ah, meu amor, meu amor, meu tão grande amor - gritou e quase uivou, tal era a dor,
as saudades que eu tenho de ter caspa!
as saudades que eu tenho - continuou- das tuas idas à farmácia e do cheiro a petróleo de cada nova panaceia.
e continuou e continua:
agora somos o cheiro a mijo e a simpatia da santa casa.
meu amor, meu amor, tanta discussão, tanto refutar e
agora
a incapacidade de conseguir
aceitar
que o amor
não pode ser só
a rouquidão
o extinguir da reclamação
e, neste quinto andar,
eu e tu, meu amor,
a morrer dentro de umas fraldas.
meu amor, porque não fomos a marraquexe?
Tuesday, February 05, 2019
Thursday, May 17, 2018
sem título
calou-se com fito, com certeza, com pungência, com verdade, vontade e idade; calou-se para se fazer ouvir.
antes de se calar disse:
hoje não tomei banho, é preciso que o saibas, é preciso que disso a tua epiderme tenha a certeza para que no momento de a tua língua percorrer a distância subjectiva entre o dedão do meu pé e a afrontosa verdade dos meus mamilos saiba exactamente a rota sinestésica que a aguarda.
anoiteceu entretanto, muito devagarinho; diz-se que anoiteceu, esse dia, com algum cuidado e pudor.
calou-se com fito, com certeza, com pungência, com verdade, idade e rigor.
calou-se bem. calou-se no meio de uma tremenda onda de uma, até então, desconhecida forma de calor.
nasceu, assim, nesse calar propositado daquela boca, uma nova forma de dizer: meu amor!
antes de se calar disse:
hoje não tomei banho, é preciso que o saibas, é preciso que disso a tua epiderme tenha a certeza para que no momento de a tua língua percorrer a distância subjectiva entre o dedão do meu pé e a afrontosa verdade dos meus mamilos saiba exactamente a rota sinestésica que a aguarda.
anoiteceu entretanto, muito devagarinho; diz-se que anoiteceu, esse dia, com algum cuidado e pudor.
calou-se com fito, com certeza, com pungência, com verdade, idade e rigor.
calou-se bem. calou-se no meio de uma tremenda onda de uma, até então, desconhecida forma de calor.
nasceu, assim, nesse calar propositado daquela boca, uma nova forma de dizer: meu amor!
Wednesday, May 25, 2016
...
receio estar quase a morrer. se se confirmar, instituam-me como um visionário/sapiente. se não se confirmar, então, institucionalizem-me, devo estar a precisar!
Thursday, July 02, 2015
o cínico já não mora aqui
a tarefa do cínico, convenhamos, em muito pouco está facilitada. imaginemos que o cínico se quer debruçar SOBRE a política coisa: na direita vai encontrar parco território porque a direita fala, e cala, por si mesma e no que à esquerda concerne, não tem outro remédio, note-se, que não seja o de se calar; isto porque a esquerda é um mero directo ripostar ao que a direita desenha, quer isto dizer que a esquerda é um birrento espelho, e não menos maior, de um mal, cada vez mais, menor. no que à religião confere, bem, temos de asseverar, o cínico, o nosso cínico, boceja; boceja porque religião é estar lado a lado/passo a passo/boca a boca/ombro a ombro com o divino mas, neste momento, o divino tem muito que fazer: articular discurso (mais ou menos presente e (invisível) com a tal direita e esquerda), arrrrrebentar pessoas bomba por aí e ser o sempre eterno estandarte que se carrega para que a vida faça sentido e para que a vida seja muito plural e outras coisas acabadas em al (mas não me venham com pessoas doentes e muitos diferentes de mim). o cínico, perante isto, olha para o domínio do "social" e, sem se querer adiantar por tal domínio, porque esse domínio depende dos acima referidos, feliz ou infelizmente, limita-se a isto: morrer, ridiculamente, de pila na mão, no átrio do prédio, porque, vá-se lá saber porquê, se estava a masturbar, no referido sítio, quando o, tão aguardado e, novo terramoto sobre (ou sob) lisboa se deu. o cínico morre sem se vir. esta não é exactamente a narrativa da tarefa do cínico; mas podia ser. o cínico é, apenas, uma, muito ínfima, pincelada do dali naquele quadro sobre a masturbação e o devir. o cínico é, tal como a sua tarefa, uma ideia... uma recordação de algo que nunca chegou bem a ser; um grande, simples, e, sempre eterno: pffffff! o cínico é um lugar que nunca tem onde se acontecer (mais). o cínico está morto e enterrado e o correio da manhã nem deu por isso! sim, é verdade, refiro-me à hipótese de um cínico português... quanto aos outros, aos de outros países, já não sei, os hugos mestres amaros, e outros parvalhões afins, lá deles, que se atrevam a aos seus, medíocres, desenhos fazer/escrever/partilhar/arrotar. o seu a seu dono e essas merdas todas. eu até odeio o cinismo. no algarve há uma coisa maravilhosa, no meu algarve, pelo menos, que é: cínico é sinónimo de sovina. no algarve é que se está bem, cada vez menos dúvidas sobre isso tenho.
errei: em portugal não arrebentam religiosas pessoas: por fora.
Sunday, June 21, 2015
ão.
há um incêndio em Carviçais e Sincera era a Pena, e atenção, não era a pena filha de Pénia porque Pénia é a penúria numa denúncia de Platão; Sincera era a Pena, pois então, a filha de Penosa Aparição dos Santos Perdição. retomemos a questão/composição; Sincera era a Pena porque, mesmo não sendo a descendente da Pénia de Platão, era qualquer coisa de intermédio, a resvalar para o nojento/não desejado/ido/traído e cuspido, nesta franca desilusão que é o vocábulo: CIVILIZAÇÃO. ão, ão, ão, há um incêndio em Carviçais e os da realidade ais mordem, qual ingrato cão.
Saturday, May 30, 2015
parafina
amar rima com sina,
juntam-se os trapos logo à esquina.
menino dá-se todo à menina,
vida que ela nem imagina.
a casa é tosca, é pequenina:
pão, tecto, tusa e Tofina.
um abraço pela matina:
traz certeza e mais bolina.
mas o cavalo perde a crina e
a muralha nega a china;
eis que a galheta vem surda e fina,
alguns perdões, medo e surdina.
a culpa morre sempre albina; hoje
ela já nem opina.
lar casa com estricnina,
o cliché fica na vitrina.
a banheira vira puta tina,
a mesa põe-se tão cretina;
falta o guito, ó catarina:
liga à tua tia aldina.
ontem canora, agora rapina,
ave quer-se é assassina;
asas e paixão interina,
realidade má, cabotina.
ela boicota esta rotina,
volta a si mas clandestina;
ele arma a carabina
o resto é slogan, pivot, chacina.
apenas começa aquilo que nunca termina.
apenas começa aquilo que nunca termina.
alguma coisa muito asinina
não pára esta parafina!
juntam-se os trapos logo à esquina.
menino dá-se todo à menina,
vida que ela nem imagina.
a casa é tosca, é pequenina:
pão, tecto, tusa e Tofina.
um abraço pela matina:
traz certeza e mais bolina.
mas o cavalo perde a crina e
a muralha nega a china;
eis que a galheta vem surda e fina,
alguns perdões, medo e surdina.
a culpa morre sempre albina; hoje
ela já nem opina.
lar casa com estricnina,
o cliché fica na vitrina.
a banheira vira puta tina,
a mesa põe-se tão cretina;
falta o guito, ó catarina:
liga à tua tia aldina.
ontem canora, agora rapina,
ave quer-se é assassina;
asas e paixão interina,
realidade má, cabotina.
ela boicota esta rotina,
volta a si mas clandestina;
ele arma a carabina
o resto é slogan, pivot, chacina.
apenas começa aquilo que nunca termina.
apenas começa aquilo que nunca termina.
alguma coisa muito asinina
não pára esta parafina!
Friday, April 24, 2015
palavra/corpo
musicando
musicou-se
nessa tarde tão pouco finda
e findando
findou-se
com pouca música
muito linda.
da ribanceira
atirou-se
quase nua
contorcida
e na água
se espelhou
a sua sombra
já sem vida.
os que ficaram
lamentaram
de tal beleza
o fim
entre os dentes
fixaram
que a vida
reflexo é
do seu fundamental
ínterim.
eu quando escrevo, enquanto busco as palavras, tenho uma coisa meio rídicula mas muito concreta: esfrego freneticamente as pontas dos dedos como se à espera estivesse que desse fricção uma palavra surgisse. concretizo, de maneira pura, tosca e aflita o surgimento da palavra seguinte, da palavra última, da palavra nascente, da palavra ainda por pensar e escrever. no fundo, no fundo, tudo nasce e morre no, e do, corpo. é como se o corpo escrevesse mais do que a cabeça!
musicou-se
nessa tarde tão pouco finda
e findando
findou-se
com pouca música
muito linda.
da ribanceira
atirou-se
quase nua
contorcida
e na água
se espelhou
a sua sombra
já sem vida.
os que ficaram
lamentaram
de tal beleza
o fim
entre os dentes
fixaram
que a vida
reflexo é
do seu fundamental
ínterim.
eu quando escrevo, enquanto busco as palavras, tenho uma coisa meio rídicula mas muito concreta: esfrego freneticamente as pontas dos dedos como se à espera estivesse que desse fricção uma palavra surgisse. concretizo, de maneira pura, tosca e aflita o surgimento da palavra seguinte, da palavra última, da palavra nascente, da palavra ainda por pensar e escrever. no fundo, no fundo, tudo nasce e morre no, e do, corpo. é como se o corpo escrevesse mais do que a cabeça!
Sunday, April 12, 2015
a sondagem
não sendo exactamente esquiva, pastosa ou, até, selectiva, e electiva, é,
porém, efectiva, e corrosiva:
a dor.
companheira forçada e altiva
não lhe conheço início, meio e fim
porque comigo se atreve
à deriva
e comigo vive, permissiva,
ao alimento que lhe dou
e,
nada intempestiva,
ausculta-me,
de baixo a cima,
nada putativa,
do meu real cativa,
como eu lhe...
escrita e dor: latejam birrentas, interrompem-se, a si mesmas, no auge.
sonsas, deixam-se ficar, na sua ausência, em mim sossegadas para depois,
qual pequeno-almoço pelo amante à cama trazido,
pela surpresa, de mim adicto fazerem e, assim,
com traminhas e da minha história fascículos,
o seu reino firmarem.
escrita e dor, dor e escrita, escrita e escrita, dor e dor,
dor da escrita
e
escrita da dor:
raiz comum:
fodem a paciência do ímpeto visionário
porque apenas me tornam habituado do seu passado e, do seu, tão presente, presente.
o futuro está sempre por escrever; todos os dias por doer.
e escrevo apenas sobre a escrita física sobre a física dor
porque
a escrita da dor da alma é, tão gigantescamente,
apenas:
o poço de um petróleo que, estrategicamente, não se deixa sondar.
porém, efectiva, e corrosiva:
a dor.
companheira forçada e altiva
não lhe conheço início, meio e fim
porque comigo se atreve
à deriva
e comigo vive, permissiva,
ao alimento que lhe dou
e,
nada intempestiva,
ausculta-me,
de baixo a cima,
nada putativa,
do meu real cativa,
como eu lhe...
escrita e dor: latejam birrentas, interrompem-se, a si mesmas, no auge.
sonsas, deixam-se ficar, na sua ausência, em mim sossegadas para depois,
qual pequeno-almoço pelo amante à cama trazido,
pela surpresa, de mim adicto fazerem e, assim,
com traminhas e da minha história fascículos,
o seu reino firmarem.
escrita e dor, dor e escrita, escrita e escrita, dor e dor,
dor da escrita
e
escrita da dor:
raiz comum:
fodem a paciência do ímpeto visionário
porque apenas me tornam habituado do seu passado e, do seu, tão presente, presente.
o futuro está sempre por escrever; todos os dias por doer.
e escrevo apenas sobre a escrita física sobre a física dor
porque
a escrita da dor da alma é, tão gigantescamente,
apenas:
o poço de um petróleo que, estrategicamente, não se deixa sondar.
Sunday, February 08, 2015
(des)ver
depois de ter lido uma coisa de Manuel Cintra: poesia, ou ser-se poeta, é o exercício do puro, pardo, pleno, parvo, pérfido, poroso, e até, piroso, direito de (des)ver!
Saturday, January 31, 2015
matéria abortada... porquê?
aos dezoito anos a princesa aceitou ser rainha, sendo que podia ter rejeitado a sucessão e, como tal, esse assunto não é para aqui chamado, mas fê-lo com a firme condição de que apenas a isso acederia se nunca, durante todo o seu reinado, tivesse de sujar as mãos. havia sujado as mãos em pequena, naquela tarde em que caçara um grilo nos jardins do palácio, mas a experiência, e o contacto entre a terra molhada e as cutículas, não havia sido confortável nem interessante, e, por isso mesmo, se decidira, logo nessa longínqua tarde, a nunca mais em toda a sua vida voltar a sujar esses órgãos.
a cerimónia da coroação, como é suposto e óbvio, foi envolta em pompa, fausto e protocolo. no chão das ruas de todo o reino foram espalhadas flores, apanhadas por muitas mãos, bandeiras coloridas foram hasteadas, por outras tantas mãos, em todo e qualquer canto, iguarias de grande qualidade e quantidade foram, com as devidas antecedência e mãos, preparadas e a música fez-se ouvir durante dias a fio; foi uma cerimónia algo longa, é preciso que se note. delegações e comitivas vieram de todos os vizinhos reinados e pode dizer-se que o acolhimento, feito a mais de mil e uma mãos, não menos do que perfeito foi.
a única coisa que nela mudou foi o nome; deixou de ser a princesa das mãos limpas e passou a ser a rainha das mãos limpas. convém, nesta altura do relato, fazer notar que as mãos da, agora, rainha das mãos limpas eram umas mãos que em nada se verificavam especiais e que o facto de se manterem impolutas nada de particularmente belo conferia às mesmas.
a rainha das mãos limpas tinha umas mãos absolutamente regulares, umas mãos iguais às de qualquer rapariga de dezoito anos, umas mãos normalíssimas. a própria rainha, em si, nada tinha de destacável no que à beleza pudesse dizer respeito, era uma rapariga cuja figura nada acrescentava ao adjectivo: corriqueiro.
passaram alguns anos, dois, para que a narração mais precisa seja, e a rainha das mãos limpas já plenamente exercia funções sem que, no que à competência concernia, nada de incorrecto, transviante e desacertado se lhe houvesse a assinalar. tornara-se naquilo que se pode, correntemente, designar: uma rainha e pêras. e é justamente aí que bate, ou melhor: batia, o ponto. a fruta. era no pomar, à sombra das mais variadas, fecundas e frutíferas, no mais literal sentido, árvores que a soberana tomava significativas e graves decisões. havia, contudo, uma certa macieira que parecia obter dela, a rainha, a maior predilecção e que, no que à arte de reinar dizia respeito, quase que como um poderoso, e simultaneamente simples, totem funcionava, como se repleto estivera de talismânicas qualidades. a macieira, não particularmente robusta ou bela, justamente como a rainha e as suas limpas mãos, parecia ter em si concentrada toda uma tácita teia de virtudes. fora protegida pela sua sombra que a rainha decidira e decretara ser obrigatória a música nos berços, a proibição de leques e abanicos, pois o calor é filho do céu e do chão e não compete ao homem o mesmo combater ou negar, impusera a metáfora e a metonímia como direitos incontestáveis dos plebeus e fizera constar nos reais autos que leitor é um trabalhador cuja faina é igual à de um outro trabalhador qualquer. tudo isto, ao longo desses dois, de soberania, anos se passou sem que a nossa protagonista uma única maçã, ou qualquer outra peça de fruta, por vez alguma à boca levasse. a rainha alimentara-se, durante todo esse tempo, e ao contrário de todos os anos em que apenas princesa fora, de húmus, água férrea e fezes de pequenos pássaros.
certa tarde de certo dia, ao septingentésimo nono da sua governação, deu-se na monarca uma súbita e ousada mudança. passavam largos minutos das treze horas, mal ainda acordada estava, a rainha deitava-se sempre tarde e, assim sendo, nunca cedo do sono sobressaía, quando, ainda meio entorpecida, mas já sob a sua predilecta macieira, rodeada de conselheiros e superintendentes, ergueu para a copa da árvore o olhar e uma, praticamente, pútrida maçã a deteve. cessou, nesse mesmo instante, a dissertação que sobre a obrigatoriedade de viajar ao cidadão comum era devida e obrigatória e, muito clara e repentinamente, disse:
- minha és hoje, ao meu estômago pertences, tímida e resignada maçã!
- minha és hoje, ao meu estômago pertences, tímida e resignada maçã!
Sunday, December 07, 2014
o fumo e a lembrança
estava agora a fumar à janela, cá em casa não se fuma nos aposentos, e lembrei-me de uma velha. durante a minha infância e adolescência, eu passava horas e horas na açoteia do meu prédio, que era bastante alto, considerando o tipo de habitação circundante, mesmo no centro de olhão, ali ficava horas, sozinho, a ver a cidade, as pessoas a passar na rua, o cubismo tão arabesco e típico da cidade, olhão passou de vila a cidade no dia em que fiz nove anos, a ria formosa mesmo à frente, os barcos na ria e até conseguia ver, lá ao longe, as ilhas (armona, culatra e farol). muitas vezes tinha contracena, ou companhia, neste açoteísmo. essa companhia, e mais tarde contracena, quando comecei a fumar e o fazia durante essa contemplação, era: a velha que fumava às escondidas. havia uma velha que todos os dias, impreterivelmente, às três e às seis da tarde, numas ruas à frente, subia à sua açoteia e ia fumar, visível e claramente à socapa da família que com ela vivia, o seu cigarrinho. fazia-o sorrateira, furtiva e rapidamente. aposto que fumava sg filtro. a velha era viúva, há muitos anos, por isso estava sempre vestida de preto, nessa altura o luto era para a vida, e era avó de uns miúdos com que eu brincava às vezes e sogra de uma amiga da minha mãe. hoje lembrei-me da velha que fumava às escondidas. aposto que já morreu e cheira-me que não foi de cancro do pulmão! hei-de perguntar, no natal, à minha mãe se sabe o que dela foi feito.
Thursday, November 27, 2014
Tuesday, September 23, 2014
peugeot partner
comecei a escrever um poema ontem no cinema ideal. acabei-o agora na cama ao acordar. obrigado Joaquim Pinto e Nuno Leonel pelo imperdível e, quase, inominável acesso ao sublime que 'E agora? Lembra-me' dá.
reza assim o poema, que se chama:
Peugeot Partner
Internos da doença
Internados na vida
Tão grávidos de cinema;
Juntos:
Pesadelo,
Pénis,
Pêlos e
Periferia
Do artifício
De Cristo
Da poesia.
Bom natal, Morte, abortámos-te hoje,
corremos assim mais um dia,
desfalcando-te o norte.
Ão ão - calado, Rufus, está tudo bem, não há disso precisão.
Aqui tudo há-de medrar;
mesmo quando já não houver o que colher haverá sempre o que plantar.
Thursday, March 27, 2014
Tuesday, February 11, 2014
tão cheios de sol
hoje sonhei-nos em paris
a cidade com que tu embirras e de que eu tanto gosto.
andámos por lojas foleiras, a rir dos donos e da roupa,
e num bistrot roubaste os pratos ao garçon para lhe trocar as voltas e estes irem para as mesas erradas.
rimos muito no sonho.
não rimos mais do que é normal; rimos de uma maneira diferente.
mas acordei, como habitualmente, com o teu perene calor
e a ponta do teu gelado nariz a roçar-me na orelha.
saíste de casa, para o frio e chuvoso dia, mas deixaste-me o dentro de casa e o dentro de mim:
tão cheios de sol.
a cidade com que tu embirras e de que eu tanto gosto.
andámos por lojas foleiras, a rir dos donos e da roupa,
e num bistrot roubaste os pratos ao garçon para lhe trocar as voltas e estes irem para as mesas erradas.
rimos muito no sonho.
não rimos mais do que é normal; rimos de uma maneira diferente.
mas acordei, como habitualmente, com o teu perene calor
e a ponta do teu gelado nariz a roçar-me na orelha.
saíste de casa, para o frio e chuvoso dia, mas deixaste-me o dentro de casa e o dentro de mim:
tão cheios de sol.
Sunday, December 08, 2013
talvez
talvez amar muito seja
ficar embevecido quando se descobre dois caroços de pêras abandonados
dentro da chávena que abandonada ficou em cima da mesa
talvez amar muito seja
achar isso a coisa mais ternurenta do mundo
talvez amar muito seja
este simples pensamento imediato
(que precede a elaboração desta composição):
olha, o meu amor comeu duas pêras!
ficar embevecido quando se descobre dois caroços de pêras abandonados
dentro da chávena que abandonada ficou em cima da mesa
talvez amar muito seja
achar isso a coisa mais ternurenta do mundo
talvez amar muito seja
este simples pensamento imediato
(que precede a elaboração desta composição):
olha, o meu amor comeu duas pêras!
Friday, July 05, 2013
verbo: dormir
gosto de dormir aos bocados, solavancos, numa sucessão de variadas porções. gosto dessa procissão de pequenos goles de desvida.
Wednesday, May 01, 2013
poema dos últimos mui últimos dias
e eis que se atinge, na poesia, um estado que define que
o poema deixa de ser uma consequente necessidade:
passa a ser o processo do olho.
do olho que vê o antídoto do estar.
o poema nada mais é do que:
a minha vontade de não concretizar o fim do poema.
ser livre é deixar a poesia voltar à sua nascente, voltar à sílaba primeira, iniciar a escrita.
poesia é, neste momento, a visível vontade de nada transparecer,
esta vontade férrea de não, me, ler.
esta, louca, vontade de nunca colar ao sentir o redigir.
a poesia é uma coisa que não encontra língua nem solução.
a poesia é o meu pai a morrer antes do momento em que me fez.
a poesia é a minha mãe ter morrido à boca da puberdade.
a poesia é o náufrago do meus avós.
a poesia é do homem ter nascido ventre e não fábula onde se escreva.
a poesia é uma certeza que anuncia que nada do seu fim o calor me trará;
é a morte nos dedos dos pés,
é a vontade de não se - o calor- mascarar.
a poesia é aquilo que me faz procurar na vida a inesperada composição.
a poesia é aquilo que une as letras da palavra: não!
o poema deixa de ser uma consequente necessidade:
passa a ser o processo do olho.
do olho que vê o antídoto do estar.
o poema nada mais é do que:
a minha vontade de não concretizar o fim do poema.
ser livre é deixar a poesia voltar à sua nascente, voltar à sílaba primeira, iniciar a escrita.
poesia é, neste momento, a visível vontade de nada transparecer,
esta vontade férrea de não, me, ler.
esta, louca, vontade de nunca colar ao sentir o redigir.
a poesia é uma coisa que não encontra língua nem solução.
a poesia é o meu pai a morrer antes do momento em que me fez.
a poesia é a minha mãe ter morrido à boca da puberdade.
a poesia é o náufrago do meus avós.
a poesia é do homem ter nascido ventre e não fábula onde se escreva.
a poesia é uma certeza que anuncia que nada do seu fim o calor me trará;
é a morte nos dedos dos pés,
é a vontade de não se - o calor- mascarar.
a poesia é aquilo que me faz procurar na vida a inesperada composição.
a poesia é aquilo que une as letras da palavra: não!
Thursday, April 25, 2013
haiku pós-moderno
passarinhos entretidos no ar ignoram
humano casal de pombinhos que
bêbado sobe a travessa das mónicas.
humano casal de pombinhos que
bêbado sobe a travessa das mónicas.
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