Tuesday, May 24, 2005


matéria 2 (foto de Onan)

matéria 1 (foto de Onan)

Monday, May 23, 2005


eu sou o rasto que o barco deixa na água ao partir. tu és o doce namoro entre a ponte e o rio.

Saturday, May 21, 2005

a tarde e o consolo

Mergulho, a sós, na tarde.
Fio da navalha: qual imberbe equilibrista, caminho sobre esta impertinente linha que separa, por um lado, o conforto e o consolo dados pelas entregas e, por outro, a teimosa ansiedade que me prende à impossibilidade de me entregar ao rumo natural das naturezas e dos acontecimentos.

Vou cortar esta linha.
Vou ser livre no corte.
Vou ser severo na cura.

Tenho por quem correr, tenho por quem querer, tenho por quem esperar. Tenho quem me ame e tenho quem amar. Todos os dias tenho o amor a acontecer-me. Tenho quem mo diga, quem mo demonstre, quem mo prove. Tenho em quem pensar quando tenho de pensar no que é bom e vale a pena lutar. Tenho por quem sorrir quando acordo e adormeço. Tenho quem desejar. Tenho quem observar com ternura e admiração. Tenho com quem debater e conversar. Tenho quem me ajude e tenho quem ajudar. Tenho quem me olhe com carinho. Tenho quem se alegre por me ter conhecido. Tenho tanta gente. Tenho um pouco de tudo em toda a gente. Tenho por quem querer ir mais longe para estar mais perto. Apenas não tenho a paz necessária para viver tudo isso em liberdade. Tenho um abismo de dúvidas que teima em não se fechar. Tenho-me a mim e ao tempo para fazer esse derradeiro fecho. Tenho tudo para me provar.

Tento serenar. Tento calar esta já rouca e senil máquina que trabalha a sós para que não se instale a falência definitiva nesta fábrica do medo que teima em existir dentro de mim. É inevitável a falência desta fábrica: o medo é um produto inútil. O medo é um produto que não quero voltar a comprar. O medo é um produto que não circula. O medo é um produto que impede o livre-trânsito das sensações.

Vou fechar, com as duas mãos, fábricas e abismos. Vou ser livre para amar em liberdade e em paz. Vou ser teimoso, metódico e artista.


Mergulho em Stig Dagerman. Leio “A nossa necessidade de consolo é impossível de satisfazer”. Conheço este texto há cerca de dez anos. Sempre me identifiquei com ele. Foi a Mónica Bolas quem mo ofereceu. Perdi esse mesmo livro numa das inúmeras mudanças de casa que fiz nesta última década. No natal passado a Rosa ofereceu-mo. Ocorreu o reencontro. Vou levar este reencontro às suas últimas consequências e vou usar o texto no espectáculo a solo que estou a preparar.

Enquanto lia, em voz alta, o texto do Stig Dagerman, no sofá da sala, tinha a televisão ligada na RTP Memória. Estavam a transmitir um programa que o Carlos do Carmo gravou para a RTP em 1981. Parei e leitura e entreguei-me à bela voz do cantor. E eis que ela surgiu, uma das mais belas canções de sempre, “Estrela da Tarde”. Esta canção emociona-me profundamente, arrepia-me, dá-me vontade de chorar e amar ilimitadamente (sem medos e angústias). O poema do Ary dos Santos é soberbo, obra prima, de uma profundidade maior e a interpretação do Carlos do Carmo sempre foi arrepiante.

Encontrei o consolo hoje à tarde; enquanto pensava nas provas de amor que recebo todos os dias, enquanto lia Stig Dagerman e enquanto me emocionava a ver o Carlos do Carmo a interpretar um dos mais belos poemas de sempre.

Vou rir do medo, vou brincar comigo.

Estrela da Tarde
"Era a tarde mais longa de todas as tardes que me acontecia

Eu esperava por ti, tu não vinhas, tardavas e eu entardecia
Era tarde, tão tarde, que a boca, tardando-lhe o beijo, mordia
Quando à boca da noite surgiste na tarde tal rosa tardia
Quando nós nos olhámos tardámos no beijo que a boca pedia

E na tarde ficámos unidos ardendo na luz que morria
Em nós dois nessa tarde em que tanto tardaste o sol amanhecia
Era tarde de mais para haver outra noite, para haver outro dia

Meu amor, meu amor
Minha estrela da tarde
Que o luar te amanheça e o meu corpo te guarde
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza
Se tu és a alegria ou se és a tristeza
Meu amor, meu amor
Eu não tenho a certeza

Foi a noite mais bela de todas as noites que me adormeceram
Dos nocturnos silêncios que à noite de aromas e beijos se encheram
Foi a noite em que os nossos dois corpos cansados não adormeceram
E da estrada mais linda da noite uma festa de fogo fizeram
Foram noites e noites que numa só noite nos aconteceram

Era o dia da noite de todas as noites que nos precederam
Era a noite mais clara daqueles que à noite amando se deram
E entre os braços da noite de tanto se amarem, vivendo morreram

Eu não sei, meu amor, se o que digo é ternura, se é riso, se é pranto
É por ti que adormeço e acordo e acordado recordo no canto
Essa tarde em que tarde surgiste dum triste e profundo recanto
Essa noite em que cedo nasceste despida de mágoa e de espanto

Meu amor, nunca é tarde nem cedo para quem se quer tanto!"

José Carlos Ary dos Santos

(dedico este post ao meu amor. por tudo de bom que me tem dado nestes 3 meses. parabéns a nós hoje. faz hoje 3 meses que amanhecemos juntos pela primeira vez. um beijo profundo.)



Thursday, May 19, 2005

anti-prolegómenos da pura arte do estar (a base)

a liberdade é uma ferramenta e tem de ser usada com o máximo de leveza e visão.
o artista da pura arte do estar é um ser plural e multirealizado e a liberdade é o instrumento básico do seu trabalho.
a pura arte do estar é uma ciência do ser e tem como método a procura do olhar amante do mundo.
é fundamental que o artista da pura arte do estar perceba que é a liberdade que é a ferramenta, não o olhar amante do mundo. o olhar amante do mundo é apenas um mero sucedâneo da liberdade. o olhar amante do mundo é a consequência. o olhar amante do mundo é a quimera. o usofruto da ferramenta é a própria pura arte do estar em si. a pura arte do estar ocorre no pleno, sereno e descomplexado uso da liberdade.
o artista da pura arte do estar tem o universo como laboratório e a própria vida como suporte.
o artista da pura arte do estar tem como missão deixar que o mundo não perca a sua ironia idiossincrática. o artista da pura arte do estar é o antídoto para o lado envenenado do mundo. o tempo é a ligação que arde mas cura.

Monday, May 16, 2005

esclarecimento há muito adiado

o feitiço resultou; sei que o fizeste. o resultado deu-se sobretudo no prolongamento da minha ligação. não teriam sido precisos feitiços; eram mais preci(o)sas as palavras.
doeu-me mas não fui capaz de retroceder.
eu sabia pouco da derrota, tu sabias pouco de magia.
é só para que fiques a saber!

Sunday, May 15, 2005

self healing 2

gosto muito de viver. gosto muito de tudo o que me acontece. gosto muito de tudo o que me está a acontecer. na verdade, eu gosto muito de tudo. eu sou muito feliz. eu sou mais do que feliz: eu sou felicíssimo. a vida corre-me sempre muito bem. não tenho problemas. a minha vida é perfeita. a minha vida é linda.
sou muito rico. tenho dinheiro a dar com um pau. sempre fui rico. sempre vivi com muito dinheiro. por isso, eu não sei o que é passar por necessidades. nunca soube o que é não poder ter, não poder comprar, não poder ir. tenho dinheiro que chegue para duas vidas.
como sou muito altruísta, reparto tudo com todos. adoro dar e repartir. por isso todos os meus amigos também são ricos. todos os que me são queridos e próximos usufruem do meu dinheiro. deste modo, todos somos muito ricos. só faz sentido se assim for. o dinheiro não tem qualquer utilidade quando serve apenas para satisfazer a nós mesmos.
outra coisa que eu gosto muito na minha vida, e que a torna ainda mais perfeita, sou eu mesmo. eu sou perfeito. não tenho qualquer tipo de imperfeição. sou dotado de uma beleza exterior irrepreensível. eu próprio não me teria feito melhor. e interiormente sou magnânimo e genial. sou rico material e espiritualmente. todas as pessoas me adoram. sou amado profundamente por toda a gente. sou das pessoas mais inteligentes do mundo. sou das pessoas mais equilibradas que se pode encontrar. não sou uma pessoa resolvida consigo própria porque eu nunca tive nada para resolver comigo. sempre fui perfeito.
vivo por e para o amor. e o meu amor é tudo para mim. eu e o meu amor estamos juntos desde sempre. o nosso amor é perfeito. temos crescido juntos e havemos de ficar juntos para sempre. para toda a eternidade. eu e o meu amor somos tão perfeitos que estamos certos que estamos juntos desde o príncipio dos tempos. eu e o meu amor nunca discutimos, nunca nos magoámos, nunca divergimos. é sempre tudo muito orgânico e confortável entre nós. nunca há um equívoco. estamos sempre em sintonia, sempre. os silêncios são silêncios de ouro. não existe entre nós o silêncio desconfortável. temos plena confiança um no outro. sabemos ambos que qualquer um de nós seria incapaz de ser desonesto para com o outro. sabemos ambos que isso seria a morte do outro e como não queremos que o outro morra, porque assim também nós iríamos morrer (de amor), jamais colocamos a hipótese de agir de forma desleal. eu e o meu amor estamos sempre ávidos de ternura e de prazer. desejamo-nos profundamente e à distância. quando fazemos amor as estrelas movem-se no céu e interferimos com a força da gravidade. fazemos amor todos os dias; é por isso que a gravidade não é constante. eu e o meu amor choramos de felicidade ao termos orgasmos em simultâneo. eu e o meu amor somos tão diferentes que somos um só. eu e o meu amor estamos sempre a rir.
gosto muito de tudo o que faço. sou uma pessoa muito solicitada. mas trabalho por mero prazer. apesar disso, eu faço tudo muito bem e tenho todo o sucesso do mundo. eu sou da pessoas com mais mérito no mundo. sou constantemente galardoado. trabalho muito porque o trabalho é uma fonte constante de felicidade. tudo na minha vida é uma fonte constante de felicidade.
eu sou muito feliz. tenho-me a mim e adoro-me, tenho o meu dinheiro e adoro-o, tenho o meu trabalho e adoro-o, tenhos os meus ricos amigos e adoro-os, tenho o melhor amor do mundo e adoro-o. eu sou mesmo muito feliz. adoro viver e estou certo de que nunca hei-de morrer. eu sei que sou eterno e que hei-de ser feliz para todo o sempre. não percebo como é que há pessoas que não são felizes. não percebo porque é que as pessoas sofrem. não percebo a dor. não percebo a infelicidade.

este vou ser eu. ao fim e ao cabo sou actor.

Saturday, May 14, 2005

self healing

os culpados são sempre punidos, mais cedo ou mais tarde.
o que quer que seja que me fez chegar aqui: eu sei que não mereço.

virar tudo ao contrário para poder ver mais a direito.
há silêncios e silêncios: aprende a diferenciá-los.
acarinha-te: sabes que és do melhorzinho que por aí anda.
mas afinal onde é que anda a tua soberba?

daqui a uns tempos vou rir-me disto a bandeiras despregadas.
a bandeiras passadas. bandeiras passadas não apresentam nações.
eu sou uma nação do ver. eu vejo tudo. quero ver melhor.
quem vê por último vê melhor.
vou guardar isto no fundo da cabeça. sou muito melhor a rir.
sou muito melhor a rir em primeiro.
sou muito melhor a rir por último.

para quê? porquê? haja paciência. tenho mais que fazer.
não acho graça nenhuma a este jogo.

ainda tenho tudo para dar: o BEM!

Friday, May 13, 2005

citação sentida talvez mal

"É preciso tremer para crescer"
René Char

Thursday, May 12, 2005

milagre

É urgente a ocorrência de um milagre regenerador. Para me tirar daqui. Para me recolocar ali. Para me situar. Para me determinar. Para me desobscurecer. Para me libertar. Para me aliviar. Para me centrar.
Se houver algum Messias por aí: que se acuse. Os tempos já não são de lepra; são de velocidade. Preciso de um milagre veloz para me deixar ao ralenti. Quero viver aqui ao ralenti. Quero que o meu coração recupere o seu batimento normal.

Wednesday, May 11, 2005

para contrariar este dia

"IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE"
esta é a frase que fecha a magnífica canção "Street Spirit (fade out)" que os geniais Radiohead compuseram para o seu segundo e belo disco "The Bends".
esta frase não me tem saído da cabeça durante este dia de hoje. há uma carga de tristeza no ar. eu sinto-me triste, incerto, cansado de esperar que tudo melhore. vou cantar o "Street Spirit" para mim. Resta-me aguardar pelo regresso do sol.

"IMMERSE YOUR SOUL IN LOVE"

Monday, May 09, 2005

parte-a-parte 3: resposta ao comentário/desafio de oRAnGe fUZZ

cópia de comentário/desafio de oRAnGe fUZZ:

oRAnGe fUZZ passou por aqui e decidiu lançar um desafio para o menino visionário se entreter... palavras chave: cor, emoção e movimento. objectivo: não querendo limitar a margem da tua arte, deixo o objectivo ao teu critério. beijos alaranjados

resposta/composição de Onan:

a resposta vem tarde mas julgo que não fora de tempo

cor:

deixei da ser criança quando percebi que tinha perdido a capacidade de sentir que ao ter nas mãos uma caixa de canetas de feltro da Molin teria o mundo à minha disposição.
emoção:
volto a sentir-me criança quando sinto o mundo como uma gigantesca caixa de canetas de feltro da Molin.
movimento:
fecha os olhos e deixa-me escrever nas tuas costas com a ponta dos meus dedos. vou escrever o que me der na real gana; tu vais lendo o que conseguires decifrar. o que interessa não são as palavras que escrevo mas sim a minha vontade de escrever contigo: o doce dançar da escrita na tua pele.

Friday, May 06, 2005

anti-prolegómenos da pura arte do estar (abertura)

vistas bem as coisas, a desrazão é um lado legível da razão que aparece com o mesmo ímpeto com que a última se dá a ler.
serão precisos muitos dias de penumbra para poder entrever a possibilidade de a eficácia do estar se instalar com segura/fiável perenidade.
aos rituais de escamoteamento chama-se passagens. às passagens chama-se processos de contextualização.
o avaliador mantém-se sitiado entre as duas leituras enquanto aguarda que a justa avaliação, através de actos/discursos, se torne inquestionável.
a luz é um fenómeno do movimento. a penumbra é um fenómeno que tem a desrazão como principal parturiente.

Thursday, May 05, 2005

dia bonito

que dia bonito!
linda tarde que se pôs!
vou vestir a minha camisa havaiana!
vou apanhar sol nas trombas!
vou andar por aí!
vou ver o rio!
vou ver pessoas!
vou andar por essas ruas a ouvir The Killers aos berros!
vou encontrar-me com Lisboa à tarde neste dia bonito!

Monday, May 02, 2005

45 prioridades

nova semana, coisas a fazer a partir de agora:
  1. deixar que o sol me entre dentro da cabeça
  2. deitar-me mais cedo
  3. acordar mais cedo
  4. LER
  5. deixar de gastar horas a estupidificar em frente ao computador
  6. deixar de pensar no que não devo
  7. dizer anda mais disparates
  8. ir ver mais vezes ver o rio
  9. telefonar à mamã
  10. atirar-me de cabeça à labtools
  11. pensar nos ensaios do Baile Demutante
  12. marcar reunião da Azul Ama Vermelho (tê-la efectivamente)
  13. telefonar ao Manuel Paulo
  14. começar a ter uma alimentação mais equilibrada
  15. beber litradas de água (tipo shot)
  16. beber menos (period)
  17. pensar no bom e no bonito
  18. cagar no mau e no insondável
  19. ouvir Jacques Brel, Dalida, Brigitte Bardot, Serge Gainsbourg e Marco Paulo
  20. fingir que vivo nos anos cinquenta
  21. não pensar no que não me acontece
  22. dar valor ao que me acontece
  23. ir ver pessoas à noite
  24. namorar ao ralenti
  25. voltar a pensar em projectos deixados a meio (ou apenas pensados)
  26. não deixar acumular lixo na varanda
  27. fumar menos charros
  28. fumar menos cigarros
  29. ir correr (sem ser a fugir)
  30. deixar de acumular pilhas de cd's em cima da secretária
  31. levar o computador ao médico dos computadores
  32. marcar dentista
  33. descobrir o número da clínica dos tais psicólogos
  34. cortar as unhas (mãos e pés) de três em três dias
  35. não fazer birras
  36. arrumar alguma roupa de inverno
  37. recuperar o Finis Praxis (sabe-se lá como)
  38. arranjar rendimentos (nem que seja a assaltar velhinhas no Jardim da Estrela)
  39. responder ao desafio que falta
  40. deixar de dar dentadas que aleijam
  41. estar para o que der e vier
  42. dançar a dois
  43. arrumar as prateleiras da esquerda
  44. tratar da porcaria do irs (irs sucks)
  45. estabelecer prioridades para 44 prioridades

Sunday, May 01, 2005

dor de dente

odeio domingos

se o tempo não fosse tão relativo, e pessoal,
eu poderia andar de planeta em planeta à procura da melhor face sol.

se eu soubesse mais do espaço e de astronomia
podia ver o mundo de fora e auscultar o efeito que isso em mim teria.

se eu soubesse naufragar
iria dormir sempre no fundo calmo do mar.

slogans para um produto que não se vende

  • fascina-me a tua matéria!
  • intriga-me a tua substância!
  • gosto de saber em que parte do globo estás!
  • se acordares avisa!
  • espera-me à porta da tua satisfação!
  • sorri, estás a ser amado!
  • diz-me porque estás aqui!
  • cada dia és melhor que ontem!
  • não te esqueças da minha sede!
  • faz-me sempre o que pensas!
  • canta-me na tua cabeça!
  • canto-te a toda gente!
  • se isto não fosse bom não eras!
  • faz-me chorar a rir, uma vez mais!
  • luta comigo!

um retrato do sempre

desde muito novos foram fazendo a sua vidinha,
ela lavava para fora,
ele bebia ginginha

iam sempre de mãos dadas à aldeia vizinha
ele vinha aos tombos p'ra casa,
ela deixava-o a dormir na cozinha

tinham os seus arrufos e guerras; até berros havia
ela levantava as saias,
ele fumava e sorria

faziam tudo em conjunto com alegria
ele saía da cama,
ela ligava a telefonia

olharam-se sempre nos olhos durante de setenta anos
ela chamava-lhe morcão,
ele Maria dos Panos

ainda se beijavam nas bocas onde já quase não sobravam dentes
faziam amor às escuras e nunca estavam dormentes

deitaram-se cedo uma noite e enlaçaram as mãos trementes
nunca mais acordaram; morrerram juntos e contentes

lilac wine

"i lost myself on a cool damp night
gave mself in that misty light
was hypnotized by a strange delight
under a lilac tree

i made wine from the lilac tree
put my heart in its recipe
it makes me see what i want to see...
and be what i want to be

when i think more than i want to think
do things i never should do
i drink much more that i ought to drink
because it brings me back you...

lilac wine is sweet and heady, like my love
lilac wine, i feel unsteady, like my love
listen to me... I cannot see clearly
isn't that he coming to me nearly here?

lilac wine is sweet and heady, where's my love?
lilac wine, i feel unsteady, where's my love?

listen to me, why is everything so hazy?
isn't that he, or am i just going crazy, dear?

lilac wine, i feel unready for my love..."

um belo poema belamente intepretado por essa bela, a seu modo, Nina Simone

cocktail party

uma congregação mediana de criaturas em estado de permanente liquidez:

às segundas servem-se cabeças de pessoas normais em bandejas de prata e
procede-se à leitura das actas dos encontros anteriores.

às terças ri-se, caçam-se borboletas com jactos de esperma e
lêem-se cartas recusadas por antigos e eternos amores.

às quartas fala-se do futuro com saudade e
mata-se quem não vier por bem.

às quintas olha-se alguém bem fundo nos olhos e
gasta-se em carne humana o último vintém.

às sextas toca-se à porta do inimigo e
corre-se para dentro da escuridão.

aos sábados e aos domingos está-se com febre e
dá-se o que se pode ao mundo em cima do colchão.