Monday, December 05, 2005

o tempo que corre

tempo, tempo a rigor, rigor do tempo, corrida contra o tempo, em contratempo.
felizmente é bom este parco dominar do tempo. é tempo do trabalho, é bem empregue. faz-me bem. hoje consegui estar em sintonia com o resto do mundo. consegui usufruir de um feriado. foi bom ter tido um dia livre quando toda a gente também o teve. não tenho tido tempo livre. tenho trabalhado muito, que nem um mouro (nunca percebi muito esta ideia de que os mouros trabalham muito). estou totalmente absorvido pelo espectáculo que estou a fazer. está a dar-me um gozo tremendo. está a ser muito cansativo mas está a compensar. a absorção deve-se também ao facto de estar a acumular duas funções, trabalho como actor e simultaneamente como assistente de encenação do Manuel W..

não tenho lido, é isso que mais me tem custado. mas não tenho conseguido. chego a casa exausto depois dos ensaios, por volta da uma da manhã, e normalmente tenho sempre trabalho para fazer ainda: actualizar o plano de trabalho, ver um dos filmes da bastante rica lista que o Manuel está a utilizar como forma de pesquisa, pensar um bocado na forma como devo gerir a minha personagem, etc.

também tenho ouvido muito pouca música, à excepção das sinfonias de Beethoven. apesar de ainda ter de as ouvir mais uns quantos milhares de vezes. são matéria sacramental do espectáculo, é sobre elas que a componente musical da peça assenta, temos de cantar muitas partes ou variações que o Burgess fez das mesmas. acho que vou passar a dormir a ouvir a 5ª, a 6ª, a 7ª, a 9ª e a Pastoral em loop. a hipnoaprendizagem comigo resulta; quando era puto gravava algumas matérias para os testes e depois ouvia as cassetes enquanto dormia. resultava.

tenho fumado imenso, em excesso. passo os ensaios a fumar, ainda por cima tive a feliz ideia de estar quase sempre a fumar em cena. ontem foi o descalabro porque repetimos as minhas cenas muitas vezes e acabei o ensaio completamente intoxicado. o problema é que fora de cena também fumo que nem uma besta. devo estar a deixar-me absorver demasiado pela personagem. era só o que me faltava agora, ao fim de todo este tempo, passar a ser um praticante do “método”. não, jamais, estou demasiado consciente da impostura imanente ao teatro para que isso me ocorra.

o maldito dente problemático não me tem dado tréguas. a dor tem sido constante mas a culpa é minha. devia ter aproveitado algum do tempo livre que tive para ir ao dentista. agora vai ser difícil. vou ter de aproveitar para tratar do impertinente dente quando tiver férias entre o natal e a passagem de ano.

este ano o problema do reveillon (que é sempre um problema) está resolvido. vou estar a trabalhar, tenho um outro espectáculo marcado para essa noite. no casino da figueira da foz. agora sim, tornei-me o verdadeiro artista de variedades. já posso ir para Las Vegas. o cachet também é muito agradável. estou agora a pensar que a ida ao dentista vai ser complicada porque enquanto estiver de férias da Laranja vou estar a ensaiar esse espectáculo de reveillon. tenho de organizar isto tudo muito bem. o tempo, o magano do tempo. passei meses a olhar para o tecto sem saber o que fazer com o excesso de tempo livre e agora surge tudo ao mesmo tempo. mas esta situação é de longe muito mais agradável. quem me dera estar sempre com este problema da falta de tempo. falta de tempo é sinónimo de uma outra coisa: fluência de dinheiro. e isso é muito reconfortante. se bem que, a razoável entrada de dinheiro que vou ter nos próximos tempos já está, em grande parte, destinada a liquidar as dívidas que tive de contrair ao longo deste medonho ano de 2005. felizmente está a acabar. e felizmente está a acabar de melhor forma possível: com muito e bom trabalho. viva o trabalho, viva a falta de tempo.

recebi uma outra proposta para o princípio de 2006 mas tenho de pensar muito bem nela. é um bocado/muito radical. implica mudança temporária de continente. para já não tomo qualquer decisão, esperarei pela definição exacta da proposta. o desafio é muito grande. veremos no que isto dá.

quatro da manhã, fuck, o tempo corre. tenho de ir dormir, quero acordar cedo e ir para o escritório, ainda de manhã, adiantar coisas da promoção e postar isto que estou a escrever no diário. que falta me tens feito, meu Querido Diário.

Monday, November 14, 2005

parabéns

“tonight it’s just the two of us”, diz o Antony no final do belíssimo “fell in love with a dead boy”. estive a ouvir o “i am a bird now” antes de ouvir o “fell in love…” . amo os dois mas gosto ainda mais do primeiro, parece-me mais completo. os poemas são-me mais próximos.

estou um bocado impertinente, irrequieto, escrevi algumas palavras em cerca de seis diferentes coisas que tenho vindo a desenvolver nos últimos tempos. nenhuma foi capaz de me prender como uma determinada tarefa para a presente noite.

Volto a mergulhar na Virgínia Woolf, primeiro o diário, leio duas páginas, passo as notas que tenho vindo a tirar para um documento de Word (adoro estas minhas tentativas de meticulosidade), findas as notas, fecho o documento, regresso ao “As Ondas”. Volto a ler a passagem onde Neville descreve a morte de Percival. Hoje não, não consigo. Fecho o livro. Tenho de voltar a navegar nessas magníficas ondas durante o dia, aproveitar um qualquer dia de “Sol de Inverno”.

Penso no meu diário. Tenho saudades do meu diário. Continuo sem net em casa.

Vou dirigir-me ao meu diário (vou passar tudo isto para um cd ou disquete e amanhã injecto estas lucubrações no dito, em diferido)


Querido Diário:

Parabéns! Fizeste um ano. Creio que foi no dia oito de Novembro, não tenho a certeza, não te tenho aqui por isso não posso confirmar. Sabes, Querido Diário, ao longo deste ano tens sido um grande amigo, mais do que um grande amigo, tens sido um alicerce. Tens vindo a afirmar-te como um espelho/instrumento onde muitas vezes recorro para me poder reconhecer/afirmar.

A puta da mosca voltou. Coisa estranha está aqui a passar-se, Querido Diário, entre mim e uma mosca. É uma Mosca da Visita. Eu nunca te falei delas mas desde criança que as conheço. São umas moscas que têm o dobro do tamanho das moscas normais. Zumbem, como é compreensível, com grande impacto, ouvem-se distintamente (nem o Antony consegue abafar o zumbir desta) e são muito eficazes na afirmação da sua presença. Costumava vê-las ao Domingo, quando era criança, e a Mamã dizia-me “Hoje devemos ter visita”. E não é que isso acontecia mesmo, Querido Diário! Sempre que uma destas velhacas nos entrava pela casa adentro, era certo e sabido, tínhamos visita. Normalmente era a avó Carminha que nos vinha visitar. De modo que eu sempre tive uma relação de pueril entusiasmo com estas marotas. Houve algumas vezes em que uma sua representante apareceu e a suposta visita acabou por nunca comparecer. Foi aí que comecei a sentir o insípido sabor da desilusão.
Esta Mosca da Visita está a ser particularmente inconveniente. Foi a Rosa quem ma apresentou, enquanto estávamos a jantar. A sacanita (Mosca da Visita, entenda-se) estava escondida dentro do armário da cozinha. Mas o seu zumbido era tudo menos discreto e assim demos pela presença dela. Lá fomos jantando e cavaqueando e ela esgueirou-se, sem que déssemos por isso, para onde entendeu. E não é que ela entendeu vir instalar-se no meu quarto, Querido Diário?! Percebi-o há algumas horas quando o vim arrumar. Pois vou relatar-te onde reside o estranho de toda esta façanha; a cabrona já me entrou três vezes no quarto depois de eu a ter, com modos e delicadeza, expulsado do mesmo. É estranho, garanto-te. Tenho-lhe aberto a porta, espero que ela se decida a sair, vejo-a sair, fecho a porta e passados uns minuto já cá zumbe outra vez. Anda a passear-se à minha frente, por cima da minha cabeça. Já embateu numa das minhas orelhas. Não percebo como é que ela consegue voltar a entrar. A porta está fechada, a janela também. Antes de confirmar que esta última estava fechada, pensei até que ela tivesse ido dar a volta por fora do prédio e tivesse voltado a entrar pela janela do quarto. Mas não, a janela e o estore estão fechados. É impossível. A não ser que ela esteja a entrar pela fechadura da porta do quarto. Agora calou-se. Vou ver se a vejo.

(2 minutos depois)

Nem sinal da safardana. Escapuliu-se. Eu ainda não te disse, Querido Diário, mas esta situação está a intrigar-me duplamente, por um lado, é o mistério da entrada e saída da intrusa e, por outro lado, é a ansiedade que a sua presença me provoca ao conceber a possibilidade de vir a ter uma visita. Se a houver, deve ser para mim. É no meu quarto que a magana anda a intrometer-se, certo? Quem poderá ser a visita, pergunto-me eu? Não espero alguma, não me parece que haja alguém arrojado o suficiente para me vir visitar às duas da manhã, embora eu até pudesse achar piada. Bom, é melhor não pensar mais nisto. A Mosca da Visita até parece ter-se evaporado. Mais uma desilusão. Pfff, buhhhh, mosca de merda.

“Visitas, visitas há muitas visitas. Que enchem os sonhos, os meus e os teus. São endiabradas e muito animadas. Depois vão-se embora sem dizer adeus”.

Querido Diário, queria dar-te os parabéns pelo teu primeiro ano de existência, queria agradecer-te também por tudo o que tens sido para mim (tu sabes o que tens sido), e queria congratular-nos a nós os dois pela nossa bonita história de amor. Apaixonámo-nos um pelo outro, não foi? Tem sido muito bonito/eficaz o nosso namoro. Queria agradecer também aos nossos visitantes, que com, frequência e algumas palavras bonitas, têm vindo dar eco e partilhar o nosso prazer de estarmos aqui um para o outro e para as palavras. Parabéns a todos nós. Obrigado a todos nós, sejamos nós quem formos!


3:33: adoro capicuas, vou regressar ao diário da Virginia. Ela também devia gostar muito do seu diário, embora não o tratasse por Querido Diário. Nem sempre as pessoas são capazes de usar as palavras para exprimir o bem que querem a alguém/algo. Aprendi isso recentemente. Não concordo mas aprendi. Não pratico mas aprendi. Não sei (con)viver com isso mas aprendi. Tenho pena mas aprendi. É preciso aprender a ler todos os dias. Quem não o faz está de costas viradas para a vida. É por isso que eu aprendi. Li, ao ralenti, mas li. Tarde mas li. E ler é aprender. Sempre, ler é aprender. Ler é aprender a viver.

Sunday, November 06, 2005

in vino veritas

domingo bom, acesso ao meu diário em casa do miguel (meu querido diário, meu querido miguel), feira de vinhos na antiga fil, bons vinhos, bons queijos, boa coisa esta de ter língua, língua acesa, adoro a palavra língua, adoro ter língua, adoro adorar. não estou exactamente feliz mas estou bem. estou em conformidade (como hoje disse à isabel e ao rogério quase no fim das múltiplas provas na dita ex fil), estou bem. não me canso disto porque gosto de aqui andar. diverte-me. percebi há pouco: não desisto (morte provocada) porque estou muito entusiasmado com a minha cabeça, surpreende-me, quero usufruir de tudo o que esta ainda tem para me dar. todos os dias me surpreendo com a minha cabeça. é um previlégio viver na mesma. modéstias à parte. tenho a cabeça às portas da poesia: é uma grande felicidade/responsabilidade. posso ter muito pouco mas tenho a minha sensibilidade/imaginação. seria um crime subaproveitar isso. a minha cabeça ainda está a meio. sei que ainda há muito por navegar. gosto disto: desafiar o tempo, beijar bocas pela primeira vez, sentir os meus próprios sentidos, pensar onde ninguém mais pensa (é verdade, eu sei que sim), cantar, procurar o amor, o embate dos corpos que não se conhecem mas que se ligam como se o tempo não existisse, gosto de improvissar sentimentos, conhecimentos e situações. ser desregrado, não é mal de todo. aprender a rir é abrir todo o tipo de fronteiras. eu sou o meu próprio livre comércio. sou capaz de perodar toda a gente. já sou capaz de conceber a possibilidade de me perdoar. desculpo-me menos. música. "i'm hung up". viva. viva. viva: a Herdade Esporão, a carne alentejana, o Pêra Manca, a Barca Velha, o molho Pesto (sei fazer mas nunca fiz), o Chutney de Manga, a Sandeman, o Porto de 40 Anos, a Simara Patrícia, os Abelhudos, os Mexilhões, os Gandulos, o "redículo", os direitos autorais, as palhaçadas todas. adoro ser palhaço. adoro os palhaços que me acompanham. Viva a Madonna. "time gos by so slowly for those who wait". viva o viva. viva viver. hoje sou este. amo a dialéctica. (nem vou reler o que escrevi para corrigir as eventuais gralhas, estou-me a cagar. hoje ESTOU-mE A CAGAR. QUE SE FODA, QUE SE FODA. QUERO É DANÇAR. EU QUERO É DANÇAR!)

Wednesday, November 02, 2005

ontologia 1

não fujo, corro;
boca desperta, mãos mais ou menos competentes, pés mais ou menos assentes, na bífida linha do tempo.
não fujo, corro;
estou aqui. aqui por mim, enquanto a minha cabeça não se extinguir e equanto houver quem queira ver-me partir e chegar dos meus périplos pelas orgias das palavras.
não fujo, corro;
vicioso e furioso, sou assim, o lascivo e cinético praticante da minha própria heterodoxia.
não fujo, corro;
rasgo o interstício entre a luz e a escuridão para poder acordar nuns braços que cheirem a carne acabada de queimar pelo suor que nasce a dois.
não fujo, corro;
procuro notícias de mim, penso-me durante, escrevo-me depois, morro-me ontem.
não fujo, corro;
nasço-me em cada passo que dou, endureço-me na constância da passada, trabalho-me na corrida: a minha obra é uma ejaculação pensada da vida.

Sunday, October 30, 2005

vícios

o meu grande vício é a humano-degustação.

-----------------------------------------------------------

Tuesday, October 25, 2005

excertos da uma das minhas novas paixões

"não somos simples, como os nossos amigos gostariam que fôssemos para irmos ao encontro da necessidade que têm de nós. e, no entanto, o amor é simples."

"é tão estranho ser-se reduzido por alguém a uma única pessoa."


"As Ondas", de Virginia Woolf

Féfé: o livro é teu. é um daqueles que trouxe na passagem por tua casa. agora tenho de te comprar um novo porque este exemplar, à força de tanto ser amado, está todo sublinhado a caneta e com nódoas do intenso folhear. obrigado.

Thursday, October 20, 2005

a entrevista onanista

o perguntador virtual: O que estás a fazer?

onan: A mastigar um "Mars Delight", a ouvir o "Black or Blue" dos Suede e a responder-te.

o perguntador virtual: Em que é que estás a pensar neste momento?

onan: Estou a pensar em responder-te. É para isso que aqui estamos, certo?

o perguntador virtual: Quem faz as perguntas sou eu. Estás a pensar em alguém?

onan: Não exactamente. Bem, talvez esteja a pensar numa pessoa que ainda não conheço efectivamente. Mas como ainda não conheço essa pessoa não me permito pensar muito sobre ela.

o perguntador virtual: Como te sentes hoje?

onan: Sinto-me entusiasmado, algo cansado, apreensivo, um pouco ansioso mas leve.

o perguntador virtual: Sentes-te apreensivo e leve ao mesmo tempo?

onan: Sim. Não me parece que a apreensão e a leveza sejam estados antagónicos e incompatíveis. Mesmo que o fossem, em mim seria possível a sua "pacífica" convivência. Sou antagónico por natureza e militância.

o perguntador virtual: Por militância? Defendes isso?

onan: De certa forma sim. Foi algo que tive de aprender a aceitar em mim e a tirar daí o devido proveito. Por vezes é muito útil esse antagonismo de estados interiores. Provoca-me o ímpeto da criação. Ajuda-me a pensar mais longe. Ajuda-me a surpreender-me.

o perguntador virtual: É muito importante para ti a surpresa? Precisas de te surpreender?

onan: Sim, muito. Mesmo quando me surpreendo negativamente. A surpresa, quanto a mim, está ligada à cinestesia. Eu preciso de me sentir em contínuo movimento. E é isso que também me liga às pessoas. Para me manter ligado a alguém, tenho de sentir no outro essa mesma ligação cinética. Cinética entre ambos e também de cada uma das partes consigo mesma. Sou incapaz de me manter ligado a uma pessoa que não se surpreenda a si mesma. Não consigo estabelecer contacto com pessoas que (se) pararam.

o perguntador virtual: Tens, então, uma fixação pela velocidade?

onan: Acabo por ter. Mas isso não é o mais importante, ou seja, esse não é o todo, é uma parte. Gosto da velocidade no sentido em que esta é uma fracção do movimento. Tento a todo o custo não confundir velocidade com o movimento em si. É um trabalho que tenho vindo a fazer comigo. O movimento não é apenas velocidade, é muito mais do que isso.

o perguntador virtual: Então, não vives a máxima do "live fast and die yong"?

onan: (risos) Depende das alturas. Há alturas em que vivo, há outras em que vivo quase o oposto. Sabes, durante muito tempo eu acreditei piamente que iria morrer muito jovem. Segundo as minhas previsões, nunca teria passado dos vinte cinco anos. Não no sentido de viver uma vida muito veloz e intensa que me levasse a uma inevitável e prematura morte. Eu acreditava de facto que irira morrer muito novo. Pelos visto não aconteceu. No início de 2004 fui a um astrólogo e ele disse-me que eu iria ter uma vida muito longa. Segundo ele, ainda teria pela frente mais de sessenta anos de vida. Eu rebentei a rir e disse-lhe que sempre tivera o pressentimento que iria morrer muito novo. Segundo esse pressentimento até já deveria estar morto. Aí foi ele quem se riu, disse-me "Todas as pessoas que têm uma vida muito longa definida na sua carta astral sentem isso". Não sei se irei de facto viver mais sessenta e tal anos mas, na verdade, a sensação que tinha anteriormente desapareceu. Provavelmente acabei por acreditar mais no astrólogo do que eu mesmo pretendia. Em todo o caso, ele disse-me que iria ter uma vida repleta de sucesso profissional e realização pessoal. Falou mesmo em "fame and fortune". Cá estarei para ver. Espero que ele não se engane. Até agora não tenho visto muita concretização da previsão por ele adiantada. Em todo o caso, ele disse que seria a partir dos trinta. Curiosamente, a partir dessa altura fiquei com uma enorme vontade de entrar na terceira década de existência. E de qualquer forma, seria muito útil ter uma vida, já que supostamente longa, repleta de realização. Caso contrário seria muito aborrecido e cruel. Acho que se assim fosse preferiria gastar logo os cartuchos todos e morrer novo.

o perguntador virtual: E tens gasto muitos cartuchos?

onan: (risos) Tenho gastos alguns, tenho de admiti-lo.

o perguntador virtual: E como é que imaginas que vais viver a tua entrada na "terceira década de existência"?

onan: Desde que fui ao astrólogo deixei de fazer previsões. Ele é que é pago para as fazer. Tenho consultá-lo no princípio do próximo ano. Mas gostava muito de fazer trinta anos em plena Djemaa el-Fna, rodeado das pessoas que amo. Seria algo de muito forte, certamente. E uma óptima forma de entrar na dita terceira década.

o perguntador virtual: E quais são as coisas mais gostarias que te acontecessem ne terceira década?

onan: Na primeira metade gostaria de emigrar. Gostaria de voltar a estudar mas fora de Portugal. Na segunda metade gostaria de ter um filho, de preferência fora de Portugal. Não quero dar a um futuro ser a fatalidade de nascer português, hoje em dia não faz sentido. (risos)

o perguntador virtual: O que é que te leva a querer ter um filho? Tens assim tanta necessidade de te perpetuares?

onan: Tem muito pouco de Batailliano essa minha vontade, no sentido de combater a descontinuidade inerente a qualquer humano. Essa vontade tem a ver com o amor. Está ligada à grande necessidade de passar pela experiência da vida e usufruir de um tipo de amor que, quanto a mim, é superior e incomparável. O amor por um filho; adivinho-o como sendo a forma de amor mais completa. E eu não quero morrer sem viver esse grande amor. Sabes, o maior momento que felicidade que experimentei em toda a minha vida foi num sonho. Houve um dia, há uns anos atrás, não sei precisar quantos, em que acordei a chorar copiosamente. Estava a sonhar que tinha um recém-nascido nos braços e que era meu filho. Nunca fui tão feliz como nesse momento vivido num sonho. Senti todas essas coisas que acabo de defender. Vivi a monumentalidade desse amor, puro, interior, ancestral, infinitamente humano. Percebi que teria de viver esse momento. Sei que serei incompleto se não conseguir realizar, no sentido literal, esse sonho. Tenho é de me amar de uma forma mais assertiva antes de me lançar nessa jornada. E claro, encontrar a parturiente adequada: mãe.

Fim da 1ªa Parte. A ser retomada, quando perguntador e perguntado a isso se dispuserem.

Tuesday, October 18, 2005

retrato falhado de um espectáculo

Ela com a voz dela:
Eis que aqui me tens, toda tua, eu, eu a tua, toda aqui, para ti, para sempre. Eu à tua frente. Eu atrás de ti, eu por trás de ti. Eu a tua. Eu que cheiro a mim, a tua. Eu, aquela que se parece comigo, a tua. Eu, a mesma. A mesma que sempre fui. Eu, eu aqui e agora. A tua, sempre tua, eu. Sempre. (pausa de dois segundos)
Esta é a minha voz. A tua, a tua voz. A tua com a própria voz, a voz dela, da tua. A tua e a sua voz. Estas são as minhas palavras, este é o meu discurso. O meu. O meu da tua. O meu discurso para ti. Para ti, o teu. O teu, tu, da tua.
Este é o meu tempo, o meu, da tua. Este é o tempo prometido. Prometido por ti à tua. A tua tomou o teu tempo para a tua, eu. Eu a tua para sempre. A tua para sempre no tempo dela, com a sua própria voz, no seu próprio corpo no tempo, teu, para a tua.
Não quero que fales nem que te cales. Não te mexas e não te exales. Aproveita este tempo como se o mesmo fosse uma dádiva. Aproveita-o como se fosse o tempo que te restasse para cumprir uma hercúlea tarefa. Não penses. Ouve. Ouve a minha voz e recorda-te. Recorda-te de mim, da tua.
Chorei como uma recém nascida quando te vieste dentro de mim pela segunda vez. Chorei como se tivesse acabado de entrar no mundo. Chorei e vim-me. Tu não proferiste uma única palavra. Não esperava que o fizesses. Esperava que fizesses o que fizeste. Apagaste a luz e ouviste-me chorar até adormeceres. Chorei durante quatro horas seguidas. Amanheceu entretanto. Lembro-me de ter amanhecido. Lembro-me ter olhado para o relógio e ter pensado: “são sete e doze, acabo de fazer vinte e seis anos”.
Quem me dera morrer, pensei. Quem me dera ser a mesma que sempre pensei estar a vir a ser. Quem me dera ser a mesma que eu planeei para mim. Quem me dera ser a mesma que nunca te conheci. A mesma que encontraste em silêncio no fim da manhã de Outono da tua juventude. Quem me dera ser a mesma que quero ser. Quem me dera morrer para não ter de falar, sentir, vir-me e chorar por esta. Quem me dera morrer para nunca passar por esta. Quem me dera morrer para não ter de ser. Quem me dera morrer para parar de crescer e de ser.
Nunca te quis ver mais ou menos feliz. Nunca te quis ver diferente daquilo que sempre foste. Nunca te quis ver para além do que tinhas a mostrar-me. Nunca te quis ver doente ou são, sujo ou impoluto, pobre ou abastado. Nunca. Nunca te quis ver para além daquele que me dizia:

Ele com a voz nenhuma:
Quando eu morrer não chores, bebe mais um copo e enfia-te na cama com o primeiro que te aparecer à frente. Não percas tempo comigo, depois de morto, não valho muito, serei apenas mais um entre os muitos que te invadiram a boca.
Muda de cidade, quando eu morrer, ou de país. Talvez seja melhor ires para o outro lado do mundo, é lá que não existo. Quando eu morrer não te sentes no escuro. Abre os olhos, fareja dinheiro e torna-te naquilo que queres vir a ser. Fá-lo por mim. Fá-lo por nós. Ao fim e ao cabo foi para isso que decidimos viver de olhos postos um no outro.

Ela com a voz do mundo:
Esquecemo-nos que o amor se faz com as nossas próprias mãos.

Ele com a voz do fim do mundo:
Não, foram as nossas mãos que se esqueceram de se procurar a si mesmas.

este texto é a abertura de "Retractos Falhados do Amor", um espectáculo que talvez nunca passe de um documento word contido na pasta que diz teatro, por sua vez, contida na pasta que diz os meus documentos, todos eles pacificamente contidos num objecto que é o meu computador. a ser feito, este espectáculo é tudo menos pacífico. não foi escrito em paz.

Tuesday, October 11, 2005

i don't wanna grow up

a verdadeira razão porque eu não desisto da ideia do amor é porque acredito que este é a verdadeira máquina de brincar.

I DON'T WANNA GROW UP

(tom Waits/k. Brennan)
When I'm Lyin' In My Bed At Night
I Don't Wanna Grow Up
Nothin' Ever Seems To Turn Out Right
I Don't Wanna Grow Up
How Do You Move In A World Of Fog
That's Always Changing Things
Makes Me Wish That I Could Be A Dog
When I See The Price That You Pay
I Don't Wanna Grow Up
I Don't Ever Wanna Be That Way
I Don't Wanna Grow Up

Seems Like Folks Turn Into Things
That They'd Never Want
The Only Thing To Live For
Is Today...
I'm Gonna Put A Hole In My Tv Set
I Don't Wanna Grow Up
Open Up The Medicine Chest
And I Don't Wanna Grow Up
I Don't Wanna Have To Shout It Out
I Don't Want My Hair To Fall Out
I Don't Wanna Be Filled With Doubt
I Don't Wanna Be A Good Boy Scout
I Don't Wanna Have To Learn To Count
I Don't Wanna Have The Biggest Amount
I Don't Wanna Grow Up

Well When I See My Parents Fight
I Don't Wanna Grow Up
They All Go Out And Drinking All Night
And I Don't Wanna Grow Up
I'd Rather Stay Here In My Room
Nothin' Out There But Sad And Gloom
I Don't Wanna Live In A Big Old Tomb
On Grand Street

When I See The 5 O'clock News
I Don't Wanna Grow Up
Comb Their Hair And Shine Their Shoes
I Don't Wanna Grow Up
Stay Around In My Old Hometown
I Don't Wanna Put No Money Down
I Don't Wanna Get Me A Big Old Loan
Work Them Fingers To The Bone
I Don't Wanna Float A Broom
Fall In Love And Get Married Then Boom
How The Hell Did I Get Here So Soon
I Don't Wanna Grow Up

GOSTO DO AMOR PORQUE AMO A IDEIA DA CO-ARQUITECTURA DA CARNE E DO DISCURSO

estações

nunca parti, fiquei.
já há algum tempo que deixei de apreciar com exactidão qualquer uma das estações do ano. durante muito tempo detestei o verão e deliciei-me com o inverno. o verão deixava-me confuso, mentalmente irrequeito e perdido, atormentava-me. o calor empurrava-me para um território próximo da morte, cerebral mas, a seu modo, letal. o inverno embalava-me, amparava-me, aconchegava, transportava-me, em consolo e recolhimento, para uma zona aprazível de mim mesmo. depois houve o sabor da morte. não da minha morte mas da morte do outro. quando o outro morreu senti-me bem na primavera e consequentemente no verão. vivi essas duas estações, pela primeira vez em largo tempo, com fervor e histeria. foi um falso e veloz viver esse que ocorreu depois da morte.
quando caí em mim os invernos haviam passado a ser velozes e os verões fogueiras hipercinéticas de insanidade. tudo passou a ser excessivamente veloz: o verão e o inverno antípodas no frenesim, a primavera e o outono caminhos frenéticos para os mesmos.
agora que sou conceptualmente o renascimento da minha própria experiência gosto das incoveniências das estações. gosto dos interstícios imprudentes que ocorrem nas mesmas. namoro com a deliciosa forma como estas se provocam. comove-me a chuva birrenta e fria num dia de agosto e choro de calor numa tarde soalheira de janeiro.

uma das melhores recordações que trago da infância é a da extrema felicidade experimentada ao vestir mangas curtas pela primeira vez no ano.

hoje fiquei feliz com a chuva. fiquei feliz porque me pareceu que esta vinha fora de tempo. a chuva hoje foi impertinente, como as minhas vontades, veio talvez para ficar. veio quando eu menos esperava.

Friday, October 07, 2005

jdfvfvs

ksjdd fdfrfnf fdkffjff gkrfocx ddd ffffg, ggdddid xs dddf fffffffss ss sikvv ofefjndf
kddmdfnadgg dd ssodsndd.
djdfiuvgn tffifff ddssawaa...
ssjrfjiwvwrf ffafsd dssodd saqaadddcd, ssdfffkfffrf fdff f, ssdddd fffdFA!

(apetece-me muito escrever mas não tenho o que dizer. calo-me. hoje estou muito irritado, nem sei bem com o quê. vou fazer a barba e fitar-me, demorada e lascivamente, ao espelho. gosto de me engatar!)

Tuesday, September 27, 2005

uma imagem

cala-te de uma vez, percebe-me de lés a lés.
canta-me baixinho e deixa-me dormir aos teus pés.

imagem aspirada de um qualquer futuro

convenci-me de que serei plenamente feliz quando estiver, deliciosamente, a morrer de saudades de Portugal.

ler

quero ler para ti. quero ver-te a ouvir-me ler-te as palavras dos outros. quero recitar-te, quero embalar-te até perderes os sentidos (ou a vontade de dormir). quero ler para ti, à hora do chá, à hora certa, à hora de nunca mais de dizer adeus. quero ler para ti, nas linhas da vida, nas linhas do eléctrico, nas linhas tortas onde Deus nunca escreveu. no corpo, vou inventar, por nós, uma estratégia aí: nas palmas das tuas mãos.

tenho pressa de inverno, aqui, no epicentro das minhas recordações; quando tudo era simples e imberbe, quando tudo era solar (mesmo em dias de chuva), quando tudo era hálito e aconchego e nós tão novos. tenho pressa de inverno aqui, na memória; o inverno sabia-me bem.

procuro a forma mais acertada de me (d)escrever, para me ler-te. vou ler-me para ti em contos imaturos, neste inverno que ainda nem sequer se deu a dar.
vou (d)escrever-me em contos: dentro de pequenos chocolates, dentro de limões, dentro de rebuçados espanhóis, dentro de beringelas, dentro dos xaropoes que ainda vais tomar e dentro das noites que ainda hão-de vir.

quero ler para ti, em russo, em japonês, em sueco, em zulu e em todas as línguas que desconheço para nos podermos rir a meio, no princípio e no fim. para (r)ir durante, quero ler para ti.

há-de haver um dia em que irás encontrar o teu retrato durante um livro.

Saturday, September 24, 2005

a arte e a guerra

"pessoa sensíveis fazem massagens, não arte"
Dr Veiga dixit

Sim, isto de aqui andar sabe a ferro e sabe a fogo; carne viva, sangue frio.
Estive/estou com um abcesso. Doeu muito. Foi assim o meu início de semana (domingo, segunda e terça). Quarta-feira: jabasulide faz nada, inchaço e dor congratulam-se por existir. A minha gengiva parece explodir. Eu a imaginar que os poucos euros que tinha lá teriam de ser dolorosamente entregues na farmácia. Dito e feito; seis da tarde, o cenário insuportabiliza-se e lá vou eu a caminho das urgências do S. José. É lá que vou, como qualquer proletário, sempre que a situação o exige. E posso asseverar que as ditas exigências têm surgido nas mais variadas e absurdas situações ao longo desta quase década de estadia na grande maçã lusa. Adiante, adiante, o que interessa é que o cenário foi piorando cada vez mais. Eu a pensar que o estomatologista espanhol que me assistiu nem me iria tocar e que me iria receitar um antibiótico manhoso qualquer e que me iria despachar em dez segundos para voltar à tão animada conversa que estava a ter ao telemóvel.
Engano redondo, quando dei por mim tinha um bisturi a cortar-me a gengiva e os dedos do espanhol a espremerem-me a purulenta protuberância. Ainda teve a lata de me perguntar se me estava a doer. Eu rugi e pisquei os olhos como que a dizer: "não, estou óptimo, continua lá com a tortura que eu cá me irei aguentando à bomboca". E aguentei-me de facto, porque apesar de ser um pleno praticante do verbo lamuriar, a verdade é que, no que à dor física diz respeito, sou bastante resistente. Quanto às dores metafísicas, aí o caso muda bastante de figura. Convenci-me de que sou uma pessoa sensível. E é para chegar a este ponto que me permiti relatar o episódio abcessal. (Para resumir: lá cuspi aquela porcaria toda, ele lá me passou a receita correspondente a uma farmácia inteira, lá deixei os euros todos na farmácia do Martim Moniz e agora tenho uma bela rotina medicamentosa que me obriga, todos os dias, a andar com dez quilos de comprimidos e elixires na mochila e a fazer combinaçãos variadas de químicos às mais absurdas horas. Iso tudo durará até à próxima quarta-feira, caso a infecção passe. Caso não passe lá terei de ir visitar o espanhol e o seu amigo bisturi).

A verdade é que a afirmação do meu caro Dr Veiga é totalmente certa. As pessoas sensíveis não devem fazer arte. Ou não se deve partir dessa premissa para se decidir enveredar pelo, já de si, bastante tortuoso caminho da arte. O artista tem de ser, acima de tudo, um guerreiro. O caminho da arte é o caminho do combate. O Dr Veiga, segundo percebi, descobriu isto aos catorze anos. Toda a sua vida, desde então, foi planeada com a tenacidade técnica de um guerreiro. Por isso ele é um artista. Ele faz a arte e não precisa dela para sobreviver. Fez-se o seu próprio mecenas. Optou por um caminho, o não sensível, que lhe permitiu ter a estabilidade e liberdade necessárias para poder criar sem tormento essencial. Eu, lerdo como sou, descobri isto aos vinte nove anos, com a ajuda do caro Dr Veiga (talvez sozinho também chegasse lá) e depois de ter os pés já muito exangues por ter enveredado pelo caminho do tormento. Creio que deve ter sido por uma questão de incultura. Se tivesse sido mais culto talvez tivesse percebido essa tão anímica relaçáo entre a arte e a guerra.

Pois, e agora?

Agora é tudo uma questão de congregação de elementos.
Tenho de reunir o que me resta e que é essencial para a guerra:
-fúria e ímpeto (detesto a palavra talento)
-domínio da expressão (sei que na maioria das propostas a que me permito o consigo ter)
-energia (é só uma questão de assertivo canalizar da mesma)
-contactos (aprofundar os que existem e perder esta porcaria deste pudor da auto-promoção)
-capacidade de trabalho (já por diversas vezes comprovei a mim mesmo que a tenho, é só uma questão de a passar a ter de forma permanente e para todo o tipo de tarefas).

Passar a ter o que não tenho e que é essencial para a guerra:
-disciplina
-persistência
-capacidade de congregação dos elementos que são essenciais para a guerra
-estrutura exterior que me permita atingir estabilidade para poder criar em liberdade
-táctica
-assertividade

Elementos exteriores à guerra e que têm de ser eliminados:
-dispersão
-auto-condescendência
-maus hábitos
-vínculo ao conceito de sensibilidade ou acertado ajuste do mesmo
-falta de concentração
-incapacidade de estabeler tarefas e devida calendarização das mesmas
-desistência
-falta ajuste ao presente
-fixação no passado e no futuro
-deixar de acreditar que me vai sair o euro milhões


As medidas estão teorizadas. A práctica urge. Serei o mesmo? A guerra e a arte o dirão. Não tenho grandes hipóteses. Até porque acho que daria um péssimo massagista; não gosto de tocar a maioria dos estranhos.

Tuesday, September 13, 2005

my mood

"I'm gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you
I'm gonna write words oh so sweet
They're gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I'll be glad I got 'em

I'm gonna smile and say: "I hope you're feeling better"
And close with love the way you do
I'm gonna sit (right) down and write myself a letter
(And make believe it came, though I know it's not the same)
And (I'll) make believe (that) it came from you"

a náusea parece estar a passar. os sonhos continuam estranhos. continuo a não conseguir ouvir música. mas tenho feito muita música, no entanto. a cabeça parece estar cheia de água. água revolta. tenho um tsunami na cabeça e um peso no coração.

i'm still here! (para o que der e vier)

sonho mau

não consigo ouvir música.
os sonhos são cada vez mais estranhos. ontem à noite sonhei que tinha tomado um veneno, para morrer. (um simulacro de um documentário que vi há uns tempos sobre um senhor francês que, na fase terminal de um tumor, decidiu cometer eutanásia). sonhei que estava a fazer o mesmo. ele teve uma morte rápida, indolor e serena; suave e bonita. morreu nos braços da mulher que amava. adormeceu nos braços dela e o coração parou de bater segundos depois. morreu embalado pelo amor dela.
ontem sonhei que tinha decidido fazer o mesmo. mas no meu sonho, eu não morria. o veneno, no meu sonho, era incapaz de me fazer adormecer. estava sozinho, depois de ter ingerido a solução, o efeito desejado não acontecia. não tinha uns braços onde pudesse adormecer para morrer serena e suavemente. instalou-se, isso sim, uma insuportável náusea. a náusea esteve comigo todo o dia. sinto que ainda não saí do sonho. e o pior de tudo... eu não morria porque não tinha uns braços onde morrer.

não consigo ouvir música. tenho um sonho mau sitiado na cabeça.
e ouvir música é para os sonhos bons. ouvir música é para me lembrar de ti.

a vida e os sonhos maus parecem ter feito um pacto estranho para me ausentar das melodias.

as melodias parecem ter feito um voto de silêncio para me fazer olhar para mim.

Thursday, September 08, 2005

fim de tarde aqui

Sempre adorei este trecho do discurso de Fedro no "O Banquete" desse grande querido Platão.

"Que entendo eu por amor? - Às acções desonestas liga-se a desonra, às boas acções liga-se o amor. Sem isto, nem a cidade, nem o indivíduo, podem fazer algo de grande ou de belo. Ouso afirmar, desta maneira, que se um homem ama e for surpreendido a cometer um delito vergonhoso, ou a suportar cobardemente um ultraje, sem que saiba defender-se, sofre menos ao ser repreendido pelo pai, por um parente, ou por qualquer outra pessoa, do que por aquele a quem ama. Verificamos, também, que um amado não ruboresce tanto como perante aquele que o ama, se por acaso é surpreendido em falta. Assim, se houvesse a possibilidade de formar uma cidade, ou um exército, composto somente por amantes e amados, obteríamos a constituição política ideal, pois teria por base o horror do vício e a emulação do bem e, se combatessem juntos, tais homens, apesar do seu reduzido número, poderiam vencer quase todo o mundo."

Faz-me sentido, esta coisa da bélica do amor. O grande problema acontece quando a guerra se instala dentro do nosso pequeno exército. Quase percebo, agora, o que é um tiro no escuro.

Tenho, de aqui e acolá, uma vontade dadaísta de presente.

Quando vi ao vivo "O Grande Masturbador", do Dali, chorei. De comoção e raiva, chorei. A comoção está explicada no próprio acto de chorar ao ter na frente uma obra que tem para mim muito significado. A raiva vem do facto de ter sido obrigado a partilhar esse mesma comoção com os outros espectadores do quadro. Construi com aquela imagem uma relação tão íntima e pessoal que quando vi o quadro rodeado de pessoas me senti invadido. Isto da partilha tem muito que se lhe diga. Esperei, meticulosamente, que todos saciassem o olhar e consegui ficar a sós, por largos instantes, com o quadro. Nessa altura chorei a sorrir. Quando me empenho, até acabo por conseguir o que quero.

Sunday, September 04, 2005

finis praxis (estilhaços)

(os seguintes poemas foram escritos em 1998 e fazem parte de um livro de poemas que intitulei de "finis praxis". há uns anos pensei ter perdido esse livro em virtude da grande incompatibilidade tida com uma certa disquete. felizmente recuperei, há pouco tempo, o livro no computador da rosa (my flat mate) visto ter sido no mesmo que se deu grande parte do processo de redacção e ela, santa alma, nunca o ter apagado. "finis praxis" não foi escrito por onan; o demónio, tal como existe no presente, ainda não havia nascido.)



estilhaço 1

fiquei sossegado
já não existia uma razão suficientemente forte
para que o meu corpo se pronunciasse.
não estava triste,
muito menos feliz,
estava intacto; sabia que era capaz de abrir os olhos.
a temperatura havia estagnado já por muitos meses.
na parede oposta à porta do quarto estava o roupeiro branco.
de noite fechava-lhe a porta para trancar o Senhor Silêncio.
nessa época só adormecia embalado pelo estrondo de lindos prédios a ruir.
.........................................................................

estilhaço 2

(para aquele que enlouqueceu antes de ter enlouquecido)

e nessas horas acesas
em que o silêncio não é mais do que uma palavra adormecida nos meus,
teus, nossos olhos.
nesse instante suspenso no fumo de um abraço
é a tua pele quem sussurra
e a minha boca pontua as frases que o teu corpo dita.
quando a cidade morre devagar somos um todo brilhante,
o teu cheiro e os meu olhos dissecam o tumulto da ruas e
inventam novas vidas para as células.
nessas horas acesas somos um universo rodopiante,
duas tranpirações herméticas numa nuvem rebelde.
dou-te o silêncio como dote.
dás-me a lua como excesso.
quando a cidade ressuscita:
tenho estrelas no ventre
e tu cantas com a voz do mar.
..................................................................................

estilhaço 3

querelle 1
o homem tem a pele azul e os testículos pesados,
de tanta ira.
o homem ainda não aprendeu a ser homem,
anda numa conturbada pesquisa.
o homem não é azul, é dourado
qual anjinho de talha.
o homem tem a boca espessa,
onde as palavras se perdem e definham.
o homem tem os mamilos rosados e duros,
pedra mármore-parte dentes molares.
o homem tem o amor bem escondido,
debaixo da língua.
o homem quer ser maldito,
como os heróis expressionistas.
o homem ainda não nasceu,
mata-se todos os dias com o mesmo sabre.
o homem navega,
nas suas próprias veias ao sabor da contracorrente.
o homem é uma visão aproximada do seu próprio sexo.
o sexo do homem é um barco:
deriva, naufraga e dorme no fundo calmo do mar.

a leitura da não escrita

às páginas que ainda não escrevi, rasguei-as. evitei o insondável confronto entre a sintaxe e a vida. cerrei os dentes; usei as mãos (pu-las à obra): estilhacei o discurso, incinerei a semântica, matei a pontuação, abortei a acentuação e vaporizei sujeitos e predicados por aí. abstive-nos da minha literacia.

aprendi a exercer o verbo na pior e mais inesperada das alturas. jamais suspeitei que o viesse a fazer. ainda agora, enquanto me penso, sou incapaz de crer que as minhas mãos possam rasgar.
rasgar páginas ainda não escritas é o pior dos meus crimes. é o mesmo que forçar-me a compreender o meu próprio coração para o poder fazer sangrar para além da sua morte.

começo a habituar-me a esta sensação de que estou constantemente a engolir torrentes de lava.

fome vulcânica: quando o cansaço me atinge de forma assertiva e feroz abro o trinco das pálpebras e a janela do quarto para deixar que os meus olhos, esses dois abutres azuis, se soltem para a incógnita da noite em busca de páginas ainda por rasgar antes da escrita.

violei-me sem dar por isso; escrevi-me depois.

esta noite não soltarei os olhos; amanhã irei acordar num oceano de tinta.

serei feliz no momento em que conseguir saborear de forma literal uma qualquer imagem.

a preguiça instalou-se nas pontas dos meus dedos e impede-me de redigir o manual de mim mesmo.

fiz-m ao contrário, perdi a praxis e este é o avesso de mim.

e o amor é uma lágrima que escorre de baixo para cima!