Wednesday, March 23, 2005

sem título

a cidade, de repente, tornou-se um evento claro perante o olhar. as ruas são colecções de charcos que se vazaram a si mesmos, à força de tanto serem espelhos sem uso regular.
as luzes são baças e sustentam como que uma, até agora desconhecida, alcalinidade. a fusão entre o olhar e as luzes da cidade é agora menos imediata e, é assertivo admiti-lo em tom de fugaz confissão, muito menos interessante. esta cidade sabe a pouco. sente-se pouco o fim deste silêncio; entre o rio e a cabeça. sabe a pouco este repousar os braços na amurada do carro e pensar/fingir que daqui para a frente tudo será possível. sente-se pouco esta vontade de acordar noutro lugar.
a cidade raciona as porções de saliva com que lubrifica as presas. e estas nem dão por isso. mesmo as presas mais hábeis, e nessa matéria não existe uma espécie de heráldica elucidativa ou figurativista que denuncie o estádio de empírico achievment da mesma, mesmo essas são deixadas levar-se por um estranho e suave torpore.
"todos somos tácitas presas" ostentam os outdoors de néon (e outros gases tão ou mais nobres) espalhados por todo tecido metropolitano. há uma jactância transcendental sempre presente nas mensagens que a cidade redige. e as presas, tanto quanto os predadores, jamais se permitem tentar descobrir brechas nessa imperativa transcendentalidade.
o coração da cidade, apesar de se apresentar sempre a descoberto, é, antes de tudo, revestido por uma melíflua, embora sinistra, perplexidade. o coração da cidade é um sinistro perplexo. e vale-se disso. não é raro chegar-se até ele; não é difícil deixá-lo ganhar. é impossível não sentir o seu chamamento.
o coração da cidade é um orgão dentro de um outro orgão que, por sua vez, mora dentro de um terceiro orgão, este sim, algo veloz. o terceiro orgão é um orgão emigrante. é um orgão cinético e toma a voz e o espanto como matéria fundente (processo responsável pela sua força motriz). o terceiro orgão, assim como todo o coração da cidade, é alcalino. é alcalino porque a motricidade está sempre impressa no conceito, e não na forma, de emigrar.
os predadores estão em permanente ligação, directa ou indirecta, com o terceiro orgão componente do coração da cidade. os predadores são máquinas de emigração e habitam as presas como se estas fossem países acabados de acordar.
a um grupo de presas chama-se continente. à congregação de presas chama-se mundo inteiro.
é necessário ser-se prudente ou, até mesmo, risonho para se poder decifrar todas as redacções compostas pelo coração da cidade. é importante usar óculos, ou lupas, ou telescópios como recursos protéticos que em tudo facilitam a tarefa em questão. a leitura é exigente, demorada, complexa, sinuosa, matreira e ziguezagueante. a leitura, note-se, não as mensagens.
a um grupo de predadores chama-se rosto. à congregação de predadores chama-se corpo todo.
aquando do chamamento, sazonal, do coração da cidade, presas e predadores vestem-se a rigor e deslocam-se simetricamente, sem alguma vez se aperceberem disso, até às janelas dos respectivos quartos. permanecem noite fora, suados e hirtos, à espera de um olhar oposto que se digladie com o seu. essas noites, além de longas, exalam um odor que perdura durante as restantes. isto, claro, até à ocorrência de um novo chamamento.

o rio é um depósito permanente. os rios são sempre depósitos. tal como em Varanasi, também aqui os restos mortais são oferendas às águas. este rio é ávido e meticuloso. e ninguém padece ao entregar-lhe como oferenda o coração defunto. o rio, talvez por obter a oferenda crua e em carne viva, jamais arrota de satisfação.

o coração da cidade é o único escritor.
presas e predadores conhecem-se melhor.
há mensagens e noites; poemas e gritos.
há jactância no solo e nos olhos aflitos.
só o rio ganha, só o rio estranha.
só o rio desenha a espelhada façanha.

só o tempo serena, no fundo do mar, a voz dos amantes que aprendem a estar.

Tuesday, March 22, 2005

a interactividade

Caros Onanistas:
O vosso anfitrião está a constatar, com grande alegria, que este diário está a ter um número cada vez mais significativo de visitas. The Demon is Happy with that! Ao fim e ao cabo, este diário é uma porta aberta. É bom saber que há quem a transponha com frequência e assiduidade.
O Demónio gostaria apenas de ter um maior feedback por parte dos seus visitantes. Para não se sentir tão umbilical. Sim, Onan também precisa de ecos.
Neste sentido, será lançado aqui um desafio. Melhor, dois desafios: pede-se a cada visitante que registe, por forma de comentário, a sua visita. Não tem de ser um comentário elaborado ou opinativo. Se for, melhor. Mas se não houver esse intento por parte do visitante um: "Eu estive aqui hoje. Assinado: Mena, 21 anos, Bobadela", será o suficiente. O que se pretende é um registo no meu diário da vossa passagem pelo mesmo. O segundo desafio consiste num desafio parte-a-parte. A concretização efectiva da interactividade. O Demónio é amante das palavras, como se deve depreender, e apraz-lhe tudo o que se relacione com as mesmas. O Demónio quer desafios, propostas arrojadas, reptros originais, etc. Ou seja, quero que me espicacem para a redacção. Por exemplo: dão-me uma lista de palavras, conceitos, frases, situações, imagens e eu terei de me "aguentar à bomboca" e criar a partir da vossa proposta um produto literário a ser postado no diário. Produto esse que fica depois sujeito à vossa aprovação. Posso também escrever canções por encomenda, poemas de amor para quem não tem jeito para a coisa, insultos, histórias de encantar, falsos testemunhos, etc.. Tudo menos anedotas.
É tudo por ora. O Demónio vai fazer-se à vida. E agurdará com grande expectativa o feedback aos desafios lançados. Desde que venham por bem e, já agora, com interesse.

Cheers


"Saute Dans le Vide" um auto retrato de Yves Klein, 1960 ("un homme dans l'espace! le peintre de l'espace se jette dans le vide!" in, Dimanche-le Journal D'un Seul Jour, 27-11-1960)

Monday, March 21, 2005

os teus olhos

(parabéns, agora por escrito e um dia depois)

os teu olhos
são duas tochas de noite prestes a madrugar.
os teus olhos
são dois barcos irmãos com apetites de luar.
os teus olhos
são glaciares vistos de cima numa noite antes do verão.
os teus olhos
são trilhos-cometas-meninos; são nuvens doces de alcatrão.
os teus olhos
são a voz criada na espera e sabem quando calar.
os teus olhos
são situações, são novas feras, rugem,
no fundo limpo do mar.
os teus olhos
são duas janelas abertas para uma estrada lunar.
os teus olhos
são portões, são cinemas, um coração a pulsar.
os teus olhos
são duas tochas de noite,luz,
estradas para eu percorrer.
os teus olhos são muito antes da noite; o meu terno anoitecer.

Saturday, March 19, 2005

poucas horas para um mês

"Cancioncilla Del Primer Beso"

En la mañana verde
queria ser corazón.
Corázon.

Y en la tarde madura
queria ser ruiseñor.
Ruiseñor.

(Alma
ponte color, naranja.
Alma
ponte color de amor.)

En la mañana viva
yo quería ser yo.
Corázon.

Y en la tarde caída
queria ser mi voz.
Ruiseñor.

(Alma
ponte color naranja.
Alma
ponte color de amor.)

Federico García Lorca (1899-1936)

um mergulho anacrónico

Cheguei ao cimo da terra com o sol de julho e a esperança de uma existência solar. Trazia-a, à esperança, cerrada e em pó novo entre a cordilheira dos dentes ainda por romper. O inconveniente da chegada: cheguei durante a noite e o sol de julho era ainda uma ideia que caminhava para a manhã seguinte à treva de julho da minha chegada.
Começaram os primeiros outonos e invernos e o pó novo congelou. Os dentes, que também eram promessa, nessa cordilheira do porvir, viram a luz do dia dentro do céu da minha boca. Nasceram para ranger, os meus dentes, para evaporar o pó novo e o tornar gelo consternado. As palavras nasceram depois, antes de eu mesmo ter nascido.
Eu nasci em mim com as palavras, nos primeiros outonos e invernos do fim de setenta, para aprender a dizer que nunca tinha pedido para nascer. Ainda não aprendi a esquecer, completamente, a dita afirmação e levo quase trinta anos de pó (que ainda quer voltar a sentir-se novo). E tenho dentes piores na cordilheira; desgastaram-se. O céu da minha boca também tem tido as suas explosões, eclipses e acidentes: erosão.
Não me apetece prosseguir com esta pseudo-rectrospectiva em tom poético da treta. Porque hoje tudo me parece da treta e, por mais que queria, uma perspectiva da minha chegada, percurso e etc, em muito pouco me parece poética. Transito entre a angústia, a frustração, o medo, a exaustão, a pequena esperança e a fúria.
Estou isolado; comigo. Estou sitiado no meu caos. Desprotegido das ilusões que eu mesmo tenho vindo a criar.
Quero o que quero e quero muito mais do que um esboço de mim. E não consigo.
Quero poder chorar alarvemente e não consigo.
Quero poder ver muito mais do que isto e não consigo.
Quero poder ser pleno e eficaz e não consigo.
Quero poder dar e não consigo.
Quero poder receber de outra forma e não consigo.
Quero poder fugir e estar distante e não consigo.
Quero ser insolente, despropositado, cruel e não consigo.
Quero ser quem dita as regras e não consigo.
Quero ser preenchido, arrebatado, inspirado e não consigo.
Quero ser mais do que uma ideia e não consigo.
Quero perder-me por aí e não consigo.
Quero achar-me e não consigo.
Quero mentir e não consigo.
Quero ser desejado a toda a hora e não consigo.
Quero despedaçar corações e não consigo.
Quero ser maldito e não consigo.
Quero ser o mundo de alguém e não consigo.
Quero ter tudo e não consigo.
Quero foder como um animal e não consigo.
Quero ter inimigos e não consigo.
Quero ser multitetrapentamegahipersuperextramilionário e não consigo.
Quero matar pessoas e não consigo.
Quero procriar e não consigo.
Quero dar a volta ao mundo e não consigo.
Quero morrer de amor e não consigo.
Quero morrer de fome e não consigo.
Quero morrer de dor e não consigo.
Quero morrer de espanto e não consigo.
Quero morrer de solidão e não consigo.
Quero morrer assassinado e não consigo.
Quero morrer de prazer e não consigo.
Quero morrer de melancolia e não consigo.
Quero morrer de cansaço e não consigo.
Quero morrer de felicidade e não consigo.
Quero morrer de morte natural e não consigo.
Quero morrer de indigestão de carne humana e não consigo.
Quero morrer de morte e não consigo.
Queor morrer de medo e não consigo.
Quero morrer de riso e não consigo.
Quero morrer de parto e não consigo.
Quero morrer de saudade e não consigo.
Quero morrer de febre e não consigo.
Quero morrer de mim e não consigo.
Quero acreditar em Deus e não consigo.
Quero venerar o Diabo e não consigo.
Quero ver o meu anjinho da guarda e não consigo.
Quero mudar de país e não consigo.
Quero mudar este país e não consigo.
Quero tocar piano e falar francês e não consigo.
Quero andar de camelo e não consigo.
Quero ler o "Ulysses" do Joyce e não consigo.
Quero dizer "AMO-TE" e não consigo.
Quero percorrer o mundo a cantar e não consigo.
Quero ser lido pelas crianças do Kilimanjaro e não consigo.
Quero ganhar prémios da crítica e não consigo.
Quero ser pai e não consigo.
Quero fazer tudo por alguém e não consigo.
Quero construir a minha casa de sonho e não consigo.
Quero ir a Buenos Aires e não consigo.
Quero pagar todas as minhas dívidas e não consigo.
Quero esquecer-me do que foi mau e não consigo.
Quero regressar ao ventre da minha mãe e não consigo.
Quero ter orgulho do meu sucesso e não consigo.
Quero atirar pedras aos telhados de vidro dos outros e não consigo.
Quero deixar de duvidar da verdade de tudo e não consigo.
Quero ser o centro das atenções e não consigo.
Quero estar sempre alerta e não consigo.
Quero poder dizer que estou frágil e estilhaçado e não consigo.
Quero poder gritar que tenho preguiça de viver e não consigo.
Quero aprender a estar no aqui e no agora e não consigo.
Quero parar para pensar como deve ser e não consigo.
Quero deixar de escrever disparates e não consigo.
Quero conseguir conseguir e não consigo.
Quero conseguir comigo e não comigo.



"AND NOW FOR SOMETHING COMPLETELLY DIFFERENT"

"Always Look On The Bright Side Of Life"
Some things in life are bad
They can really make you mad
Other things just make you swear and curse
When you're chewing on life's gristle
Don't grumble, give a whistle
And this'll help things turn out for the best...
And...
Always look on the bright side of life...
(Whistle)
Always look on the light side of life...
(Whistle)

If life seems jolly rotten
There's something you've forgotten
And that's to laugh and smile and dance and sing
When you're feeling in the dumps
Don't be silly chumps
Just purse your lips and whistle - that's the thing.

And...
Always look on the bright side of life...
(Whistle)
Come on.
Always look on the bright side of life...
(Whistle)

For life is quite absurd
And death's the final word
You must always face the curtain with a bow
Forget about your sin - give the audience a grin
Enjoy it - it's your last chance anyhow.

So,
Always look on the bright side of death
Just before you draw your terminal breath

Life's a piece of shit
When you look at it
Life's a laugh and death's a joke it's true
You'll see it's all a show
Keep 'em laughing as you go
Just remember that the last laugh is on you

And always look on the bright side of life...
(Whistle)
Always look on the right side of life...
(Whistle)

Come on Brian, cheer up.

Always look on the bright side of life...
Always look on the bright side of life...

Worse things happen at sea you know.

Always look on the bright side of life...
I mean - what have you got to lose?
You know, you come from nothing - you're going back to nothing.
What have you lost? Nothing.

Always look on the right side of life...

By Monty Phyton in, "Life Of Brian"

Este post é dedicado à minha grande e querida amiga Edu (que me revelou a sua receita contra a tristeza: ouvir esta canção, deixá-la apoderar-se do nosso corpo e assobiá-la vezes sem conta até a tristeza/frustração se diluir). Obrigado Edu, it really works. Sinto-me melhor e nunca me esquecerei desta receita. Até parece que estavas a ler o post que eu estava a escrever enquanto estávamos a conversar. A letra da canção tem tudo a ver com o conteúdo deste post. Obrigado mais uma vez.
Este post é também dedicado à minha grande amiga Lara (que me tem sabido sempre dizer as palavras certas e me tem embalado com o seu amor puro e a sua inteligência de fémea).
Este post é também dedicado ao meu Toblerone (que está a ver que é preciso alguma pachorra para me aturar. Decidi:eu não me vou embora; estou cá para ti. Se quiseres eu fico. Cada vez gosto mais de ti e de te ter na minha vida).


Quero assobiar e... não consigo. Shit... oh... fuck it...
Se não consigo assobiar ao menos sei cantar...

"always look on the bright side of life"

LáLá LáLá LáLáLáLáLáLá

Friday, March 18, 2005

fim de tarde perfeito

de mãos dadas,
estrada fora,
traziam um casamento feliz:
ele era um pássaro de ferrugem
ela era uma boca de giz.

(era isto que eu estava e escrever hoje de madrugada enquanto te beijava.
como deves calcular, não me seria possível desenhar este poema nos teus lábios (como tu me pediste). porque este poema não é nosso. é um poema de outros que não existem. no próximo beijo que te der vou esforçar-me por desenhar nos teus lábios a vontade louca que tenho de apanhar sol contigo. havemos de escrever juntos, nos lábios, nos olhos e na pele, o nosso fim de tarde perfeito.)

Thursday, March 17, 2005

um Haiku que Onan adora

"one leaf lets go, and
then another takes
the wind"

Ransetsu

pour toi

eu fui a esfera sem não nem senão
quando as ravinas se abriram no ar

tu foste o gosto de um tempo de verão,
a noite-língua a crescer devagar

eu fui a estrofe sem mão nem refrão
quando o meu corpo se quis glaciar

tu foste o sol-mel-sol-posto no chão
és hoje a vida-céu dentro do mar

eu navego na tua boca afluente;
tu és um barco oceano do tacto.

Onan está aqui dentro

"Desinferno II"

Caísse a montanha e do oiro o brilho
O meigo jardim abolisse a flor
A mãe desmoesse as carnes do filho
Por botão de vídeo se fizesse amor

O livro morresse, a obra parasse
Soasse a granizo o que era alegria
A porta do ar se calafetasse
Que eu de amor apenas ressuscitaria

Luiza Neto Jorge, in Postais Antigos

(amo a Luiza Neto Jorge)

Sunday, March 13, 2005


Foto de Onan - Outubro de 2003, Pombal

Friday, March 11, 2005

us 8

resposta à tua sms:

eu só penso em ti!
és um jardim plantado debaixo de água;
onde eu posso dormir sossegado.


para ti:

"flowers in the window" by Fran Healy- Travis

When i first held you i was cold
A melting snowman i was told
But there was no one there to hold
Before i swore that i would be alone forever more

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so
Let’s watch the flowers grow

There is no reason to feel bad
But there are many seasons to feel glad, sad, mad
It’s just a bunch of feelings that we have to hold
But i am here to help you with the load

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so
Let’s watch the flowers grow

So now we’re here and now is fine
So far away from there
And there is time, time, time
To plant new seeds and watch them grow
So there’ll be flowers in the window when we go

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so
Let’s watch the flowers grow

Wow, look at you now
Flowers in the window
It’s such a lovely day
And i’m glad that you feel the same
’cos to stand up i’m in the crowd
You are one in a million
And i love you so

Let’s watch the flowers grow
Let’s watch the flowers grow

Malos Aires - work in progress (um regresso ao processo)

Ele continuou a instituir o silêncio na própria carne e passou a fazê-lo com perícia e convicção. O uso da linguagem deixou de lhe fazer qualquer sentido ou falta. Essa instituição, a do silêncio na sua própria carne, passou a ser o seu novo vício. Um vício em tudo semelhante ao seu vício anterior: construir com Ela uma nova linguagem. Uma linguagem apenas da ligação, do encaixe, do amor que mantinham.
Após ter cortado mais um pouco da língua (a quarta extracção que efectuara), decidiu reler os manuscritos que havia iniciado aquando da decisão de, juntos, sitematizarem a nova linguagem que os uniria para sempre.
"Tu aprendeste comigo a fazer café. Aprendeste comigo a bebê-lo melhor. Aprendeste a abrir o teu olfacto e fui eu quem te ensinou a comunicar com ele. Dizes: "o café contigo cheira e sabe melhor; és um manual dos apetites."
Prometi-te a invenção do teu segundo nome mas o meu tempo não tem estado a meu favor. Eu sei que esperas o momento desse parto com o mesmo entusiasmo com que um ventre maduro espera um suco que o fecunde. Percebo-o quando me olhas, quando me beijas e quando me beijas e me olhas ao mesmo tempo. Não esmoreças, isto não é o fim de nós. Isto não é um fim; é uma entrada. É a minha entrada em mim para poder perceber claramente o nome que te tenho cá dentro. Eu não vou inventar o teu segundo nome. Vou, isso sim, aprender a comunicar com ele. Porque ele se inventou a si mesmo em mim. Não esmoreças e não chores no duche. Vai ser um processo de mútua comunicação e também de conhecimento. É necessário tempo. Vou ter de consumir horas. Eu estou para o teu segundo nome como tu estiveste para o teu olfacto. Eu estou para a tua vida como tu estás para o café.
Ultimamente quando escrevo choro. A escrita liga-me a algo de muito precioso que eu até agora não tinha descoberto existir em mim. É uma espécie de poder; um poder menino e torrencial. Fazes-me bem. Fazes-me melhor. Eu choro por isso. Choro enquanto escrevo para ti. Eu escrevo tudo para ti. Tu vives tudo para mim.
As horas contigo passaram a ter um sentido mais profundo. As horas já não são apenas horas. Porque o tempo entre nós passou a ser o comércio da carne e da fala.
Vou parar de escrever agora. Vou aprender a chorar mais um pouco.
Se algum dia fores a Buenos Aires sem mim não bebas café. Pede-o, olha para ele, cheira-o e toca-o. Mas, por favor, não o bebas."
Ele fechou o manuscrito e abriu a janela a um pássaro que acabara de morrer no parapeito.
Ela consegui o tão desejado quarto no hotel em Buenos Aires. "Finalmente o 111", pensou quando rodou a maçaneta da porta. Entrou, susteve a respiração e desfocou o olhar algumas vezes. Sentiu uma leve tontura. Foi incapaz de se deitar na cama. Deitou-se no chão e decidiu que nessa tarde iria pedir café. Adormeceu a sorrir.

Thursday, March 10, 2005

Sickcom em Coimbra

Pois é, o sickcom vai de viagem.

A azulamavermelho vai estar em Coimbra (a terra que dizem ter mais encanto na hora da despedida) no próximo fim de semana.

Assim sendo, os onanistas que ainda não têm programa para o fim de semana e ainda não viram este acontecimento exemplar da nobre arte da talma podem deslocar-se até ao TEATRO ACADÉMICO DE GIL VICENTE e preencher a tremenda lacuna.

É no Sábado às 21:30.

(mal posso esperar para me vingar de todas as carências técnicas que tive de engolir ao longo das carreiras que este espectáculo já teve. este teatro está carrrrrregadinho de material. hip hip. aquilo é um teatro a sério; um teatrão. que pena ser só um dia! mas pode ser que corra bem e me contratem para ir dirigir o dito recinto. ia dar-me algum trabalho mas acho que não iria conseguir recusar. a cultura exige e eu por ela faço tudo.)

the demon before the show

Sunday, March 06, 2005

um amor de Onan

A Tua Presença Morena
(Caetano Veloso)
Int.: (A7 G7 F7 E7) A7 G7 F7 E7
A tua presença entra pelos sete buracos da minha cabeça
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Pelos olhos, boca, narinas e orelhas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Paralisa meu momento em que tudo começa
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Desintegra e atualiza a minha presença
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Envolve o meu tronco, meus braços e minhas pernas
A7
A tua presença
G7 D F#
É branca, verde, vermelha, azul e amarela
B7
A tua presença
A7 G7 F7 E7
É negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra, negra
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Transborda pelas portas e pelas janelas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Silencia os automóveis e as motocicletas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Se espalha no campo derrubando as cercas
A7
A tua presença
G7 F7 E7
É tudo o que se come, tudo o que se reza
A7
A tua presença
G7 F7 E7
Coagula o jorro da noite sangrenta
A7
A tua presença
G7 F7 E7
É a coisa mais bonita em toda a natureza
A7
A tua presença
G7 D F#
Mantém sempre teso o arco da promessa
B7 A7
A tua presença
G7 F7 E7
Morena, morena, morena, morena, morena, morena
A
Morena


(amo esta canção. sobretudo amo o poema. acho que é das coisas mais belas e assertivas que já se escreveu sobre a situação amorosa. tenho tomado este poema como o que mais próximo encontrei de uma definição do amor. para mim a questão central do amor é exactamente a presença; a presença do outro na minha presença e vice-versa. confesso que a frase: "A tua presença, é a coisa mais bonita em toda a natureza" é das coisas que mais me emociona na vida. é mesmo. esta frase tem a capacidade de me comover amplamente. porque sentir esta frase é muito bom, é muito forte, é muito belo. sentir esta frase é tocar em qualquer coisa de muito puro e simples. e a pureza e a simplicidade são, quanto a mim, os conceitos/estádios mais interessantes e fortes da vida.
apesar de gostar muito do Caetano Veloso, acho que o grande intérprete deste poema é, sem qualquer dúvida, o Ney Matogrosso. sempre que ouço este poema cantado por ele fico arrepiado. é belo, puro, simples, como o amor deve ser. o amor deve ser moreno!)

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 1

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 6

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 5

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 4

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 3

Os Dois Poemas Que Te Li Ontem 2

us 7

"(Terminou a segunda guerra mundial. Manifestações veementes por toda a parte.)

Andámos toda a noite calados e sós
de jardim em jardim, na lua
dos bancos...

(Que bom! Começou enfim o silêncio entre nós.
O silêncio da aranha a tecer cabelos brancos.)"

José Gomes Ferreira


"(Dia de sol azul, de terra azul, de mulheres azuis...)

E se, de repente,
voassem dos teus olhos duas pombas azuis?
Então sim, poeta
cairia pela primeira vez no mundo
o espanto da primavera completa."

José Gomes Ferreira


Li-te estes dois poemas ontem, estávamos sentados na minha cama. Pensando/recordando melhor, eu estava sentado mas tu não.
Li-te estes dois poemas ontem, estavam dentro da caixa de cartão. Dactilografei-os há quase dez anos, numa folha de papel cor de laranja. Numa folha de papel da tua cor. Porque tu és cor de laranja. E tenho afixado essa mesma folha, de papel laranja dactilografado, em todos os quartos que fui tendo ao longo dos anos. Pensando/recordando melhor, em quase todos os quartos. Houve um em que não o fiz e, talvez por isso, esse quarto foi tudo menos somente meu.
Li-te estes dois poemas ontem, e sei que não os li bem. Li-os sem pretensão alguma. Não preciso de fazer leituras sublimes para ti. Não o quero e creio que tu também não. Não preciso de me florear para ti. Não me quero florear para ti. Quero-me puro, duro e em bruto para ti. Na exacta medida em que gosto de te receber. Não quero que nos pintemos de outras cores que não as nossas. Nós somos o encontro acidental das nossas duas cores. Quanto a mim é um bom acidente; um bom encontro.
Li-te estes dois poemas ontem, li-os mal; não me importei e tu também não. Ao fim e ao cabo, tu apenas me pediste para te mostrar fotografias.
Acordar contigo é bom!

us 6

quando te vais eu olho-me ao espelho e sinto que acabei de chegar de uma boa viagem.

sabes bem fazer regressos.

dizes que me achaste; eu acredito.

há rotas para tudo e a vida por vezes é uma expedição.

vou hastear a tua bandeira na minha nuca; para ter sempre comigo a tua conquista.

estou viciado em nós.

Friday, March 04, 2005

o demónio anoiteceu aqui

"a sorta fairytale" Tori Amos

on my way up north up on the ventura
i pulled back the hood
and i was talking to you

and i knew then it would be a life long thing
but i didn't know that we
we could break a silver lining

and i'm so sad
like a good book
i can't put this day back
a sorta fairytale with you
a sorta fairytale with you

things you said that day
up on the 101 the girl had come undone
i tried to downplay it with a bet about us
you said that-you'd take it as long as i could
i could not erase it

and i'm so sad
like a good book
i can't put this day back
a sorta fairytale with you
a sorta fairytalewith you

and i ride along side
and i rode along side you then
and i rode along side
till you lost me there in the open road

and i rode along side
till the honey spread itself so thin
for me to break your bread
for me to take your word
i had to steal it

and i'm so sad
like a good book
i can't put this day back
a sorta fairytale with you
a sorta fairytale with you

i could pick back up whenever i feel

down new mexico way
something about the open road
i knew that he was looking for some indian blood
and find a little in you
find a little in me
we may be on this road
but
we're just impostors in this country

you know so we go along
and we said we'd fake it
feel better with oliver stone
till i almost smacked him -seemed right that night
and i don't know what takes hold out there in the desert cold
these guys think they must try and just get over on us

and i'm so sad
like a good book
i can't put this day back
a sorta fairytale with you
a sorta fairytale with you

and i was ridin' by
ridin' along side for a while
till you lost me
and i was ridin' by
ridin' along till you lost me
till you lost me in the rearview

you lost me

i said way up north
i took my day
all in all was a pretty nice day
and i put the hood right back where
you could taste heaven perfectly
feel out the summer breeze
didn't know when we'd be back
and i didn't think we'd end up like
like this

Arte Pura de Onan 5

Arte Pura de Onan 4

Arte Pura de Onan 3

Arte Pura de Onan 2

Arte Pura de Onan 1

"Arte Pura de Onan" 1ª Exposição Fotográfica Individual do Demónio

Arte Pura de Onan

Série de 5 Fotografias Digitais

Materiais:

  • Demónio
  • Telefone Nokia 3650
  • T-shirt Vermelha Puma
  • Esperma

Espaço:

  • Quarto do Demónio

Data:

  • Janeiro de 2005

Técnica:

  • Mista (masturbação, olhar e tempo)

hoje o demónio vive aqui

"Teenage Angst" Placebo


Shine the headlight
Straight into my eyes
Like the roadkill
I'm paralysed
You see through my disguise


At the drive-in
Double feature
Pull the leaver
Break the fever
And say the last good-bye

Since I was born I started to decay
Now nothing ever ever goes my way

One fluid gesture
Like stepping back in time
Trapped in amber
Petrified and still not satisfied

Airs and social graces
Elocution so divine
I'll stick to my needle
And my favourite waste of time
Both spineless and sublime


Since I was born I started to decay
Now nothing ever ever goes my way

................................................................................


tu és em todas as formas um país que eu quero ver, mais

Thursday, March 03, 2005

us 5 ou me in us 1

Vivo dentro das canções e a escrita é um transporte.
Sou um animal silencioso por norma, excepto quando sou um demónio. Nessas alturas invento palavras que ainda eu próprio desconheço. E invento-as para conservar a capacidade de me desconhecer.
Eu não quero ficar aqui; mas é precisamente daqui que eu teimo em nunca sair. E por isso abro as portas das canções e vivo entre rimas e refrões que eu reproduzo como se fossem meus. É como se a minha vida fosse crescendo, andando e rompendo uma via sólida dentro da água de onde não consigo deixar de naufragar. A vida é uma estrada que vai andando. A minha pelo menos assim o parece. Só que eu vivo dentro de água e, se os meus dias são correntes, as minhas noites são marés. E tudo isto torna a estrada muito sinuosa, escorregadia, evaporável.
Às vezes quando me olho ao espelho sinto-me transparente, imaterial, sem substância. Sinto-me uma ideia.
Quando eu era criança gostava de imaginar que não existia. Gostava de pensar que a minha pessoa era uma ideia, um delírio, uma trama, uma alucinação de alguém que se sentia muito entediado consigo mesmo. Gostava de supor que esse alguém iria, mais cedo ou mais tarde, fartar-se do seu passatempo e que eu deixaria de existir/decorrer de um momento para o outro. Essa ideia aliciava-me.
Hoje sinto-me na pele de esse outro alguém. Sinto-me esse entediado demiurgo. Sinto-me um arquitecto sempre insatisfeito, sempre incompleto. Cresci e desmorono-me todas as noites. Sou o outro alguém e a criança em simultâneo e a minha cabeça é o campo de batalha onde ambos travam a guerra. A guerra que conduz ao fim. O fim pelo fim. O fim, o fecho, a conclusão. O final da água onde naufrago. Porque ambos se olham ferozmente nos olhos. Porque ambos falam a mesma língua. Porque ambos estão fechados cá dentro. Porque ambos querem sair e habitar o meu corpo. Porque ambos querem selar a minha cabeça. Porque a criança cresceu e porque o outro alguém, o criador entediado, não criou um antídoto que neutralize o medo. Por isso mesmo nenhum dos dois, criança e criador, tem coragem para ganhar esta guerra.
Enquanto dormes na minha cama eu concluo que quero dizer-te tudo além disto.
Próximo, tu disseste próximo. O relógio quase parou. E a minha arte não é infinita. Ao fim e ao cabo isto é entre nós dois; a arte aqui não manda nada. Somos só nós, o relógio e a mútua vontade de o parar. Teremos? Eu tenho às vezes; quando não estou a arbitrar a guerra.
Fala-me de ti.

Tuesday, March 01, 2005

us 4

tu surpreendes-me.

pensei-o mas não to disse; tive medo de parecer patético, lamechas, ritualista, melífluo, mimado.

tu resolveste tudo e mostraste-me que o medo do ridículo, no amplexo, se torna o cúmulo do ridículo.

resolveste tudo e resolveste-me tudo.

tão simples; tu: sem medo, sem ridículo, sem hesitação.

com uma simples frase rasgaste-me o céu que teimava não descarregar.

e passo a citar-te:

"faz hoje uma semana que demos o nosso primeiro beijo"


as flores não são apenas inventadas por mim; descobri-o contigo durante estes dois dias.

durante estes dois dias em que o relógio não parou mas em que minha arte não deixou de te fazer rir, fora e dentro da minha cama.

descobri a tua arte: és o génio das frases simples.

e a tua arte faz-me rir (de mim).

espero-te hoje, à porta do meu quarto.

venham as flores, sejamos depois frutos já.

Thursday, February 24, 2005

us 3

hoje, quando este dia começou, poucas horas depois de ter começado, disseste-me uma das coisas mais belas que alguém alguma vez me disse.
passo a citar-te:

"para adormeceres, lembra-te do som dos nossos beijos"

eu lembrei-me e adormeci.


o relógio na pára e os nossos beijos são música que embala.

us 2

ainda bem que vieste e ainda bem que soubeste vir.
fui-te abrindo aos poucos a porta do meu quarto,
mas ainda não te entreguei as flores que prometi inventar
expressamente para ti.
já estão inventadas mas ainda não se sentem flores.
talvez seja porque o relógio não tem parado e porque
a minha arte, pelos vistos, não tem deixado de te divertir.
há muito tempo que o meu diário te esperava.
agora que chegaste, deixa-me celebrar-te.
deixa-me desenhar-te.
deixa-me cantar-te.
deixa-me rimar-te,
para que as flores possam chover em silêncio e verdade,
dentro da água das nossas bocas.

Monday, February 21, 2005

us

20 do 02 ou 20/02 ou 20-02 ou 2002


Primeiro beijo.

Saí do carro a correr.

Tremi.

Adoro capicuas.

Ai, ai. A espada e a parede.

Adormeci ao tentar reviver, sem sucesso, o momento.

Amanhã é agora mesmo, quem me dera que não me deixes fugir.






Friday, February 18, 2005


self portrait of the demon

um auto epitáfio em vida (a partir de Sinead)

"Thank You For Hearing Me" (um poema e uma canção lindos de Sinead 0'Connor)

Thank you for hearing me
Thank you for hearing me
Thank you for hearing me
Thank you for hearing me

Thank you for loving me
Thank you for loving me
Thank you for loving me
Thank you for loving me

Thank you for seeing me
Thank you for seeing me
Thank you for seeing me
Thank you for seeing me

And for not leaving me
And for not leaving me
And for not leaving me
And for not leaving me

Thank you for staying with me
Thank you for staying with me
Thank you for staying with me
Thank you for staying with me

Thanks for not hurting me
Thanks for not hurting me
Thanks for not hurting me
Thanks for not hurting me

You are gentle with me
You are gentle with me
You are gentle with me
You are gentle with me

Thanks for silence with me
Thanks for silence with me
Thanks for silence with me
Thanks for silence with me

Thank you for holding me
And saying "I could be"
Thank you for saying "Baby"
Thank you for holding me

Thank you for helping me
Thank you for helping me
Thank you for helping me
Thank you, thank you for helping me

Thank you for breaking my heart
Thank you for tearing me apart
Now I've a strong, strong heart
Thank you for breaking my heart


Obrigado aos que me ouviram, e ainda ouvem
Obrigado aos que me amaram, e ainda amam
Obrigado aos que me viram, por dentro e por fora
Obrigado aos que nunca me deixaram
Obrigado aos que ficaram comigo: os que permaneceram
Obrigado aos que não me magoaram
Obrigado aos que foram gentis comigo, e que continuam a sê-lo
Obrigado aos que partilharam comigo o precioso silêncio
Obrigado aos que me abraçaram e me disseram que eu sou capaz
Obrigado aos que me sussurraram carinhos ao ouvido, e de novo me abraçaram
Obrigado aos que me ajudaram
Obrigado aos que me destroçaram o coração
Obrigado aos que me deram motivos para chorar
Obrigado aos que me endureceram o coração
Obrigado aos que me deram história de vida
Obrigado, foram, e são, muito úteis!

Wednesday, February 16, 2005

o demónio/artista/amante melhor ou a arte de inventar 5 sonhos

Esgotadas as lutas, as querelas, as batalhas e as guerras; adormeci. Ganhar ou perder deixou de fazer sentido porque o sangue deixou de querer jorrar, as feridas deixaram de doer, ou até mesmo ocorrer, e o tempo passou a ser servo de si mesmo. O passado, o presente e o futuro são, agora e sempre, resíduos do devir sem qualquer tipo de expressão.
Acordei e sou um relógio saído de um quadro do Salvador Dali.
Não sei muito bem quais são os teus sonhos. Não sei se os tens, se os desenhas, escreves, elaboras, planeias, choras. Não me interessam os teus sonhos. Interessa-me, isso sim, inventá-los por ti. Decidi que vou ser um demónio/amante/artista melhor. Vou radicalizar a minha arte. E apresentas-te como um bom objecto; melhor: tu pareces ser uma soberba matéria-prima. Tens um nome comum, isso é bom, agrada-me. Tens um rosto normal, melhor ainda. Falas baixinho e sem pressas; óptimo. És muito diferente de mim; excelente. Estás aqui; magnífico. O resto a nós pertence; como já te disse o tempo está demasiado ocupado a fazer passar-se por mim.

Os Teus 5 Principais Sonhos

  1. Tu não gostas do calor e sonhas viver num glaciar: eu sou um cubo de gelo em franca expansão.
  2. Tu tens medo da luz e sonhas isolar-te num deserto de escuridão: eu chamo-me Anã Negra e sou uma estrela extinta.
  3. Tu não gostas de acordar e sonhas nunca sair da cama: eu sou a lei da gravidade.
  4. Tu não precisas de viajar e sonhas com países que não vais conhecer: eu sou o Atlas do Mundo.
  5. Tu não queres sofrer de amor e sonhas não ter coração: eu sou o enfarte agudo do teu miocárdio.

Vamos ver se te adaptas a estes cinco sonhos. Se a experiência for frutífera outra série de cinco se seguirá, e assim consecutivamente. Se a experiência não se revelar interessante passas a ser mais um esboço no meu quarto. A arte tem destes riscos: nem sempre se acerta logo à primeira.

Agora que és livre, sonha. Eu vou inventar pesadelos para mim.

Quando acordarmos de vez quero abraçar-te com força e silêncio. E quero ouvir-te dizer:

"A TUA ARTE DIVERTE-ME E O RELÓGIO NÃO PÁRA!"

Saturday, February 12, 2005

sickcom foto 1


rui mourão, maria galhardo, isabel simões marques e selma cifka

sickcom foto 2


rui mourão e isabel simões marques

sickcom foto 3


maria galhardo

Thursday, February 10, 2005

Sickcom em Lisboa

Caros Onanistas:


SICKCOM is back.
Estreia hoje, às 22 horas no Auditório da Biblioteca Orlando Ribeiro em Telheiras.
Apareçam.
Em breve, quando tiver mais tempo, serei mais pormenorizado no posting de textos e imagens do espectáculo.
Estaremos em cena até 20 de Fevereio (5ª a Sábado às 22h e Domingos às 18h).
Reservas: 96 33 55 078/ 93 283 65 40/ 96 294 54 52

Aqui fica um teaser:


O Génio

Eu sou o génio, ninguém acredita
Eu sou o génio, ninguém dá a mão
Divorciado de uma mentira
Atropelado por um chavão

Eu sou o génio da palavra
Eu sou o génio da composição
Percorro o mar numa garrafa
Mutilado num pulmão

Eu sou o génio da poesia
Eu sou o génio da instalação
Alimentado a aletria
Apaixonado por um neutrão

Eu sou o génio da Escandinávia
Eu sou o génio do Japão
Eu sou o trolha da Moldávia
Eu sou o novo monstro papão

Eu sou o génio da literatura
Eu sou o génio da televisão
Fui condenado à candidatura
Absolvido na inscrição

Eu sou o génio do palco
Eu sou o génio da exposição
Nas narinas tenho pó de talco
Faço amizades no meu colchão


Eus sou o génio do teatro-dança
Eu sou o génio da canção
Eu sou o porco para a matança
A ocasião que faz o ladrão



(este é o poema que protagoniza um singular momento de paródia musical em SICKCOM)



Monday, February 07, 2005

para a Lara K

"Que é do mar se os rios se recusam?"

stig dagerman



Saturday, February 05, 2005


Ó vento, volta p'ra trás!

o vento é solto e lento, bento,
tento,

com temor e alento,
recordar o momento em que o vento me levou.

Thursday, February 03, 2005


onan as a child

auto re trato

Onan tem, e tinha, moléculas de gentinha
Onan tinha, e tem, acessos súbitos de desdém

Onan anda, e andava, a nadar num oceano de lava
Onan andava, e anda, a berrar os traumas numa banda

Onan vê, e via, fugir-lhe tudo o que queria
Onan via, e vê, toda a merda na TV

Onan come, e comia, caldeiradas de melancolia
Onan comia, e come, o significado lato da fome

Onan descobre, e descobria, segredos que o seu amor lhe escondia
Onan descobria, e descobre, que o amor nem sempre é nobre

Onan escreve, e escrevia, poemas para os meninos estudarem um dia
Onan escrevia, e escreve, o diário de uma língua em greve

Onan sente, e sentia, que a nada leva a apatia
Onan sentia, e sente, que o sucesso é metatangente

Onan quer, e queria, ser argonauta na poesia
Onan queria, e quer, o que isto der e vier