faço 29 anos amanhã.
estou no algarve (na minha terra natal). é suposto ir para lisboa amanhã. metade dos meus amigos está em lisboa e a outra metade está cá. não apetece ficar mas apetece-me muito menos voltar para lisboa. apetece-me estar em lugar nenhum. apetece-me estar num anti lugar.
estou triste, confuso. dói-me a garganta. estou com uma inflamação há cerca de uma semana. toneladas de jabasulide e de mebocaína e nada acontece. não melhoro.
além de todas as outras coisas que me levam a questionar a validade da relação que tenho. estou triste. triste comigo e triste contigo.
odeio telemóveis.
odeio esta sensação de que para bem de mim o melhor é baixar as espectativas. odeio sentir estas coisas. odeio o atrito e o desconhecimento.
quero as minhas lentes de contacto de volta.
quero saber para onde quero ir.
quero a sanidade da minha garganta.
e quero a verdade nua e crua.
quero sentir-te.
Friday, July 08, 2005
Friday, July 01, 2005
lentes de contacto 2
perdi uma lente de contacto.
a culpa é da lena. dormi em casa dela e não tinha o estojo das lentes.
coloquei as lentes, cuidadosamente, dentro de duas chávenas de café com soro fisiológico (eu sei que não devia; o senhor da multiopticas disse-me para nunca o fazer).
a grande querida lena, em fúria etílica, decidiu averiguar o que estava dentro das chávenas, em cima do móvel do corredor, e como é uma rapariga muito delicada fez uma das lentes voar para algures e desaparecer para sempre.
agora estou no estúdio de dobragens, a fazer uma pausa e a descansar da sauna que é a cabine de gravação e sinto-me muito tonto da ressaca e por ter apenas uma lente posta.
vou voltar a dobrar bonecos e a fazer sauna. tou ceguinho de um olho mas tonificado pelo trabalho.
ai, ai, que louco este estar contemporâneo.
a culpa é da lena. dormi em casa dela e não tinha o estojo das lentes.
coloquei as lentes, cuidadosamente, dentro de duas chávenas de café com soro fisiológico (eu sei que não devia; o senhor da multiopticas disse-me para nunca o fazer).
a grande querida lena, em fúria etílica, decidiu averiguar o que estava dentro das chávenas, em cima do móvel do corredor, e como é uma rapariga muito delicada fez uma das lentes voar para algures e desaparecer para sempre.
agora estou no estúdio de dobragens, a fazer uma pausa e a descansar da sauna que é a cabine de gravação e sinto-me muito tonto da ressaca e por ter apenas uma lente posta.
vou voltar a dobrar bonecos e a fazer sauna. tou ceguinho de um olho mas tonificado pelo trabalho.
ai, ai, que louco este estar contemporâneo.
Thursday, June 30, 2005
hoje
no net at home.
tenho muitas saudades do meu diário. nem sei o que nele hei-de escrever. instalou-se aquele desconforto tímido que me é característico aquando das ausências.
estou no escritório do alexandre, o meu agente, mas ele não está cá. felizmente tenho pessoas que são boas e generosas comigo. o alexandre tem sido uma delas. um bom coração.
os amigos são um grande suporte. sempre. amo os meus amigos profundamente, essencialmente e insistentemente.
sinto que tenho a sorte de ter como amigos as pessoas mais sensíveis, inteligentes, brilhantes e complicadas que tenho conhecido. somos assim: uns dos outros no certo e no errado. somos uns dos outros e todos das falhas. cada vez tenho um maior respeito pelas falhas.
ando pouco amigo de mim mesmo. tenho estado pouco comigo. rodeio-me. raramente estou no meu "pequeno mundo de ficção interior". fico à porta do mesmo e não entro. acho que tenho medo de ter perdido a capacidade de me ficcionar. é por isso que não ando ligado ao meu "mundinho". estou em ligação permanente e ansiosa com o exterior. sinto que ao estar recolhido em mim estou sempre na eminência de perder alguma coisa que o exterior me possa fornecer e que me possa ser preciosa. é uma ilusão. crio esta ilusão para não entrar em mim. talvez porque eu próprio saiba que tenho vindo a perder a capacidade de criar ilusões para mim mesmo.
há uns tempos atrás percebi uma coisa:
na minha vida tudo é ao lado. não estou longe de estar lá; não estou perto de lá. estou ao lado de lá. ando à volta de mim.
faço 29 anos daqui a 10 dias. queria fazer já 30 anos. o astrólogo, no início de 2004, disse-me que aos 30 anos a minha vida vai mudar radicalmente e que vou finalmente entrar na assertividade e ascendência. disse-me que vou passar também, nessa altura, por uma revolução libidinosa. quero fazer uma elipse, avançar no tempo e deixar os 20 já. fingir que já vou fazer 30 não me agrada. mas também não quero um ano de limbo. tenho 10 dias para decidir quem vou ser durante este último ano desta atormentada década.
acho que me vou isolar e obrigar-me a entrar no meu "mundinho".
quem me dera ter dinheiro. apetecia-me muito fazer este regresso ao "meu pequeno mundo de ficção interior" em marrakesh. tenho muitas saudades de marrakesh. a cidade bela onde me senti melhor em toda a minha vida. marrakesh a cidade vermelha. marrakesh a cidade erótica. prometo que é lá que vou fazer 30 anos. nem que o camelo tussa.
tenho muitas saudades do meu diário. nem sei o que nele hei-de escrever. instalou-se aquele desconforto tímido que me é característico aquando das ausências.
estou no escritório do alexandre, o meu agente, mas ele não está cá. felizmente tenho pessoas que são boas e generosas comigo. o alexandre tem sido uma delas. um bom coração.
os amigos são um grande suporte. sempre. amo os meus amigos profundamente, essencialmente e insistentemente.
sinto que tenho a sorte de ter como amigos as pessoas mais sensíveis, inteligentes, brilhantes e complicadas que tenho conhecido. somos assim: uns dos outros no certo e no errado. somos uns dos outros e todos das falhas. cada vez tenho um maior respeito pelas falhas.
ando pouco amigo de mim mesmo. tenho estado pouco comigo. rodeio-me. raramente estou no meu "pequeno mundo de ficção interior". fico à porta do mesmo e não entro. acho que tenho medo de ter perdido a capacidade de me ficcionar. é por isso que não ando ligado ao meu "mundinho". estou em ligação permanente e ansiosa com o exterior. sinto que ao estar recolhido em mim estou sempre na eminência de perder alguma coisa que o exterior me possa fornecer e que me possa ser preciosa. é uma ilusão. crio esta ilusão para não entrar em mim. talvez porque eu próprio saiba que tenho vindo a perder a capacidade de criar ilusões para mim mesmo.
há uns tempos atrás percebi uma coisa:
na minha vida tudo é ao lado. não estou longe de estar lá; não estou perto de lá. estou ao lado de lá. ando à volta de mim.
faço 29 anos daqui a 10 dias. queria fazer já 30 anos. o astrólogo, no início de 2004, disse-me que aos 30 anos a minha vida vai mudar radicalmente e que vou finalmente entrar na assertividade e ascendência. disse-me que vou passar também, nessa altura, por uma revolução libidinosa. quero fazer uma elipse, avançar no tempo e deixar os 20 já. fingir que já vou fazer 30 não me agrada. mas também não quero um ano de limbo. tenho 10 dias para decidir quem vou ser durante este último ano desta atormentada década.
acho que me vou isolar e obrigar-me a entrar no meu "mundinho".
quem me dera ter dinheiro. apetecia-me muito fazer este regresso ao "meu pequeno mundo de ficção interior" em marrakesh. tenho muitas saudades de marrakesh. a cidade bela onde me senti melhor em toda a minha vida. marrakesh a cidade vermelha. marrakesh a cidade erótica. prometo que é lá que vou fazer 30 anos. nem que o camelo tussa.
Wednesday, June 22, 2005
a future refrain for a future song
BEING IS JUST BEING
SEING IS JUST SEING
FEELING IS JUST FEELING
I KEEP WAITING FOR YOUR WILLING
SEING IS JUST SEING
FEELING IS JUST FEELING
I KEEP WAITING FOR YOUR WILLING
auto slogans e uma citação
I NEED PERMANENT EYE CONTACT.
I NEED TO FEEL THAT SOMEONE IS BREATHING ME.
I NEED TO FEEL REAL FEELINGS.
I AM SICK AND TIRED OF VIRTUALITY.
ALTHOUGH I'M ADDICTED TO SOUL-TO-SOUL CRASH I REALLY LOVE THE TASTE OF THE HUMAN FLESH.
"dois braços à minha espera. é uma casa portuguesa concerteza. é concerteza uma casa portuguesa."
I NEED TO FEEL THAT SOMEONE IS BREATHING ME.
I NEED TO FEEL REAL FEELINGS.
I AM SICK AND TIRED OF VIRTUALITY.
ALTHOUGH I'M ADDICTED TO SOUL-TO-SOUL CRASH I REALLY LOVE THE TASTE OF THE HUMAN FLESH.
"dois braços à minha espera. é uma casa portuguesa concerteza. é concerteza uma casa portuguesa."
Tuesday, June 21, 2005
lentes de contacto
demorei a adormecer. apesar de desconcentrado, masturbei-me entretanto para me acalmar. seriam umas seis e meia. o coração batia estupidamente. má cocaína a mais. de vez em quando faz bem; mesmo sendo má. ao contrário do sexo. não corroboro a expressão "mesmo quando é mau é bom". quer dizer... não sei se corroboro ou não... não, não corroboro.
reflexão adjacente à taquicardia:
acalma-te e sorri: a desilusão nada mais é do que o contrário da ilusão.
começo a sentir a saída de saturno da minha vida. só não estou mais leve porque este calor me está a sufocar. odeio transpirar... a não ser quando fodo.
vou à multiopticas buscar as minhas primeiras lentes de contacto. preciso de lentes e preciso de contacto.
ando ceguinho e descontactado mas não vai ser por muito mais tempo. sinto que uma mudança se aproxima. estou curioso. venha ela já; tenho lentes e já desmontei a desilusão (no geral).
reflexão adjacente à taquicardia:
acalma-te e sorri: a desilusão nada mais é do que o contrário da ilusão.
começo a sentir a saída de saturno da minha vida. só não estou mais leve porque este calor me está a sufocar. odeio transpirar... a não ser quando fodo.
vou à multiopticas buscar as minhas primeiras lentes de contacto. preciso de lentes e preciso de contacto.
ando ceguinho e descontactado mas não vai ser por muito mais tempo. sinto que uma mudança se aproxima. estou curioso. venha ela já; tenho lentes e já desmontei a desilusão (no geral).
Thursday, June 09, 2005
bored
estou no ipj da avenida da liberdade. continuo sem net em casa.
estou a procurar programas que facilitem a procura de trabalho no estrangeiro. cada vez essa ideia me parece menos uma ideia e mais uma eventual realidade. estou farto de lisboa. para ser muito fraanco, eu sinto muito pouco que ainda aqui estou. sinto que estou noutro lado qualquer. estou num local entre o aqui e o outro local onde quero estar.
hoje sinto que estou entre a vida e a morte. num limbo. estive contente, estive triste, estive acelerado, estive lento. agora estou neste estado entre a morte e a vida.
estou aborrecido. pouca coisa me suscita empolgamento. tudo se mostra morno, mole, lento, sem rapidez, sem rasgo, sem fogo, sem loucura. a loucura, a surpresa e a velocidade criadora parecem ter abandonado a minha vida.
estou mesmo muito aborrecido com isto tudo.
vou arranjar um trabalho de merda apenas para juntar uns trocos para no fim do ano dar o grito do ipiranga.
vou para londres. chove, frio, pouca luz e mais o cacete. who cares? i do not. i want rush and fire. i feel the fire in me. no rain can stop my fire from burning.
estou a procurar programas que facilitem a procura de trabalho no estrangeiro. cada vez essa ideia me parece menos uma ideia e mais uma eventual realidade. estou farto de lisboa. para ser muito fraanco, eu sinto muito pouco que ainda aqui estou. sinto que estou noutro lado qualquer. estou num local entre o aqui e o outro local onde quero estar.
hoje sinto que estou entre a vida e a morte. num limbo. estive contente, estive triste, estive acelerado, estive lento. agora estou neste estado entre a morte e a vida.
estou aborrecido. pouca coisa me suscita empolgamento. tudo se mostra morno, mole, lento, sem rapidez, sem rasgo, sem fogo, sem loucura. a loucura, a surpresa e a velocidade criadora parecem ter abandonado a minha vida.
estou mesmo muito aborrecido com isto tudo.
vou arranjar um trabalho de merda apenas para juntar uns trocos para no fim do ano dar o grito do ipiranga.
vou para londres. chove, frio, pouca luz e mais o cacete. who cares? i do not. i want rush and fire. i feel the fire in me. no rain can stop my fire from burning.
Wednesday, June 01, 2005
estou privado
não tenho internet em casa. não sei durante quanto tempo esta situação se vai manter. o que mais me perturba é não poder aceder ao meu diário sempre que me dá na real gana.
não me apetece estar em casa. quero movida. este calor sugere movimento.
ao mesmo tempo lisboa está a entediar-me tremendamente.
estou no limbo entre rush e tédio.
supresas precisam-se!
apetece-me mesmo emigrar.
a selma e a cat estão a reclamar porque estou agarrado ao computador da julieta e não estou a interagir. adeus querido diário, até um destes dias.
miss you.
não me apetece estar em casa. quero movida. este calor sugere movimento.
ao mesmo tempo lisboa está a entediar-me tremendamente.
estou no limbo entre rush e tédio.
supresas precisam-se!
apetece-me mesmo emigrar.
a selma e a cat estão a reclamar porque estou agarrado ao computador da julieta e não estou a interagir. adeus querido diário, até um destes dias.
miss you.
Tuesday, May 24, 2005
Saturday, May 21, 2005
a tarde e o consolo
Mergulho, a sós, na tarde.
Fio da navalha: qual imberbe equilibrista, caminho sobre esta impertinente linha que separa, por um lado, o conforto e o consolo dados pelas entregas e, por outro, a teimosa ansiedade que me prende à impossibilidade de me entregar ao rumo natural das naturezas e dos acontecimentos.
Vou cortar esta linha.
Vou ser livre no corte.
Vou ser severo na cura.
Tenho por quem correr, tenho por quem querer, tenho por quem esperar. Tenho quem me ame e tenho quem amar. Todos os dias tenho o amor a acontecer-me. Tenho quem mo diga, quem mo demonstre, quem mo prove. Tenho em quem pensar quando tenho de pensar no que é bom e vale a pena lutar. Tenho por quem sorrir quando acordo e adormeço. Tenho quem desejar. Tenho quem observar com ternura e admiração. Tenho com quem debater e conversar. Tenho quem me ajude e tenho quem ajudar. Tenho quem me olhe com carinho. Tenho quem se alegre por me ter conhecido. Tenho tanta gente. Tenho um pouco de tudo em toda a gente. Tenho por quem querer ir mais longe para estar mais perto. Apenas não tenho a paz necessária para viver tudo isso em liberdade. Tenho um abismo de dúvidas que teima em não se fechar. Tenho-me a mim e ao tempo para fazer esse derradeiro fecho. Tenho tudo para me provar.
Tento serenar. Tento calar esta já rouca e senil máquina que trabalha a sós para que não se instale a falência definitiva nesta fábrica do medo que teima em existir dentro de mim. É inevitável a falência desta fábrica: o medo é um produto inútil. O medo é um produto que não quero voltar a comprar. O medo é um produto que não circula. O medo é um produto que impede o livre-trânsito das sensações.
Vou fechar, com as duas mãos, fábricas e abismos. Vou ser livre para amar em liberdade e em paz. Vou ser teimoso, metódico e artista.
Mergulho em Stig Dagerman. Leio “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Conheço este texto há cerca de dez anos. Sempre me identifiquei com ele. Foi a Mónica Bolas quem mo ofereceu. Perdi esse mesmo livro numa das inúmeras mudanças de casa que fiz nesta última década. No natal passado a Rosa ofereceu-mo. Ocorreu o reencontro. Vou levar este reencontro às suas últimas consequências e vou usar o texto no espectáculo a solo que estou a preparar.
Enquanto lia, em voz alta, o texto do Stig Dagerman, no sofá da sala, tinha a televisão ligada na RTP Memória. Estavam a transmitir um programa que o Carlos do Carmo gravou para a RTP em 1981. Parei e leitura e entreguei-me à bela voz do cantor. E eis que ela surgiu, uma das mais belas canções de sempre, “Estrela da Tarde”. Esta canção emociona-me profundamente, arrepia-me, dá-me vontade de chorar e amar ilimitadamente (sem medos e angústias). O poema do Ary dos Santos é soberbo, obra prima, de uma profundidade maior e a interpretação do Carlos do Carmo sempre foi arrepiante.
Encontrei o consolo hoje à tarde; enquanto pensava nas provas de amor que recebo todos os dias, enquanto lia Stig Dagerman e enquanto me emocionava a ver o Carlos do Carmo a interpretar um dos mais belos poemas de sempre.
Vou rir do medo, vou brincar comigo.
Estrela da Tarde
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"
José Carlos Ary dos Santos
Fio da navalha: qual imberbe equilibrista, caminho sobre esta impertinente linha que separa, por um lado, o conforto e o consolo dados pelas entregas e, por outro, a teimosa ansiedade que me prende à impossibilidade de me entregar ao rumo natural das naturezas e dos acontecimentos.
Vou cortar esta linha.
Vou ser livre no corte.
Vou ser severo na cura.
Tenho por quem correr, tenho por quem querer, tenho por quem esperar. Tenho quem me ame e tenho quem amar. Todos os dias tenho o amor a acontecer-me. Tenho quem mo diga, quem mo demonstre, quem mo prove. Tenho em quem pensar quando tenho de pensar no que é bom e vale a pena lutar. Tenho por quem sorrir quando acordo e adormeço. Tenho quem desejar. Tenho quem observar com ternura e admiração. Tenho com quem debater e conversar. Tenho quem me ajude e tenho quem ajudar. Tenho quem me olhe com carinho. Tenho quem se alegre por me ter conhecido. Tenho tanta gente. Tenho um pouco de tudo em toda a gente. Tenho por quem querer ir mais longe para estar mais perto. Apenas não tenho a paz necessária para viver tudo isso em liberdade. Tenho um abismo de dúvidas que teima em não se fechar. Tenho-me a mim e ao tempo para fazer esse derradeiro fecho. Tenho tudo para me provar.
Tento serenar. Tento calar esta já rouca e senil máquina que trabalha a sós para que não se instale a falência definitiva nesta fábrica do medo que teima em existir dentro de mim. É inevitável a falência desta fábrica: o medo é um produto inútil. O medo é um produto que não quero voltar a comprar. O medo é um produto que não circula. O medo é um produto que impede o livre-trânsito das sensações.
Vou fechar, com as duas mãos, fábricas e abismos. Vou ser livre para amar em liberdade e em paz. Vou ser teimoso, metódico e artista.
Mergulho em Stig Dagerman. Leio “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Conheço este texto há cerca de dez anos. Sempre me identifiquei com ele. Foi a Mónica Bolas quem mo ofereceu. Perdi esse mesmo livro numa das inúmeras mudanças de casa que fiz nesta última década. No natal passado a Rosa ofereceu-mo. Ocorreu o reencontro. Vou levar este reencontro às suas últimas consequências e vou usar o texto no espectáculo a solo que estou a preparar.
Enquanto lia, em voz alta, o texto do Stig Dagerman, no sofá da sala, tinha a televisão ligada na RTP Memória. Estavam a transmitir um programa que o Carlos do Carmo gravou para a RTP em 1981. Parei e leitura e entreguei-me à bela voz do cantor. E eis que ela surgiu, uma das mais belas canções de sempre, “Estrela da Tarde”. Esta canção emociona-me profundamente, arrepia-me, dá-me vontade de chorar e amar ilimitadamente (sem medos e angústias). O poema do Ary dos Santos é soberbo, obra prima, de uma profundidade maior e a interpretação do Carlos do Carmo sempre foi arrepiante.
Encontrei o consolo hoje à tarde; enquanto pensava nas provas de amor que recebo todos os dias, enquanto lia Stig Dagerman e enquanto me emocionava a ver o Carlos do Carmo a interpretar um dos mais belos poemas de sempre.
Vou rir do medo, vou brincar comigo.
Estrela da Tarde
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia
Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia
E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia
Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram
Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram
Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto
Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"
José Carlos Ary dos Santos
(dedico este post ao meu amor. por tudo de bom que me tem dado nestes 3 meses. parabéns a nós hoje. faz hoje 3 meses que amanhecemos juntos pela primeira vez. um beijo profundo.)
Thursday, May 19, 2005
anti-prolegómenos da pura arte do estar (a base)
a liberdade é uma ferramenta e tem de ser usada com o máximo de leveza e visão.
o artista da pura arte do estar é um ser plural e multirealizado e a liberdade é o instrumento básico do seu trabalho.
a pura arte do estar é uma ciência do ser e tem como método a procura do olhar amante do mundo.
é fundamental que o artista da pura arte do estar perceba que é a liberdade que é a ferramenta, não o olhar amante do mundo. o olhar amante do mundo é apenas um mero sucedâneo da liberdade. o olhar amante do mundo é a consequência. o olhar amante do mundo é a quimera. o usofruto da ferramenta é a própria pura arte do estar em si. a pura arte do estar ocorre no pleno, sereno e descomplexado uso da liberdade.
o artista da pura arte do estar tem o universo como laboratório e a própria vida como suporte.
o artista da pura arte do estar tem como missão deixar que o mundo não perca a sua ironia idiossincrática. o artista da pura arte do estar é o antídoto para o lado envenenado do mundo. o tempo é a ligação que arde mas cura.
Monday, May 16, 2005
esclarecimento há muito adiado
o feitiço resultou; sei que o fizeste. o resultado deu-se sobretudo no prolongamento da minha ligação. não teriam sido precisos feitiços; eram mais preci(o)sas as palavras.
doeu-me mas não fui capaz de retroceder.
eu sabia pouco da derrota, tu sabias pouco de magia.
é só para que fiques a saber!
Sunday, May 15, 2005
self healing 2
gosto muito de viver. gosto muito de tudo o que me acontece. gosto muito de tudo o que me está a acontecer. na verdade, eu gosto muito de tudo. eu sou muito feliz. eu sou mais do que feliz: eu sou felicíssimo. a vida corre-me sempre muito bem. não tenho problemas. a minha vida é perfeita. a minha vida é linda.
sou muito rico. tenho dinheiro a dar com um pau. sempre fui rico. sempre vivi com muito dinheiro. por isso, eu não sei o que é passar por necessidades. nunca soube o que é não poder ter, não poder comprar, não poder ir. tenho dinheiro que chegue para duas vidas.
como sou muito altruísta, reparto tudo com todos. adoro dar e repartir. por isso todos os meus amigos também são ricos. todos os que me são queridos e próximos usufruem do meu dinheiro. deste modo, todos somos muito ricos. só faz sentido se assim for. o dinheiro não tem qualquer utilidade quando serve apenas para satisfazer a nós mesmos.
outra coisa que eu gosto muito na minha vida, e que a torna ainda mais perfeita, sou eu mesmo. eu sou perfeito. não tenho qualquer tipo de imperfeição. sou dotado de uma beleza exterior irrepreensível. eu próprio não me teria feito melhor. e interiormente sou magnânimo e genial. sou rico material e espiritualmente. todas as pessoas me adoram. sou amado profundamente por toda a gente. sou das pessoas mais inteligentes do mundo. sou das pessoas mais equilibradas que se pode encontrar. não sou uma pessoa resolvida consigo própria porque eu nunca tive nada para resolver comigo. sempre fui perfeito.
vivo por e para o amor. e o meu amor é tudo para mim. eu e o meu amor estamos juntos desde sempre. o nosso amor é perfeito. temos crescido juntos e havemos de ficar juntos para sempre. para toda a eternidade. eu e o meu amor somos tão perfeitos que estamos certos que estamos juntos desde o príncipio dos tempos. eu e o meu amor nunca discutimos, nunca nos magoámos, nunca divergimos. é sempre tudo muito orgânico e confortável entre nós. nunca há um equívoco. estamos sempre em sintonia, sempre. os silêncios são silêncios de ouro. não existe entre nós o silêncio desconfortável. temos plena confiança um no outro. sabemos ambos que qualquer um de nós seria incapaz de ser desonesto para com o outro. sabemos ambos que isso seria a morte do outro e como não queremos que o outro morra, porque assim também nós iríamos morrer (de amor), jamais colocamos a hipótese de agir de forma desleal. eu e o meu amor estamos sempre ávidos de ternura e de prazer. desejamo-nos profundamente e à distância. quando fazemos amor as estrelas movem-se no céu e interferimos com a força da gravidade. fazemos amor todos os dias; é por isso que a gravidade não é constante. eu e o meu amor choramos de felicidade ao termos orgasmos em simultâneo. eu e o meu amor somos tão diferentes que somos um só. eu e o meu amor estamos sempre a rir.
gosto muito de tudo o que faço. sou uma pessoa muito solicitada. mas trabalho por mero prazer. apesar disso, eu faço tudo muito bem e tenho todo o sucesso do mundo. eu sou da pessoas com mais mérito no mundo. sou constantemente galardoado. trabalho muito porque o trabalho é uma fonte constante de felicidade. tudo na minha vida é uma fonte constante de felicidade.
eu sou muito feliz. tenho-me a mim e adoro-me, tenho o meu dinheiro e adoro-o, tenho o meu trabalho e adoro-o, tenhos os meus ricos amigos e adoro-os, tenho o melhor amor do mundo e adoro-o. eu sou mesmo muito feliz. adoro viver e estou certo de que nunca hei-de morrer. eu sei que sou eterno e que hei-de ser feliz para todo o sempre. não percebo como é que há pessoas que não são felizes. não percebo porque é que as pessoas sofrem. não percebo a dor. não percebo a infelicidade.
este vou ser eu. ao fim e ao cabo sou actor.
Saturday, May 14, 2005
self healing
os culpados são sempre punidos, mais cedo ou mais tarde.
o que quer que seja que me fez chegar aqui: eu sei que não mereço.
virar tudo ao contrário para poder ver mais a direito.
há silêncios e silêncios: aprende a diferenciá-los.
acarinha-te: sabes que és do melhorzinho que por aí anda.
mas afinal onde é que anda a tua soberba?
daqui a uns tempos vou rir-me disto a bandeiras despregadas.
a bandeiras passadas. bandeiras passadas não apresentam nações.
eu sou uma nação do ver. eu vejo tudo. quero ver melhor.
quem vê por último vê melhor.
vou guardar isto no fundo da cabeça. sou muito melhor a rir.
sou muito melhor a rir em primeiro.
sou muito melhor a rir por último.
para quê? porquê? haja paciência. tenho mais que fazer.
não acho graça nenhuma a este jogo.
ainda tenho tudo para dar: o BEM!
o que quer que seja que me fez chegar aqui: eu sei que não mereço.
virar tudo ao contrário para poder ver mais a direito.
há silêncios e silêncios: aprende a diferenciá-los.
acarinha-te: sabes que és do melhorzinho que por aí anda.
mas afinal onde é que anda a tua soberba?
daqui a uns tempos vou rir-me disto a bandeiras despregadas.
a bandeiras passadas. bandeiras passadas não apresentam nações.
eu sou uma nação do ver. eu vejo tudo. quero ver melhor.
quem vê por último vê melhor.
vou guardar isto no fundo da cabeça. sou muito melhor a rir.
sou muito melhor a rir em primeiro.
sou muito melhor a rir por último.
para quê? porquê? haja paciência. tenho mais que fazer.
não acho graça nenhuma a este jogo.
ainda tenho tudo para dar: o BEM!
Friday, May 13, 2005
Thursday, May 12, 2005
milagre
É urgente a ocorrência de um milagre regenerador. Para me tirar daqui. Para me recolocar ali. Para me situar. Para me determinar. Para me desobscurecer. Para me libertar. Para me aliviar. Para me centrar.
Se houver algum Messias por aí: que se acuse. Os tempos já não são de lepra; são de velocidade. Preciso de um milagre veloz para me deixar ao ralenti. Quero viver aqui ao ralenti. Quero que o meu coração recupere o seu batimento normal.
Wednesday, May 11, 2005
para contrariar este dia
"IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE"
"IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE"
esta é a frase que fecha a magnífica canção "Street Spirit (fade out)" que os geniais Radiohead compuseram para o seu segundo e belo disco "The Bends".
esta frase não me tem saído da cabeça durante este dia de hoje. há uma carga de tristeza no ar. eu sinto-me triste, incerto, cansado de esperar que tudo melhore. vou cantar o "Street Spirit" para mim. Resta-me aguardar pelo regresso do sol.
"IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE"
Subscribe to:
Posts (Atom)






