calor insuportável. acho que pela primeira vez a cabine de gravação consegue ser mais fresca do que o exterior. vou ter de ir para a rua agora. sei que vai doer. este calor apavora-me. intensifica-me tudo. e tudo o que eu queria agora era desintificar-me.
não queria ter voltado para Lisboa mas o regresso até que foi agradável. os meus amigos proporcionaram-me um bom regresso. são maravilhosos.
não me apetece pensar. não me apetece confrontar-me com os meus issues mas não tenho outro remédio. tenho saudades de viajar. tenho de resolver tanta coisa e só me apetece estar em suspensão. quem me dera congelar o tempo por algum tempo.
não sei o que sinta!
apetecia-me andar a passear; a ver e a ser visto. mas este calor não me parece muito propício para um passeio demorado. não sei que faça. estou aborrecido. preciso de novas sensações. de novos desafios. de novos contactos. preciso desesperadamente de trabalhar desesperadamente. estou a enlouquecer. tenho demasiado tempo e muito pouco dinheiro. estou sempre a pensar nas mesmas coisas. estou sempre a adiar resoluções.
os passeios que dou são as viagens que me são permitidas.
ando km e km a pé, onde quer que esteja, com os headphones aos berros. viajo em mim e na música. agora estou viciado na Ute Lemper. Num disco chamado "Life is a Cabaret". Ando a viajar nele. Quem me dera que a vida fosse esse tal intenso e glamouroso Cabaret. A minha pelo menos anda muito longe disso ultimamente.
Vou para o Adamastor. A Katy ligou-me agora, está lá. Vou beber uma cervejoca, comer uma tosta mista e fumar uma de pólen com a Katy. Lá vou ter de passear. Vou a pé até ao Adamastor. Não tenho dinheiro para andar de táxi. Ao ponto a que cheguei!
Lá vou eu para a freakalhada do Adamastor. Eu e a Ute, por essas ruas de Lisboa em brasa. A ver e a ser visto. Alivia-me, mesmo com este calor infernal, alivia-me. Além disso, habituado ao inferno já eu estou.
Thursday, August 04, 2005
Tuesday, August 02, 2005
limbo again
algarve:
introspecções variadas. revisões variadas. descansos variados. dúvidas variadas. pensar em tudo e pensar em nada. querer tudo e querer nada. outra vez no limbo. limbo entre o que quero e o que sei que não quero. limbo entre o que tortura e dá prazer. limbo entre o presente e o passado. limbo entre o futuro e a ideia do que deve ser o futuro. limbo entre o sabor do amor e o sabor que deixou o amor. limbo entre o que é e o que há-de ser. estou dentro de uma cápsula que eu mesmo criei. não consigo parir-me.
pode dizer-se que estou muito confuso. deveras confuso. "ai, ai, acima, abaixo, puxa e vai."
estou tão parvo que nem eu próprio, um grande senhor da parvoíce, consigo reconhecer o grau da mesma.
"que sera, sera. whatever will be, will be. the future is not ours to see. que sera, sera!"
a merda é que the future is nothing but ours to see. o que é uma grande responsabilidade.
gostava de conseguir desenhar os meus sentimentos; para os perceber melhor.
quem me dera estar na gronelândia.
introspecções variadas. revisões variadas. descansos variados. dúvidas variadas. pensar em tudo e pensar em nada. querer tudo e querer nada. outra vez no limbo. limbo entre o que quero e o que sei que não quero. limbo entre o que tortura e dá prazer. limbo entre o presente e o passado. limbo entre o futuro e a ideia do que deve ser o futuro. limbo entre o sabor do amor e o sabor que deixou o amor. limbo entre o que é e o que há-de ser. estou dentro de uma cápsula que eu mesmo criei. não consigo parir-me.
pode dizer-se que estou muito confuso. deveras confuso. "ai, ai, acima, abaixo, puxa e vai."
estou tão parvo que nem eu próprio, um grande senhor da parvoíce, consigo reconhecer o grau da mesma.
"que sera, sera. whatever will be, will be. the future is not ours to see. que sera, sera!"
a merda é que the future is nothing but ours to see. o que é uma grande responsabilidade.
gostava de conseguir desenhar os meus sentimentos; para os perceber melhor.
quem me dera estar na gronelândia.
Wednesday, July 27, 2005
Rescaldo
E DEPOIS DO ADEUS
"Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós"
Letra de José Niza para música de Paulo de Carvalho.
Esta canção serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974
Esta canção não me tem saído da cabeça. Porque será?
"Quis saber quem sou
O que faço aqui
Quem me abandonou
De quem me esqueci
Perguntei por mim
Quis saber de nós
Mas o mar
Não me traz
Tua voz.
Em silêncio, amor
Em tristeza e fim
Eu te sinto, em flor
Eu te sofro, em mim
Eu te lembro, assim
Partir é morrer
Como amar
É ganhar
E perder
Tu vieste em flor
Eu te desfolhei
Tu te deste em amor
Eu nada te dei
Em teu corpo, amor
Eu adormeci
Morri nele
E ao morrer
Renasci
E depois do amor
E depois de nós
O dizer adeus
O ficarmos sós
Teu lugar a mais
Tua ausência em mim
Tua paz
Que perdi
Minha dor que aprendi
De novo vieste em flor
Te desfolhei...
E depois do amor
E depois de nós
O adeus
O ficarmos sós"
Letra de José Niza para música de Paulo de Carvalho.
Esta canção serviu de senha de início da revolução de 25 de Abril de 1974
Esta canção não me tem saído da cabeça. Porque será?
Tuesday, July 26, 2005
parar o amor
"i'm so sad, like a good book. i can't put this day back, a sorta fairytale with you".
disse-te que a tristeza era tão profunda que me tornava incapaz de chorar, momentos depois chorei. chorei como não chorava há muito tempo. passei a noite a chorar, a exorcizar, a protestar contra tudo isto. sinto revolta e frustração e uma dor profunda por tudo isto ter de acontecer. é terrivelmente injusto: ter de parar o amor quando ainda há o amor. e agora? o que fica? o que vai ser? o que é que se faz com isto, com este sentimento que mora cá e que parece que assim vai permanecer para sempre? tenho tantas questões. foi estranha e bela a despedida: tratámo-nos como sempre. até te espalhei creme nas costas. parecia que estávamos ali para contnuar, quando estávamos a firmar a nossa separação. beijámo-nos várias vezes como se estivéssemos a negar esse adeus, como se estivessemos ali para continuar a ser um do outro. despedimo-nos com beijos como se o dia de amanhã fosse nosso como todos os outros dias até agora. fui à janela, como quase sempre, ver-te entrar no carro e despedir-me de ti. isso é que me dói e revolta mais, dissemos adeus mais ainda me sinto teu. e ainda te sinto meu.
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que fomos tão estranhamente feitos um para o outro?
porque eu sinto que de uma forma muito profunda, e para nós até imperceptível, estamos, agora pelo menos, feitos um para o outro.
porque é que não temos forças para ficar?
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que não somos mais profundos nas acções e as pomos em ligação directa com o sentimento?
falas de entendimento, do nosso entendimento. eu chamo-lhe profundidade. no fundo, no fundo é a profundidade do entendimento.
porque é que isso não basta para nos manter ligados?
quero e não quero pensar nisto. tenho de pensar nisto, não consigo evitar sentir isto.
como te disse várias vezes, olho para ti e derreto-me.
e agora?
acho que o grande problema é que levámos tudo tão a sério que nos esquecemos de rir com o nosso amor.
é muito estranho: ter de parar o amor quando ainda há o amor.
amo-te, tu sabes disso, e hei-de fazer tudo o que estiver ao meu alcançe para voltar a rir contigo. seja de que forma for. porque apesar de tudo, mesmo parado, há aqui amor.
disse-te que a tristeza era tão profunda que me tornava incapaz de chorar, momentos depois chorei. chorei como não chorava há muito tempo. passei a noite a chorar, a exorcizar, a protestar contra tudo isto. sinto revolta e frustração e uma dor profunda por tudo isto ter de acontecer. é terrivelmente injusto: ter de parar o amor quando ainda há o amor. e agora? o que fica? o que vai ser? o que é que se faz com isto, com este sentimento que mora cá e que parece que assim vai permanecer para sempre? tenho tantas questões. foi estranha e bela a despedida: tratámo-nos como sempre. até te espalhei creme nas costas. parecia que estávamos ali para contnuar, quando estávamos a firmar a nossa separação. beijámo-nos várias vezes como se estivéssemos a negar esse adeus, como se estivessemos ali para continuar a ser um do outro. despedimo-nos com beijos como se o dia de amanhã fosse nosso como todos os outros dias até agora. fui à janela, como quase sempre, ver-te entrar no carro e despedir-me de ti. isso é que me dói e revolta mais, dissemos adeus mais ainda me sinto teu. e ainda te sinto meu.
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que fomos tão estranhamente feitos um para o outro?
porque eu sinto que de uma forma muito profunda, e para nós até imperceptível, estamos, agora pelo menos, feitos um para o outro.
porque é que não temos forças para ficar?
porque é que temos de parar o amor quando ainda há o amor?
porque é que não somos mais profundos nas acções e as pomos em ligação directa com o sentimento?
falas de entendimento, do nosso entendimento. eu chamo-lhe profundidade. no fundo, no fundo é a profundidade do entendimento.
porque é que isso não basta para nos manter ligados?
quero e não quero pensar nisto. tenho de pensar nisto, não consigo evitar sentir isto.
como te disse várias vezes, olho para ti e derreto-me.
e agora?
acho que o grande problema é que levámos tudo tão a sério que nos esquecemos de rir com o nosso amor.
é muito estranho: ter de parar o amor quando ainda há o amor.
amo-te, tu sabes disso, e hei-de fazer tudo o que estiver ao meu alcançe para voltar a rir contigo. seja de que forma for. porque apesar de tudo, mesmo parado, há aqui amor.
Sunday, July 24, 2005
pontadas
eu sei que "roma e pavia não se fizeram num dia" mas "o que tem de ser tem muita força". até porque "há mais marés que marinheiros" e eu descobri que não consigo estar numa de "grão a grão enche a galinha o papo".
acordei com umas dores fortíssimas no lado direito da cabeça. persistem. são uma espécie de pontadas, vão e voltam. parece que algo está prestes a rebentar aqui dentro. um género de alta tensão que parece estar acumulada. got to see the doctor.
dia mau hoje. acordar de rompante com dores, receber notícias más. energia estranha.
tenho até ao fim deste mês para recuperar a minha serenidade. as decisões estão a ser tomadas. falta o resto.
estou apaixonado por uma canção dos coldplay, ouvi-a ontem em loop uma 60 vezes. é linda e retrata qualquer coisa que quero sentir.
"swallowed in the sea"
You cut me down a tree and brought it back to me
and that’s what made me see where I was going wrong
You put me on a shelf and kept me for yourself
I can only blame myself, you can only blame me
and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
and I could write it down or spread it all around
Get lost and then get found or swallowed in the sea
You put me on a line and hung me out to dry
Darling that’s when I decided to go to see you
You cut me down to size and opened up my eyes
Made me realize what I could not see
and I could write a book, the one they'll say that shook the world
and then it took, it took it back from me
and I could write it down and spread it all around
Get lost and then get found and you'll come back to me
Not swallowed in the sea
Oohhhhh Ahhhhhh
and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
The streets you’re walking on, a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Oh what good is it to live with nothing left to give
Forget but not forgive, not loving all you see
Oh the streets you’re walking on a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Not swallowed in the sea
You belong with me, not swallowed in the sea
Yeah you belong with me
Not swallowed in the sea
respiro debaixo de água mas sei que hei-de voltar à tona.
acordei com umas dores fortíssimas no lado direito da cabeça. persistem. são uma espécie de pontadas, vão e voltam. parece que algo está prestes a rebentar aqui dentro. um género de alta tensão que parece estar acumulada. got to see the doctor.
dia mau hoje. acordar de rompante com dores, receber notícias más. energia estranha.
tenho até ao fim deste mês para recuperar a minha serenidade. as decisões estão a ser tomadas. falta o resto.
estou apaixonado por uma canção dos coldplay, ouvi-a ontem em loop uma 60 vezes. é linda e retrata qualquer coisa que quero sentir.
"swallowed in the sea"
You cut me down a tree and brought it back to me
and that’s what made me see where I was going wrong
You put me on a shelf and kept me for yourself
I can only blame myself, you can only blame me
and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
and I could write it down or spread it all around
Get lost and then get found or swallowed in the sea
You put me on a line and hung me out to dry
Darling that’s when I decided to go to see you
You cut me down to size and opened up my eyes
Made me realize what I could not see
and I could write a book, the one they'll say that shook the world
and then it took, it took it back from me
and I could write it down and spread it all around
Get lost and then get found and you'll come back to me
Not swallowed in the sea
Oohhhhh Ahhhhhh
and I could write a song a hundred miles long
Well that’s where I belong and you belong with me
The streets you’re walking on, a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Oh what good is it to live with nothing left to give
Forget but not forgive, not loving all you see
Oh the streets you’re walking on a thousand houses long
Well that’s where I belong and you belong with me
Not swallowed in the sea
You belong with me, not swallowed in the sea
Yeah you belong with me
Not swallowed in the sea
respiro debaixo de água mas sei que hei-de voltar à tona.
Wednesday, July 20, 2005
às moscas
eu: sabes quando a televisão não está sintonizada em canal algum e o que vês são apenas míriades de pontos pretos e brancos?
alguém: sim, quando está com moscas.
eu: sim, a isso chama-se estática. é assim que eu me sinto.
alguém: sentes-te estático?
eu: não, sinto-me às moscas.
ESTÁTICA:A estática é a parte da física que estuda sistemas sob acção de forças que se equilibram. De acordo com a segunda lei de Newton, a aceleração destes sistemas é nula. De acordo com a primeira lei de Newton, todas as partes de um sistema em equilíbrio também estão em equilíbrio. Este facto permite determinar as forças internas de um corpo a partir do valor das forças externas.
in, Wikipedia
.............................................................
"eu não dava a vida pela minha vida"
Otavio Paz
.............................................................
só me apetece viver dentro dos livros; a vida tornou-se demasiado irreal para que me permita manter-me preso a ela. sou um espectador incompetente de mim mesmo. preciso de dinheiro e de umas férias de mim. hoje sou portador de uma sensação completamente nova. tão nova que ainda se mostra inadjectivável. posso, no entanto, adiantar que é uma mistura de sentimento de impotência, frustração, revolta, pânico, solidão, raiva, tédio profundo, alienação, decepção, falta de eco, carência, necessidade de evasão e de sustentabilidade. em suma, tou com uns cornos do tamanho da ponte vasco da gama. vou seguir a dica dos meus cornos e vou para o algarve. quero a minha mãe. quem me dera poder chorar no colo dela.
sinto saudades de quando tu, mais do que uma simples palavra, era um sítio onde eu podia adormecer.
quem me dera voltar a ser um suicida em potência. nesses tempos a morte era sempre um consolo que eu ia adiando dia após dia. perdi a vontade de morrer mas também não ando a gostar muito desta vida; gostava de passar já para a próxima.
meu deus, o que a falta de dinheiro faz às pessoas!
apesar de tudo isto estou seguro de uma coisa: amo-te.
quem me dera não estar a passar por uma fase tão complicada para te poder amar de uma forma melhor. por agora é a forma que tenho.
amo-te, mesmo.
alguém: sim, quando está com moscas.
eu: sim, a isso chama-se estática. é assim que eu me sinto.
alguém: sentes-te estático?
eu: não, sinto-me às moscas.
ESTÁTICA:A estática é a parte da física que estuda sistemas sob acção de forças que se equilibram. De acordo com a segunda lei de Newton, a aceleração destes sistemas é nula. De acordo com a primeira lei de Newton, todas as partes de um sistema em equilíbrio também estão em equilíbrio. Este facto permite determinar as forças internas de um corpo a partir do valor das forças externas.
in, Wikipedia
.............................................................
"eu não dava a vida pela minha vida"
Otavio Paz
.............................................................
só me apetece viver dentro dos livros; a vida tornou-se demasiado irreal para que me permita manter-me preso a ela. sou um espectador incompetente de mim mesmo. preciso de dinheiro e de umas férias de mim. hoje sou portador de uma sensação completamente nova. tão nova que ainda se mostra inadjectivável. posso, no entanto, adiantar que é uma mistura de sentimento de impotência, frustração, revolta, pânico, solidão, raiva, tédio profundo, alienação, decepção, falta de eco, carência, necessidade de evasão e de sustentabilidade. em suma, tou com uns cornos do tamanho da ponte vasco da gama. vou seguir a dica dos meus cornos e vou para o algarve. quero a minha mãe. quem me dera poder chorar no colo dela.
sinto saudades de quando tu, mais do que uma simples palavra, era um sítio onde eu podia adormecer.
quem me dera voltar a ser um suicida em potência. nesses tempos a morte era sempre um consolo que eu ia adiando dia após dia. perdi a vontade de morrer mas também não ando a gostar muito desta vida; gostava de passar já para a próxima.
meu deus, o que a falta de dinheiro faz às pessoas!
apesar de tudo isto estou seguro de uma coisa: amo-te.
quem me dera não estar a passar por uma fase tão complicada para te poder amar de uma forma melhor. por agora é a forma que tenho.
amo-te, mesmo.
Saturday, July 16, 2005
cornos p'ra mim
recuperei o meu livro "finis praxis", ainda estava no pc da rosa. já o descobri há uns dias. refiro-o agora porque estive, durante a madrugada passada, a rever e a retocar o mesmo. foi estranho, os regressos são-me sempre estranhos. o que se torna particularmente estranho neste mergulho é que nesse livro eu sou capaz de fazer um flashback dos meus últimos dez anos de vida. detenho-me em alguns poemas e tento redefinir os espaços, as situações, os sentimentos, as pessoas que estiveram na origem dos mesmos. sobretudo as pessoas, ou as ligações às mesmas. a grande virtude da redacção da poesia é que esta nos perpetua as ligagões. não é fácil aceitar/integrar isto. mas faz parte do processo. hoje em dia já aceito este facto com uma maior tranquilidade. a poesia é o supra-sumo da virtualidade. não no aqui e no agora (principal característica do conceito contemporâneo do virtual) mas no aqui e no depois. a poesia é um compromisso absoluto com o futuro.
a poesia é-me e ser-me-à sempre enquanto me é.
o pior dos mergulhos, o que faço agora e que nada tem de poético, é que não consigo parar de cometer os mesmo erros.
estou ultra fodido comigo.
cornos p'ra mim.
"i only hurt the ones i love. erotic, erotic, put your hands all over my body."
a poesia é-me e ser-me-à sempre enquanto me é.
o pior dos mergulhos, o que faço agora e que nada tem de poético, é que não consigo parar de cometer os mesmo erros.
estou ultra fodido comigo.
cornos p'ra mim.
"i only hurt the ones i love. erotic, erotic, put your hands all over my body."
Friday, July 08, 2005
dor de garganta
faço 29 anos amanhã.
estou no algarve (na minha terra natal). é suposto ir para lisboa amanhã. metade dos meus amigos está em lisboa e a outra metade está cá. não apetece ficar mas apetece-me muito menos voltar para lisboa. apetece-me estar em lugar nenhum. apetece-me estar num anti lugar.
estou triste, confuso. dói-me a garganta. estou com uma inflamação há cerca de uma semana. toneladas de jabasulide e de mebocaína e nada acontece. não melhoro.
além de todas as outras coisas que me levam a questionar a validade da relação que tenho. estou triste. triste comigo e triste contigo.
odeio telemóveis.
odeio esta sensação de que para bem de mim o melhor é baixar as espectativas. odeio sentir estas coisas. odeio o atrito e o desconhecimento.
quero as minhas lentes de contacto de volta.
quero saber para onde quero ir.
quero a sanidade da minha garganta.
e quero a verdade nua e crua.
quero sentir-te.
estou no algarve (na minha terra natal). é suposto ir para lisboa amanhã. metade dos meus amigos está em lisboa e a outra metade está cá. não apetece ficar mas apetece-me muito menos voltar para lisboa. apetece-me estar em lugar nenhum. apetece-me estar num anti lugar.
estou triste, confuso. dói-me a garganta. estou com uma inflamação há cerca de uma semana. toneladas de jabasulide e de mebocaína e nada acontece. não melhoro.
além de todas as outras coisas que me levam a questionar a validade da relação que tenho. estou triste. triste comigo e triste contigo.
odeio telemóveis.
odeio esta sensação de que para bem de mim o melhor é baixar as espectativas. odeio sentir estas coisas. odeio o atrito e o desconhecimento.
quero as minhas lentes de contacto de volta.
quero saber para onde quero ir.
quero a sanidade da minha garganta.
e quero a verdade nua e crua.
quero sentir-te.
Friday, July 01, 2005
lentes de contacto 2
perdi uma lente de contacto.
a culpa é da lena. dormi em casa dela e não tinha o estojo das lentes.
coloquei as lentes, cuidadosamente, dentro de duas chávenas de café com soro fisiológico (eu sei que não devia; o senhor da multiopticas disse-me para nunca o fazer).
a grande querida lena, em fúria etílica, decidiu averiguar o que estava dentro das chávenas, em cima do móvel do corredor, e como é uma rapariga muito delicada fez uma das lentes voar para algures e desaparecer para sempre.
agora estou no estúdio de dobragens, a fazer uma pausa e a descansar da sauna que é a cabine de gravação e sinto-me muito tonto da ressaca e por ter apenas uma lente posta.
vou voltar a dobrar bonecos e a fazer sauna. tou ceguinho de um olho mas tonificado pelo trabalho.
ai, ai, que louco este estar contemporâneo.
a culpa é da lena. dormi em casa dela e não tinha o estojo das lentes.
coloquei as lentes, cuidadosamente, dentro de duas chávenas de café com soro fisiológico (eu sei que não devia; o senhor da multiopticas disse-me para nunca o fazer).
a grande querida lena, em fúria etílica, decidiu averiguar o que estava dentro das chávenas, em cima do móvel do corredor, e como é uma rapariga muito delicada fez uma das lentes voar para algures e desaparecer para sempre.
agora estou no estúdio de dobragens, a fazer uma pausa e a descansar da sauna que é a cabine de gravação e sinto-me muito tonto da ressaca e por ter apenas uma lente posta.
vou voltar a dobrar bonecos e a fazer sauna. tou ceguinho de um olho mas tonificado pelo trabalho.
ai, ai, que louco este estar contemporâneo.
Thursday, June 30, 2005
hoje
no net at home.
tenho muitas saudades do meu diário. nem sei o que nele hei-de escrever. instalou-se aquele desconforto tímido que me é característico aquando das ausências.
estou no escritório do alexandre, o meu agente, mas ele não está cá. felizmente tenho pessoas que são boas e generosas comigo. o alexandre tem sido uma delas. um bom coração.
os amigos são um grande suporte. sempre. amo os meus amigos profundamente, essencialmente e insistentemente.
sinto que tenho a sorte de ter como amigos as pessoas mais sensíveis, inteligentes, brilhantes e complicadas que tenho conhecido. somos assim: uns dos outros no certo e no errado. somos uns dos outros e todos das falhas. cada vez tenho um maior respeito pelas falhas.
ando pouco amigo de mim mesmo. tenho estado pouco comigo. rodeio-me. raramente estou no meu "pequeno mundo de ficção interior". fico à porta do mesmo e não entro. acho que tenho medo de ter perdido a capacidade de me ficcionar. é por isso que não ando ligado ao meu "mundinho". estou em ligação permanente e ansiosa com o exterior. sinto que ao estar recolhido em mim estou sempre na eminência de perder alguma coisa que o exterior me possa fornecer e que me possa ser preciosa. é uma ilusão. crio esta ilusão para não entrar em mim. talvez porque eu próprio saiba que tenho vindo a perder a capacidade de criar ilusões para mim mesmo.
há uns tempos atrás percebi uma coisa:
na minha vida tudo é ao lado. não estou longe de estar lá; não estou perto de lá. estou ao lado de lá. ando à volta de mim.
faço 29 anos daqui a 10 dias. queria fazer já 30 anos. o astrólogo, no início de 2004, disse-me que aos 30 anos a minha vida vai mudar radicalmente e que vou finalmente entrar na assertividade e ascendência. disse-me que vou passar também, nessa altura, por uma revolução libidinosa. quero fazer uma elipse, avançar no tempo e deixar os 20 já. fingir que já vou fazer 30 não me agrada. mas também não quero um ano de limbo. tenho 10 dias para decidir quem vou ser durante este último ano desta atormentada década.
acho que me vou isolar e obrigar-me a entrar no meu "mundinho".
quem me dera ter dinheiro. apetecia-me muito fazer este regresso ao "meu pequeno mundo de ficção interior" em marrakesh. tenho muitas saudades de marrakesh. a cidade bela onde me senti melhor em toda a minha vida. marrakesh a cidade vermelha. marrakesh a cidade erótica. prometo que é lá que vou fazer 30 anos. nem que o camelo tussa.
tenho muitas saudades do meu diário. nem sei o que nele hei-de escrever. instalou-se aquele desconforto tímido que me é característico aquando das ausências.
estou no escritório do alexandre, o meu agente, mas ele não está cá. felizmente tenho pessoas que são boas e generosas comigo. o alexandre tem sido uma delas. um bom coração.
os amigos são um grande suporte. sempre. amo os meus amigos profundamente, essencialmente e insistentemente.
sinto que tenho a sorte de ter como amigos as pessoas mais sensíveis, inteligentes, brilhantes e complicadas que tenho conhecido. somos assim: uns dos outros no certo e no errado. somos uns dos outros e todos das falhas. cada vez tenho um maior respeito pelas falhas.
ando pouco amigo de mim mesmo. tenho estado pouco comigo. rodeio-me. raramente estou no meu "pequeno mundo de ficção interior". fico à porta do mesmo e não entro. acho que tenho medo de ter perdido a capacidade de me ficcionar. é por isso que não ando ligado ao meu "mundinho". estou em ligação permanente e ansiosa com o exterior. sinto que ao estar recolhido em mim estou sempre na eminência de perder alguma coisa que o exterior me possa fornecer e que me possa ser preciosa. é uma ilusão. crio esta ilusão para não entrar em mim. talvez porque eu próprio saiba que tenho vindo a perder a capacidade de criar ilusões para mim mesmo.
há uns tempos atrás percebi uma coisa:
na minha vida tudo é ao lado. não estou longe de estar lá; não estou perto de lá. estou ao lado de lá. ando à volta de mim.
faço 29 anos daqui a 10 dias. queria fazer já 30 anos. o astrólogo, no início de 2004, disse-me que aos 30 anos a minha vida vai mudar radicalmente e que vou finalmente entrar na assertividade e ascendência. disse-me que vou passar também, nessa altura, por uma revolução libidinosa. quero fazer uma elipse, avançar no tempo e deixar os 20 já. fingir que já vou fazer 30 não me agrada. mas também não quero um ano de limbo. tenho 10 dias para decidir quem vou ser durante este último ano desta atormentada década.
acho que me vou isolar e obrigar-me a entrar no meu "mundinho".
quem me dera ter dinheiro. apetecia-me muito fazer este regresso ao "meu pequeno mundo de ficção interior" em marrakesh. tenho muitas saudades de marrakesh. a cidade bela onde me senti melhor em toda a minha vida. marrakesh a cidade vermelha. marrakesh a cidade erótica. prometo que é lá que vou fazer 30 anos. nem que o camelo tussa.
Wednesday, June 22, 2005
a future refrain for a future song
BEING IS JUST BEING
SEING IS JUST SEING
FEELING IS JUST FEELING
I KEEP WAITING FOR YOUR WILLING
SEING IS JUST SEING
FEELING IS JUST FEELING
I KEEP WAITING FOR YOUR WILLING
auto slogans e uma citação
I NEED PERMANENT EYE CONTACT.
I NEED TO FEEL THAT SOMEONE IS BREATHING ME.
I NEED TO FEEL REAL FEELINGS.
I AM SICK AND TIRED OF VIRTUALITY.
ALTHOUGH I'M ADDICTED TO SOUL-TO-SOUL CRASH I REALLY LOVE THE TASTE OF THE HUMAN FLESH.
"dois braços à minha espera. é uma casa portuguesa concerteza. é concerteza uma casa portuguesa."
I NEED TO FEEL THAT SOMEONE IS BREATHING ME.
I NEED TO FEEL REAL FEELINGS.
I AM SICK AND TIRED OF VIRTUALITY.
ALTHOUGH I'M ADDICTED TO SOUL-TO-SOUL CRASH I REALLY LOVE THE TASTE OF THE HUMAN FLESH.
"dois braços à minha espera. é uma casa portuguesa concerteza. é concerteza uma casa portuguesa."
Tuesday, June 21, 2005
lentes de contacto
demorei a adormecer. apesar de desconcentrado, masturbei-me entretanto para me acalmar. seriam umas seis e meia. o coração batia estupidamente. má cocaína a mais. de vez em quando faz bem; mesmo sendo má. ao contrário do sexo. não corroboro a expressão "mesmo quando é mau é bom". quer dizer... não sei se corroboro ou não... não, não corroboro.
reflexão adjacente à taquicardia:
acalma-te e sorri: a desilusão nada mais é do que o contrário da ilusão.
começo a sentir a saída de saturno da minha vida. só não estou mais leve porque este calor me está a sufocar. odeio transpirar... a não ser quando fodo.
vou à multiopticas buscar as minhas primeiras lentes de contacto. preciso de lentes e preciso de contacto.
ando ceguinho e descontactado mas não vai ser por muito mais tempo. sinto que uma mudança se aproxima. estou curioso. venha ela já; tenho lentes e já desmontei a desilusão (no geral).
reflexão adjacente à taquicardia:
acalma-te e sorri: a desilusão nada mais é do que o contrário da ilusão.
começo a sentir a saída de saturno da minha vida. só não estou mais leve porque este calor me está a sufocar. odeio transpirar... a não ser quando fodo.
vou à multiopticas buscar as minhas primeiras lentes de contacto. preciso de lentes e preciso de contacto.
ando ceguinho e descontactado mas não vai ser por muito mais tempo. sinto que uma mudança se aproxima. estou curioso. venha ela já; tenho lentes e já desmontei a desilusão (no geral).
Thursday, June 09, 2005
bored
estou no ipj da avenida da liberdade. continuo sem net em casa.
estou a procurar programas que facilitem a procura de trabalho no estrangeiro. cada vez essa ideia me parece menos uma ideia e mais uma eventual realidade. estou farto de lisboa. para ser muito fraanco, eu sinto muito pouco que ainda aqui estou. sinto que estou noutro lado qualquer. estou num local entre o aqui e o outro local onde quero estar.
hoje sinto que estou entre a vida e a morte. num limbo. estive contente, estive triste, estive acelerado, estive lento. agora estou neste estado entre a morte e a vida.
estou aborrecido. pouca coisa me suscita empolgamento. tudo se mostra morno, mole, lento, sem rapidez, sem rasgo, sem fogo, sem loucura. a loucura, a surpresa e a velocidade criadora parecem ter abandonado a minha vida.
estou mesmo muito aborrecido com isto tudo.
vou arranjar um trabalho de merda apenas para juntar uns trocos para no fim do ano dar o grito do ipiranga.
vou para londres. chove, frio, pouca luz e mais o cacete. who cares? i do not. i want rush and fire. i feel the fire in me. no rain can stop my fire from burning.
estou a procurar programas que facilitem a procura de trabalho no estrangeiro. cada vez essa ideia me parece menos uma ideia e mais uma eventual realidade. estou farto de lisboa. para ser muito fraanco, eu sinto muito pouco que ainda aqui estou. sinto que estou noutro lado qualquer. estou num local entre o aqui e o outro local onde quero estar.
hoje sinto que estou entre a vida e a morte. num limbo. estive contente, estive triste, estive acelerado, estive lento. agora estou neste estado entre a morte e a vida.
estou aborrecido. pouca coisa me suscita empolgamento. tudo se mostra morno, mole, lento, sem rapidez, sem rasgo, sem fogo, sem loucura. a loucura, a surpresa e a velocidade criadora parecem ter abandonado a minha vida.
estou mesmo muito aborrecido com isto tudo.
vou arranjar um trabalho de merda apenas para juntar uns trocos para no fim do ano dar o grito do ipiranga.
vou para londres. chove, frio, pouca luz e mais o cacete. who cares? i do not. i want rush and fire. i feel the fire in me. no rain can stop my fire from burning.
Wednesday, June 01, 2005
estou privado
não tenho internet em casa. não sei durante quanto tempo esta situação se vai manter. o que mais me perturba é não poder aceder ao meu diário sempre que me dá na real gana.
não me apetece estar em casa. quero movida. este calor sugere movimento.
ao mesmo tempo lisboa está a entediar-me tremendamente.
estou no limbo entre rush e tédio.
supresas precisam-se!
apetece-me mesmo emigrar.
a selma e a cat estão a reclamar porque estou agarrado ao computador da julieta e não estou a interagir. adeus querido diário, até um destes dias.
miss you.
não me apetece estar em casa. quero movida. este calor sugere movimento.
ao mesmo tempo lisboa está a entediar-me tremendamente.
estou no limbo entre rush e tédio.
supresas precisam-se!
apetece-me mesmo emigrar.
a selma e a cat estão a reclamar porque estou agarrado ao computador da julieta e não estou a interagir. adeus querido diário, até um destes dias.
miss you.
Tuesday, May 24, 2005
Saturday, May 21, 2005
a tarde e o consolo
Mergulho, a sós, na tarde.
Fio da navalha: qual imberbe equilibrista, caminho sobre esta impertinente linha que separa, por um lado, o conforto e o consolo dados pelas entregas e, por outro, a teimosa ansiedade que me prende à impossibilidade de me entregar ao rumo natural das naturezas e dos acontecimentos.
Vou cortar esta linha.
Vou ser livre no corte.
Vou ser severo na cura.
Tenho por quem correr, tenho por quem querer, tenho por quem esperar. Tenho quem me ame e tenho quem amar. Todos os dias tenho o amor a acontecer-me. Tenho quem mo diga, quem mo demonstre, quem mo prove. Tenho em quem pensar quando tenho de pensar no que é bom e vale a pena lutar. Tenho por quem sorrir quando acordo e adormeço. Tenho quem desejar. Tenho quem observar com ternura e admiração. Tenho com quem debater e conversar. Tenho quem me ajude e tenho quem ajudar. Tenho quem me olhe com carinho. Tenho quem se alegre por me ter conhecido. Tenho tanta gente. Tenho um pouco de tudo em toda a gente. Tenho por quem querer ir mais longe para estar mais perto. Apenas não tenho a paz necessária para viver tudo isso em liberdade. Tenho um abismo de dúvidas que teima em não se fechar. Tenho-me a mim e ao tempo para fazer esse derradeiro fecho. Tenho tudo para me provar.
Tento serenar. Tento calar esta já rouca e senil máquina que trabalha a sós para que não se instale a falência definitiva nesta fábrica do medo que teima em existir dentro de mim. É inevitável a falência desta fábrica: o medo é um produto inútil. O medo é um produto que não quero voltar a comprar. O medo é um produto que não circula. O medo é um produto que impede o livre-trânsito das sensações.
Vou fechar, com as duas mãos, fábricas e abismos. Vou ser livre para amar em liberdade e em paz. Vou ser teimoso, metódico e artista.
Mergulho em Stig Dagerman. Leio “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Conheço este texto há cerca de dez anos. Sempre me identifiquei com ele. Foi a Mónica Bolas quem mo ofereceu. Perdi esse mesmo livro numa das inúmeras mudanças de casa que fiz nesta última década. No natal passado a Rosa ofereceu-mo. Ocorreu o reencontro. Vou levar este reencontro às suas últimas consequências e vou usar o texto no espectáculo a solo que estou a preparar.
Enquanto lia, em voz alta, o texto do Stig Dagerman, no sofá da sala, tinha a televisão ligada na RTP Memória. Estavam a transmitir um programa que o Carlos do Carmo gravou para a RTP em 1981. Parei e leitura e entreguei-me à bela voz do cantor. E eis que ela surgiu, uma das mais belas canções de sempre, “Estrela da Tarde”. Esta canção emociona-me profundamente, arrepia-me, dá-me vontade de chorar e amar ilimitadamente (sem medos e angústias). O poema do Ary dos Santos é soberbo, obra prima, de uma profundidade maior e a interpretação do Carlos do Carmo sempre foi arrepiante.
Encontrei o consolo hoje à tarde; enquanto pensava nas provas de amor que recebo todos os dias, enquanto lia Stig Dagerman e enquanto me emocionava a ver o Carlos do Carmo a interpretar um dos mais belos poemas de sempre.
Vou rir do medo, vou brincar comigo.
Estrela da Tarde
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"
José Carlos Ary dos Santos
Fio da navalha: qual imberbe equilibrista, caminho sobre esta impertinente linha que separa, por um lado, o conforto e o consolo dados pelas entregas e, por outro, a teimosa ansiedade que me prende à impossibilidade de me entregar ao rumo natural das naturezas e dos acontecimentos.
Vou cortar esta linha.
Vou ser livre no corte.
Vou ser severo na cura.
Tenho por quem correr, tenho por quem querer, tenho por quem esperar. Tenho quem me ame e tenho quem amar. Todos os dias tenho o amor a acontecer-me. Tenho quem mo diga, quem mo demonstre, quem mo prove. Tenho em quem pensar quando tenho de pensar no que é bom e vale a pena lutar. Tenho por quem sorrir quando acordo e adormeço. Tenho quem desejar. Tenho quem observar com ternura e admiração. Tenho com quem debater e conversar. Tenho quem me ajude e tenho quem ajudar. Tenho quem me olhe com carinho. Tenho quem se alegre por me ter conhecido. Tenho tanta gente. Tenho um pouco de tudo em toda a gente. Tenho por quem querer ir mais longe para estar mais perto. Apenas não tenho a paz necessária para viver tudo isso em liberdade. Tenho um abismo de dúvidas que teima em não se fechar. Tenho-me a mim e ao tempo para fazer esse derradeiro fecho. Tenho tudo para me provar.
Tento serenar. Tento calar esta já rouca e senil máquina que trabalha a sós para que não se instale a falência definitiva nesta fábrica do medo que teima em existir dentro de mim. É inevitável a falência desta fábrica: o medo é um produto inútil. O medo é um produto que não quero voltar a comprar. O medo é um produto que não circula. O medo é um produto que impede o livre-trânsito das sensações.
Vou fechar, com as duas mãos, fábricas e abismos. Vou ser livre para amar em liberdade e em paz. Vou ser teimoso, metódico e artista.
Mergulho em Stig Dagerman. Leio “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Conheço este texto há cerca de dez anos. Sempre me identifiquei com ele. Foi a Mónica Bolas quem mo ofereceu. Perdi esse mesmo livro numa das inúmeras mudanças de casa que fiz nesta última década. No natal passado a Rosa ofereceu-mo. Ocorreu o reencontro. Vou levar este reencontro às suas últimas consequências e vou usar o texto no espectáculo a solo que estou a preparar.
Enquanto lia, em voz alta, o texto do Stig Dagerman, no sofá da sala, tinha a televisão ligada na RTP Memória. Estavam a transmitir um programa que o Carlos do Carmo gravou para a RTP em 1981. Parei e leitura e entreguei-me à bela voz do cantor. E eis que ela surgiu, uma das mais belas canções de sempre, “Estrela da Tarde”. Esta canção emociona-me profundamente, arrepia-me, dá-me vontade de chorar e amar ilimitadamente (sem medos e angústias). O poema do Ary dos Santos é soberbo, obra prima, de uma profundidade maior e a interpretação do Carlos do Carmo sempre foi arrepiante.
Encontrei o consolo hoje à tarde; enquanto pensava nas provas de amor que recebo todos os dias, enquanto lia Stig Dagerman e enquanto me emocionava a ver o Carlos do Carmo a interpretar um dos mais belos poemas de sempre.
Vou rir do medo, vou brincar comigo.
Estrela da Tarde
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"
José Carlos Ary dos Santos
(dedico este post ao meu amor. por tudo de bom que me tem dado nestes 3 meses. parabéns a nós hoje. faz hoje 3 meses que amanhecemos juntos pela primeira vez. um beijo profundo.)
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