sim, é verdade, todos somos fénix tantas vezes renascida das cinzas. sim, é verdade, tens razão. e agora? ficamos em quê? ficamos onde? ficamos porquê? ficamos para quem? ficamos?
fala-me das tuas cinzas! descreve-me o seu odor, a sua gradação cromática, o seu peso e a sua espessura. acreditas que as tuas cinzas têm um peso diferente das minhas cinzas? acreditas! fala-me dessa diferença. como é que a sentes? é verdade, costumas sentir as tuas próprias cinzas? costumas guardar as tuas
próprias cinzas? costumas inalar as tuas próprias cinzas? costumas gostar das tuas próprias cinzas? não? não me digas que não. não não é resposta. não é o princípio do fogo.
preferes falar do fogo, é isso? queres falar, então, do fogo? vossa senhoria prefere o fogo! pois muito bem, falemos do fogo.
já alguma vez tiveste tanto medo de ti ao ponto de permitires que a tua sede de paz suplante a tua própria vontade? já alguma vez te questionaste sobre a tua necessidade de inventar paisagens, atrozes ou não, para poder ter algum lugar onde situar os olhos? já alguma vez tentaste perceber onde começa e acaba a tua voz? já alguma vez quiseste ser cego, surdo e mudo e viver apenas confinado ao teu próprio pensamento? já alguma vez ponderaste a possibilidade de te alimentares apenas da tua própria saliva? pois... sim
sabes nada do fogo
como queres tu contabilizar cinzas se ainda não aprendeste o valor da boca?
quando aprenderes a deslizar pela vida serás forçado a embater na tua própria boca. serás forçado a engolir-te a ti mesmo, de uma só vez, sem respirar. para não partires os teus próprios ossos. irás ficar alojado, inerte, sereno, hibernado, incapaz no teu próprio estômago. irás ficar imóvel durante quase dez meses. irás pontapear-te por dentro. irás sentir o prazer da fome. então, o teu segundo estômago, o interior, tornar-se-á feroz. irás sentir a fúria da fome, da lazeira, da míngua, da subnutrição. e começarás a comer-te, de dentro para fora. irás devorar sofregamente as tuas próprias vísceras, roer os teus próprios ossos, sorver o teu próprio sangue, apreciar a tua própria saliva. e quando morderes os teus próprios miolos vais aprender a ter boca.
vais saber tudo do fogo, vais saber nada da paz.





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