Sunday, December 05, 2004

umbrellas


"it was spring
but the wind-driven rain
was so bad
was so good
we joined umbrellas"

haiku de: Watha Lambert
foto de: Onan

Monday, November 29, 2004


a propósito de virtualidade. (Fotografia the Pete Kelly, "Man and Gotham", NYC 1998

Onan e o Virtual

13:51

Vicissitudes da Virtualidade.

Eu disse-lhe- Bem, vou postar.
Ele disse- Qual é o tema hoje?
Eu respondi- Ainda não sei.
Ele sugeriu- Fala da maior árvore da Europa.
Eu instiguei- Vou falar de ti.
Eu assentiu- Ok... mas arranja um pseudónimo fixe. Podes chamar-me de Ernesto.

Eu eu comecei a postar:
Daqui a pouco tempo faz um ano que conheci o Ernesto. Foi em Janeiro, tenho quase a certeza que foi em Janeiro. Foi, e é, um conhecimento intermitente, muito intermitente. Um conhecimento virtual é sempre intermitente. Acho piada a estas coisas dos conhecimentos virtuais. Porque o primeiro instrumento é sempre a palavra. Eu, como deve ser bastante óbvio, gosto muito de palavras e gosto de usá-las como instrumentos.
O Ernesto nunca está no sítio de onde é. Começo a suspeitar que o Ernesto já não é de lado algum. Não sei, não o conheci num sítio concreto.
Nestas coisas da virtualidade as pessoas têm sempre a tendência, muito pouco estranha, de tentarem firmar esse "conhecimento" em matérias muito pouco virtuais. Querem firmá-lo através de matérias concretas, correntes, caracterizadoras, matérias materiais; apesar de se tratar de conhecimento virtual. Eu, na verdade, não estou de acordo com esta definição de conhecimento virtual. O conhecimento não é virtual, é efectivo. Tem um molde, uma frequência, uma configuração, um espaço. É precisamente esse espaço que é virtual. Assim, existe sempre a tendência, quase sempre mórbida, para tentar contrariar a virtualidade desse espaço. As pessoas ficam ávidas pela definição. Muito preocupadas em se definirem, eu fico, e em definirem o outro, eu também fico.
O Ernesto apresentou duas grandes particularides: apresentou-se-me, virtualmente é certo, de uma forma semelhante à primeira pessoa de quem eu gostei muito e tem o signo da pessoa de quem eu gostei mais. Na verdade tem o signo de ambas essas pessoas. "Gémeos, tu és gémos? Ui, logo vi. Tchau." Eu e os nativos desse, tão particular signo, temos estórias plenas mas nada fáceis. De modo que o Ernesto, apesar da virtualidade da nossa estória, é o co-protagonista daquela que se tem mostrado a menos danosa.
Conheci o Ernesto, em pessoa, em Setembro. Creio que foi em Setembro. Não foi, Ernesto? De certeza que não te lembras. Tu nunca te lembras de nada, és Gemeos.
O Ernesto estava muito perturbado, ia ter uma entrevista que visava a sua ida para o Japão (para ir trabalhar ou estudar, nunca cheguei a perceber). Fomos almoçar ao Maracanã. O Ernesto só sabia dizer que estava muito agoniado e sem fome. Tentou comer uma sopa, eu comi um peixe com ameijoas. Bebi duas Superbock Stout, ele pediu um IceT mas não sei se o chegou a beber porque não estive atento.
Estas coisas do espaço virtual não deixam de ser coisas, coisas concretas. Os indivíduos ficam a conhecer-se de facto. Eu decidi provar essa minha suspeita. Levei vestida a minha camisa havaiana, uma camisa muito berrante, de que eu gosto incondicionalmente porque já vivemos muita coisa juntos e também porque é berrante. Levei essa camisa de propósito. E quando a meio do almoço (do meu almoço, porque se houve verbo que o Ernesto não conjugou naquela ocasião foi precisamente o verbo almoçar) ele subitamente me disse: "Essa camisa é horrível", eu tive então a certeza absoluta de que estava diante do Ernesto. O bom e velho Ernesto, o meu amigo virtual. O, unilateral, almoço decorreu sem grandes ocorrências a destacar. O Ernesto fitava o prato da sopa que não conseguia comer, eu terminei o peixe, as ameijoas e as Stout, e lá fomos cada um à sua vida.
Ficámos muito tempo sem nos comunicar. Eu pensava que o Ernesto não mais iria querer conferenciar com criaturas que usam camisas horríveis. O Ernesto não sei o que pensou. Sei que ficou com o computador doente e, consequentemente, impedido de aceder ao espaço de encontro virtual.
Voltámos a falar no mês passado. O Ernesto comunicou-me que iria morar uns meses para a Hungria. Acho que são seis meses. Temos falado com alguma frequência. O facto de ele estar na Hungria, curiosamente, não tem acrescentado grande conteúdo espacial às nossas conferências virtuais. Tudo está basicamente na mesma. O cenário é exactamente o mesmo: eu, um computador, um programa chamado Messenger, uma janela que se abre, um rectângulo cor de laranja que pisca e palavras que se vão lendo e escrevendo. Palavras que ilustram as disposições de duas pessoas; os seus quotidianos, hábitos, humores, amores (ou as ausências dos mesmos), desejos, fantasias, raivas, frustrações, interiores. Palavras, apenas palavras, minhas e do Ernesto.
Agora vou perguntar ao Ernesto, que está on-line à espera que eu acabe de escrever isto para me dizer que achou uma grande merda, qual é a maior árvore da Europa. Isso ele deve saber. Sim, porque não vale a pena perguntar por goulash ou pelo sabor do povo húngaro. Ele ainda não provou nenhum, nem goulash nem húngaros. É muito estranho este Ernesto!

Thursday, November 25, 2004

"El Luchador", foto de Terry Vine (Portfólio: "La Vida Tradicional", San Miguel de Allende, México)


a propósito de urgência e fúria

a urgência e a fúria de Onan



(22/10/04)

Os dias passam, as horas acumulam-se, os minutos sedimentam-se e os segundos,
de ainda tão imberbes, congratulam-se. E eu tremo para poder crescer.

De há uns meses, largos meses, a esta parte, tenho vindo a aperceber-me, de uma forma pouco fácil mas precisa, de que sou um furioso. Tem vindo a crescer em de mim, pouco a pouco, de alto a baixo, de dentro para fora e vice-versa, uma fúria extrema e extremosa a que tenho passado a habituar-me. Já não me angustia, já não me confunde, já não me atormenta, já não me descontextualiza. Instalou-se sobre e sob a minha pele, alterou o meu batimento cardíaco, passou a ser a batuta do meu discurso (as minhas palavras já não são ditas, são matraqueadas), passou a fazer parte da constituição molecular dos meus fluídos (sangue, saliva, suor e esperma; das lágrimas não porque eu não choro). Somos um só, eu e a minha fúria, da mesma forma plena e orgânica que a palavra SOMOS é um palíndromo. Aprendemos a viver em comunhão, uma comunhão de facto. E andamos pela vida impertinentes, impetuosos e imediatos. Temos objectivos precisos e preciosos e havemos inscrever o nosso nome, a ferro e fogo, na História Universal da Veemência. Não temos planos objectivos, temos objectivos precisos e preciosos, note-se. Não somos meticulosos, muito menos calculistas ou premeditados. Somos vagos e simbólicos. Deixamos charadas no ar para posterior auto e heteroavaliação. Não conseguimos estar calados porque, mesmo quando estamos em silêncio, somos sempre escravos de uma desaustinada retórica. Somos hipercinéticos, hiperdotados, hipersensíveis, hiperlascivos, hiperendócrinos, hipersolúveis, hipercínicos, hiperviciosos, hipermortais e sempre hiperincorentes. Estamos sempre à procura de qualquer coisa que não sabemos o que é exactamente. Muitas vezes olhamo-nos bem no fundo dos olhos e sorrimos exaustos, porque sabemos perfeitamente que a nossa procura não é mais do que a mera procura de uma mera procura. É um vício pouco secreto que nós temos. Creio que já disse que somos hiperviciosos, não disse? Não me recordo bem. É que nós também somos hiperesquecidos.

(25/10/04)
A minha fúria chegou durante a noite, enquanto eu combatia a morte, depois da morte de um forte amor. A minha fúria trouxe consigo a cara da insónia e instalou-se dentro do meu estômago. A minha fúria veio de uma só vez, sem cerimónias, estrondosa, veio furiosa. A minha fúria veio para me salvar. Era urgente a minha salvação. Porque eu havia deixado de saber o meu próprio nome. A minha fúria veio a tempo e horas.

(26/10/04)

Hoje não é Onan quem escreve, é a FÚRIA de Onan. Esta missiva não é uma missiva, são pontapés na cabeça dele.
Sai daí, sai daí já! Vai para ali, vai para além, vai para algures, vai para nenhures mas vai! Sai!
És o pagador justo das tuas próprias dívidas. Tens de sofrer por elas, isto de andar por aqui tem destas coisas. Pensavas que era simples, não pensavas? De facto é muito simples. É muito mais simples do que tu possas imaginar. Tens é de te mover, de te pro-mover. Tens de correr, encarar, gritar, rasgar e esgalhar. Tens quatros euros no bolso e ainda falta um pouco menos de uma semana para o fim do mês. O fim do mês. O fimzinho do mês todos os meses. Os eurozinhos ao fim do mês. Sofres tanto com esta merda, jamais desejaste isto para ti. Ao fim e ao cabo és um artista. É suposto os verdadeiros artistas serem uns tesos, uns borra-botas, uns indigentes, decadentes, impertinentes. És isso tudo. Que bom, já és um verdadeiro artista! Só tens um problema: vives aqui e agora. E aqui e agora os verdadeiros artistas não são tesos, não contam os euros, não passam fome, não andam de semblante carregado a olhar para o chão. Aqui e agora os verdadeiros artistas se são tesos é porque são duros e tesudos, não contam euros porque ganham a vida a contar anedotas, não passam fome porque vão matá-la nas festas de aniversário de um qualquer centro comercial no subúrbio, não têm o semblante carregado porque nem sequer sabem o que isso significa e não olham para o chão porque estão sempre a olhar para o olho voraz de uma câmara. O artista do aqui e agora é o oposto absoluto de tudo aquilo que tu és. Por isso tu não tens qualquer tipo de arte. Porque se fosses artista estavas nos escaparates, na boca das gentes, em todo o tipo de publicações, em todas as casas à hora do pequeno almoço, à hora do almoço, à hora do lanche, do jantar, à ceia, à hora de deitar, à hora de foder, à hora de nascer e à hora de morrer. Ninguém come a olhar para ti, ninguém se deita a olhar para ti, ninguém fode a olhar para ti, ninguém nasce a olhar para ti e ninguém morrer a olhar para ti. Tu não tens público. Tu não és emergente. Tens urgência, sentes que tens uma urgência, mas não és urgente. Tu não és urgente, não és do aqui e do agora. Ainda não dominas esse conceito.

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Explicações de intervenção no aqui e no agora precisam-se. Com urgência!!! Tenho sítio. Abstenham-se os interesseiros e/ou pervertidos.
Resposta neste blog, s.f.f..

Tuesday, November 23, 2004

o único haiku que Onan escreveu


while you sleep i listen- too
the end of the morning rain

adoro esta senhora

uma canção que anda muitas vezes na cabeça de Onan

"Strange Angels" Laurie Anderson

They say that heaven is like TV
A perfect little world that doesn't really need you
And everything there is made of light
And the days keep going by
Here they come
Here they come
Here they come.
Well it was one of those days larger than life
When your friends came to dinner and they stayed the night
And then they cleaned out the refrigerator -They ate everything in sight
And then they stayed up in the living room
And they cried all night
Strange angels - singing just for me
Old stories - they're haunting me
This is nothing like I thought it would be.
Well I was out in my four door with the top down.
And I looked up and there they were: Millions of tiny teardrops just sort of hanging there
And I didn't know whether to laugh or cry
And I said to myself: What next big sky?
Strange angels - singing just for me
Their spare change falls on top of me
Rain falling
Falling all over me
All over me
Strange angels - singing just for me
Old Stories - they're haunting me
Big changes are coming
Here they come
Here they come.

um poema-resultado de um exercício num workshop de escrita criativa com Regina Guimarães

maio de 2001

Uma cidade que era, uma cidade que fosse, uma cidade que seria, uma cidade que será


Uma cidade que era uma menina a crescer; uma menina bonita de boca rasgada.
Uma cidade que era uma menina a tremer; de frio e fome, uma menina assustada.
Uma cidade que era uma menina a dormir; em cama fofa, depois da história contada.
Uma cidade que era uma menina a acordar; lavada em lágrimas, com a garganta cortada.

Uma cidade que fosse uma menina a comer; num grande prato, papinhas de gente apressada.
Uma cidade que fosse uma menina a beber; num biberon, a lei da bala e da facada.

Uma cidade que seria uma menina a escrever; ao pai natal, uma torre para a consoada.
Uma cidade que seria uma menina a foder; com o empreiteiro da língua afiada.

Uma cidade que será uma menina a convalescer; das dores de parto e da cabeça aguada.
Uma cidade que será uma menina a morrer; a morte lenta depois de esventrada.
Uma cidade que era uma menina a renascer; uma cidade-menina-queimada.

Monday, November 22, 2004


o que já viajei aqui!!!

2 coisas que inspiram Onan

"...If you and I were one within the eyes of our designs,
it would still not change the fact of our leaving.
For tonight we must leave with the first gentle breeze.
For the Isles of Ken we are assailing!
Just like Ullyses,
on an open sea.
On an odyssey of self-discovery..."

Este trecho pertence à letra de uma das canções dos Dead Can Dance. A canção chama-se "Ullyses" e está no álbum "The Serpent's Egg". Este trecho fascinou-me desde que o ouvi pela primeira vez. A canção é muito bela, o poema é sublime. As canções dos Dead Can dance são viagens. Este trecho encerra o meu ideal de viagem. É por isso que sempre me fascinou. Descobri isto quando tinha 17 anos. Esse ideal mantém-se intacto em mim até hoje. Cada vez está mais intacto. Cada vez está mais em mim.

Há outra coisa que me fascina e que complementa este meu ideal. Essa "coisa" é um quadro do Marc Chagall. Chama-se "Au dessus de la ville" e surte em mim o mesmo tipo de fascínio que o trecho dos Dead Can Dance. É a imagem do mesmo. Ambos concretizam o meu ideal. Ambos me fascinam. Ambos me fazem gostar de gostar de ter ideais.

Saturday, November 20, 2004

O pânico de Onan

Há cerca de quatro anos que tenho um livro de poesia ("Finis Praxis") pronto para ser publicado.
Esee livro tem mais de cinquenta poemas, que fui escrevendo entre os 17 e os 24 anos. Esse livro marca a minha passagem da juventude a uma suposta idade adulta. Sobretudo marca a minha vinda para Lisboa, aos 19 anos, e a mudança que esse facto operou na minha existência. Esse livro marca as paixões que fui tendo. Esse livro marca a minha entrada definitiva em mim. Esse livro é das coisas mais importantes que tenho na vida.
Finalmente estou a reunir as forças, determinação, vontade para publicar esse livro.
Hoje constatei que perdi o documento onde está esse livro. É impossível abrir o ficheiro na disquete e tenho quase a certeza que não está guardado no disco rígido do meu pc. É muito provável que tenha perdido definitivamente o documento. Logo agora que eu ia fazer tudo por tudo para publicar o meu livro! Estou em pânico. Por enquanto estou somente em pânico. Depois do pânico não sei o que se seguirá. Entretanto vou jogar no euromilhões.
Foda-se, foda-se e refoda-se!!!!!!!!!!!!!!

Thursday, November 18, 2004

Onan hoje está quase sorridente

13:50

Quando eu era pequeno acreditava que, quando eram atingidos, os cowboys morriam mesmo nos filmes. Acreditava que a morte nos filmes era real. E não percebia porque é que as pessoas participavam nos filmes se iriam morrer nos mesmos. Aquilo fazia-me muita confusão mas eu achava aquilo muito bonito. Achava que a entrega era tão imensa que a morte era um dano colateral comparado com a mesma. Por isso o cinema para mim era sempre sinónimo de uma grande e derradeira entrega. O cinema era para mim a coisa mais bonita do mundo. Agora que cresci o cinema já não tem um quarto do fascínio de outrora. Agora sei que ninguém faz filmes para morrer e esse conhecimento retira muito do encantamento que o cinema me transmitia outrora.

Tenho muita pena de ser muito falho de talento para as artes plásticas. Gostava muito de saber desenhar. É uma actividade que eu sinto que precisava de exercer. Sinto-me incompleto por isso. Gostava de me conseguir desenhar.

Quando eu for grande quero ter uma casa com quartos que não têm portas. Quartos cheios de silêncio. Quartos onde não assenta o conceito da entrada. Onde não há entrada também não há saída. Quero ter uma casa cheia de quartos que nem eu mesmo alguma vez vou conhecer. Uma casa cheia de quartos de nada. Os quartos impenetráveis serão o meu segredo mais precioso. Os quartos impenetráveis serão o retrato do meu coração. Quem me dera saber desenhar para começar a arquitectar os meus quartos de nada. Quem me dera saber desenhar para não ter esta permanente necessidade de conceber retratos do meu coração. Quem me dera ter um coração desenhável.


perdia todos os dias a chave da própria cara
e andava assim, às avessas toda a tarde,
com o nariz repleto de odores do passado.

achava todas as noites o caminho certo para casa
e chorava, sem sentir que o fazia,
por ninguém ousar agitar-lhe a vida.

morreu sentada à porta da praia
enquanto esperava que o mar a aceitasse.

(que me dera conseguir desenhar o sorriso dela acabadinho de morrer)

sou apaixonado por este quadro desde 1997. sou mesmo muito apaixonado por este quadro.

Wednesday, November 17, 2004

um excerto do verdadeiro diário de Onan

1 de agosto de 2003
o7:??h

Às vezes gosto de pensar que nada na vida é por acaso. Às vezes gosto de pensar que existe uma entidade, que opera a um nível diferente do meu, que me regula e se encarrega da actualização contínua da minha experiência de vida. Às vezes acho a minha existência e todas a suas particularidades tão intrincadas e rebuscadas que me parecem uma ficção. Mas diz-se, passo o chavão, que a realidade ultrapassa muito a ficção em termos de originalidade. Eu sou, de facto, bastante original. Para minha grande tortura. Devo ser mesmo verdade! Se eu fosse muito menos perfeccionista e fútil seria certamente mais feliz.
Gostava de poder fazer uma grande viagem. Seria maravilhoso poder andar pelo mundo, sem compromisso, a perder-me e a encontrar-me. Gostava de ficar registado na história de lugares como o que chegou e que partiu. O que veio e não ficou. O que passou. O que não fez história. O que recusa o passado, o presente e o futuro. O que está. Simplesmente: está. Bastante incoerente para quem se dá ao trabalho de escrever um diário, não???!!!!!! Mas o meu diário é um espaço criado para eu estar, em absoluto. É o espaço que eu crio para estar, sem partidas nem chegadas. O meu diário é o espaço onde eu permaneço. É o meu espaço ideal, já que a minha obra ideal é impossível. A minha obra ideal consistiria em registar tudo o que penso, para uso meramente pessoal. Pelo prazer do registo e da revisão. Para Onan ser mais Onan.

valquírias ou a minha sede de hidrofel

13:12

quero valquírias já
porque eu não sei o que são valquírias, sei que são flores
e isso basta-me para as querer.
quero valquírias já, nos pés e archotes na boca.
quero valquírias já, nas mãos, e pedaços de chuva frutada nos olhos
para eu poder banhar o próximo que vier.
quero bocejos de valquírias já, enquanto eu adormeço e permaneço,
eu que sou o mote para tudo e para nada e que não aprendo a viver com isso.
quero o sossego e a serenidade de uma presença secular e pouco arbitrária.
quero a imposição do momento em que duas mãos se roçam,
provocando o festim das romãs que explodem noutro continente.
enquanto eu vejo o meu dia acabar, confundo-o com toda a minha vida, e
quero voltar a nascer para poder perder de novo a oportunidade de ser perfeito.
quero valquírias já
porque eu não sei o que são valquírias, sei que são flores,
que rimam com tumores e amores.
e isso basta-me para as querer ver morrer.



valquíria
do Escand. ou ant. Al. walkyria < wal, matança + küren, eleger
s. f.,
cada uma das três deusas de categoria inferior, na mitologia escandinava, mensageiras de Ódin e que, pela sua formosura, incitavam os heróis na guerra, serviam hidromel aos que morriam em combate e recolhiam-nos.



frozen cherrys for you Posted by Hello

Tuesday, November 16, 2004

em carne viva

14:05
Hoje não consigo escrever, marco apenas a presença.
Tenho um ardor cá dentro.
Hoje sou o oposto da escrita.

autofagia-ia-ia; era disso que a minha vida dependia

Monday, November 15, 2004

hoje Onan tem a cabeça líquida

13:13
Escrevo sempre à hora do almoço. À hora do almoço já deixei de transpirar, escrevo melhor. É estranho, está frio, toda a gente sabe e sente que está frio, mas eu nem por isso deixo de transpirar. Transpiro das mãos e das axilas. Odeio transpirar, abomino a transpiração. Transpirar quando está frio é ainda mais repugnante. Só devia ser permitido a um corpo respirar quando se encontra em actividades propícias, actividades certas, para o efeito. O sexo é uma actividade propícia e certa para o efeito. O sexo é uma actividade (causa) certa para o efeito.
Quando escrevo transpiro dentro da cabeça.

Hoje, na Praça da Alegria, vi uma mulher chorar enquanto caminhava. Na verdade eu não vi a mulher a chorar. A verdade tem de ser reposta: eu ouvi a mulher chorar. Ela caminhava à minha frente. Eu ouvi um soluço. Ou melhor, pareceu-me ouvir soluço e não lhe dei muita importância. Já não dou muita importância às coisas que a minha cabeça parece ouvir. Porque muitas vezes a minha cabeça parece ouvir coisas que não existem. E por isso já não dou muito crédito a essas impressões da minha cabeça.

A minha cabeça pensou: "Que bonito, esta mulher agora até podia ir mesmo a chorar. Que bonito, uma mulher que chora enquanto desce a Praça da Alegria. Que bonita esta ironia! Mas como não é verdade, como esta mulher não vai mesmo a chorar, esta é uma hipotética bonita ironia. Como é hipotética, a ironia, ainda se torna mais bonita!"

Mas a verdade é que a mulher ia mesmo a chorar. Porque, depois de um primeiro soluço que eu interpretei como imaginário, um segundo soluço se seguiu, e um terceiro, e um quarto. E eu nunca lhe vi o rosto. Ela caminhava à minha frente, uma mulher de cinquenta e tal anos, de jeans normais e blusa branca. Uma mulher de fisionomia rude, masculina mesmo. O seu corpo, visto de trás, em nada denunciava o choro. O seu corpo atarracado e rude, visto de trás, era o contrário do choro.

Eu ultrapassei a mulher; não lhe quis ver o rosto. Preferi fingir que ela não tinha rosto. Porque era no rosto dela que o choro acontecia. E eu não queria que isso lhe acontecesse. Porque o corpo dela, visto de trás, era o contrário do choro. Porque a única coisa que lhe conferia o choro eram os soluços solitário que apenas eu ouvi. E como eram solitários não podiam ser vistos, testemunhados, somente ouvidos. Porque o que se ouve nem sempre existe. Porque o vento tem a capacidade de ser pacificador. E foi esse mesmo vento que me privou dos soluços dela. Porque eu a ultrapassei, sem lhe querer ver o rosto. Porque o vento que me levou dos ouvidos os soluços da mulher foi o mesmo vento que lhe foi secar as lágrimas. Porque foi esse mesmo vento que me fez esquecer que ia uma mulher a chorar enquanto descia a Praça da Alegria. Porque o vento na Praça da Alegria é um vento de ironia.

Senti necessidade de escrever sobre isto porque tenho a impressão de ter a cabeça cheia de lágrimas. Tenho a impressão de sentir a cabeça cheia de lágrimas que nem sei se são minhas. É uma impressão, apenas mais uma impressão, como qualquer outra. Escrevo sobre ela e não lhe dou importância. Muitas vezes a minha cabeça tem a impressão de sentir coisas que não sabe se realmente existem. É por isso que a minha cabeça gosta muito do vento e das lágrimas dos outros. Porque essas, tal como eu, existem e não apenas na Praça da Alegria.
14:03

Friday, November 12, 2004

o poema preferido de Onan

A BOCA

"em espessura do tempo feito infindo
em amor me feria dilatava
a boca era um leito um orgão de lava"

Luiza Neto Jorge

Comentário Onanista: amo este poema como amo a ideia do próprio amor