adormeceres. Chorei durante quatro horas seguidas. Amanheceu entretanto. Lembro-me de ter amanhecido. Lembro-me ter olhado para o relógio e ter pensado: “são sete e doze, acabo de fazer vinte e seis anos”.
Quem me dera morrer, pensei. Quem me dera ser a mesma que sempre pensei estar a vir a ser. Quem me dera ser a mesma que eu planeei para mim. Quem me dera ser a mesma que nunca te conheci. A mesma que encontraste em silêncio no fim da manhã de Outono da tua juventude. Quem me dera ser a mesma que quero ser. Quem me dera morrer para não ter de falar, sentir, vir-me e chorar por esta. Quem me dera morrer para nunca passar por esta. Quem me dera morrer para não ter de ser. Quem me dera morrer para parar de crescer e de ser.
Nunca te quis ver mais ou menos feliz. Nunca te quis ver diferente daquilo que sempre foste. Nunca te quis ver para além do que tinhas a mostrar-me. Nunca te quis ver doente ou são, sujo ou impoluto, pobre ou abastado. Nunca. Nunca te quis ver para além daquele que me dizia:
Ele com a voz nenhuma:
Quando eu morrer não chores, bebe mais um copo e enfia-te na cama com o primeiro que te aparecer à frente. Não percas tempo comigo, depois de morto, não valho muito, serei apenas mais um entre os muitos que te invadiram a boca.
Muda de cidade, quando eu morrer, ou de país. Talvez seja melhor ires para o outro lado do mundo, é lá que não existo. Quando eu morrer não te sentes no escuro. Abre os olhos, fareja dinheiro e torna-te naquilo que queres vir a ser. Fá-lo por mim. Fá-lo por nós. Ao fim e ao cabo foi para isso que decidimos viver de olhos postos um no outro.
Ela com a voz do mundo:
Esquecemo-nos que o amor se faz com as nossas próprias mãos.
Ele com a voz do fim do mundo:
Não, foram as nossas mãos que se esqueceram de se procurar a si mesmas.
este texto é a abertura de "Retractos Falhados do Amor", um espectáculo que talvez nunca passe de um documento word contido na pasta que diz teatro, por sua vez, contida na pasta que diz os meus documentos, todos eles pacificamente contidos num objecto que é o meu computador. a ser feito, este espectáculo é tudo menos pacífico. não foi escrito em paz.
Tuesday, October 11, 2005
i don't wanna grow up
a verdadeira razão porque eu não desisto da ideia do amor é porque acredito que este é a verdadeira máquina de brincar.
I DON'T WANNA GROW UP
(tom Waits/k. Brennan)
When I'm Lyin' In My Bed At Night
I Don't Wanna Grow Up
Nothin' Ever Seems To Turn Out Right
I Don't Wanna Grow Up
How Do You Move In A World Of Fog
That's Always Changing Things
Makes Me Wish That I Could Be A Dog
When I See The Price That You Pay
I Don't Wanna Grow Up
I Don't Ever Wanna Be That Way
I Don't Wanna Grow Up
Seems Like Folks Turn Into Things
That They'd Never Want
The Only Thing To Live For
Is Today...
I'm Gonna Put A Hole In My Tv Set
I Don't Wanna Grow Up
Open Up The Medicine Chest
And I Don't Wanna Grow Up
I Don't Wanna Have To Shout It Out
I Don't Want My Hair To Fall Out
I Don't Wanna Be Filled With Doubt
I Don't Wanna Be A Good Boy Scout
I Don't Wanna Have To Learn To Count
I Don't Wanna Have The Biggest Amount
I Don't Wanna Grow Up
Well When I See My Parents Fight
I Don't Wanna Grow Up
They All Go Out And Drinking All Night
And I Don't Wanna Grow Up
I'd Rather Stay Here In My Room
Nothin' Out There But Sad And Gloom
I Don't Wanna Live In A Big Old Tomb
On Grand Street
When I See The 5 O'clock News
I Don't Wanna Grow Up
Comb Their Hair And Shine Their Shoes
I Don't Wanna Grow Up
Stay Around In My Old Hometown
I Don't Wanna Put No Money Down
I Don't Wanna Get Me A Big Old Loan
Work Them Fingers To The Bone
I Don't Wanna Float A Broom
Fall In Love And Get Married Then Boom
How The Hell Did I Get Here So Soon
I Don't Wanna Grow Up
GOSTO DO AMOR PORQUE AMO A IDEIA DA CO-ARQUITECTURA DA CARNE E DO DISCURSO
I DON'T WANNA GROW UP
(tom Waits/k. Brennan)
When I'm Lyin' In My Bed At Night
I Don't Wanna Grow Up
Nothin' Ever Seems To Turn Out Right
I Don't Wanna Grow Up
How Do You Move In A World Of Fog
That's Always Changing Things
Makes Me Wish That I Could Be A Dog
When I See The Price That You Pay
I Don't Wanna Grow Up
I Don't Ever Wanna Be That Way
I Don't Wanna Grow Up
Seems Like Folks Turn Into Things
That They'd Never Want
The Only Thing To Live For
Is Today...
I'm Gonna Put A Hole In My Tv Set
I Don't Wanna Grow Up
Open Up The Medicine Chest
And I Don't Wanna Grow Up
I Don't Wanna Have To Shout It Out
I Don't Want My Hair To Fall Out
I Don't Wanna Be Filled With Doubt
I Don't Wanna Be A Good Boy Scout
I Don't Wanna Have To Learn To Count
I Don't Wanna Have The Biggest Amount
I Don't Wanna Grow Up
Well When I See My Parents Fight
I Don't Wanna Grow Up
They All Go Out And Drinking All Night
And I Don't Wanna Grow Up
I'd Rather Stay Here In My Room
Nothin' Out There But Sad And Gloom
I Don't Wanna Live In A Big Old Tomb
On Grand Street
When I See The 5 O'clock News
I Don't Wanna Grow Up
Comb Their Hair And Shine Their Shoes
I Don't Wanna Grow Up
Stay Around In My Old Hometown
I Don't Wanna Put No Money Down
I Don't Wanna Get Me A Big Old Loan
Work Them Fingers To The Bone
I Don't Wanna Float A Broom
Fall In Love And Get Married Then Boom
How The Hell Did I Get Here So Soon
I Don't Wanna Grow Up
GOSTO DO AMOR PORQUE AMO A IDEIA DA CO-ARQUITECTURA DA CARNE E DO DISCURSO
estações
nunca parti, fiquei.
já há algum tempo que deixei de apreciar com exactidão qualquer uma das estações do ano. durante muito tempo detestei o verão e deliciei-me com o inverno. o verão deixava-me confuso, mentalmente irrequeito e perdido, atormentava-me. o calor empurrava-me para um território próximo da morte, cerebral mas, a seu modo, letal. o inverno embalava-me, amparava-me, aconchegava, transportava-me, em consolo e recolhimento, para uma zona aprazível de mim mesmo. depois houve o sabor da morte. não da minha morte mas da morte do outro. quando o outro morreu senti-me bem na primavera e consequentemente no verão. vivi essas duas estações, pela primeira vez em largo tempo, com fervor e histeria. foi um falso e veloz viver esse que ocorreu depois da morte.
quando caí em mim os invernos haviam passado a ser velozes e os verões fogueiras hipercinéticas de insanidade. tudo passou a ser excessivamente veloz: o verão e o inverno antípodas no frenesim, a primavera e o outono caminhos frenéticos para os mesmos.
agora que sou conceptualmente o renascimento da minha própria experiência gosto das incoveniências das estações. gosto dos interstícios imprudentes que ocorrem nas mesmas. namoro com a deliciosa forma como estas se provocam. comove-me a chuva birrenta e fria num dia de agosto e choro de calor numa tarde soalheira de janeiro.
uma das melhores recordações que trago da infância é a da extrema felicidade experimentada ao vestir mangas curtas pela primeira vez no ano.
hoje fiquei feliz com a chuva. fiquei feliz porque me pareceu que esta vinha fora de tempo. a chuva hoje foi impertinente, como as minhas vontades, veio talvez para ficar. veio quando eu menos esperava.
já há algum tempo que deixei de apreciar com exactidão qualquer uma das estações do ano. durante muito tempo detestei o verão e deliciei-me com o inverno. o verão deixava-me confuso, mentalmente irrequeito e perdido, atormentava-me. o calor empurrava-me para um território próximo da morte, cerebral mas, a seu modo, letal. o inverno embalava-me, amparava-me, aconchegava, transportava-me, em consolo e recolhimento, para uma zona aprazível de mim mesmo. depois houve o sabor da morte. não da minha morte mas da morte do outro. quando o outro morreu senti-me bem na primavera e consequentemente no verão. vivi essas duas estações, pela primeira vez em largo tempo, com fervor e histeria. foi um falso e veloz viver esse que ocorreu depois da morte.
quando caí em mim os invernos haviam passado a ser velozes e os verões fogueiras hipercinéticas de insanidade. tudo passou a ser excessivamente veloz: o verão e o inverno antípodas no frenesim, a primavera e o outono caminhos frenéticos para os mesmos.
agora que sou conceptualmente o renascimento da minha própria experiência gosto das incoveniências das estações. gosto dos interstícios imprudentes que ocorrem nas mesmas. namoro com a deliciosa forma como estas se provocam. comove-me a chuva birrenta e fria num dia de agosto e choro de calor numa tarde soalheira de janeiro.
uma das melhores recordações que trago da infância é a da extrema felicidade experimentada ao vestir mangas curtas pela primeira vez no ano.
hoje fiquei feliz com a chuva. fiquei feliz porque me pareceu que esta vinha fora de tempo. a chuva hoje foi impertinente, como as minhas vontades, veio talvez para ficar. veio quando eu menos esperava.
Friday, October 07, 2005
jdfvfvs
ksjdd fdfrfnf fdkffjff gkrfocx ddd ffffg, ggdddid xs dddf fffffffss ss sikvv ofefjndf
kddmdfnadgg dd ssodsndd.
djdfiuvgn tffifff ddssawaa...
ssjrfjiwvwrf ffafsd dssodd saqaadddcd, ssdfffkfffrf fdff f, ssdddd fffdFA!
(apetece-me muito escrever mas não tenho o que dizer. calo-me. hoje estou muito irritado, nem sei bem com o quê. vou fazer a barba e fitar-me, demorada e lascivamente, ao espelho. gosto de me engatar!)
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