Sunday, May 01, 2005

lilac wine

"i lost myself on a cool damp night
gave mself in that misty light
was hypnotized by a strange delight
under a lilac tree

i made wine from the lilac tree
put my heart in its recipe
it makes me see what i want to see...
and be what i want to be

when i think more than i want to think
do things i never should do
i drink much more that i ought to drink
because it brings me back you...

lilac wine is sweet and heady, like my love
lilac wine, i feel unsteady, like my love
listen to me... I cannot see clearly
isn't that he coming to me nearly here?

lilac wine is sweet and heady, where's my love?
lilac wine, i feel unsteady, where's my love?

listen to me, why is everything so hazy?
isn't that he, or am i just going crazy, dear?

lilac wine, i feel unready for my love..."

um belo poema belamente intepretado por essa bela, a seu modo, Nina Simone

cocktail party

uma congregação mediana de criaturas em estado de permanente liquidez:

às segundas servem-se cabeças de pessoas normais em bandejas de prata e
procede-se à leitura das actas dos encontros anteriores.

às terças ri-se, caçam-se borboletas com jactos de esperma e
lêem-se cartas recusadas por antigos e eternos amores.

às quartas fala-se do futuro com saudade e
mata-se quem não vier por bem.

às quintas olha-se alguém bem fundo nos olhos e
gasta-se em carne humana o último vintém.

às sextas toca-se à porta do inimigo e
corre-se para dentro da escuridão.

aos sábados e aos domingos está-se com febre e
dá-se o que se pode ao mundo em cima do colchão.

Friday, April 29, 2005

quem me dera ser acéfalo!

Thursday, April 28, 2005

aufhebung

hoje acordei Hegeliano.
e digo, de mim para mim:
aufhebung now!!! (no interior da cabeça)

sintídoto

"quem não tem cão caça com gato!"

antídoto

"quem tem medo compra um cão!"

Wednesday, April 27, 2005

o medo

o medo de ficar. o medo de não perceber. o medo de falhar. o medo de ganhar e o medo de perder. o medo de pensar. o medo de dizer. o medo de perguntar e o medo de responder. o medo de voltar. o medo de voltar a sofrer. o medo de alucinar e o medo de o inferno prever. o medo de não ultrapassar. o medo de enlouquecer. o medo de confiar e o medo de me dar a conhecer. o medo de confirmar. o medo de querer saber. o medo de me entregar. o medo de voltar a nascer. o medo de castigar. o medo de não ver. o medo de criticar. o medo de me envolver. o medo de querer clarificar. o medo de tremer. o medo de chorar. o medo de morrer. o medo de não te poupar. o medo de não ter perceber. o medo de mal te julgar. o medo de não te compreender. o medo de te injustiçar. o medo de teres um mau ser. o medo de não me conseguir ocultar. o medo de em má hora te surpreender. o medo de querer tudo aniquilar. o medo de tudo fazer crescer. o medo de me enganar. o medo de não te conseguir ver. o medo de te obrigar. o medo de deixar de te ter. o medo do fugir constante do teu olhar. o medo do que pareces não ser capaz de dizer. o medo de te ultrapassar. o medo de te aborrecer. o medo de me saturar. o medo de seres a morte sem que eu a possa ver. o medo de te cansar. o medo de te fazer estremecer. o medo de não te conseguir suportar. o medo de te deixar esmorecer. o medo de parar. o medo de fugir a correr. o medo do que pode não ser salutar. o medo do lado de ti que me não dás a conhecer. o medo de não me conseguir calar. o medo do que há para saber. o medo do silêncio que parece cortar. o medo da ilusão que pode haver. o medo de estar a inventar. o medo de estar a subverter. o medo da história que tens para contar. o medo da tua pele quando não a posso morder. o medo da tua cabeça a funcionar. o medo da minha cabeça a conceber. o medo do fim da verdade que quero sempre reservar. o medo da mentira que pode haver. o medo de regressar. o medo de não ser capaz de adormecer. o medo do que o futuro possa vir a reservar. o medo da trama que ainda se pode escrever. o medo de ir e não querer voltar. o medo de perceber que nada me pode deter. o medo de quem possas vir a encontrar. o medo do que possas estar a esconder. o medo de estar. o medo de quem te fez doer. o medo de não te conseguir encontrar. o medo de te estar enaltecer. o medo de me estar a enfatizar. o medo de, amanhã, olhar para ti e não gostar do que vou ver. o medo de não me importar. o medo de me prender. o medo de deixar de gostar. o medo eterno de perder. o medo de me amarrar. o medo de querer viver. o medo de acordar. o medo de deixar de viver. o medo de baralhar. o medo de entontecer. o medo de me descontrolar. o medo de me estar sempre a conter. o medo de me encantar. o medo de envaidecer. o medo de mergulhar. o medo de não estar a ver o que devo ver. o medo de amar. o medo de deitar tudo a perder. o medo de respirar. o medo do anoitecer. o medo de acordar. o medo de nunca conseguir esquecer.

periodic table

Sunday, April 24, 2005

esboço retomado de Amena (work in progress 2)

Mais do que distinta, Amena, tornara-se atenta e imune à sua própria tentacularidade. Dentro de si não existia uma clara e precisa conclusão acerca do que parecia ser certo ou errado. Amena ia. Amena seguia os seus próprios instintos como se estes de carícias se tratassem. Havia perdido o contacto com o próprio tacto e essa mesma perda passara a tornar-se o refúgio que, além de muito desejado, se mostrara inevitável.
No preciso momento em que deu à luz decidiu deixar de ouvir para sempre. A excepção, firmemente firmada dentro de si, abriu-se apenas para o pequeno ser que as suas entranhas haviam acabado de jorrar. O pequeno ser chorou e Amena chorou com ele. A partir desse instante todo o mundo se tornou um massa inaudível para ela. Decidiu: "a partir de hoje só a ti ouvirei".
contexto:
Inventei a Amena há cerca de dez anos. Esbocei-a em apenas uma página num livro em branco que alguém me ofereceu porque achava que eu iria ser escritor. Escrevi muitas coisas nesse livro em branco e depois, em manifestação lírico-imberbe, queimei-as. Creio que não queimei o primeiro esboço de Amena. Mas não sei onde pára a ruína desse livro em branco. Anyway; a Amena nasceu de uma imagem que me surgiu do nada aos dezoito anos: uma jovem mulher a afastar-se, num descampado, de uma tenda de circo em chamas. A mulher leva nos braços um recém nascido. Ouvem-se cães a ladrar. A mulher chora em silêncio enquanto caminha. A mulher chama-se Amena. A mulher chama-se Amena porque está aliviada.
Hoje a Amena voltou e eu voltei para ela.
Bem-vinda sejas, Amena!

Saturday, April 23, 2005

eager

it took me half a second to cut my head off
will take me a lot longer to feel clean
although this body stabs itself
deep inside i'm a libertine

i had to face that our love was dead, when
i found your childish secrets on that shelf
i always felt you were a cheating coward
i hate you as much as i love myself

i hate you as much as i love myself

i beg for silence
i need to rest
i slept with everyone that crossed my way
some of them tryed to give me comfort
but none of them made me feel okay

so give me time and give me space
i'm really eager to find my place
among the human race
among the human race

well, i'm writing a diary
you'll read it some day
you'll see paranoia in my dna

a diary for you to read some day
i'm a libertine
blame my dna

so give me time and give me space
i'm really eager to find my place
among the human race
among the human race

(letra de Onan para canção homónima da sua banda; NUDE)

Wednesday, April 20, 2005

tinha um cravo no meu balcão

"Tinha um cravo no meu balcão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- Mãe, dou-lho ou não?


Sentada, bordava um lenço de mão;
Veio um rapaz e pediu-mo
- Mãe, dou-lho ou não?

Dei um cravo e dei um lenço,
Só não dei o coração;
Mas se o rapaz mo pedir
- Mãe, dou-lho ou não?"

Eugénio de Andrade

Hoje estava a lavar os dentes e lembrei-me deste poema. Conheço este poema há tantos anos que nem consigo saber há quantos. Surgiu-me este poema do nada, hoje a lavar os dentes, e, pela primeira vez, sinto que o senti verdadeiramente. Até agora, este poema, era apenas um texto que havia sido usado num espectáculo que fiz na minha adolescência. Era apenas uma memória dos tempos da escola secundária e do clube de teatro. Era uma memória dos tempos em que as palavras ainda não estavam suficientemente abertas. No dito espectáculo este poema era interpretado como uma cantilena. Lavei os dentes e revivi essa mesma cantilena. Hoje lavei os dentes e matei a cantilena; senti o poema aqui.

Tuesday, April 19, 2005

mercado negro das palavras

vem, com toda a tua subtileza e pés de algodão, procurar-me. vem, para que me possas listar. sou eu, o mesmo, quem encontrarás. o mesmo de sempre, perdido entre armaduras assimétricas enferrujadas e sinais mal formados do amanhã, rendido e vendido em saldos num mercado qualquer.
vais encontrar-me ainda acordado, sujo e sem pele na ponta dos dedos, no mercado negro das palavras que és incapaz de dizer. eu sou o comprador compulsivo, o abutre, o somítico previdente, que percorre uma a uma todas as línguas à procura da palavra última. sou quem compra as palavras acabadas de pensar. sou eu o coleccionador destemido/infantil que não consegue acabar o seu próprio jogo. vais encontrar-me cinzento e mudo no mercado negro das palavras.
já estive algures. já fui longe para poder chegar até aqui. já vi morrer muitas musas e muitos poetas. já bebi muita tinta. já cortei muitas vezes as pontas dos dedos, à força de tanto dormir com papel.
conheço-te bem: és metatangencial. és palavras que ainda não comprei, palavras ainda não pensadas. és o antes das palavras.
conheço-te mal: não te posso comprar. não estás à venda. não proferes.
conheço-te como posso: na pontuação. no fim das frases. nos gritos que não concebes. na voz que evitas ter. na preguiça do dizer. no olho clínico onde vives: no mercado negro do olhar.
vem e procura-me, agora, nas palavras que ainda não te foram apresentadas. vem listar-me no abismo último da sintaxe. vem surpreender-me no acto da compra. vem observar-me nesta busca. vem mirar-me nesse ritual onde me vendem ao calhas palavras que espero serem de ti. vem ouvir-me na compra da tua própria voz.
vem destruir-me tudo isto, em silêncio e em fúria, para que me possas calar.

Saturday, April 16, 2005

statement

STATEMENT

The World Is Cursed By Three Major Plagues:

  • First Plague

The World Is Cursed By A Plague Called IDENTITY

  • Second Plague

The World Is Cursed By A Plague Called GOD

  • Third Plague

The World Is Cursed By A Plague Called LOVE

(the word PLAGUE can also be understood as a synonym of the word LIE. in fact, if you replace the word PLAGUE for the word LIE the meaning of this statement will remain exactly the same)

regresso

duas semanas sem internet. fiquei privado do meu diário. nervos e ansiedade com uma frequência algo intermitente mas suficientemente perturbadora. voltas e voltas dentro da cabeça; regresso às mesmas coisas.

comecei a escrever uma nova peça de teatro. parei de escrever uma nova peça de teatro. a peça que dei por mim a escrever não era a mesma que tinha começado. gosto do bocado da peça que acabei por escrever. não sei como a hei-de continuar a escrever. a peça é estranha, ainda não a sinto. sei que a peça vai ser. hei-de voltar a ela.
preciso de voltar a entrar no meu diário. há trabalho a fazer no meu diário. há trabalho a fazer aqui. há trabalho a fazer em todo o lado. há trabalho a fazer nos dias e nas noites, na ausência e na presença. há trabalho a fazer na memória, na epiderme, na estima, nas palavras, nos encontros e na razão. há trabalho a fazer na imaginação. há trabalho a fazer no silêncio. há trabalho a fazer no querer e na forma de querer. há trabalho a fazer no eu. há trabalho.
os regressos nunca me foram fáceis nem confortáveis. nunca. sempre me intimidaram os regressos e os reencontros. mesmo que o regresso fosse para algo, algum sítio, ou alguém totalmente próximo. na verdade os regressos sempre me foram embaraçosos. é nessas situações que a minha timidez toma proporções desmesuradas, não sei como agir. fico bloqueado, pareço perder toda a proximidade com o outro (coisa, sítio, situação, pessoa). pareço voltar à estaca zero. os regressos embaraçam-me porque os sinto como reconquistas. não sei lidar com esses elementos: partidas e chegadas. não gosto de ter de lidar com esses elementos. gosto da ideia de perenidade mas à medida que vou vivendo e passando pelas mais diversas situações vou sendo obrigado a desenvolver em mim um não regresso a essa mesma ideia. é um exercício que tenho de fazer. e há territórios do viver em que essas questões são de uma importância cimeira.
não gosto de brindes. os brindes também me embaraçam, não sei porquê. embaraçam-me. detesto brindes.
voltar ao meu diário é voltar à escrita/contabilidade de mim. é voltar a este transporte.
sonho frequentemente com comboios. na maior parte das vezes não os consigo apanhar. também me acontece sonhar que estou dentro de um comboio e que, pelas mais diversas razões, sou impedido de sair na minha estação de destino. a interpretação parece-me excessivamente óbvia; desinteressante.
a idade fornece-nos uma grande responsabilidade: saber para onde foi aquela parte de nós que nos facilitava o agir. aquela parte de nós que tratava de nos ligar e corresponder sem atrito ao que se apresentava externo às nossas vontades e expectativas. gostava de recuperar o conforto da objectividade. gostava de recuperar a puberdade da minha subjectividade. gostava de reentrar nessa ausência de know-how. lembro-me de ser uma pessoa mais fácil. lembro-me de sentir a subjectividade como algo que me havia sido fornecido mas que carecia de um manual para que a mesma pudesse ser usada na plenitudade da sua verve. os artistas não fazem mais do que tentar redigir o manual da sua subjectividade. no meu caso essa tentativa é sempre endógena. sou um artista muito pouco efectivo. confundo sempre o manual com o resultado. e tomo a redacção como se esta fosse o fim único da vida.
ainda estou embaraçado por ter regressado ao meu diário. é uma questão de tempo! há muita coisa que é uma questão de tempo! o tempo é a questão de muita coisa! o tempo é muita coisa! o tempo é coisa! o tempo é! o tempo serve para tudo! o tempo às vezes sabe a nada!
Voltei.

Friday, April 08, 2005

Nude a banda de Onan

Caros Onanistas:
Nude, para quem não conhece, é a banda onde sou vocalista, encontra-se apurada na primeira fase de um concurso de bandas que a Super Bock está a promover. Este concurso (Super Bock Preload) tem como finalidade apurar uma banda portuguesa para constar no cartaz do festival Super Bock Super Rock e, como tal, tocar ao vivo no dito evento.
Peço-vos então, grandes querid@s, que apoiem os Nude e participem na votação on line. Basta irem a: http://www.superbock.pt/preload/
-Clicam onde diz VOTAÇÃO ON LINE
-Clicam depois em VOTA AQUI
-Preenchem os dois primeiros campos (Nome e Email)
-Clicam em CONTINUAR
-Na lista de músicas procuram as nossas duas canções: "Inside" e "Bitterblue" (números 145 e 146)
-Podem ouvir as canções ao clicar em PREVIEW
-Para votar basta clicar em VOTAR
-Clicam em CONCLUIR
-Depois será enviado para a vossa caixa de email um mail da Superbock para que realizem a confirmação do vosso voto.
E prontosssss, plane as that!
Espero que adiram. A malta precisa MESMO de um avultado número de votos. A votação é até dia 15 de Abril.
Os Nude contam convosco.
Aproveito também para vos informar que os NUDE vão tocar ao vivo no Santiago Alquimista no dia 14, 5ª feira, a partir das 22h. Iremos estrear o nosso novo tema SEX VOODOO. Apareçam e espalhem estas informações pelos vossos contactos. Temos de ser uns para os outros.
Cheers, Onan

Monday, April 04, 2005

Polaroid

Eram a mesma face da mesma moeda,
entre eles corria um rio.
Um era a lentidão em pessoa,
o outro era um lobo com cio.

Monday, March 28, 2005

ordem

Quero desafios!!!

Saturday, March 26, 2005

parte-a-parte 2: resposta ao comentário/desafio de Madame

cópia de comentário/desafio de Madame:

Madame said...
Bom, acho uma falta de chá estar a lançar também desafios, mas pronto, Madame é compreensiva. Um trio de palavras sugestivas para os seus devaneios: dever, deveras, devorar. Beijinho chique.
7:12 PM




resposta/composição de Onan:

era um tempo de pombas e fábulas
e telefones de brincar;
tempo sem ter ou dever,
um tempo circular.

era um tempo malandro,
tempo abutre a devorar,
com farpas e pestes.
era um tempo militar.

era um tempo sumido,
tempo regra a quebrar,
com jornadas esperma,
era um tempo a cantar.

era um tempo redondo, o sorriso
feito, pedra, tumular;
era um tempo narciso,
tempo deveras circular.


Friday, March 25, 2005

parte-a parte 1: resposta ao comentário/desafio de Gonn1000

cópia do comentário/desafio de Gonn1000:

gonn1000 said...
Pois pois, boa forma de conseguir comentários...Mas não seja por isso: "Eu estive aqui. gonn1000."

Palavras?? Hmmmm..."Becoming X", "Splinter" e "Bloodport". Acho que estas devem sugerir qualquer coisa por estas paragens...
10:07 AM
gonn1000 said...
Correcção: "Bloodsport".
10:08 AM


resposta/composição de Onan:

Não escolhi um sequer. Não fui. Não sei se deveria ter ido. Quando vou escolho sempre um e levo-o comigo. Já cheguei a levar os três. Se tivesse ido, desta vez, não sei qual teria escolhido. Talvez o segundo. O terceiro seria impossível. Não tem estado acessível. Tem estado apartado de mim; camuflado entre os escombros do meu quarto. Sei que não o conseguiria encontrar se o tivesse querido levar comigo. Isto, claro, se tivesse chegado a ir.
Lembro-me de pelo menos duas vezes em que fui com o primeiro (o terceiro ainda não existia). Foram duas belas vezes, essas. Fomos inseparáveis; eu e o primeiro. Fomos inseparáveis no autocarro, no comboio e no barco. Sim, porque quando vou não vou sempre da mesma forma. Mas, no matter how, um deles vai sempre comigo.
O segundo é o que me tem acompanhado mais. Tem-me acompanhado muito. Muito mesmo. Tem-me acompanhado na vida. Andava muito próximo dele quando comecei a viver o amor. Ele esteve muito presente. Esteve sempre lá, entre mim e o amor. Ficou comigo também. Manteve-se comigo depois da extinção desse amor. Só poderia ter ficado; ele já lá estava. Pensando bem, foi a amor quem se meteu entre nós.
O terceiro, além de um grande companheiro, tem sido também matéria para o meu trabalho. Usei-o em dois dos meus espectáculos. Mas partiu-se. Não é ele que vai comigo, quando o quero ter próximo, é uma cópia. Mesmo partido, tenho-o mantido perto de mim. Mas a bagunça tem-se instalado no meu aposento e por isso ele (e a sua siamesa cópia) tem estado fora do meu alcance. Já o recuperei. Não fui e resolvi declarar uma guerra à bagunça. Organizei, parcialmente, o aposento. Já posso olhar para ele.
Não fui. Não sei porque não fui. Tinha a plena certeza de que iria. Despedi-me de quem era suposto; convencido de que iria. Reservei o bilhete, convicto de que iria. Dormi. O despertador tocou. Não saí da cama. A hora aproximou-se e eu sem me levantar. Voltei a dormir. A hora de ir passou. Não fui. Não fui passar a páscoa com a minha família. Não seria obrigatório. Nós não ligamos a isso. Mas eu queria ir. Eu queria. Deixei de querer. Não fui.
Quando vou levo-os comigo; aos álbuns dos Sneaker Pimps. As viagens de autocarro para o algarve tornam-se mais suportáveis desta forma. Na verdade, qualquer coisa se torna mais suportável. Eu gosto muito dos álbuns dos Sneaker Pimps. Eles fazem a música que eu gostaria de fazer. Eu gosto da música que faço. Mas, tenho de o admitir, gostava mais se a música que eu faço fosse a música que os Sneaker Pimps fazem. Por isso eles andam sempre comigo: primeiro, segundo e terceiro.
Vou para o algarve na terça-feira; penso ir. Vou ter de os levar. E, decido agora, levarei os três: Becoming X- o primeiro, Splinter- o segundo e Bloodsport- o terceiro.
Vou para o algarve com eles e durante a viagem irei fazer muitos videoclips na cabeça. Este é o meu passatempo favorito: ouvi-los e inventar videoclips na cabeça. Eles são mesmo bons amigos.
O primeiro é diurno e temperamental.
O segundo é debaixo da pele.
O terceiro é um combate de línguas.







Wednesday, March 23, 2005

sem título

a cidade, de repente, tornou-se um evento claro perante o olhar. as ruas são colecções de charcos que se vazaram a si mesmos, à força de tanto serem espelhos sem uso regular.
as luzes são baças e sustentam como que uma, até agora desconhecida, alcalinidade. a fusão entre o olhar e as luzes da cidade é agora menos imediata e, é assertivo admiti-lo em tom de fugaz confissão, muito menos interessante. esta cidade sabe a pouco. sente-se pouco o fim deste silêncio; entre o rio e a cabeça. sabe a pouco este repousar os braços na amurada do carro e pensar/fingir que daqui para a frente tudo será possível. sente-se pouco esta vontade de acordar noutro lugar.
a cidade raciona as porções de saliva com que lubrifica as presas. e estas nem dão por isso. mesmo as presas mais hábeis, e nessa matéria não existe uma espécie de heráldica elucidativa ou figurativista que denuncie o estádio de empírico achievment da mesma, mesmo essas são deixadas levar-se por um estranho e suave torpore.
"todos somos tácitas presas" ostentam os outdoors de néon (e outros gases tão ou mais nobres) espalhados por todo tecido metropolitano. há uma jactância transcendental sempre presente nas mensagens que a cidade redige. e as presas, tanto quanto os predadores, jamais se permitem tentar descobrir brechas nessa imperativa transcendentalidade.
o coração da cidade, apesar de se apresentar sempre a descoberto, é, antes de tudo, revestido por uma melíflua, embora sinistra, perplexidade. o coração da cidade é um sinistro perplexo. e vale-se disso. não é raro chegar-se até ele; não é difícil deixá-lo ganhar. é impossível não sentir o seu chamamento.
o coração da cidade é um orgão dentro de um outro orgão que, por sua vez, mora dentro de um terceiro orgão, este sim, algo veloz. o terceiro orgão é um orgão emigrante. é um orgão cinético e toma a voz e o espanto como matéria fundente (processo responsável pela sua força motriz). o terceiro orgão, assim como todo o coração da cidade, é alcalino. é alcalino porque a motricidade está sempre impressa no conceito, e não na forma, de emigrar.
os predadores estão em permanente ligação, directa ou indirecta, com o terceiro orgão componente do coração da cidade. os predadores são máquinas de emigração e habitam as presas como se estas fossem países acabados de acordar.
a um grupo de presas chama-se continente. à congregação de presas chama-se mundo inteiro.
é necessário ser-se prudente ou, até mesmo, risonho para se poder decifrar todas as redacções compostas pelo coração da cidade. é importante usar óculos, ou lupas, ou telescópios como recursos protéticos que em tudo facilitam a tarefa em questão. a leitura é exigente, demorada, complexa, sinuosa, matreira e ziguezagueante. a leitura, note-se, não as mensagens.
a um grupo de predadores chama-se rosto. à congregação de predadores chama-se corpo todo.
aquando do chamamento, sazonal, do coração da cidade, presas e predadores vestem-se a rigor e deslocam-se simetricamente, sem alguma vez se aperceberem disso, até às janelas dos respectivos quartos. permanecem noite fora, suados e hirtos, à espera de um olhar oposto que se digladie com o seu. essas noites, além de longas, exalam um odor que perdura durante as restantes. isto, claro, até à ocorrência de um novo chamamento.

o rio é um depósito permanente. os rios são sempre depósitos. tal como em Varanasi, também aqui os restos mortais são oferendas às águas. este rio é ávido e meticuloso. e ninguém padece ao entregar-lhe como oferenda o coração defunto. o rio, talvez por obter a oferenda crua e em carne viva, jamais arrota de satisfação.

o coração da cidade é o único escritor.
presas e predadores conhecem-se melhor.
há mensagens e noites; poemas e gritos.
há jactância no solo e nos olhos aflitos.
só o rio ganha, só o rio estranha.
só o rio desenha a espelhada façanha.

só o tempo serena, no fundo do mar, a voz dos amantes que aprendem a estar.

Tuesday, March 22, 2005

a interactividade

Caros Onanistas:
O vosso anfitrião está a constatar, com grande alegria, que este diário está a ter um número cada vez mais significativo de visitas. The Demon is Happy with that! Ao fim e ao cabo, este diário é uma porta aberta. É bom saber que há quem a transponha com frequência e assiduidade.
O Demónio gostaria apenas de ter um maior feedback por parte dos seus visitantes. Para não se sentir tão umbilical. Sim, Onan também precisa de ecos.
Neste sentido, será lançado aqui um desafio. Melhor, dois desafios: pede-se a cada visitante que registe, por forma de comentário, a sua visita. Não tem de ser um comentário elaborado ou opinativo. Se for, melhor. Mas se não houver esse intento por parte do visitante um: "Eu estive aqui hoje. Assinado: Mena, 21 anos, Bobadela", será o suficiente. O que se pretende é um registo no meu diário da vossa passagem pelo mesmo. O segundo desafio consiste num desafio parte-a-parte. A concretização efectiva da interactividade. O Demónio é amante das palavras, como se deve depreender, e apraz-lhe tudo o que se relacione com as mesmas. O Demónio quer desafios, propostas arrojadas, reptros originais, etc. Ou seja, quero que me espicacem para a redacção. Por exemplo: dão-me uma lista de palavras, conceitos, frases, situações, imagens e eu terei de me "aguentar à bomboca" e criar a partir da vossa proposta um produto literário a ser postado no diário. Produto esse que fica depois sujeito à vossa aprovação. Posso também escrever canções por encomenda, poemas de amor para quem não tem jeito para a coisa, insultos, histórias de encantar, falsos testemunhos, etc.. Tudo menos anedotas.
É tudo por ora. O Demónio vai fazer-se à vida. E agurdará com grande expectativa o feedback aos desafios lançados. Desde que venham por bem e, já agora, com interesse.

Cheers


"Saute Dans le Vide" um auto retrato de Yves Klein, 1960 ("un homme dans l'espace! le peintre de l'espace se jette dans le vide!" in, Dimanche-le Journal D'un Seul Jour, 27-11-1960)

Monday, March 21, 2005

os teus olhos

(parabéns, agora por escrito e um dia depois)

os teu olhos
são duas tochas de noite prestes a madrugar.
os teus olhos
são dois barcos irmãos com apetites de luar.
os teus olhos
são glaciares vistos de cima numa noite antes do verão.
os teus olhos
são trilhos-cometas-meninos; são nuvens doces de alcatrão.
os teus olhos
são a voz criada na espera e sabem quando calar.
os teus olhos
são situações, são novas feras, rugem,
no fundo limpo do mar.
os teus olhos
são duas janelas abertas para uma estrada lunar.
os teus olhos
são portões, são cinemas, um coração a pulsar.
os teus olhos
são duas tochas de noite,luz,
estradas para eu percorrer.
os teus olhos são muito antes da noite; o meu terno anoitecer.

Saturday, March 19, 2005

poucas horas para um mês

"Cancioncilla Del Primer Beso"

En la mañana verde
queria ser corazón.
Corázon.

Y en la tarde madura
queria ser ruiseñor.
Ruiseñor.

(Alma
ponte color, naranja.
Alma
ponte color de amor.)

En la mañana viva
yo quería ser yo.
Corázon.

Y en la tarde caída
queria ser mi voz.
Ruiseñor.

(Alma
ponte color naranja.
Alma
ponte color de amor.)

Federico García Lorca (1899-1936)

um mergulho anacrónico

Cheguei ao cimo da terra com o sol de julho e a esperança de uma existência solar. Trazia-a, à esperança, cerrada e em pó novo entre a cordilheira dos dentes ainda por romper. O inconveniente da chegada: cheguei durante a noite e o sol de julho era ainda uma ideia que caminhava para a manhã seguinte à treva de julho da minha chegada.
Começaram os primeiros outonos e invernos e o pó novo congelou. Os dentes, que também eram promessa, nessa cordilheira do porvir, viram a luz do dia dentro do céu da minha boca. Nasceram para ranger, os meus dentes, para evaporar o pó novo e o tornar gelo consternado. As palavras nasceram depois, antes de eu mesmo ter nascido.
Eu nasci em mim com as palavras, nos primeiros outonos e invernos do fim de setenta, para aprender a dizer que nunca tinha pedido para nascer. Ainda não aprendi a esquecer, completamente, a dita afirmação e levo quase trinta anos de pó (que ainda quer voltar a sentir-se novo). E tenho dentes piores na cordilheira; desgastaram-se. O céu da minha boca também tem tido as suas explosões, eclipses e acidentes: erosão.
Não me apetece prosseguir com esta pseudo-rectrospectiva em tom poético da treta. Porque hoje tudo me parece da treta e, por mais que queria, uma perspectiva da minha chegada, percurso e etc, em muito pouco me parece poética. Transito entre a angústia, a frustração, o medo, a exaustão, a pequena esperança e a fúria.
Estou isolado; comigo. Estou sitiado no meu caos. Desprotegido das ilusões que eu mesmo tenho vindo a criar.
Quero o que quero e quero muito mais do que um esboço de mim. E não consigo.
Quero poder chorar alarvemente e não consigo.
Quero poder ver muito mais do que isto e não consigo.
Quero poder ser pleno e eficaz e não consigo.
Quero poder dar e não consigo.
Quero poder receber de outra forma e não consigo.
Quero poder fugir e estar distante e não consigo.
Quero ser insolente, despropositado, cruel e não consigo.
Quero ser quem dita as regras e não consigo.
Quero ser preenchido, arrebatado, inspirado e não consigo.
Quero ser mais do que uma ideia e não consigo.
Quero perder-me por aí e não consigo.
Quero achar-me e não consigo.
Quero mentir e não consigo.
Quero ser desejado a toda a hora e não consigo.
Quero despedaçar corações e não consigo.
Quero ser maldito e não consigo.
Quero ser o mundo de alguém e não consigo.
Quero ter tudo e não consigo.
Quero foder como um animal e não consigo.
Quero ter inimigos e não consigo.
Quero ser multitetrapentamegahipersuperextramilionário e não consigo.
Quero matar pessoas e não consigo.
Quero procriar e não consigo.
Quero dar a volta ao mundo e não consigo.
Quero morrer de amor e não consigo.
Quero morrer de fome e não consigo.
Quero morrer de dor e não consigo.
Quero morrer de espanto e não consigo.
Quero morrer de solidão e não consigo.
Quero morrer assassinado e não consigo.
Quero morrer de prazer e não consigo.
Quero morrer de melancolia e não consigo.
Quero morrer de cansaço e não consigo.
Quero morrer de felicidade e não consigo.
Quero morrer de morte natural e não consigo.
Quero morrer de indigestão de carne humana e não consigo.
Quero morrer de morte e não consigo.
Queor morrer de medo e não consigo.
Quero morrer de riso e não consigo.
Quero morrer de parto e não consigo.
Quero morrer de saudade e não consigo.
Quero morrer de febre e não consigo.
Quero morrer de mim e não consigo.
Quero acreditar em Deus e não consigo.
Quero venerar o Diabo e não consigo.
Quero ver o meu anjinho da guarda e não consigo.
Quero mudar de país e não consigo.
Quero mudar este país e não consigo.
Quero tocar piano e falar francês e não consigo.
Quero andar de camelo e não consigo.
Quero ler o "Ulysses" do Joyce e não consigo.
Quero dizer "AMO-TE" e não consigo.
Quero percorrer o mundo a cantar e não consigo.
Quero ser lido pelas crianças do Kilimanjaro e não consigo.
Quero ganhar prémios da crítica e não consigo.
Quero ser pai e não consigo.
Quero fazer tudo por alguém e não consigo.
Quero construir a minha casa de sonho e não consigo.
Quero ir a Buenos Aires e não consigo.
Quero pagar todas as minhas dívidas e não consigo.
Quero esquecer-me do que foi mau e não consigo.
Quero regressar ao ventre da minha mãe e não consigo.
Quero ter orgulho do meu sucesso e não consigo.
Quero atirar pedras aos telhados de vidro dos outros e não consigo.
Quero deixar de duvidar da verdade de tudo e não consigo.
Quero ser o centro das atenções e não consigo.
Quero estar sempre alerta e não consigo.
Quero poder dizer que estou frágil e estilhaçado e não consigo.
Quero poder gritar que tenho preguiça de viver e não consigo.
Quero aprender a estar no aqui e no agora e não consigo.
Quero parar para pensar como deve ser e não consigo.
Quero deixar de escrever disparates e não consigo.
Quero conseguir conseguir e não consigo.
Quero conseguir comigo e não comigo.



"AND NOW FOR SOMETHING COMPLETELLY DIFFERENT"

"Always Look On The Bright Side Of Life"
Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best...
And...
Always look on the bright side of life...
(Whistle)
Always look on the light side of life...
(Whistle)

If life seems jolly rotten
There's something you've forgotten
And that's to laugh and smile and dance and sing
When you're feeling in the dumps
Don't be silly chumps
Just purse your lips and whistle - that's the thing.

And...
Always look on the bright side of life...
(Whistle)
Come on.
Always look on the bright side of life...
(Whistle)

For life is quite absurd
And death's the final word
You must always face the curtain with a bow
Forget about your sin - give the audience a grin
Enjoy it - it's your last chance anyhow.

So,
Always look on the bright side of death
Just before you draw your terminal breath

Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke it's true
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you

And always look on the bright side of life...
(Whistle)
Always look on the right side of life...
(Whistle)

Come on Brian, cheer up.

Always look on the bright side of life...
Always look on the bright side of life...

Worse things happen at sea you know.

Always look on the bright side of life...
I mean - what have you got to lose?
You know, you come from nothing - you're going back to nothing.
What have you lost? Nothing.

Always look on the right side of life...

By Monty Phyton in, "Life Of Brian"

Este post é dedicado à minha grande e querida amiga Edu (que me revelou a sua receita contra a tristeza: ouvir esta canção, deixá-la apoderar-se do nosso corpo e assobiá-la vezes sem conta até a tristeza/frustração se diluir). Obrigado Edu, it really works. Sinto-me melhor e nunca me esquecerei desta receita. Até parece que estavas a ler o post que eu estava a escrever enquanto estávamos a conversar. A letra da canção tem tudo a ver com o conteúdo deste post. Obrigado mais uma vez.
Este post é também dedicado à minha grande amiga Lara (que me tem sabido sempre dizer as palavras certas e me tem embalado com o seu amor puro e a sua inteligência de fémea).
Este post é também dedicado ao meu Toblerone (que está a ver que é preciso alguma pachorra para me aturar. Decidi:eu não me vou embora; estou cá para ti. Se quiseres eu fico. Cada vez gosto mais de ti e de te ter na minha vida).


Quero assobiar e... não consigo. Shit... oh... fuck it...
Se não consigo assobiar ao menos sei cantar...

"always look on the bright side of life"

LáLá LáLá LáLáLáLáLáLá

Friday, March 18, 2005

fim de tarde perfeito

de mãos dadas,
estrada fora,
traziam um casamento feliz:
ele era um pássaro de ferrugem
ela era uma boca de giz.

(era isto que eu estava e escrever hoje de madrugada enquanto te beijava.
como deves calcular, não me seria possível desenhar este poema nos teus lábios (como tu me pediste). porque este poema não é nosso. é um poema de outros que não existem. no próximo beijo que te der vou esforçar-me por desenhar nos teus lábios a vontade louca que tenho de apanhar sol contigo. havemos de escrever juntos, nos lábios, nos olhos e na pele, o nosso fim de tarde perfeito.)

Thursday, March 17, 2005

um Haiku que Onan adora

"one leaf lets go, and
then another takes
the wind"

Ransetsu

pour toi

eu fui a esfera sem não nem senão
quando as ravinas se abriram no ar

tu foste o gosto de um tempo de verão,
a noite-língua a crescer devagar

eu fui a estrofe sem mão nem refrão
quando o meu corpo se quis glaciar

tu foste o sol-mel-sol-posto no chão
és hoje a vida-céu dentro do mar

eu navego na tua boca afluente;
tu és um barco oceano do tacto.

Onan está aqui dentro

"Desinferno II"

Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria

Luiza Neto Jorge, in Postais Antigos

(amo a Luiza Neto Jorge)

Sunday, March 13, 2005


Foto de Onan - Outubro de 2003, Pombal

Friday, March 11, 2005

us 8

resposta à tua sms:

eu só penso em ti!
és um jardim plantado debaixo de água;
onde eu posso dormir sossegado.


para ti:

"flowers in the window" by Fran Healy- Travis

When i first held you i was cold
A melting snowman i was told
But there was no one there to hold
Before i swore that i would be alone forever more

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so
Let’s watch the flowers grow

There is no reason to feel bad
But there are many seasons to feel glad, sad, mad
It’s just a bunch of feelings that we have to hold
But i am here to help you with the load

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so
Let’s watch the flowers grow

So now we’re here and now is fine
So far away from there
And there is time, time, time
To plant new seeds and watch them grow
So there’ll be flowers in the window when we go

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so
Let’s watch the flowers grow

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so

Let’s watch the flowers grow
Let’s watch the flowers grow

Malos Aires - work in progress (um regresso ao processo)

Ele continuou a instituir o silêncio na própria carne e passou a fazê-lo com perícia e convicção. O uso da linguagem deixou de lhe fazer qualquer sentido ou falta. Essa instituição, a do silêncio na sua própria carne, passou a ser o seu novo vício. Um vício em tudo semelhante ao seu vício anterior: construir com Ela uma nova linguagem. Uma linguagem apenas da ligação, do encaixe, do amor que mantinham.
Após ter cortado mais um pouco da língua (a quarta extracção que efectuara), decidiu reler os manuscritos que havia iniciado aquando da decisão de, juntos, sitematizarem a nova linguagem que os uniria para sempre.
"Tu aprendeste comigo a fazer café. Aprendeste comigo a bebê-lo melhor. Aprendeste a abrir o teu olfacto e fui eu quem te ensinou a comunicar com ele. Dizes: "o café contigo cheira e sabe melhor; és um manual dos apetites."
Prometi-te a invenção do teu segundo nome mas o meu tempo não tem estado a meu favor. Eu sei que esperas o momento desse parto com o mesmo entusiasmo com que um ventre maduro espera um suco que o fecunde. Percebo-o quando me olhas, quando me beijas e quando me beijas e me olhas ao mesmo tempo. Não esmoreças, isto não é o fim de nós. Isto não é um fim; é uma entrada. É a minha entrada em mim para poder perceber claramente o nome que te tenho cá dentro. Eu não vou inventar o teu segundo nome. Vou, isso sim, aprender a comunicar com ele. Porque ele se inventou a si mesmo em mim. Não esmoreças e não chores no duche. Vai ser um processo de mútua comunicação e também de conhecimento. É necessário tempo. Vou ter de consumir horas. Eu estou para o teu segundo nome como tu estiveste para o teu olfacto. Eu estou para a tua vida como tu estás para o café.
Ultimamente quando escrevo choro. A escrita liga-me a algo de muito precioso que eu até agora não tinha descoberto existir em mim. É uma espécie de poder; um poder menino e torrencial. Fazes-me bem. Fazes-me melhor. Eu choro por isso. Choro enquanto escrevo para ti. Eu escrevo tudo para ti. Tu vives tudo para mim.
As horas contigo passaram a ter um sentido mais profundo. As horas já não são apenas horas. Porque o tempo entre nós passou a ser o comércio da carne e da fala.
Vou parar de escrever agora. Vou aprender a chorar mais um pouco.
Se algum dia fores a Buenos Aires sem mim não bebas café. Pede-o, olha para ele, cheira-o e toca-o. Mas, por favor, não o bebas."
Ele fechou o manuscrito e abriu a janela a um pássaro que acabara de morrer no parapeito.
Ela consegui o tão desejado quarto no hotel em Buenos Aires. "Finalmente o 111", pensou quando rodou a maçaneta da porta. Entrou, susteve a respiração e desfocou o olhar algumas vezes. Sentiu uma leve tontura. Foi incapaz de se deitar na cama. Deitou-se no chão e decidiu que nessa tarde iria pedir café. Adormeceu a sorrir.

Thursday, March 10, 2005

Sickcom em Coimbra

Pois é, o sickcom vai de viagem.

A azulamavermelho vai estar em Coimbra (a terra que dizem ter mais encanto na hora da despedida) no próximo fim de semana.

Assim sendo, os onanistas que ainda não têm programa para o fim de semana e ainda não viram este acontecimento exemplar da nobre arte da talma podem deslocar-se até ao TEATRO ACADÉMICO DE GIL VICENTE e preencher a tremenda lacuna.

É no Sábado às 21:30.

(mal posso esperar para me vingar de todas as carências técnicas que tive de engolir ao longo das carreiras que este espectáculo já teve. este teatro está carrrrrregadinho de material. hip hip. aquilo é um teatro a sério; um teatrão. que pena ser só um dia! mas pode ser que corra bem e me contratem para ir dirigir o dito recinto. ia dar-me algum trabalho mas acho que não iria conseguir recusar. a cultura exige e eu por ela faço tudo.)

the demon before the show

Sunday, March 06, 2005

um amor de Onan

A Tua Presença Morena
(Caetano Veloso)
Int.: (A7 G7 F7 E7) A7 G7 F7 E7
A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Paralisa meu momento em que tudo começa
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Desintegra e atualiza a minha presença
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Envolve o meu tronco, meus braços e minhas pernas
A7
A tua presença
G7 D F#
É branca, verde, vermelha, azul e amarela
B7
A tua presença
A7 G7 F7 E7
É negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Transborda pelas portas e pelas janelas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Silencia os automóveis e as motocicletas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Se espalha no campo derrubando as cercas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
É tudo o que se come, tudo o que se reza
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Coagula o jorro da noite sangrenta
A7
A tua presença
G7 F7 E7
É a coisa mais bonita em toda a natureza
A7
A tua presença
G7 D F#
Mantém sempre teso o arco da promessa
B7 A7
A tua presença
G7 F7 E7
Morena, morena, morena, morena, morena, morena
A
Morena


(amo esta canção. sobretudo amo o poema. acho que é das coisas mais belas e assertivas que já se escreveu sobre a situação amorosa. tenho tomado este poema como o que mais próximo encontrei de uma definição do amor. para mim a questão central do amor é exactamente a presença; a presença do outro na minha presença e vice-versa. confesso que a frase: "A tua presença, é a coisa mais bonita em toda a natureza" é das coisas que mais me emociona na vida. é mesmo. esta frase tem a capacidade de me comover amplamente. porque sentir esta frase é muito bom, é muito forte, é muito belo. sentir esta frase é tocar em qualquer coisa de muito puro e simples. e a pureza e a simplicidade são, quanto a mim, os conceitos/estádios mais interessantes e fortes da vida.
apesar de gostar muito do Caetano Veloso, acho que o grande intérprete deste poema é, sem qualquer dúvida, o Ney Matogrosso. sempre que ouço este poema cantado por ele fico arrepiado. é belo, puro, simples, como o amor deve ser. o amor deve ser moreno!)

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 1

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 6

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 5

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 4

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 3

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 2

us 7

"(Terminou a segunda guerra mundial. Manifestações veementes por toda a parte.)

Andámos toda a noite calados e sós
de jardim em jardim, na lua
dos bancos...

(Que bom! Começou enfim o silêncio entre nós.
O silêncio da aranha a tecer cabelos brancos.)"

José Gomes Ferreira


"(Dia de sol azul, de terra azul, de mulheres azuis...)

E se, de repente,
voassem dos teus olhos duas pombas azuis?
Então sim, poeta
cairia pela primeira vez no mundo
o espanto da primavera completa."

José Gomes Ferreira


Li-te estes dois poemas ontem, estávamos sentados na minha cama. Pensando/recordando melhor, eu estava sentado mas tu não.
Li-te estes dois poemas ontem, estavam dentro da caixa de cartão. Dactilografei-os há quase dez anos, numa folha de papel cor de laranja. Numa folha de papel da tua cor. Porque tu és cor de laranja. E tenho afixado essa mesma folha, de papel laranja dactilografado, em todos os quartos que fui tendo ao longo dos anos. Pensando/recordando melhor, em quase todos os quartos. Houve um em que não o fiz e, talvez por isso, esse quarto foi tudo menos somente meu.
Li-te estes dois poemas ontem, e sei que não os li bem. Li-os sem pretensão alguma. Não preciso de fazer leituras sublimes para ti. Não o quero e creio que tu também não. Não preciso de me florear para ti. Não me quero florear para ti. Quero-me puro, duro e em bruto para ti. Na exacta medida em que gosto de te receber. Não quero que nos pintemos de outras cores que não as nossas. Nós somos o encontro acidental das nossas duas cores. Quanto a mim é um bom acidente; um bom encontro.
Li-te estes dois poemas ontem, li-os mal; não me importei e tu também não. Ao fim e ao cabo, tu apenas me pediste para te mostrar fotografias.
Acordar contigo é bom!

us 6

quando te vais eu olho-me ao espelho e sinto que acabei de chegar de uma boa viagem.

sabes bem fazer regressos.

dizes que me achaste; eu acredito.

há rotas para tudo e a vida por vezes é uma expedição.

vou hastear a tua bandeira na minha nuca; para ter sempre comigo a tua conquista.

estou viciado em nós.