Tuesday, October 11, 2005

estações

nunca parti, fiquei.
já há algum tempo que deixei de apreciar com exactidão qualquer uma das estações do ano. durante muito tempo detestei o verão e deliciei-me com o inverno. o verão deixava-me confuso, mentalmente irrequeito e perdido, atormentava-me. o calor empurrava-me para um território próximo da morte, cerebral mas, a seu modo, letal. o inverno embalava-me, amparava-me, aconchegava, transportava-me, em consolo e recolhimento, para uma zona aprazível de mim mesmo. depois houve o sabor da morte. não da minha morte mas da morte do outro. quando o outro morreu senti-me bem na primavera e consequentemente no verão. vivi essas duas estações, pela primeira vez em largo tempo, com fervor e histeria. foi um falso e veloz viver esse que ocorreu depois da morte.
quando caí em mim os invernos haviam passado a ser velozes e os verões fogueiras hipercinéticas de insanidade. tudo passou a ser excessivamente veloz: o verão e o inverno antípodas no frenesim, a primavera e o outono caminhos frenéticos para os mesmos.
agora que sou conceptualmente o renascimento da minha própria experiência gosto das incoveniências das estações. gosto dos interstícios imprudentes que ocorrem nas mesmas. namoro com a deliciosa forma como estas se provocam. comove-me a chuva birrenta e fria num dia de agosto e choro de calor numa tarde soalheira de janeiro.

uma das melhores recordações que trago da infância é a da extrema felicidade experimentada ao vestir mangas curtas pela primeira vez no ano.

hoje fiquei feliz com a chuva. fiquei feliz porque me pareceu que esta vinha fora de tempo. a chuva hoje foi impertinente, como as minhas vontades, veio talvez para ficar. veio quando eu menos esperava.

Friday, October 07, 2005

jdfvfvs

ksjdd fdfrfnf fdkffjff gkrfocx ddd ffffg, ggdddid xs dddf fffffffss ss sikvv ofefjndf
kddmdfnadgg dd ssodsndd.
djdfiuvgn tffifff ddssawaa...
ssjrfjiwvwrf ffafsd dssodd saqaadddcd, ssdfffkfffrf fdff f, ssdddd fffdFA!

(apetece-me muito escrever mas não tenho o que dizer. calo-me. hoje estou muito irritado, nem sei bem com o quê. vou fazer a barba e fitar-me, demorada e lascivamente, ao espelho. gosto de me engatar!)

Tuesday, September 27, 2005

uma imagem

cala-te de uma vez, percebe-me de lés a lés.
canta-me baixinho e deixa-me dormir aos teus pés.

imagem aspirada de um qualquer futuro

convenci-me de que serei plenamente feliz quando estiver, deliciosamente, a morrer de saudades de Portugal.

ler

quero ler para ti. quero ver-te a ouvir-me ler-te as palavras dos outros. quero recitar-te, quero embalar-te até perderes os sentidos (ou a vontade de dormir). quero ler para ti, à hora do chá, à hora certa, à hora de nunca mais de dizer adeus. quero ler para ti, nas linhas da vida, nas linhas do eléctrico, nas linhas tortas onde Deus nunca escreveu. no corpo, vou inventar, por nós, uma estratégia aí: nas palmas das tuas mãos.

tenho pressa de inverno, aqui, no epicentro das minhas recordações; quando tudo era simples e imberbe, quando tudo era solar (mesmo em dias de chuva), quando tudo era hálito e aconchego e nós tão novos. tenho pressa de inverno aqui, na memória; o inverno sabia-me bem.

procuro a forma mais acertada de me (d)escrever, para me ler-te. vou ler-me para ti em contos imaturos, neste inverno que ainda nem sequer se deu a dar.
vou (d)escrever-me em contos: dentro de pequenos chocolates, dentro de limões, dentro de rebuçados espanhóis, dentro de beringelas, dentro dos xaropoes que ainda vais tomar e dentro das noites que ainda hão-de vir.

quero ler para ti, em russo, em japonês, em sueco, em zulu e em todas as línguas que desconheço para nos podermos rir a meio, no princípio e no fim. para (r)ir durante, quero ler para ti.

há-de haver um dia em que irás encontrar o teu retrato durante um livro.

Saturday, September 24, 2005

a arte e a guerra

"pessoa sensíveis fazem massagens, não arte"
Dr Veiga dixit

Sim, isto de aqui andar sabe a ferro e sabe a fogo; carne viva, sangue frio.
Estive/estou com um abcesso. Doeu muito. Foi assim o meu início de semana (domingo, segunda e terça). Quarta-feira: jabasulide faz nada, inchaço e dor congratulam-se por existir. A minha gengiva parece explodir. Eu a imaginar que os poucos euros que tinha lá teriam de ser dolorosamente entregues na farmácia. Dito e feito; seis da tarde, o cenário insuportabiliza-se e lá vou eu a caminho das urgências do S. José. É lá que vou, como qualquer proletário, sempre que a situação o exige. E posso asseverar que as ditas exigências têm surgido nas mais variadas e absurdas situações ao longo desta quase década de estadia na grande maçã lusa. Adiante, adiante, o que interessa é que o cenário foi piorando cada vez mais. Eu a pensar que o estomatologista espanhol que me assistiu nem me iria tocar e que me iria receitar um antibiótico manhoso qualquer e que me iria despachar em dez segundos para voltar à tão animada conversa que estava a ter ao telemóvel.
Engano redondo, quando dei por mim tinha um bisturi a cortar-me a gengiva e os dedos do espanhol a espremerem-me a purulenta protuberância. Ainda teve a lata de me perguntar se me estava a doer. Eu rugi e pisquei os olhos como que a dizer: "não, estou óptimo, continua lá com a tortura que eu cá me irei aguentando à bomboca". E aguentei-me de facto, porque apesar de ser um pleno praticante do verbo lamuriar, a verdade é que, no que à dor física diz respeito, sou bastante resistente. Quanto às dores metafísicas, aí o caso muda bastante de figura. Convenci-me de que sou uma pessoa sensível. E é para chegar a este ponto que me permiti relatar o episódio abcessal. (Para resumir: lá cuspi aquela porcaria toda, ele lá me passou a receita correspondente a uma farmácia inteira, lá deixei os euros todos na farmácia do Martim Moniz e agora tenho uma bela rotina medicamentosa que me obriga, todos os dias, a andar com dez quilos de comprimidos e elixires na mochila e a fazer combinaçãos variadas de químicos às mais absurdas horas. Iso tudo durará até à próxima quarta-feira, caso a infecção passe. Caso não passe lá terei de ir visitar o espanhol e o seu amigo bisturi).

A verdade é que a afirmação do meu caro Dr Veiga é totalmente certa. As pessoas sensíveis não devem fazer arte. Ou não se deve partir dessa premissa para se decidir enveredar pelo, já de si, bastante tortuoso caminho da arte. O artista tem de ser, acima de tudo, um guerreiro. O caminho da arte é o caminho do combate. O Dr Veiga, segundo percebi, descobriu isto aos catorze anos. Toda a sua vida, desde então, foi planeada com a tenacidade técnica de um guerreiro. Por isso ele é um artista. Ele faz a arte e não precisa dela para sobreviver. Fez-se o seu próprio mecenas. Optou por um caminho, o não sensível, que lhe permitiu ter a estabilidade e liberdade necessárias para poder criar sem tormento essencial. Eu, lerdo como sou, descobri isto aos vinte nove anos, com a ajuda do caro Dr Veiga (talvez sozinho também chegasse lá) e depois de ter os pés já muito exangues por ter enveredado pelo caminho do tormento. Creio que deve ter sido por uma questão de incultura. Se tivesse sido mais culto talvez tivesse percebido essa tão anímica relaçáo entre a arte e a guerra.

Pois, e agora?

Agora é tudo uma questão de congregação de elementos.
Tenho de reunir o que me resta e que é essencial para a guerra:
-fúria e ímpeto (detesto a palavra talento)
-domínio da expressão (sei que na maioria das propostas a que me permito o consigo ter)
-energia (é só uma questão de assertivo canalizar da mesma)
-contactos (aprofundar os que existem e perder esta porcaria deste pudor da auto-promoção)
-capacidade de trabalho (já por diversas vezes comprovei a mim mesmo que a tenho, é só uma questão de a passar a ter de forma permanente e para todo o tipo de tarefas).

Passar a ter o que não tenho e que é essencial para a guerra:
-disciplina
-persistência
-capacidade de congregação dos elementos que são essenciais para a guerra
-estrutura exterior que me permita atingir estabilidade para poder criar em liberdade
-táctica
-assertividade

Elementos exteriores à guerra e que têm de ser eliminados:
-dispersão
-auto-condescendência
-maus hábitos
-vínculo ao conceito de sensibilidade ou acertado ajuste do mesmo
-falta de concentração
-incapacidade de estabeler tarefas e devida calendarização das mesmas
-desistência
-falta ajuste ao presente
-fixação no passado e no futuro
-deixar de acreditar que me vai sair o euro milhões


As medidas estão teorizadas. A práctica urge. Serei o mesmo? A guerra e a arte o dirão. Não tenho grandes hipóteses. Até porque acho que daria um péssimo massagista; não gosto de tocar a maioria dos estranhos.

Tuesday, September 13, 2005

my mood

"I'm gonna sit right down and write myself a letter
And make believe it came from you
I'm gonna write words oh so sweet
They're gonna knock me off my feet
A lotta kisses on the bottom
I'll be glad I got 'em

I'm gonna smile and say: "I hope you're feeling better"
And close with love the way you do
I'm gonna sit (right) down and write myself a letter
(And make believe it came, though I know it's not the same)
And (I'll) make believe (that) it came from you"

a náusea parece estar a passar. os sonhos continuam estranhos. continuo a não conseguir ouvir música. mas tenho feito muita música, no entanto. a cabeça parece estar cheia de água. água revolta. tenho um tsunami na cabeça e um peso no coração.

i'm still here! (para o que der e vier)

sonho mau

não consigo ouvir música.
os sonhos são cada vez mais estranhos. ontem à noite sonhei que tinha tomado um veneno, para morrer. (um simulacro de um documentário que vi há uns tempos sobre um senhor francês que, na fase terminal de um tumor, decidiu cometer eutanásia). sonhei que estava a fazer o mesmo. ele teve uma morte rápida, indolor e serena; suave e bonita. morreu nos braços da mulher que amava. adormeceu nos braços dela e o coração parou de bater segundos depois. morreu embalado pelo amor dela.
ontem sonhei que tinha decidido fazer o mesmo. mas no meu sonho, eu não morria. o veneno, no meu sonho, era incapaz de me fazer adormecer. estava sozinho, depois de ter ingerido a solução, o efeito desejado não acontecia. não tinha uns braços onde pudesse adormecer para morrer serena e suavemente. instalou-se, isso sim, uma insuportável náusea. a náusea esteve comigo todo o dia. sinto que ainda não saí do sonho. e o pior de tudo... eu não morria porque não tinha uns braços onde morrer.

não consigo ouvir música. tenho um sonho mau sitiado na cabeça.
e ouvir música é para os sonhos bons. ouvir música é para me lembrar de ti.

a vida e os sonhos maus parecem ter feito um pacto estranho para me ausentar das melodias.

as melodias parecem ter feito um voto de silêncio para me fazer olhar para mim.

Thursday, September 08, 2005

fim de tarde aqui

Sempre adorei este trecho do discurso de Fedro no "O Banquete" desse grande querido Platão.

"Que entendo eu por amor? - Às acções desonestas liga-se a desonra, às boas acções liga-se o amor. Sem isto, nem a cidade, nem o indivíduo, podem fazer algo de grande ou de belo. Ouso afirmar, desta maneira, que se um homem ama e for surpreendido a cometer um delito vergonhoso, ou a suportar cobardemente um ultraje, sem que saiba defender-se, sofre menos ao ser repreendido pelo pai, por um parente, ou por qualquer outra pessoa, do que por aquele a quem ama. Verificamos, também, que um amado não ruboresce tanto como perante aquele que o ama, se por acaso é surpreendido em falta. Assim, se houvesse a possibilidade de formar uma cidade, ou um exército, composto somente por amantes e amados, obteríamos a constituição política ideal, pois teria por base o horror do vício e a emulação do bem e, se combatessem juntos, tais homens, apesar do seu reduzido número, poderiam vencer quase todo o mundo."

Faz-me sentido, esta coisa da bélica do amor. O grande problema acontece quando a guerra se instala dentro do nosso pequeno exército. Quase percebo, agora, o que é um tiro no escuro.

Tenho, de aqui e acolá, uma vontade dadaísta de presente.

Quando vi ao vivo "O Grande Masturbador", do Dali, chorei. De comoção e raiva, chorei. A comoção está explicada no próprio acto de chorar ao ter na frente uma obra que tem para mim muito significado. A raiva vem do facto de ter sido obrigado a partilhar esse mesma comoção com os outros espectadores do quadro. Construi com aquela imagem uma relação tão íntima e pessoal que quando vi o quadro rodeado de pessoas me senti invadido. Isto da partilha tem muito que se lhe diga. Esperei, meticulosamente, que todos saciassem o olhar e consegui ficar a sós, por largos instantes, com o quadro. Nessa altura chorei a sorrir. Quando me empenho, até acabo por conseguir o que quero.

Sunday, September 04, 2005

finis praxis (estilhaços)

(os seguintes poemas foram escritos em 1998 e fazem parte de um livro de poemas que intitulei de "finis praxis". há uns anos pensei ter perdido esse livro em virtude da grande incompatibilidade tida com uma certa disquete. felizmente recuperei, há pouco tempo, o livro no computador da rosa (my flat mate) visto ter sido no mesmo que se deu grande parte do processo de redacção e ela, santa alma, nunca o ter apagado. "finis praxis" não foi escrito por onan; o demónio, tal como existe no presente, ainda não havia nascido.)



estilhaço 1

fiquei sossegado
já não existia uma razão suficientemente forte
para que o meu corpo se pronunciasse.
não estava triste,
muito menos feliz,
estava intacto; sabia que era capaz de abrir os olhos.
a temperatura havia estagnado já por muitos meses.
na parede oposta à porta do quarto estava o roupeiro branco.
de noite fechava-lhe a porta para trancar o Senhor Silêncio.
nessa época só adormecia embalado pelo estrondo de lindos prédios a ruir.
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estilhaço 2

(para aquele que enlouqueceu antes de ter enlouquecido)

e nessas horas acesas
em que o silêncio não é mais do que uma palavra adormecida nos meus,
teus, nossos olhos.
nesse instante suspenso no fumo de um abraço
é a tua pele quem sussurra
e a minha boca pontua as frases que o teu corpo dita.
quando a cidade morre devagar somos um todo brilhante,
o teu cheiro e os meu olhos dissecam o tumulto da ruas e
inventam novas vidas para as células.
nessas horas acesas somos um universo rodopiante,
duas tranpirações herméticas numa nuvem rebelde.
dou-te o silêncio como dote.
dás-me a lua como excesso.
quando a cidade ressuscita:
tenho estrelas no ventre
e tu cantas com a voz do mar.
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estilhaço 3

querelle 1
o homem tem a pele azul e os testículos pesados,
de tanta ira.
o homem ainda não aprendeu a ser homem,
anda numa conturbada pesquisa.
o homem não é azul, é dourado
qual anjinho de talha.
o homem tem a boca espessa,
onde as palavras se perdem e definham.
o homem tem os mamilos rosados e duros,
pedra mármore-parte dentes molares.
o homem tem o amor bem escondido,
debaixo da língua.
o homem quer ser maldito,
como os heróis expressionistas.
o homem ainda não nasceu,
mata-se todos os dias com o mesmo sabre.
o homem navega,
nas suas próprias veias ao sabor da contracorrente.
o homem é uma visão aproximada do seu próprio sexo.
o sexo do homem é um barco:
deriva, naufraga e dorme no fundo calmo do mar.

a leitura da não escrita

às páginas que ainda não escrevi, rasguei-as. evitei o insondável confronto entre a sintaxe e a vida. cerrei os dentes; usei as mãos (pu-las à obra): estilhacei o discurso, incinerei a semântica, matei a pontuação, abortei a acentuação e vaporizei sujeitos e predicados por aí. abstive-nos da minha literacia.

aprendi a exercer o verbo na pior e mais inesperada das alturas. jamais suspeitei que o viesse a fazer. ainda agora, enquanto me penso, sou incapaz de crer que as minhas mãos possam rasgar.
rasgar páginas ainda não escritas é o pior dos meus crimes. é o mesmo que forçar-me a compreender o meu próprio coração para o poder fazer sangrar para além da sua morte.

começo a habituar-me a esta sensação de que estou constantemente a engolir torrentes de lava.

fome vulcânica: quando o cansaço me atinge de forma assertiva e feroz abro o trinco das pálpebras e a janela do quarto para deixar que os meus olhos, esses dois abutres azuis, se soltem para a incógnita da noite em busca de páginas ainda por rasgar antes da escrita.

violei-me sem dar por isso; escrevi-me depois.

esta noite não soltarei os olhos; amanhã irei acordar num oceano de tinta.

serei feliz no momento em que conseguir saborear de forma literal uma qualquer imagem.

a preguiça instalou-se nas pontas dos meus dedos e impede-me de redigir o manual de mim mesmo.

fiz-m ao contrário, perdi a praxis e este é o avesso de mim.

e o amor é uma lágrima que escorre de baixo para cima!

Wednesday, August 24, 2005

sobre a leitura do ser e do riso

É preciso ter-se coragem para se observar, no espelho, o próprio rosto no meio da mais sinistra tempestade. A coragem vem solene e bonificada. A coragem vem de dentro do que está dentro de nós. A coragem vem corajosa.

Saem-me dois barcos dos olhos. Dois barcos sem nome, sem uma forma exacta, sem tripulação. Aprendi a calar-me aqui, na boca da tempestade, quando me vi cercado pelas minas e armadilhas das minhas próprias lucubrações. Aprendi a engolir em seco aqui. Pasmado e bruto, aprendi a insolucionar. Não consigo decidir se me aprendi a escrever ou não. Sei que entrei num sítio qualquer. Um sítio quase indesconhecido, um sítio a situar. É como entrar numa casa pela primeira e vez e perceber de imediato que o cheiro da mesma será exactamente a memória mais precisa que iremos reservar-lhe ao partir. É como beijar uma boca desconhecida e ter a certeza de que já ali estivemos antes. Conseguir premunir o som dos próprios beijos; é disso que falo. Entrar em mim é isso, em parte. É como abrir uma janela fechada à chave com a ponta língua. É como ter o céu, e tudo o que ele representa, guardado no fundo dos bolsos e andar pelas ruas sem conseguir flutuar. É inventar ruas por cima das ruas. É isso, entrar em nós é navegar.

Fiz-te à semelhança de mim, das minhas lutas. Fiz-te caído antes mesmo de teres aprendido a ter pernas para andar. Fiz-te com as veias à mostra. Fiz-te uma língua gigante e inteira onde eu pudesse caminhar para morrer. Fiz-te oligomeu, sejas lá tu quem fores. Fiz-te aos bocados; nos intervalos do estar. Fiz-te ao longo do tempo em que aqui não estiveste. Fiz-te vir.

Não existes, és meu. Aqui dentro não se existe. Não sou diferente de alguém, sou igual a todos. Recuso-me a acreditar que exista algo exacto dentro de quem quer que seja. Todos temos o mundo esquiçado cá dentro; tácito e líquido, todos temos o mundo por abrir. Todos temos a abertura; ninguém tem o peso exacto do mundo. O peso do mundo faz-se por aí, nos dias, nos cruzamentos, nos beijos, nas palavras, nos uivos. O mundo acontece por si; enquanto não houver quem feche esta ideia severa e irrequieta de que existe uma entrada clara e precisa para o centro exacto do mundo. Enquanto não houver quem venha para as ruas gritar que o peso do mundo é um eterno livro por escrever. É preciso saber caber dentro das ideias. É preciso saber ler.

As palavras caem, antes da boca,
sedentas de perene,
as palavras caem por abrir.

As palavras caem, sem silêncio,
e eu sem roupa,
as palavras caem para eu não cair.

As palavras caem, sem acaso,
na ponta dos meu dedos,
as palavras caem para me rir.



Saí de onde estava. Não posso ficar aí para sempre, tenho de confessar-te. Falo contigo porque sei que precisas tanto de me ouvir como eu preciso que me ouças a falar. Isto não é uma mensagem; é um território. Isto é a fundação de um país que se recusa a nascer. Um país planeado e concebido pelas suas próprias fronteiras. Este é um país que se quer existente para que se lhe possa apresentar a sua própria limitação. Este é um país desejado pelo limítrofe. Este é um país pensado. Este é um país-ideia.

Há livros dentro muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. Há livros dentro carros onde entro e aprendo a deixar-me levar. Há livros dentro das canções que ouço e ensino a ouvir. Há livros dentro dos copos que partilho por aí. Há livros dentro dos olhos que se fixam nos meus. Há livros dentro das recordações que guardo do que já vivi. Há livros dentro das casas onde me recuso a entrar. Há livros dentro das bocas que me tentam dizer coisas imperceptíveis na minha própria língua. Há livros dentro das mãos que preferem fechar-se a ter de se abrir para me fazer sorrir. Há livros dentro das coxas que se roçam e que têm a ganga como permanente interlocutor. Há livros dentro das igrejas onde planeio ir mas onde nunca vou por estar a usar boné. Há livros dentro dos sapatos que observo, aos milhares, nos dias em que estou triste, por não ser capaz de levantar o olhar do chão. Há livros dentro das garrafas que estou sempre pronto a abrir para me esquecer para onde vou. Há livros dentro dos abraços que dou, com fervor e descanso, aos meus amigos. Há livros dentro das lancheiras das crianças que não vejo ir para a escola porque nunca vivo as manhãs com o mundo. Há livros dentro das conversas que tenho na minha cabeça mas que evito ter na realidade por preguiça e incompetência do realizar. Há livros dentro das minhas chaves de casa. Há livros dentro dos corações dos namorados que ainda tremem quando se encontram. Há livros dentro dos bolos que as senhoras bem intencionadas dão, nas pastelarias, às pedintes heroinómanas prestes a morrer. Há livros dentro das salas de estar das viúvas que têm na televisão e no cão a sua única companhia. Há livros dentro dos teatros onde quero vir a trabalhar até à exaustão. Há livros dentro dos bolsos dos estrangeiros que olham com serena curiosidade o luso-morno-mau-estar. Há livros dentro dos dentes que embatem, tímida e atabalhoadamente, aquando de um primeiro beijo. Há livros dentro dos ossos que se quebram quando o chão se torna um permanente e imperativo inimigo. Há livros dentro do sangue que se derrama para se dar à luz. Há livros dentro de muita coisa. Há livros dentro de tudo, em toda a parte. Há, dentro de tudo, todos os livros por escrever. E eu casado com o caos que mora dentro da chuva das palavras; e eu cansado de não os poder ler.

Às vezes, para poder sossegar, imagino o momento em que, no futuro, me vou poder rir do dia em que estou. Já realizei, por diversas vezes, a proeza: RIR.

Thursday, August 18, 2005

hoje

"it's the first day of the rest of your life, it's the first day of the rest your life"
"the first day" Timo Maas Feature Brian Molko.

it all makes sense to me now.

"here comes the sun, and i say: Never go away"
"Rain" Madonna

i felt it.

amigos de sempre cá em casa. bom jantar (fui eu que fiz). A Kathy trouxe o laptop dela cá para casa e estamos com wireless alheio. de novo net cá em casa mesmo que seja de forma efémera e provisória. feels good. a lot of things seem to feel god now, again.

a leveza veio para ficar, assim o espero. o meu humor está de novo aqui. sinto-me leve, atento, quase radiante.

perspectivas de trabalho aconteceram hoje.

pareco voltar a saber o que quero e o que sinto. estou claro para comigo.

tenho de me dedicar afincadamente aos projectos literários que tenho na cabeça.

eu fui/sou o verão. a minha auto-estima está em alta. acredito em mim, nas minhas capacidades, encanto, faculdades e beleza.

estou aqui!

obrigado.

Friday, August 12, 2005

estilhacitos

sentei-me, olhei-o bem no fundo dos olhos e disparei a pergunta.
"quanto me vai custar, Sr. Doutor?"
duas mil palavras e a poupança definitiva dos seus medos e sonhos - respondeu.
então, vamos a isto,calce as luvas e arranque-me de uma vez por todas este coração - afirmei eu com grande convicção.
porquê? - perguntou o médico.
quero senti-lo a pulsar nas minhas próprias mãos -
respondi com prontidão.
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"spiderman is having me for dinner tonight."

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ipj para variar, net à borla. multitude de línguas e nacionalidades. gosto disto. gosto da pluralidade e de experimentar novas culturas. em todas as suas formas. está muito calor mas vou continuar em passeio. hoje estou leve e orgulhoso de mim. vou fumar um charro algures e entrar naquela igreja do Rossio. apetece-me estar um pouco com o Deus em quem não acredito. pelo sim, pelo não, vou fazer o Euromilhões.
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olho para trás, para a frente e para o sítio exacto onde estou. a fim e ao cabo, arrependo-me de pouca coisa. as coisas têm o valor e o tempo que têm. tudo tem um preço. tenho de aprender a pagar esse preço. sobretudo tenho de aprender a obter sempre troco... ficar a ganhar. estou quase contente. pela primeira vez em vários meses sinto-me quase leve; acho eu. de qualquer forma, apetece-me muito pouco pensar muito.
vou passear e tirar prazer do calor. esta tarde está a transmitir-me algo de sensual.

Monday, August 08, 2005

tabula rasa

vou ter de começar tudo do zero. estou a zeros, a todos os níveis da minha existência. sou o grande possuidor de coisa nenhuma. à excepção dos meus amigos e do seu amor e do meu (bom/mau)génio. vou ter de começar tudo de novo. vou ter de ser feroz. vou fechar as comportas da minha susceptibilidade. conceitos como: amor idílico, benevolência, entrega incondicional, fragilidade, admiração, comprometimento, suspensão passional, vulnerabilidade e boa vontade para com o alheio estarão por ora em stand by. luto pela sobrevivência.
era para ir para o algarve mas já não posso ir. vou ter de ficar cá e começar a minha vida do zero. tenho de ser implacável. tenho de recuperar o tempo e energias perdidos. tenho de ser o que quero ser. tenho de ser duro, meticuloso e feroz.

from now on i'll be the major bitch. é o único remédio. eu só quero ser o que quero vir a ser. tenho-me descuidado nesse processo. está na hora de mergulhar nele em definitvo. quero voltar a sentir o sabor da realização e da vitória. quero voltar a sentir-me ligado a mim. acabou o sono. é tempo de guerra.
perdi demasiado tempo a sonhar com o el dorado do amor e da paz. os tempos são de guerra e fúria.
quem bom, a minha fúria voltou. os obstáculos serão inimigos. os amigos serão os que souberem avaliar ao retardador. eu serei a luta em si mesma.
o meu mau génio está ávido de vida. e como é certo e sabido "estar vivo é o contrário de estar morto". e eu já ando morto há uns tempos.

Thursday, August 04, 2005

a viagem

calor insuportável. acho que pela primeira vez a cabine de gravação consegue ser mais fresca do que o exterior. vou ter de ir para a rua agora. sei que vai doer. este calor apavora-me. intensifica-me tudo. e tudo o que eu queria agora era desintificar-me.
não queria ter voltado para Lisboa mas o regresso até que foi agradável. os meus amigos proporcionaram-me um bom regresso. são maravilhosos.
não me apetece pensar. não me apetece confrontar-me com os meus issues mas não tenho outro remédio. tenho saudades de viajar. tenho de resolver tanta coisa e só me apetece estar em suspensão. quem me dera congelar o tempo por algum tempo.
não sei o que sinta!
apetecia-me andar a passear; a ver e a ser visto. mas este calor não me parece muito propício para um passeio demorado. não sei que faça. estou aborrecido. preciso de novas sensações. de novos desafios. de novos contactos. preciso desesperadamente de trabalhar desesperadamente. estou a enlouquecer. tenho demasiado tempo e muito pouco dinheiro. estou sempre a pensar nas mesmas coisas. estou sempre a adiar resoluções.
os passeios que dou são as viagens que me são permitidas.
ando km e km a pé, onde quer que esteja, com os headphones aos berros. viajo em mim e na música. agora estou viciado na Ute Lemper. Num disco chamado "Life is a Cabaret". Ando a viajar nele. Quem me dera que a vida fosse esse tal intenso e glamouroso Cabaret. A minha pelo menos anda muito longe disso ultimamente.
Vou para o Adamastor. A Katy ligou-me agora, está lá. Vou beber uma cervejoca, comer uma tosta mista e fumar uma de pólen com a Katy. Lá vou ter de passear. Vou a pé até ao Adamastor. Não tenho dinheiro para andar de táxi. Ao ponto a que cheguei!
Lá vou eu para a freakalhada do Adamastor. Eu e a Ute, por essas ruas de Lisboa em brasa. A ver e a ser visto. Alivia-me, mesmo com este calor infernal, alivia-me. Além disso, habituado ao inferno já eu estou.

Tuesday, August 02, 2005

limbo again

algarve:

introspecções variadas. revisões variadas. descansos variados. dúvidas variadas. pensar em tudo e pensar em nada. querer tudo e querer nada. outra vez no limbo. limbo entre o que quero e o que sei que não quero. limbo entre o que tortura e dá prazer. limbo entre o presente e o passado. limbo entre o futuro e a ideia do que deve ser o futuro. limbo entre o sabor do amor e o sabor que deixou o amor. limbo entre o que é e o que há-de ser. estou dentro de uma cápsula que eu mesmo criei. não consigo parir-me.

pode dizer-se que estou muito confuso. deveras confuso. "ai, ai, acima, abaixo, puxa e vai."
estou tão parvo que nem eu próprio, um grande senhor da parvoíce, consigo reconhecer o grau da mesma.

"que sera, sera. whatever will be, will be. the future is not ours to see. que sera, sera!"

a merda é que the future is nothing but ours to see. o que é uma grande responsabilidade.

gostava de conseguir desenhar os meus sentimentos; para os perceber melhor.

quem me dera estar na gronelândia.

Wednesday, July 27, 2005

Rescaldo

E DEPOIS DO ADEUS

"Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.

Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder

Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci

E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...

E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós"

Letra de José Niza para música de Paulo de Carvalho.
Esta canção serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974

Esta canção não me tem saído da cabeça. Porque será?

Tuesday, July 26, 2005

parar o amor

"i'm so sad, like a good book. i can't put this day back, a sorta fairytale with you".

disse-te que a tristeza era tão profunda que me tornava incapaz de chorar, momentos depois chorei. chorei como não chorava há muito tempo. passei a noite a chorar, a exorcizar, a protestar contra tudo isto. sinto revolta e frustração e uma dor profunda por tudo isto ter de acontecer. é terrivelmente injusto: ter de parar o amor quando ainda há o amor. e agora? o que fica? o que vai ser? o que é que se faz com isto, com este sentimento que mora cá e que parece que assim vai permanecer para sempre? tenho tantas questões. foi estranha e bela a despedida: tratámo-nos como sempre. até te espalhei creme nas costas. parecia que estávamos ali para contnuar, quando estávamos a firmar a nossa separação. beijámo-nos várias vezes como se estivéssemos a negar esse adeus, como se estivessemos ali para continuar a ser um do outro. despedimo-nos com beijos como se o dia de amanhã fosse nosso como todos os outros dias até agora. fui à janela, como quase sempre, ver-te entrar no carro e despedir-me de ti. isso é que me dói e revolta mais, dissemos adeus mais ainda me sinto teu. e ainda te sinto meu.
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que fomos tão estranhamente feitos um para o outro?
porque eu sinto que de uma forma muito profunda, e para nós até imperceptível, estamos, agora pelo menos, feitos um para o outro.
porque é que não temos forças para ficar?
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que não somos mais profundos nas acções e as pomos em ligação directa com o sentimento?
falas de entendimento, do nosso entendimento. eu chamo-lhe profundidade. no fundo, no fundo é a profundidade do entendimento.
porque é que isso não basta para nos manter ligados?
quero e não quero pensar nisto. tenho de pensar nisto, não consigo evitar sentir isto.
como te disse várias vezes, olho para ti e derreto-me.
e agora?
acho que o grande problema é que levámos tudo tão a sério que nos esquecemos de rir com o nosso amor.
é muito estranho: ter de parar o amor quando ainda há o amor.
amo-te, tu sabes disso, e hei-de fazer tudo o que estiver ao meu alcançe para voltar a rir contigo. seja de que forma for. porque apesar de tudo, mesmo parado, há aqui amor.

Sunday, July 24, 2005

pontadas

eu sei que "roma e pavia não se fizeram num dia" mas "o que tem de ser tem muita força". até porque "há mais marés que marinheiros" e eu descobri que não consigo estar numa de "grão a grão enche a galinha o papo".

acordei com umas dores fortíssimas no lado direito da cabeça. persistem. são uma espécie de pontadas, vão e voltam. parece que algo está prestes a rebentar aqui dentro. um género de alta tensão que parece estar acumulada. got to see the doctor.

dia mau hoje. acordar de rompante com dores, receber notícias más. energia estranha.

tenho até ao fim deste mês para recuperar a minha serenidade. as decisões estão a ser tomadas. falta o resto.

estou apaixonado por uma canção dos coldplay, ouvi-a ontem em loop uma 60 vezes. é linda e retrata qualquer coisa que quero sentir.

"swallowed in the sea"

You cut me down a tree and brought it back to me
and that’s what made me see where I was going wrong
You put me on a shelf and kept me for yourself
I can only blame myself, you can only blame me
and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
and I could write it down or spread it all around
Get lost and then get found or swallowed in the sea

You put me on a line and hung me out to dry
Darling that’s when I decided to go to see you
You cut me down to size and opened up my eyes
Made me realize what I could not see

and I could write a book, the one they'll say that shook the world
and then it took, it took it back from me
and I could write it down and spread it all around
Get lost and then get found and you'll come back to me
Not swallowed in the sea

Oohhhhh Ahhhhhh

and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
The streets you’re walking on, a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Oh what good is it to live with nothing left to give
Forget but not forgive, not loving all you see
Oh the streets you’re walking on a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Not swallowed in the sea

You belong with me, not swallowed in the sea
Yeah you belong with me

Not swallowed in the sea


respiro debaixo de água mas sei que hei-de voltar à tona.