Sunday, January 30, 2005

In Sul Tão

És a Inteligência Rara.
És o Carmo e a Trindade e a Rua do Ouro e da Prata e quase todas onde há gente.
És o sabor de Lisboa ao fim da tarde, em Abril, em Maio, Junho, Julho, Agosto, Setembro, Outubro, Novembro, Dezembro, Janeiro e Fevereiro.
És a nudez, a Roupa Nova e a Roupa Velha.
És o toque e a música, és a Rosa dos Ventos e a Calçada Portuguesa.
És um cata-vento e és o vento por catar.
És um comboio permanente de Lisboa a Roma Antiga.
És um Calipo de Limão.
És uma logoteca de brincar e eu brinco-me em ti.
És o Génio da Lâmpada e os Quarenta Ladrões do Ali Babá.
És as coisas todas que andas a aprender.
És o Alecrim aos Molhos, és o Galo de Barcelos e a Menina das Sete Saias.
És a Primeira Infância e Os Meninos À Volta Da Fogueira.
És o Sequim D'Ouro, a Sopa de Pedra, o Caprisone e a Internet.
És o Bailinho da Madeira ("Ai que bem que bailas velhaco") e és o Trio Odemira.
És o Fa Fresh e a Lógica da Batata.
És o Bolo Rei (és o brinde e és a fava).
És um retrato para ser visto ao contrário.
És o Drops de Anis e o Escurinho do Cinema.
És o Yellow Submarine, a Montserrat Caballé e a Décima Quarta Maravilha do Mundo.
És o Crime Passional, a Revolução Francesa e a Távola Redonda.
És o Tronco de Natal, a Fatia Dourada e a Baba do Camelo.
És a TVI, o Natal dos Hospitais e o Boca Doce É Bom É Bom É Diz o Avô e Diz O Bébé.
És o Pingo Doce, a Cantora Careca, a Serenata À Chuva e o Crêpe Suzzete.
És a Muralha da China, a Tosta Mista e a Agatha Christie.
És a Luta Livre, a Princesa Diana e o Cabelo à Foda-se.
És a Renda de Bilros, a Expo 98 e a Aspirina C Efervescente.
És a Raiz Quadrada, a Estenografia, o Pão de Ló e a Loja do Mestre André.
És o 112, a Mansão da Playboy, a Música Pimba e as Claras em Castelo.
És o 28, a Lara Lee, a Banana Fa Si e a Simara.
És o 25 de Abril, o Zé Povinho, o Futebol de Salão e a Festa Na Mouraria.
És a Gabriela Cravo e Canela, o Chico Fininho, a Fafá de Belém, e Roleta Russa.
És o Tiro no Escuro, a Regra Do Jogo e a Cabra Cega
És o Arco da Rua Augusta, és a Coca-Cola, o Candomblé e a Catarina Furtado.
És o Circo no Gelo, a Vodka Limão, a Carga de Trabalhos e o Pavilhão do Futuro.
És a Bic Laranja, és a Bic Cristal, és a Maria Madelena e a Alheira de Mirandela.
És o Manguito, a Gioconda, a Natação Sincronizada, a Memória Ram e a Bola de Berlim.
És Boceta de Pandora, a Onomatopeia, o Cristo Rei e a Maluquinha de Arroios.
És a Castanha Assada, a Batata a Murro, a Eurovisão, o Fado e a Wallstreet.
És a Bota Botilde, a Pop Art, a Sorte Grande e a Terminação, o Titanic, a Valsa, o Tango, o Samba, o Tcha Tcha Tcha, a Cannabis, a Inquisição, as Vinte Mil Léguas Submarinas, és o Euro 2004, és a Chain Reaction, és a Linda Reis, a Suzy Paula, és a Palmira Bastos, a Branca de Neve, a Fada Madrinha, a Bruxa Má, a Tolerância Zero, o Pontilhismo, a Ejaculação Precoce, a Puberdade, a Maria Callas, a Laika, o Osso Duro de Roer,o Espírito Santo, a Vogue Japonesa, a Readers Digest,os Gipsy Kings, o Pentateuco, a Esparregata, o Buraco Negro, a Banha da Cobra, o Rodízio, a Dança do Ventre, a Rua da Amargura, a Santíssima Trindade, a Homeopatia, a Pornografia, a Nova Dramaturgia, a Catalepsia, a Astrologia, a Bolacha Maria e a Mitomania. És Filho de Uma Rosa de Um Cravo Nascido.

ÉS A MINHA REAL GANA.

EU SOU UM MEGAFONE.


no comments

Saturday, January 29, 2005

say no to missile. missile people do not rule (kick them out of your life)

"so you came like a missile
falling on my head
with a black sky
you think you're giving
but
you're taking my life away

then you came with your breezeblocks
smashing up my face like a bus-stop
you think you're giving
but
you're taking my life away

like the drunk you conviced was sober
you keep me falling over
you think you're giving
but
you're taking my life away

with your best of intentions
you try to give an ocean directions
you yhink you're giving
but
you're taking my life away

so you came like a missile
leaving me the whole world in exile
you think you're giving
but
you're taking my life away

like the drunk you convinced was sober
you keep me falling over
you think you're giving
but
you're taking my life away
you think you're giving
but
you're taking my life away"


uma canção linda de um senhor chamado Chris Corner (um génio da música contemporânea) incluído no recente, e excelente, álbum "Kiss+Swallow" que marca a sua estreia a solo, no projecto intitulado IAMX

Tuesday, January 25, 2005

fénix

sim, é verdade, todos somos fénix tantas vezes renascida das cinzas. sim, é verdade, tens razão. e agora? ficamos em quê? ficamos onde? ficamos porquê? ficamos para quem? ficamos?
fala-me das tuas cinzas! descreve-me o seu odor, a sua gradação cromática, o seu peso e a sua espessura. acreditas que as tuas cinzas têm um peso diferente das minhas cinzas? acreditas! fala-me dessa diferença. como é que a sentes? é verdade, costumas sentir as tuas próprias cinzas? costumas guardar as tuas
próprias cinzas? costumas inalar as tuas próprias cinzas? costumas gostar das tuas próprias cinzas? não? não me digas que não. não não é resposta. não é o princípio do fogo.
preferes falar do fogo, é isso? queres falar, então, do fogo? vossa senhoria prefere o fogo! pois muito bem, falemos do fogo.
já alguma vez tiveste tanto medo de ti ao ponto de permitires que a tua sede de paz suplante a tua própria vontade? já alguma vez te questionaste sobre a tua necessidade de inventar paisagens, atrozes ou não, para poder ter algum lugar onde situar os olhos? já alguma vez tentaste perceber onde começa e acaba a tua voz? já alguma vez quiseste ser cego, surdo e mudo e viver apenas confinado ao teu próprio pensamento? já alguma vez ponderaste a possibilidade de te alimentares apenas da tua própria saliva? pois... sim
sabes nada do fogo
como queres tu contabilizar cinzas se ainda não aprendeste o valor da boca?
quando aprenderes a deslizar pela vida serás forçado a embater na tua própria boca. serás forçado a engolir-te a ti mesmo, de uma só vez, sem respirar. para não partires os teus próprios ossos. irás ficar alojado, inerte, sereno, hibernado, incapaz no teu próprio estômago. irás ficar imóvel durante quase dez meses. irás pontapear-te por dentro. irás sentir o prazer da fome. então, o teu segundo estômago, o interior, tornar-se-á feroz. irás sentir a fúria da fome, da lazeira, da míngua, da subnutrição. e começarás a comer-te, de dentro para fora. irás devorar sofregamente as tuas próprias vísceras, roer os teus próprios ossos, sorver o teu próprio sangue, apreciar a tua própria saliva. e quando morderes os teus próprios miolos vais aprender a ter boca.
vais saber tudo do fogo, vais saber nada da paz.

Monday, January 17, 2005

work in progress (mais um passo depois de mais um passo)

Depois de ter chorado, Ela, sentiu necessidade de chorar ainda mais. Uma necessidade não cerebral mas corpórea, uma necessidade epidérmica. Deteve-se nua diante do grande espelho do quarto de hotel e fitou o seu corpo indefeso, prostrado perante o seu próprio olhar. Estudou a sua própria nudez, como se esta não lhe pertencesse. E as lágrimas não surgiram. Focou e desfocou o olhar algumas vezes, tentando tornar a sua figura uma entidade abstracta e sem qualquer tipo de experiência, história, vida. As lágrimas voltaram a não surgir.
A necessidade de chorar tornou-se cada vez mais imperativa. Então, Ela, sentiu que a recordação seria a via pela qual o choro teria possibilidade de ocorrer. Apelou à memória da pele e os seus olhos adquiriram o brilho lubrificado do choro. A sua pele recordou o peso exacto das mãos dele, a extensão de cada um dos seus dedos, a duração de cada afago, a meticulosidade de cada carícia. Os seus mamilos enrijeceram-se e as lágrimas começaram a rolar-lhe pelo rosto abaixo. Concentrou-se no espaço, o pequeno vazio, que ficava entre as suas coxas. O espaço em branco tantas vezes preenchido pela língua quente e húmida dele e que parecia ter sido criado exactamente para esse fim. Recordou o início de um poema dele:
"Foi daí, das tuas coxas, que o sol saiu para que a minha língua tivesse um país onde reinar...".
O choro tornou-se compulsivo, feroz. Sentiu-se habitada, como se a memória tivesse a capacidade de ser um substituto da presença. Como se o choro fosse um processo alquímico capaz de converter o vazio em carne arrebatada. E sentiu-o. Sentiu o seu hálito quente e salgado a percorrer-lhe a nuca, sentiu o seu queixo mal barbeado a roçagar o seu pescoço. Sentiu as suas mãos vorazes a afastarem-lhe as nádegas. E parou de chorar. Caída no chão, nua, pequena, parou de chorar.
Ele deixou de ter vontade de falar e assim o fez. Sentiu a inutilidade a instalar-se na língua e cortou uma pequena porção da mesma, a ponta, com uma navalha. Acabara de instituir o silêncio na própria carne.

Saturday, January 15, 2005

hey jupiter


"hey jupiter, nothings been the same so are you gay? are you blue? thought we both could use a friend to run to. and i thought you'd see with me you wouldn't have to be something new" tori amos, in "hey jupiter" (included in "Boys For Pele")

Monday, January 10, 2005

work in progress (mais um passo)

Ele perdeu a heroína ao entrar num táxi. Ela hospedou-se no hotel favorito dele em Buenos Aires. Não conseguiu ficar com o quarto que sabia ser o mesmo que ele sempre reservara: o quarto 111. Foi-lhe atribuído o 112. Decidiu que enquanto não conseguisse deitar-se na cama onde ele o tinha feito tantas vezes não deixaria a Argentina. Adormeceu a relembrar-se da conversa que tinha tido com ele na segunda noite que tinham passado juntos. Dormiu ininterruptamente durante catorze horas.
Ele acordou sobressaltado, olhou para o relógio e viu que eram sete e trinta e oito. Lembrou-se que antes de adomecer, exausto, o relógio marcava as seis de doze. Tinha dormido apenas uma hora e vinte e seis minutos. Soube que não iria ser capaz de voltar a adormecer. Levantou-se, bebeu água no lavatório da casa de banho e deteve-se em frente ao espelho a observar os sinais de esgotamento que cresciam livremente no seu próprio rosto. Os olhos encheram-se-lhe de lágrimas e um violento vómito forçou-o a devolver ao lavatório toda a água que havia bebido. A vontade de chorar dissipou-se. Nasceu-lhe nesse instante a vontade de morrer.
Ela acordou confusa, voltou a sentir a ausência. O gosto a hortelã voltara a abandonar-lhe a boca. Chorou durante uma hora e vinte e seis minutos.

uma questão como qualquer outra


Onde está Onan?

you are welcome to Onan's room 1

é domingo à tarde, é Janeiro, e eu tremo ao obsevar uma imagem do planeta terra visto do espaço. nunca me tinha apercebido que eu também estou, tácito, nessa imagem. esta contextualização chocou-me.



no meu quarto a paciência tem um convénio eterno com o estar.
no meu quarto as horas são ecos das marteladas
que dou no meu próprio crânio, ao deitar e ao acordar.
no meu quarto eu crio os sintomas da minha própria presença,
e escrevo, e leio, e planeio com as palavras a cura
como se o pensamento fosse uma espécie de uma desconhecida doença.
no meu quarto faço viagens no tempo e invento as palavras que direi
quando conseguir ter um total domínio da minha própria expressão.
no meu quarto deixo o meu rosto em paz, não preciso dele, porque,
no meu quarto, as paredes são espelhos sem solução.
no meu quarto há um campo de batalha, muito antigo,
onde eu travo com o tempo uma guerra guerreira.
no meu quarto sou forçado a ver a vida como uma experiência,
que se quer plena e inteira.
no meu quarto a cama é um laboratório onde eu, com a epiderme,
testo os resultados e a ideia do amor.
no meu quarto abro e fecho a porta do mundo onde só eu sou rei e senhor.
no meu quarto amontoam-se memórias de conversas e retalhos dos hálitos
que pela minha boca passaram.
no meu quarto já convivo com os fantasmas daqueles que no meu quarto
ainda nem sequer entraram.

Sunday, January 09, 2005

uma nova paixão de Onan

"Tu foste em todas as formas um país que eu nunca vi"
António Variações


Estou apaixonado por esta frase. Confesso que também estou bastante enamorado pelo disco dos Humanos. Estou, sobretudo, fascinado com a beleza das interpretações do Camané. Os poemas inétidos do António Variações são como que um grito de uma obra que não queria morrer. Os Humanos deram-lhe a possibilidade da vida. Bem hajam.
Quero é viver

Vou viver
até quando eu não sei
me importa o que serei
quero é viver

amanhã
espero sempre um amanhã
e acredito que será
mais um prazer

e a vida
é sempre uma curiosidade
que me desperta com a idade
interessa-me o que está para vir

e a vida
em mim é sempre uma certeza
que nasce da minha riqueza
do meu prazer em descobrir
encontrar, renovar, vou fugir ao repetir
(a interpretação do Camané, nesta canção, é comovente)

Friday, January 07, 2005

o teu beijo


o teu beijo foi a metade do sol que ousou vir morrer ao céu da minha boca

Thursday, January 06, 2005

o rio semântico

trinta e três horas e trinta e três minutos de pouca luta. havias de ver os desenhos que fiz nas tuas costas. quando estiveres perto de um espelho, confirma se ainda lá estão. se estiverem telefona-me. sabes que atenderei. sabes que estarei à espera. tu conheces-me, sabes que eu sou sempre aquele que está sempre à espera. sabes de cor as minhas esperas. já viveste quase dentro do meu telefone.
há dias em que sou quase interventivo, audaz, nocivo, revolucionário. mas estamos em crise. e sabes que em tempos de crise não há revolução que sobreviva?! agora não. agora já não. esta crise é dessas. é dentro.
lembras-te dos tempos que antecederam a crise? lembras-te desses dias? os anos eram mesmo feitos de meses e os meses eram mesmo feitos de dias. nessa altura os dias eram dias. a luz era luz. o real era real. um beijo sabia a beijo, a pele a pele e a flor da idade era uma nação inteira a olhar-se mutuamente nos olhos.
ainda gostas de sorrir?
já não me recordo claramente do teu rosto. sei que é um rosto não comum. sei que é um rosto que combina na perfeição com a tua pessoa. o teu rosto é a assinatura digna e eficaz da tua própria existência. é um rosto demorado e luminoso. recordo-me do cheiro. sim, recordo-me com grande exactidão do cheiro do teu rosto. agora a imagem, essa começa a tornar-se difusa.
sabes que eu não choro? sabes, sim, tu sabes. há cerca de uma hora aconteceu-me uma vontade estrondosa de chorar. como se dentro de mim houvesse um sítio que se assumisse como uma foz, um afluente, um caudal de todas a lágrimas que estou incapacitado de verter. falo-te disto porque enquanto te escrevo este telegrama sinto um alívio próximo do choro. sinto que estou a desaguar. é como se as palavras fossem gotas de água, como se escorressem para fora de mim.
este telegrama não é um telegrama; é uma convulsão. é a pequena revolução que me é permitida neste tempo de crise. é uma guerra que eu travo contra uma coisa que sei exactamente o que é mas que tenho muito pudor em ta nomear. é grito de água que corre para ti. é um rio semântico.
voltei a lembrar-me da exacta imagem do teu rosto. tens cara de mar!

Tuesday, January 04, 2005

um poema da gaveta de Onan (a questão cada vez está mais viva)


Platão
Burroughs
Cesariny
Kierkegaard

A fragmentação do pensamento e as ideias que consumo
martelam-me a cabeça toda a tarde.


Hegel
Ronan
Highsmith
Kant

Tenho a barriga inchada, a família na ignorância, pés de porco, trombas de elefante.

Nin
Pessoa
Melville
Natália Correia

Se eu fosse um escantilhão tu serias o nome de uma odisseia.

Barthes
Cossery
Hesse
Marc Chagall

Ainda em mim sinto embaraço por não haver um Pai Natal.

Fassbinder
Neto Jorge
Sade
Gomes Ferreira

Quando a cabeça não pára afogo os cornos na banheira.

Baudelaire
Kristof
Bataille
Yourcenar

Mas afinal quando é que eu cresço e ganho dinheiro a pensar?

Friday, December 31, 2004

a lição que 2004 deu a Onan/ medidas para o futuro de Onan

Escrevi isto há mais de seis meses. Hoje parece-me muito acertada a sua publicação.

2004
Ainda é 25 de Junho
Este dia ainda acontece, ainda tenho quarenta e cinco minutos deste dia.
Quero, nos minutos que me restam deste dia, afirmar de mim para mim:


  • Não quero mais gente psicótica à minha volta
  • Não quero mais mulheres psicóticas perto de mim (eu nem consumo o género, muito menos psicóticas)
  • Não quero mais saraus cocaímanos, acabou-se (pelo menos de forma corrente)
  • Não quero mais bebedeiras gratuitas, tenho de aprender a divertir-me sem beber em excesso
  • Nao quero mais entrar em relações ambíguas com quem quer que seja
  • Não quero mais partilhar a minha vida com pessoas que não respeitem a minha liberdade, a minha necessidade de recolhimento e individualidade
  • Não quero voltar a estar em contacto com pessoas mesquinhas, frustradas e hipócritas
  • Não quero mais esbanjar o dinheiro, que me custa tanto a ganhar, em futilidades e decadência
  • Não quero mais voltar a ser ingénuo e comodista em relação a situações dúbias que me possam prejudicar
  • Não quero mais viver no caos e alienado da realidade
  • Não quero mais viver perto de pessoas que têm a chantagem, o suborno, a mentira e a manipulação como conduta
  • Não quero mais estar perto de pessoas que pensem que têm o direito de organizar, comandar, manipular e alterar a minha vida
  • Não quero mais estar perto de pessoas fascinadas, deslumbradas e obcecadas com a minha pesoa
  • Não quero mais estar perto de pessoas que me façam mal, que me perturbem e que me instabilizem
  • Não quero mais estar perto de pessoas que vivam da auto e heterocomiseração (tentarei também aniquilar tais dispositivos em mim)
  • Não quero mais estar mal comigo devido à absorção, muitas vezes forçada, da paranóia e psicose alheias
  • Não quero mais estar perto de pessoas que pensam que têm de cuidar de mim porque eu não o sei fazer sozinho (p’ró caralho; olhem bem para vocês e arranjem uma vida que não a minha)
  • Não quero mais estar perto de pessoas que não suportam estar sozinhas
  • Não quero mais estar perto de pessoas que abominam o silêncio
  • Não quero mais estar perto de pessoas vazias, amargas, profanadoras, cobardes, mentirosas, ressabiadas, mentalmente doentes, mal amadas, mal fodidas e sobretudo mal paridas.


    Onan dixit

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O meu pressentimento é que 2005 será um ano azul turquesa.

Venha ele!!!

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Wednesday, December 29, 2004

um work in progress (ainda muito em progress)

Quando ela lhe disse adeus para sempre, mesmo no fim do inverno, ele deitou a língua de fora; desceu as escadas a correr e saiu a assobiar. Abrandou a marcha no fim da rua e acendou o último cigarro que tinha.
Ela fechou-se na casa de banho, pôs os pés dentro de água a ferver e sentiu nascer-lhe, de novo, na boca um gosto a hortelã. Voltou a sentir-se viva.
Ele foi para casa escrever, ela telefonou para o aeroporto. Escureu nesse instante.
Ela aterrou em Buenos Aires. Ele acordou às seis da tarde. Já era noite, havia três dias que não via a luz do sol. Bem no fundo de si, não nascia qualquer tipo de ressentimento, crescia a pena. Sentiu uma tremenda pena. Pena, pena - pensava ele- uma sensação diferente de um lamento. Uma sensação mais redonda. Tão redonda como a própria palavra. Até o som da palavra lhe parecia redondo.
Era a primeira vez que ela se deslocava a Buenos Aires. Prometeu a si mesma que seria também a última. Nunca havia tido qualquer tipo de interesse pela cidade em questão. Buenos Aires era, sempre havia sido e sempre haveria de ser, a cidade preferida dele. Ele sempre desejou revisitá-la com ela. Ela sempre sentiu que isso jamais iria acontecer.
Ela comprou uns sapatos em Buenos Aires. Ele comprou heroína em Lisboa.
Desenvolver:
nele
  • a semântica do amor
  • o amor como linguagem que se nasce entre os amantes
  • porquê uma linguagem?
  • dar exemplos dos códigos
  • o fim do amor como o ínicio da morte dessa semântica
  • a linguagem desterrada

nela

  • ainda não sei

Friday, December 24, 2004

gostos e desgostos de Onan

Gosto destes dia de frio e sol/ não gosto de transpirar
Gosto de acordar tarde/ não gosto (abomino) trabalhar para outrém
Gosto de viver em Lisboa/ não gosto de sentir esta necessidade violenta de emigrar
Gosto de blind dates/ não gosto de pessoas sem expediente
Gosto de escrever desta forma/não gosto de não conseguir escrever canções em português
Gosto de me fazer de parvo/ não gosto das pessoas que não sabem fazer-se de parvas (irritam-me)
Gosto de estar em casa do Miguel Andrade/ não gosto que apareça lá a polícia para nos cortar o barato
Gosto que a Sandra me corte o cabelo/ não gosto das minhas entradas
Gosto de fumar/ não gosto de ter vontade de pôr os pulmões a limpar na 5 à Sec
Gosto de restaurantes/ não gosto de engordar (sobretudo se for mais 15 kilos)
Gosto de baralhar algumas pessoas/ não gosto de mentes planas
Gosto de fazer teatro/ não gosto de estar sempre na penúria
Gosto de gostar das pessoas de quem gosto/ não gosto de faltas de raccord de sentimentos
Gosto de esperar por um milagre/ não gosto de ter vontade de desistir
Gosto de acreditar em mim/ não gosto de não ser mais oportunista
Gosto de conversar e ver telenovelas com a Rosa/ não gosto que ela não goste de incenso
Gosto de flirtar/ não gosto de não fixar os nomes de alguns intelocutores carnais logo à primeira
Gosto de amar os meus amigos/ não gosto disto que estou a escrever, não faz justiça a coisa alguma

Não gosto do Natal mas sei que vou gostar quando for rico. Ao fim e ao cabo é disso que se trata, certo?

"NATAL É QUANDO UM HOMEM QUISER"

Eu quero o Natal da vida, já!!!


Tuesday, December 21, 2004

"E a saudade é uma espera
É uma aflição
Se é Primavera
É um fim de Outono
Um tempo morno
É quase Verão
Em pleno Inverno
É um abandono"

Excerto de "Porque não me vês", de Fausto Bordalo Dias

Estou há dezenas de meses, mas de duas dezenas, a fugir de uma depressão. Ela tem andado, qual sombra impertinente, colada à minha pessoa; tenha-a ignorado. Não lhe tenho dado a devida atenção. Tenho preferido, se é que o termo se pode aplicar, dar prioridade a distúrbios de outra ordem. Distúrbios mais dinâmicos. A depressão tem estado renegada para a condição de estado desinteressante, fastidioso, bolorento e secundário com que um dia, longínquo, me haveria de ocupar. Mas eis que a dita é caprichosa e parece aqui estar. Veio sorrateira, lenta, sem alarido. E agora...

estou muito cansado, vou dormir

O lugar comum dos lugares comuns: APETECE-ME DORMIR PARA SEMPRE!!!

Era só mesmo o que me faltava: estar na maior das penúrias e com um surto de spleen.

MECENAS TOTALMENTE FILANTROPO PRECISA-SE (PARA ONTEM)
EU PROMETO QUE CRIO; OH, SE CRIO!
Vai ser sempre a criar, 24 horas por dia!!!!!!!!!!!




Sunday, December 19, 2004


Este gato tinha a capacidade de ser um espelho da minha pessoa. A nossa relação era conturbada, mas era a nossa relação. Ele deixou-me. Nos últimos dias tenho sentido muito a sua falta. Creio que amava mesmo o raio do gato/espelho.

Sem Título

Descreve-me como aquele que tem o fascínio lento pelas multidões e cujas plantas dos pés são feitas de vidro fosco.

Brinda-me como aquele que coseu a boca por dentro e escondeu o coração por detrás das pálpebras.

Retrata-me como aquele que sorri enquanto dorme e armazena sirenes que não existem para poder encarar o sono de frente.

Ri-me como aquele que apenas vive dentro de si e que descobre sempre em todas as palavras o sentido contrário do mundo.

Espalha-me como aquele que saliniza beijos no ar e que encontra na diáspora uma fuga perpétua para o próprio tédio.

Soma-me como aquele que ruge em cada manhã e volta sempre a cair nessa letal ideia do fim do dia.

Convoca-me como aquele que verbaliza dispersões, sussurra com a voz que calha e sedimenta alegorias.

Realiza-me como aquele tropeça dentro das próprias quedas e que ritualiza a neura como se de arte se tratasse.

Publicita-me como aquele que ainda não inventou a capacidade de se desinventar.

Friday, December 17, 2004

Uno Tenore

Eu vou deixar de pensar, eu sei que há-de haver um dia em que eu vou deixar de pensar. Sinto-lhe o gosto, ao longe; o gosto desse dia. Um gosto de nada, um gosto acólito do vazio, um gosto sem gosto. O gosto perene da paz.

Se olhares bem fundo, really deep, profunda e meticulosamente, nos meus olhos, hás-de de ver, reflectida, a imagem do teu próprio rosto. Eu sou assim: um pouco de nada com alma/vontade de tudo. Desta vez fui feito para não sentir. Verdade seja escrita, eu já fui feito muitas vezes. Já fui feito muitas e diversas vezes, para muitos e diversos fins, de muitas e diversas formas. Já fui feito para não ver; e descobri-te. Já fui feito para não falar; e percorri-te. Já fui feito para não querer; e consumi-te. Já fui feito para não morrer; e morri-te.

O meu corpo é um armazém sonoro. Sou uma caixa de ressonância sem método; porque tudo vibra à minha passagem e mesmo antes e depois de ela se dar. Porque a minha passagem não é da ordem da ocorrência. A minha passagem é um anti-fenómeno. A minha passagem será sempre do porvir.
Não sei ressonar porque não aprendi a soar. Eu não fui feito para sentir, creio que já to referi, e quem não sente não soa. E quem não soa não ocorre. E quem não ocorre nunca nasce. Ninguém nasce quando não morre. Tenho de aprender a morrer!

Tenho sempre muita música dentro da cebeça. Preciso de preencher os meus dias com as melodias dos outros, porque eu fui feito para não sentir. Correcção: Desta vez fui feito para não sentir. Já houve vezes em que fui feito apenas para sentir. E posso garantir-te, nessas vezes senti muito. Nessas vezes senti desmesuradamente.

Sempre tive uma excelsa memória, sempre. Lembro-me de ter sido artilhado de uma assinalável memória, em todas as vezes que fui feito. Nunca fui feito para recordar. Fui sempre feito apenas para lembrar. É por isso que não morro. Lembro-me de sentir e de me lembrar de sentir. Mas perdi o lastro nessa diferença. Lembro-me de ti mas não me recordo do teu rosto. Morri-te na lembrança.

"A recordação tem por fim evitar as soluções de continuidade na vida humana e dar ao homem a certeza de que a sua passagem pela terra efectua uno tenore, num só traço, num soporo, e pode exprimir-se na unidade. Assim se liberta ela da necessidade em que a língua se encontra de repassar incessantemente pelas mesmas tagarelices, para reproduzir aquelas de que a vida se encontra repleta. A condição da imortalidade do homem é que a vida dele decorra uno tenore."
Soren Kierkegaard, in 'O Banquete'

Thursday, December 16, 2004

Splinter number 4

Que é o amor, senão a casa de um novo idioma?

Splinter number 3

Elipse:
uma intervalo de muitos meses no inferno;
adormeci com uma folha em branco e acordei com o fantasma de uma nova língua.

Wednesday, December 15, 2004


"o bobo e a estrela", um desenho bobo de Onan

Splinter number 2

é fundamental que eu aprenda a pensar aqui;
eu penso sempre aí e perde-se muita verdade no regresso.

Tuesday, December 14, 2004

Privado do Ócio, Onan pensa em Cossery

"Para ele, não havia sítios especiais para a felicidade."
"Todos os países tinham o seu contingente especial de imbecis, de sacanas e de putas. Era preciso ser um débil mental para acreditar que se passavam coisas especiais noutros lados. A única diversidade era a da linguagem e a única novidade era que os mesmos imbecis, sacanas e putas se exprimiam noutra língua diferente."
"Enquanto viveres entre os homens, sempre te oferecerão o espectáculo dos seus apetites sórdidos e da sua estupidez. Trata-se de uma comédia eterna, supremamente agradável aos olhos de um observador lúcido. E é o mesmo em toda a parte."
"Ouso ainda afirmar que só as pessoas com lazeres podem aceder a uma forma de pensamento verdadeiramente civilizada."
"são precisos ócios para aguçar o sentido crítico e elaborar um ideal"
"Sentia-se privada da presença de um inimigo seguro,"
"Olha, vou comprar um deboche de fazer tremer a terra."
"Seja qual for o modo com que colabores nesta porcaria de mundo, e por mais ínfimo que seja o trabalho que fazes, és sempre traidor a alguém. Vivemos numa sociedade alicerçada na traição."
"Todos os homens são palhaços. Palhaços sanguinários, mas sempre palhaços."
Albert Cossery, "Uma Conjura de Saltimbancos"
Obrigado Féfé (Fernanda Cardoso) por me teres apresentado, há quase dois anos, este GRANDE senhor do Ócio. Um abraço profundo, gosto muito de ti.

"Harlequin"


A propósito de palhaços - "Harlequin", foto de Gabriela Delosso

Onan recomenda


"kiss+swallow" de IAMX ("...you're the christmas promising the summer", in "Simple Girl")

Monday, December 13, 2004


What about some Onanism?

Splinter number 1

Dá-se em mim uma frissão catalúpica quando invento palavras para ti.


Friday, December 10, 2004

o inferno e Onan

"O inferno é um lugar diferente para cada homem, e cada homem tem o seu próprio inferno."
Anaïs Nin
O inferno sou eu, por dentro e por fora: verborreia, castings, anal...gésicos, litros de Ballantines, Bairro Alto, jantar aqui/jantar ali, dormir aqui/dormir ali, dormir com este/acordar com aquela, horas e horas no Majong, ensaiar de manhã à noite, dançar, dançar muito, dançar durante semanas a fio, milhares de cigarros, estar com os meus queridos e preciosos amigos, saudades da mamã, quatro táxis por dia, gastar dinheiro estupidamente, ficar teso, penúria, depressão, algum dia mato-me.
Jovens irritantes, milhares de jovens irritantes, egoísmo, odiar mentiras e cobardia, olhar nos olhos, óculos escuros sempre para poder olhar para tudo e todos sem me denunciar, eu, eu, eu, sempre eu, estou farto de mim, gosto tanto de mim, o amor que vai, o amor que não vem, o amor que vai e vem, a droga do amor, não tenho paciência para o amor, não consigo viver sem amor, mais um pouco de droga do amor, por favor!
Preguicite aguda, preguicite crónica, preguicite mórbida, tenho de escrever, não consigo escrever, não gosto de trabalhar mas adoro ter ideias, amo o teatro incondicionalmente, estou farto de tudo e de todos, cocaína a rodos, a culpa, a culpa, a culpa, estou perdido, estamos todos perdidos, mas afinal quem é que não está perdido?
Engates de uma noite, engates de duas noites, engates de três noites, sms, coisas que se dizem e não se sentem, paixonetas, infatueted moods, ser actor é uma luta todos os dias, estou farto de ser actor mas não consigo ser mais nada, quando for grande quero ser... Feliz, pastilhas, mdma, Kremlin, quatro meses de paranóia, uma pessoa como eu não se pode drogar desta maneira, quero sair deste país, Lisboa é uma aldeia e o resto é paródia rural e litoral. Gosto do Porto mas ele fez-me mal, eu já disse que sou o inferno, não disse? Boys R Us, já não sou uma criança, ódio, descobri o valor do ódio, nunca te hei-de perdoar, há coisas que se perpetuam, estou farto destes fantasmas, estou cansado, vou estar outra vez muitos meses a dormir pouco, tenho a mania que sou especial, odeio a palavra especial, já disse mas repito-o: NUNCA TE HEI-DE PERDOAR.
Praia das Angeiras, 25 euros de táxi, a melhor e mais cara foda mais cara da minha vida, “tu és n inteligente”. Ah! Ah! Ah! Deixa-me rir. Gosto de me armar em diva e depois apanho com estes filmes: 36 anos, 30 anos, 22 anos, 36 anos outra vez, 19 anos, 28 anos, 23 anos, 25 anos, todos diferentes todos iguais, “Oh god, you're so beautiful, i love your eyes!”, “tens qualquer coisa de mefistofélico”, “me encantas, mi amor”, “tu és n inteligente”, blá, blá, blá, e a felicidade onde está? Para me abordar pregou-me uma rasteira e eu apaixonei-me imediatamente.
Beber, drogar, jantar fora, foder, dizer adeus, “afinal como é que te chamas?”. Andar em carros, ouvir música nos carros, cantar nos carros, fumar charros nos carros, namorar nos carros, estive quatro meses a ressacar de uma pastilha que tomei no Kremlin, a puta da paranóia, por pouco não me atirei do 5º andar. Não conseguia sair à rua, não suportava o ruído das palmas no teatro, queria ser invisível mas não consegui, tornei-me visivel em todo o lado: Finalmente, Moínho de Vento, Trumps, Pink Flamingo, Boys R Us, Royal, Pasapoga. Andámos de mãos dadas na Gran Via e eu senti-me livre como nunca, o meu gato é mau porque sofre por minha causa, uma pessoa como eu nunca deveria ter um animal de estimação, “Ó lindinho, tu e o teu gato são iguais, já reparaste?”, ja, grande novidade, por isso é que temos uma relação de amor-ódio. Em Marrakesh fui o ser mais feliz ao cimo da terra! Anvitol, Seroxat, Sedoxil, Cymerion. Quando tudo acabou entre nós estive mais de uma semana sem dormir, agora durmo doze horas por noite, se não fossem alguns dos meus amigos eu não sei o que seria de mim. Quando estive a bater mal da cabeça fugi de toda a gente. Confusão total e insuportável, os piores meses da minha vida, e eu que até estava convencido que me sentia feliz. Mas porque é que eu tomei a merda daquela pastilha? Às vezes não sinto nada, nem sequer o vazio. Tori Amos, Brian Molko, Madonna, Jeff Buckley, Ney Matogrosso, Chris Corner, Laurie Anderson, Paul Draper são eles quem sente por mim. Nomes, carreiras, cores, palavras, muitas palavras, adoro palavras, apaixono-me por palavras, música, muita música, amo tanto a música como a própria vida, acho que gosto até mais de música. Estes dois últimos anos passaram a correr, tenho quase trinta anos e ainda me comporto como um adolescente. O futuro ainda não existe e o passado tem de passar a ter uma importância relativa. Mas afinal quando é que meto isto na cabeça? Sinto que estou a melhorar, ainda não foi desta que fritei de vez. Droga do amor, o caralho!!!
Vês como é fácil debitar incongruências? Vês como é desgastante inventar verdades?
(este texto está incluído no espectáculo Sickcom. a azulamavermelho vai efectuar uma reposição do mesmo em fevereiro, no auditório orlando ribeiro em lisboa)

lamp (praia das angeiras)


when hell started i was looking at this. minutes later, i came. it was a hell of a screw.

Monday, December 06, 2004

The End Of Chemistry

one thousand times you've made laugh
one thousand times i've made you cry
one thousand times you gave me reasons to fight and live,
when i wanted to die

one thousand times you've cooked me breakfast
one thousand times i've seen you sleep
one thousand times you've called me sweet love
one thousand times i've called you a creep

one thousand times i've called you a creep

one thousand times we were so perfect
one thousand times we've had a fight
one thousand times our love was this picture;
i've tainted black where you've painted white

one thousand times we were in a game
one thousand times you've let me win
one thousand times you've washed my body
your sweet saliva kept me clean

feelings were left here to stay
feelings remain in my memory
i still wake up with your ghost everyday
i've been unable to face the end of chemistry

the chemistry between you and me

one thousand times we were this novel
where no one is ever bright
one thousand times i said i was wrong
but deep inside i knew i was right

one thousand times we were abusers
one thousand times we were so keen
one thousand times you were ideal
one thousand times i've had the spleen

feelings where left here to stay
feelings remain in my memory
i still wake up with your ghost everyday
i've been unable to face the end of chemistry

(letra de Onan para tema da banda Nude)

The End Of Chemistry, Foto de Nokia 3650(com dedo e olho de Onan pelo meio)

Sunday, December 05, 2004

umbrellas


"it was spring
but the wind-driven rain
was so bad
was so good
we joined umbrellas"

haiku de: Watha Lambert
foto de: Onan

Monday, November 29, 2004


a propósito de virtualidade. (Fotografia the Pete Kelly, "Man and Gotham", NYC 1998

Onan e o Virtual

13:51

Vicissitudes da Virtualidade.

Eu disse-lhe- Bem, vou postar.
Ele disse- Qual é o tema hoje?
Eu respondi- Ainda não sei.
Ele sugeriu- Fala da maior árvore da Europa.
Eu instiguei- Vou falar de ti.
Eu assentiu- Ok... mas arranja um pseudónimo fixe. Podes chamar-me de Ernesto.

Eu eu comecei a postar:
Daqui a pouco tempo faz um ano que conheci o Ernesto. Foi em Janeiro, tenho quase a certeza que foi em Janeiro. Foi, e é, um conhecimento intermitente, muito intermitente. Um conhecimento virtual é sempre intermitente. Acho piada a estas coisas dos conhecimentos virtuais. Porque o primeiro instrumento é sempre a palavra. Eu, como deve ser bastante óbvio, gosto muito de palavras e gosto de usá-las como instrumentos.
O Ernesto nunca está no sítio de onde é. Começo a suspeitar que o Ernesto já não é de lado algum. Não sei, não o conheci num sítio concreto.
Nestas coisas da virtualidade as pessoas têm sempre a tendência, muito pouco estranha, de tentarem firmar esse "conhecimento" em matérias muito pouco virtuais. Querem firmá-lo através de matérias concretas, correntes, caracterizadoras, matérias materiais; apesar de se tratar de conhecimento virtual. Eu, na verdade, não estou de acordo com esta definição de conhecimento virtual. O conhecimento não é virtual, é efectivo. Tem um molde, uma frequência, uma configuração, um espaço. É precisamente esse espaço que é virtual. Assim, existe sempre a tendência, quase sempre mórbida, para tentar contrariar a virtualidade desse espaço. As pessoas ficam ávidas pela definição. Muito preocupadas em se definirem, eu fico, e em definirem o outro, eu também fico.
O Ernesto apresentou duas grandes particularides: apresentou-se-me, virtualmente é certo, de uma forma semelhante à primeira pessoa de quem eu gostei muito e tem o signo da pessoa de quem eu gostei mais. Na verdade tem o signo de ambas essas pessoas. "Gémeos, tu és gémos? Ui, logo vi. Tchau." Eu e os nativos desse, tão particular signo, temos estórias plenas mas nada fáceis. De modo que o Ernesto, apesar da virtualidade da nossa estória, é o co-protagonista daquela que se tem mostrado a menos danosa.
Conheci o Ernesto, em pessoa, em Setembro. Creio que foi em Setembro. Não foi, Ernesto? De certeza que não te lembras. Tu nunca te lembras de nada, és Gemeos.
O Ernesto estava muito perturbado, ia ter uma entrevista que visava a sua ida para o Japão (para ir trabalhar ou estudar, nunca cheguei a perceber). Fomos almoçar ao Maracanã. O Ernesto só sabia dizer que estava muito agoniado e sem fome. Tentou comer uma sopa, eu comi um peixe com ameijoas. Bebi duas Superbock Stout, ele pediu um IceT mas não sei se o chegou a beber porque não estive atento.
Estas coisas do espaço virtual não deixam de ser coisas, coisas concretas. Os indivíduos ficam a conhecer-se de facto. Eu decidi provar essa minha suspeita. Levei vestida a minha camisa havaiana, uma camisa muito berrante, de que eu gosto incondicionalmente porque já vivemos muita coisa juntos e também porque é berrante. Levei essa camisa de propósito. E quando a meio do almoço (do meu almoço, porque se houve verbo que o Ernesto não conjugou naquela ocasião foi precisamente o verbo almoçar) ele subitamente me disse: "Essa camisa é horrível", eu tive então a certeza absoluta de que estava diante do Ernesto. O bom e velho Ernesto, o meu amigo virtual. O, unilateral, almoço decorreu sem grandes ocorrências a destacar. O Ernesto fitava o prato da sopa que não conseguia comer, eu terminei o peixe, as ameijoas e as Stout, e lá fomos cada um à sua vida.
Ficámos muito tempo sem nos comunicar. Eu pensava que o Ernesto não mais iria querer conferenciar com criaturas que usam camisas horríveis. O Ernesto não sei o que pensou. Sei que ficou com o computador doente e, consequentemente, impedido de aceder ao espaço de encontro virtual.
Voltámos a falar no mês passado. O Ernesto comunicou-me que iria morar uns meses para a Hungria. Acho que são seis meses. Temos falado com alguma frequência. O facto de ele estar na Hungria, curiosamente, não tem acrescentado grande conteúdo espacial às nossas conferências virtuais. Tudo está basicamente na mesma. O cenário é exactamente o mesmo: eu, um computador, um programa chamado Messenger, uma janela que se abre, um rectângulo cor de laranja que pisca e palavras que se vão lendo e escrevendo. Palavras que ilustram as disposições de duas pessoas; os seus quotidianos, hábitos, humores, amores (ou as ausências dos mesmos), desejos, fantasias, raivas, frustrações, interiores. Palavras, apenas palavras, minhas e do Ernesto.
Agora vou perguntar ao Ernesto, que está on-line à espera que eu acabe de escrever isto para me dizer que achou uma grande merda, qual é a maior árvore da Europa. Isso ele deve saber. Sim, porque não vale a pena perguntar por goulash ou pelo sabor do povo húngaro. Ele ainda não provou nenhum, nem goulash nem húngaros. É muito estranho este Ernesto!

Thursday, November 25, 2004

"El Luchador", foto de Terry Vine (Portfólio: "La Vida Tradicional", San Miguel de Allende, México)


a propósito de urgência e fúria

a urgência e a fúria de Onan



(22/10/04)

Os dias passam, as horas acumulam-se, os minutos sedimentam-se e os segundos,
de ainda tão imberbes, congratulam-se. E eu tremo para poder crescer.

De há uns meses, largos meses, a esta parte, tenho vindo a aperceber-me, de uma forma pouco fácil mas precisa, de que sou um furioso. Tem vindo a crescer em de mim, pouco a pouco, de alto a baixo, de dentro para fora e vice-versa, uma fúria extrema e extremosa a que tenho passado a habituar-me. Já não me angustia, já não me confunde, já não me atormenta, já não me descontextualiza. Instalou-se sobre e sob a minha pele, alterou o meu batimento cardíaco, passou a ser a batuta do meu discurso (as minhas palavras já não são ditas, são matraqueadas), passou a fazer parte da constituição molecular dos meus fluídos (sangue, saliva, suor e esperma; das lágrimas não porque eu não choro). Somos um só, eu e a minha fúria, da mesma forma plena e orgânica que a palavra SOMOS é um palíndromo. Aprendemos a viver em comunhão, uma comunhão de facto. E andamos pela vida impertinentes, impetuosos e imediatos. Temos objectivos precisos e preciosos e havemos inscrever o nosso nome, a ferro e fogo, na História Universal da Veemência. Não temos planos objectivos, temos objectivos precisos e preciosos, note-se. Não somos meticulosos, muito menos calculistas ou premeditados. Somos vagos e simbólicos. Deixamos charadas no ar para posterior auto e heteroavaliação. Não conseguimos estar calados porque, mesmo quando estamos em silêncio, somos sempre escravos de uma desaustinada retórica. Somos hipercinéticos, hiperdotados, hipersensíveis, hiperlascivos, hiperendócrinos, hipersolúveis, hipercínicos, hiperviciosos, hipermortais e sempre hiperincorentes. Estamos sempre à procura de qualquer coisa que não sabemos o que é exactamente. Muitas vezes olhamo-nos bem no fundo dos olhos e sorrimos exaustos, porque sabemos perfeitamente que a nossa procura não é mais do que a mera procura de uma mera procura. É um vício pouco secreto que nós temos. Creio que já disse que somos hiperviciosos, não disse? Não me recordo bem. É que nós também somos hiperesquecidos.

(25/10/04)
A minha fúria chegou durante a noite, enquanto eu combatia a morte, depois da morte de um forte amor. A minha fúria trouxe consigo a cara da insónia e instalou-se dentro do meu estômago. A minha fúria veio de uma só vez, sem cerimónias, estrondosa, veio furiosa. A minha fúria veio para me salvar. Era urgente a minha salvação. Porque eu havia deixado de saber o meu próprio nome. A minha fúria veio a tempo e horas.

(26/10/04)

Hoje não é Onan quem escreve, é a FÚRIA de Onan. Esta missiva não é uma missiva, são pontapés na cabeça dele.
Sai daí, sai daí já! Vai para ali, vai para além, vai para algures, vai para nenhures mas vai! Sai!
És o pagador justo das tuas próprias dívidas. Tens de sofrer por elas, isto de andar por aqui tem destas coisas. Pensavas que era simples, não pensavas? De facto é muito simples. É muito mais simples do que tu possas imaginar. Tens é de te mover, de te pro-mover. Tens de correr, encarar, gritar, rasgar e esgalhar. Tens quatros euros no bolso e ainda falta um pouco menos de uma semana para o fim do mês. O fim do mês. O fimzinho do mês todos os meses. Os eurozinhos ao fim do mês. Sofres tanto com esta merda, jamais desejaste isto para ti. Ao fim e ao cabo és um artista. É suposto os verdadeiros artistas serem uns tesos, uns borra-botas, uns indigentes, decadentes, impertinentes. És isso tudo. Que bom, já és um verdadeiro artista! Só tens um problema: vives aqui e agora. E aqui e agora os verdadeiros artistas não são tesos, não contam os euros, não passam fome, não andam de semblante carregado a olhar para o chão. Aqui e agora os verdadeiros artistas se são tesos é porque são duros e tesudos, não contam euros porque ganham a vida a contar anedotas, não passam fome porque vão matá-la nas festas de aniversário de um qualquer centro comercial no subúrbio, não têm o semblante carregado porque nem sequer sabem o que isso significa e não olham para o chão porque estão sempre a olhar para o olho voraz de uma câmara. O artista do aqui e agora é o oposto absoluto de tudo aquilo que tu és. Por isso tu não tens qualquer tipo de arte. Porque se fosses artista estavas nos escaparates, na boca das gentes, em todo o tipo de publicações, em todas as casas à hora do pequeno almoço, à hora do almoço, à hora do lanche, do jantar, à ceia, à hora de deitar, à hora de foder, à hora de nascer e à hora de morrer. Ninguém come a olhar para ti, ninguém se deita a olhar para ti, ninguém fode a olhar para ti, ninguém nasce a olhar para ti e ninguém morrer a olhar para ti. Tu não tens público. Tu não és emergente. Tens urgência, sentes que tens uma urgência, mas não és urgente. Tu não és urgente, não és do aqui e do agora. Ainda não dominas esse conceito.

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Explicações de intervenção no aqui e no agora precisam-se. Com urgência!!! Tenho sítio. Abstenham-se os interesseiros e/ou pervertidos.
Resposta neste blog, s.f.f..

Tuesday, November 23, 2004

o único haiku que Onan escreveu


while you sleep i listen- too
the end of the morning rain

adoro esta senhora

uma canção que anda muitas vezes na cabeça de Onan

"Strange Angels" Laurie Anderson

They say that heaven is like TV
A perfect little world that doesn't really need you
And everything there is made of light
And the days keep going by
Here they come
Here they come
Here they come.
Well it was one of those days larger than life
When your friends came to dinner and they stayed the night
And then they cleaned out the refrigerator -They ate everything in sight
And then they stayed up in the living room
And they cried all night
Strange angels - singing just for me
Old stories - they're haunting me
This is nothing like I thought it would be.
Well I was out in my four door with the top down.
And I looked up and there they were: Millions of tiny teardrops just sort of hanging there
And I didn't know whether to laugh or cry
And I said to myself: What next big sky?
Strange angels - singing just for me
Their spare change falls on top of me
Rain falling
Falling all over me
All over me
Strange angels - singing just for me
Old Stories - they're haunting me
Big changes are coming
Here they come
Here they come.

um poema-resultado de um exercício num workshop de escrita criativa com Regina Guimarães

maio de 2001

Uma cidade que era, uma cidade que fosse, uma cidade que seria, uma cidade que será


Uma cidade que era uma menina a crescer; uma menina bonita de boca rasgada.
Uma cidade que era uma menina a tremer; de frio e fome, uma menina assustada.
Uma cidade que era uma menina a dormir; em cama fofa, depois da história contada.
Uma cidade que era uma menina a acordar; lavada em lágrimas, com a garganta cortada.

Uma cidade que fosse uma menina a comer; num grande prato, papinhas de gente apressada.
Uma cidade que fosse uma menina a beber; num biberon, a lei da bala e da facada.

Uma cidade que seria uma menina a escrever; ao pai natal, uma torre para a consoada.
Uma cidade que seria uma menina a foder; com o empreiteiro da língua afiada.

Uma cidade que será uma menina a convalescer; das dores de parto e da cabeça aguada.
Uma cidade que será uma menina a morrer; a morte lenta depois de esventrada.
Uma cidade que era uma menina a renascer; uma cidade-menina-queimada.

Monday, November 22, 2004


o que já viajei aqui!!!

2 coisas que inspiram Onan

"...If you and I were one within the eyes of our designs,
it would still not change the fact of our leaving.
For tonight we must leave with the first gentle breeze.
For the Isles of Ken we are assailing!
Just like Ullyses,
on an open sea.
On an odyssey of self-discovery..."

Este trecho pertence à letra de uma das canções dos Dead Can Dance. A canção chama-se "Ullyses" e está no álbum "The Serpent's Egg". Este trecho fascinou-me desde que o ouvi pela primeira vez. A canção é muito bela, o poema é sublime. As canções dos Dead Can dance são viagens. Este trecho encerra o meu ideal de viagem. É por isso que sempre me fascinou. Descobri isto quando tinha 17 anos. Esse ideal mantém-se intacto em mim até hoje. Cada vez está mais intacto. Cada vez está mais em mim.

Há outra coisa que me fascina e que complementa este meu ideal. Essa "coisa" é um quadro do Marc Chagall. Chama-se "Au dessus de la ville" e surte em mim o mesmo tipo de fascínio que o trecho dos Dead Can Dance. É a imagem do mesmo. Ambos concretizam o meu ideal. Ambos me fascinam. Ambos me fazem gostar de gostar de ter ideais.

Saturday, November 20, 2004

O pânico de Onan

Há cerca de quatro anos que tenho um livro de poesia ("Finis Praxis") pronto para ser publicado.
Esee livro tem mais de cinquenta poemas, que fui escrevendo entre os 17 e os 24 anos. Esse livro marca a minha passagem da juventude a uma suposta idade adulta. Sobretudo marca a minha vinda para Lisboa, aos 19 anos, e a mudança que esse facto operou na minha existência. Esse livro marca as paixões que fui tendo. Esse livro marca a minha entrada definitiva em mim. Esse livro é das coisas mais importantes que tenho na vida.
Finalmente estou a reunir as forças, determinação, vontade para publicar esse livro.
Hoje constatei que perdi o documento onde está esse livro. É impossível abrir o ficheiro na disquete e tenho quase a certeza que não está guardado no disco rígido do meu pc. É muito provável que tenha perdido definitivamente o documento. Logo agora que eu ia fazer tudo por tudo para publicar o meu livro! Estou em pânico. Por enquanto estou somente em pânico. Depois do pânico não sei o que se seguirá. Entretanto vou jogar no euromilhões.
Foda-se, foda-se e refoda-se!!!!!!!!!!!!!!

Thursday, November 18, 2004

Onan hoje está quase sorridente

13:50

Quando eu era pequeno acreditava que, quando eram atingidos, os cowboys morriam mesmo nos filmes. Acreditava que a morte nos filmes era real. E não percebia porque é que as pessoas participavam nos filmes se iriam morrer nos mesmos. Aquilo fazia-me muita confusão mas eu achava aquilo muito bonito. Achava que a entrega era tão imensa que a morte era um dano colateral comparado com a mesma. Por isso o cinema para mim era sempre sinónimo de uma grande e derradeira entrega. O cinema era para mim a coisa mais bonita do mundo. Agora que cresci o cinema já não tem um quarto do fascínio de outrora. Agora sei que ninguém faz filmes para morrer e esse conhecimento retira muito do encantamento que o cinema me transmitia outrora.

Tenho muita pena de ser muito falho de talento para as artes plásticas. Gostava muito de saber desenhar. É uma actividade que eu sinto que precisava de exercer. Sinto-me incompleto por isso. Gostava de me conseguir desenhar.

Quando eu for grande quero ter uma casa com quartos que não têm portas. Quartos cheios de silêncio. Quartos onde não assenta o conceito da entrada. Onde não há entrada também não há saída. Quero ter uma casa cheia de quartos que nem eu mesmo alguma vez vou conhecer. Uma casa cheia de quartos de nada. Os quartos impenetráveis serão o meu segredo mais precioso. Os quartos impenetráveis serão o retrato do meu coração. Quem me dera saber desenhar para começar a arquitectar os meus quartos de nada. Quem me dera saber desenhar para não ter esta permanente necessidade de conceber retratos do meu coração. Quem me dera ter um coração desenhável.


perdia todos os dias a chave da própria cara
e andava assim, às avessas toda a tarde,
com o nariz repleto de odores do passado.

achava todas as noites o caminho certo para casa
e chorava, sem sentir que o fazia,
por ninguém ousar agitar-lhe a vida.

morreu sentada à porta da praia
enquanto esperava que o mar a aceitasse.

(que me dera conseguir desenhar o sorriso dela acabadinho de morrer)

sou apaixonado por este quadro desde 1997. sou mesmo muito apaixonado por este quadro.

Wednesday, November 17, 2004

um excerto do verdadeiro diário de Onan

1 de agosto de 2003
o7:??h

Às vezes gosto de pensar que nada na vida é por acaso. Às vezes gosto de pensar que existe uma entidade, que opera a um nível diferente do meu, que me regula e se encarrega da actualização contínua da minha experiência de vida. Às vezes acho a minha existência e todas a suas particularidades tão intrincadas e rebuscadas que me parecem uma ficção. Mas diz-se, passo o chavão, que a realidade ultrapassa muito a ficção em termos de originalidade. Eu sou, de facto, bastante original. Para minha grande tortura. Devo ser mesmo verdade! Se eu fosse muito menos perfeccionista e fútil seria certamente mais feliz.
Gostava de poder fazer uma grande viagem. Seria maravilhoso poder andar pelo mundo, sem compromisso, a perder-me e a encontrar-me. Gostava de ficar registado na história de lugares como o que chegou e que partiu. O que veio e não ficou. O que passou. O que não fez história. O que recusa o passado, o presente e o futuro. O que está. Simplesmente: está. Bastante incoerente para quem se dá ao trabalho de escrever um diário, não???!!!!!! Mas o meu diário é um espaço criado para eu estar, em absoluto. É o espaço que eu crio para estar, sem partidas nem chegadas. O meu diário é o espaço onde eu permaneço. É o meu espaço ideal, já que a minha obra ideal é impossível. A minha obra ideal consistiria em registar tudo o que penso, para uso meramente pessoal. Pelo prazer do registo e da revisão. Para Onan ser mais Onan.

valquírias ou a minha sede de hidrofel

13:12

quero valquírias já
porque eu não sei o que são valquírias, sei que são flores
e isso basta-me para as querer.
quero valquírias já, nos pés e archotes na boca.
quero valquírias já, nas mãos, e pedaços de chuva frutada nos olhos
para eu poder banhar o próximo que vier.
quero bocejos de valquírias já, enquanto eu adormeço e permaneço,
eu que sou o mote para tudo e para nada e que não aprendo a viver com isso.
quero o sossego e a serenidade de uma presença secular e pouco arbitrária.
quero a imposição do momento em que duas mãos se roçam,
provocando o festim das romãs que explodem noutro continente.
enquanto eu vejo o meu dia acabar, confundo-o com toda a minha vida, e
quero voltar a nascer para poder perder de novo a oportunidade de ser perfeito.
quero valquírias já
porque eu não sei o que são valquírias, sei que são flores,
que rimam com tumores e amores.
e isso basta-me para as querer ver morrer.



valquíria
do Escand. ou ant. Al. walkyria < wal, matança + küren, eleger
s. f.,
cada uma das três deusas de categoria inferior, na mitologia escandinava, mensageiras de Ódin e que, pela sua formosura, incitavam os heróis na guerra, serviam hidromel aos que morriam em combate e recolhiam-nos.



frozen cherrys for you Posted by Hello

Tuesday, November 16, 2004

em carne viva

14:05
Hoje não consigo escrever, marco apenas a presença.
Tenho um ardor cá dentro.
Hoje sou o oposto da escrita.

autofagia-ia-ia; era disso que a minha vida dependia

Monday, November 15, 2004

hoje Onan tem a cabeça líquida

13:13
Escrevo sempre à hora do almoço. À hora do almoço já deixei de transpirar, escrevo melhor. É estranho, está frio, toda a gente sabe e sente que está frio, mas eu nem por isso deixo de transpirar. Transpiro das mãos e das axilas. Odeio transpirar, abomino a transpiração. Transpirar quando está frio é ainda mais repugnante. Só devia ser permitido a um corpo respirar quando se encontra em actividades propícias, actividades certas, para o efeito. O sexo é uma actividade propícia e certa para o efeito. O sexo é uma actividade (causa) certa para o efeito.
Quando escrevo transpiro dentro da cabeça.

Hoje, na Praça da Alegria, vi uma mulher chorar enquanto caminhava. Na verdade eu não vi a mulher a chorar. A verdade tem de ser reposta: eu ouvi a mulher chorar. Ela caminhava à minha frente. Eu ouvi um soluço. Ou melhor, pareceu-me ouvir soluço e não lhe dei muita importância. Já não dou muita importância às coisas que a minha cabeça parece ouvir. Porque muitas vezes a minha cabeça parece ouvir coisas que não existem. E por isso já não dou muito crédito a essas impressões da minha cabeça.

A minha cabeça pensou: "Que bonito, esta mulher agora até podia ir mesmo a chorar. Que bonito, uma mulher que chora enquanto desce a Praça da Alegria. Que bonita esta ironia! Mas como não é verdade, como esta mulher não vai mesmo a chorar, esta é uma hipotética bonita ironia. Como é hipotética, a ironia, ainda se torna mais bonita!"

Mas a verdade é que a mulher ia mesmo a chorar. Porque, depois de um primeiro soluço que eu interpretei como imaginário, um segundo soluço se seguiu, e um terceiro, e um quarto. E eu nunca lhe vi o rosto. Ela caminhava à minha frente, uma mulher de cinquenta e tal anos, de jeans normais e blusa branca. Uma mulher de fisionomia rude, masculina mesmo. O seu corpo, visto de trás, em nada denunciava o choro. O seu corpo atarracado e rude, visto de trás, era o contrário do choro.

Eu ultrapassei a mulher; não lhe quis ver o rosto. Preferi fingir que ela não tinha rosto. Porque era no rosto dela que o choro acontecia. E eu não queria que isso lhe acontecesse. Porque o corpo dela, visto de trás, era o contrário do choro. Porque a única coisa que lhe conferia o choro eram os soluços solitário que apenas eu ouvi. E como eram solitários não podiam ser vistos, testemunhados, somente ouvidos. Porque o que se ouve nem sempre existe. Porque o vento tem a capacidade de ser pacificador. E foi esse mesmo vento que me privou dos soluços dela. Porque eu a ultrapassei, sem lhe querer ver o rosto. Porque o vento que me levou dos ouvidos os soluços da mulher foi o mesmo vento que lhe foi secar as lágrimas. Porque foi esse mesmo vento que me fez esquecer que ia uma mulher a chorar enquanto descia a Praça da Alegria. Porque o vento na Praça da Alegria é um vento de ironia.

Senti necessidade de escrever sobre isto porque tenho a impressão de ter a cabeça cheia de lágrimas. Tenho a impressão de sentir a cabeça cheia de lágrimas que nem sei se são minhas. É uma impressão, apenas mais uma impressão, como qualquer outra. Escrevo sobre ela e não lhe dou importância. Muitas vezes a minha cabeça tem a impressão de sentir coisas que não sabe se realmente existem. É por isso que a minha cabeça gosta muito do vento e das lágrimas dos outros. Porque essas, tal como eu, existem e não apenas na Praça da Alegria.
14:03

Friday, November 12, 2004

o poema preferido de Onan

A BOCA

"em espessura do tempo feito infindo
em amor me feria dilatava
a boca era um leito um orgão de lava"

Luiza Neto Jorge

Comentário Onanista: amo este poema como amo a ideia do próprio amor


Thursday, November 11, 2004

Onan hoje está relativamente nervoso. Comeu uma maçã, uma cenoura e cinco bolachas de iogurte e chocolate da Bio Century

14:06

este pc está muito lento, isso irrita-me.
ontem só fumei nove cigarros, percebi isso hoje de manhã, estou surpreendido.
tenho bebido muito café nestes últimos dias, não sei bem porquê, nem é muito bom este café.
o dia hoje está bonito, Sol de Inverno, "Sonhos que sonhei, onde estão?".
acabei de apagar um cigarro.
hoje vou abrir uma janela. quer dizer, não sei se vou abrir. hoje vou olhar para uma janela.
gosto muito de andar de carro, de autocarro e de comboio. percebi há alguns meses, quase muitos meses, que os carros, os autocarros e os comboios são janelas em movimento. os veículos são muito amigos do olhar e o olhar é muito amigo do viver. e o viver é muito amigo do... bem, ainda não sei. quando descobrir vais ser a primeira pessoa a saber.

quando entrares no meu quarto vais perceber que o ar lá dentro tem uma espessura própria. no meu quarto o ar não é ar, é vento. no meu quarto o ar é ar em movimento. só que está congelado. é por isso que no meu quarto nada é nítido. o meu quarto é desfocado.

vou inventar uma flor para te dar quando entrares no meu quarto. a porta do meu quarto é feita de osso e luz difusa. a porta do meu quarto anda sempre comigo. a porta do meu quarto é a minha própria testa.

a janela do meu quarto é um carro de corridas movido a palavras e sangue.


estou nervoso, deve ser do café mau.
acho que vou passar a tarde a fumar.

Wednesday, November 10, 2004

um poema velho (pré Onan mas que foi determinante para a sua concepção)

“The addiction”

Às vezes o preto e o branco nada mais são do que:
Adolf Hitler e o seu bigode.

Às vezes Adolf Hitler nada mais é do que:
a antologia de todas as birras, de todas as infâncias.

Às vezes as paredes das tuas veias:
abrem bocas famintas para a atmosfera.

Às vezes as tuas olheiras nada mais são do que:
o fracasso de um programa de exploração espacial.
(Os astronautas trazem a morte apertada entre os dentes)

Às vezes a filosofia nada mais é do que:
um preservativo universal usado vezes sem conta.
(Por todos os soldados
Em todas as vaginas
Durante todas as guerras
Tudo são orifícios)

Às vezes a guerra nada mais é do que:
uma apendicite aguda no devir.
(Aguda, sim, porque crónica só é a gravidade)

Às vezes Deus é:
simplesmente a, mortífera, indigestão de uns
para feliz arroto de outros.

Às vezes o céu e a paz nada mais são do que:
uma pepita de carvão vegetal ou o supositório que o teu ânus recusa.

Às vezes a droga nada mais é do que:
a reprodução infinita de todos os carinhos e castigos de todas as mães.

Às vezes a poesia nada mais é do que:
o vício da masturbação a tentar sublimar-se.

"The Addiction" Posted by Hello

O POEMA QUE ONAN JAMAIS ESCREVEU

MANTRA A UM DEUS menor

Pingam-te da boca palavras obscuras, em cachos impróprios
de estranhas tonturas.
Fechas os olhos e não te depuras, a vida é a membrana
que tu não perfuras.
Cerras os dentes, não mordes figuras, inventas doenças
que tu próprio curas.
Tropeças no fogo de camas impuras, mergulhas o rosto
em novas tinturas.
Vacilas com o corpo a cinco queimaduras, passeias o olhar
por estranhas iluminuras.
Engoles o termómetro, não medes fissuras, inalas os cheiros
por ordem de espessuras.
Partes pescoços, tíbias e cinturas; tu és o planeta
e eu a maldade das criaturas.

Tuesday, November 09, 2004

1 poema de onan

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade feita à porta fechada
Lisboa é uma cidade encruzilhada
Lisboa é uma cidade calada

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade feita de tudo e de nada
Lisboa é uma cidade sentada
Lisboa é uma cidade criada

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade feita à martelada
Lisboa é uma cidade mudada
Lisboa é uma cidade vão de escada

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade tão agitada
Lisboa é uma cidade gritada
Lisboa é uma cidade à descarada

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade parada
Lisboa é uma cidade inesperada
Lisboa é uma cidade ensimesmada

Lisboa sorri sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade ultrapassada
Lisboa é uma cidade inventada
Lisboa é uma cidade de capa e espada

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade feita de massa folhada
Lisboa é uma cidade cristalizada
Lisboa é uma cidade tão sossegada

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade feita à pancada
Lisboa é uma cidade encantada
Lisboa é uma cidade divorciada

Lisboa sorri e não sorri
Lisboa é uma cidade feita de carne queimada
Lisboa é uma cidade escarrada
Lisboa não é uma cidade, é uma jangada

auto retrato 1


Quando ELE me criou disse-me:


A tua existência está para breve. Mas encontras-te incompleto. Eu não te fiz na totalidade. Tu nunca serás total ou, pelo menos, o que os teus semelhantes considerarão total. Roma e Pavia não se fizeram num dia. Assim também serás tu. Serás feito aos poucos, serás como uma cebola, feito às camadas, camada a camada, dia a dia, tal como Roma e Pavia. Gostarás de rimar, até enjoar, para não cortar a jugular, para poder respirar, para puder olhar para o mar e sobretudo para te poderes olhar a olhar o mar.



O meu nome é Onan. Sou um demónio. Um demónio relativamente recente. Um demónio relativamente antigo, desde que a história dos demónios passou a ser contemplada no programa estilístico e universal da ontologia e também, caso muito raro e que merece grande destaque, na história da epistemologia. Sou um demónio aplicado e ocioso, o normal, sou um demónio como qualquer outro. Sou na exacta medida de tudo um pouco de nada. Sou um demónio comum. Não sou portador de qualquer tipo de verdade absoluta e não tenho qualquer ambição em ver o meu nome gravado a ouro, ou esperma, no Grande e Sagrado Livro dos Axiomas. Gosto de distorcer a realidade, assim como gosto do sabor do cárcere, de vomitar cascas de árvores milenares, ou mesmo de mijar para dentro de garrafas. Sou um coleccionador nato. Colecciono de tudo um pouco: desde dentes de orangotango até cinzas de soldados desconhecidos. Sinto uma particular atracção por tudo o que se relaciona com a guerra. Sou capaz de gastar todas as minhas economias para poder adquirir um membro amputado a um soldado americano durante um confronto no médio oriente. Posso asseverar que é um investimento que vale a pena.
O poder do acidente, estou apaixonado pelo poder do acidente. Desenho bolas de cores diversas no meu computador, uma bola acontece de repente, uma bola escarlate, uma bola não prevista, choro, gosto da bola, choro pela sua existência, por esta ser um acidente. Escrevo por mim, não choro por mim, escrevo e não choro por mim porque eu sou um acidente. Desde que existo que estou encarcerado dentro de mim, dentro da minha demoneidade, gosto de ser um neologista. Sou um demónio caça-palavras, sou um demónio caça-frases, um demónio caça-retóricas, um demónio caça-discursos, um demónio caça-peles, um demónio caça-demónios, um demónio caça-caças. Sou um demónio nor-mal. Quero o mal, exercer o mal, saborear o mal, sentir o mal, pintar o mal, escrever o mal, representar o mal, esculpir o mal, beijar o mal, amar o mal, inventar o mal.

Gostava que ontem à noite, ou hoje de manhã, não tivesse havido amor em Lisboa. Gostava que todos os amantes se tivessem desencontrado, se tivessem perdido, se tivessem desencantado, se tivessem desentendido, se tivessem desiludido, se tivessem deixado de amar. Gostava que acabar com o amor em Lisboa, gostava de acabar com o amor em Portugal, gostava de acabar com o amor na Península Ibérica, na Europa, no Mundo. Gostava de acabar com o amor. Gostava de acabar com o amor para sempre. Gostava que o amor fosse banido da face da terra e da memória dos humanóides. Gostava que o amor nunca tivesse existido. Gostava que o amor fosse uma praga mais nobre, gostava que o amor fosse uma invenção bem inventada e por isso mesmo finita.
Houve uma altura em que a minha vida se reduzia a estadias em esplanadas e passeios solares pelas ruas púberes de Lisboa. Uma altura em que a música parecia andar colada à pele das pessoas. Cada transeunte parecia transportar em si milhões e milhões de décibeis por instaurar ou instalar nas ruas da cidade. E a cidade, esta mesma cidade, parecia pulsar como um coração gigantesco alimentado pela música que provinha da epiderme de toda a gente. Agora as pessoas têm a pele ressequida, silenciosa, e Lisboa, o coração desmesurado, parece ter um bater cansado e moribundo. Já ninguém parece ser capaz de deslizar por uma única rua porque o atrito se tornou imperativo e coerente. Todos os demónios parecem ter os pés doridos ou até, como é meu caso, em carne viva. Andar cada vez é mais difícil porque provoca ao transeunte dores insuportáveis. As feridas são cada vez mais visíveis e sensíveis. As ruas têm, impregnadas no chão, crostas formadas pelo sangue provindo das feridas dos pés de todos os demónios. Ninguém se atreve a olhar para o chão, porque olhar para o tapete irregular de sangue ressequido nas calçadas faz com as dores das feridas que todos temos nas plantas dos pés sejam maiores. Há dias em que as dores se tornam desmesuradas. É por isso que ninguém olha para o chão, para não sentir tão intensamente a dor. Para não ter motivos para chorar. Assim, todos os demónios em Lisboa são forçados a olharem-se directamente nos olhos, bem no fundo dos olhos. Não é por coragem, é por cobardia que nos olhamos bem no fundo dos olhos. Para esquecer a própria dor. Para auscultar a dor alheia.

demon refrain: give me time, give me space. i'm really eager to find my place among the human race Posted by Hello

Monday, November 08, 2004

"em todas as ruas te encontro"


Posted by Hello

"em todas as ruas te perco"


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cube


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recube


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O Diário de Onan

Sempre tive a pretensão de escrever um diário. Nunca tive um diário. Não escrevo todos os dias. Gostaria de o fazer mas não o faço, por desleixo, por falta de tempo, falta de inspiração e por preguiça. Não quero ter um diário para escrever todos os dias. Ninguém escreve todos os dias, for crying out loud!!!


O Diário de Onan é um espaço artístico que se abriu dentro de mim há 32 meses. Encaro o diário como um espaço. Um espaço multiforme e em constante mutação. Um espaço de vida. É disso precisamente que se trata, right?